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O design inclusivo, a terceira idade e o mercado Envelhecer é algo que acontece a todos os seres vivos desde o primeiro

3 Qualidade de vida: aspectos gerais e aplicação ao envelhecimento

DESIGN: CONCEITOS, DESIGNAÇÕES E ASPECTOS METODOLÓGICOS

4.3 Conceito de design inclusivo

4.3.2 O design inclusivo, a terceira idade e o mercado Envelhecer é algo que acontece a todos os seres vivos desde o primeiro

dia das suas vidas. Envelhecer não é uma doença, é um processo natural ao nosso percurso de vida. Tal como refere a Baronesa Sally Greengross, directora geral do Age Concern England, na publicação Living Longer, editada pelo Design Council, a humanidade encontra-se a meio de uma das mais profundas revoluções de todos os tempos – a Revolução da Idade. Como já tivemos oportunidade de referir anteriormente neste tra- balho, o século XX presenciou um aumento de cerca de 30 anos na es- perança média de vida da população (ver capítulo 2) – não só nos países desenvolvidos, mas também nos em vias de desenvolvimento, como a Índia e a China – para Sally Greengross, este legado trás consigo grandes desafios e a forma como lhes dermos resposta irá influenciar a qualidade das nossas longas vidas, assim como, a coesão e o bem estar da nossa sociedade.

“(…) Para todos os lados que olhemos hoje, as pessoas idosas são ex- cluídas simplesmente pelo facto de que as coisas e os espaços com os quais interagem, não se adequam às suas necessidades físicas.” (Andrew

Summers, Chief Executive of the Design Council UK, tradução livre). Grande parte do nosso tecido social e infraestrutural (e.g. edifícios públi- cos, habitações privadas, sistemas de transportes, produtos domésticos e de consumo), não estão adaptados a este tipo de população, contudo do ponto de vista político e social há uma tendência que dita que a po- pulação idosa deve manter-se activa e deve ser preconizado e aplicado o conceito de envelhecimento activo (ver capítulo 3.2) contribuindo para integração na sociedade durante o maior tempo possível. De acordo com Sally Greengross, para que se consiga atingir este novo paradigma, é ne- cessário uma mudança de atitude perante a população idosa, garantindo a sua inclusão no planeamento, na tomada de decisões e no desenvolvi- mento de produtos. Serão então necessário sistemas de comunicação, que mantenham a população idosa, ligada ao mundo em constante mu- tação. Este desafio também se põem à indústria e ao sistema empresarial, estes devem contribuir para a criação de um mundo que seja age-friendly

e acessível, sem provocar estigmas ou um excesso de protecção neste tipo de população.

Segundo Roger Coleman, nos últimos 150 anos a humanidade assistiu a um novo fenómeno, caracterizado por três alterações sociais – redução da mortalidade infantil, diminuição das taxas de natalidade e o aumento da esperança média de vida da população mundial (Coleman, p. 9, 2001) (1). A combinação e interacção deste três factores, contribuiram para a criação de um novo contexto e tendência que Coleman designa de Li-

ving Longer. Os mercados focados na população jovem estão a diminuir,

a idade já não é um indicador ou comportamento, a população idosa é mais visível e diversa, é também mais difícil de se lhe atribuir papeis na sociedade actual, assim como, é menos previsivel de se identificar as suas necessidades, interesses e mudanças de comportamento nas suas vidas. Como tal, a esfera de acção dos anos que restam aos indivíduos na terceira-idade, irá depender de como os produtos, serviços e os am- bientes serão projectados.

O desafio que se põem então ao design, é o de possibilitar às pessoas a capacidade de enfrentarem estas transformações sociais, como opor- tunidades capazes de possibiltar a inclusão tornando-os mais favoráveis ao universo empresarial e industrial. Se os designers e as entidades que os contratam, continuarem a excluir as pessoas na terceira-idade dos seus públicos-alvo, as escolhas que essa população terá serão limitadas, reflectindo-se na exclusão da corrente principal da vida quotidiana (Cole- man, p. 11, 2001) (1).

Os investigadores e estudiosos do mercado, segmentam-no de tal forma que a população idosa é agrupada de forma conjunta de um modo en- tediante e que muitas das empresas não gostam de estar associadas de forma alguma. Para Coleman, esta atitude demonstra que a população idosa é normalmente ignorada pelas empresas aquando da aplicação de programas de investigação e desenvolvimento de novos produtos, des- perdiçando novas oportunidades de negócio e o alargamento a outros grupos de mercado exponenciais. Contudo, algumas empresas de dife- rentes áreas de actividade, já tomaram consciência das oportunidades desperdiçadas e desenvolveram conceitos de novos serviços, produtos e ambientes capazes de abranger esse tipo de população (e.g. empresas de operadores túristicos que prestam serviços mais baratos de férias, fora das épocas normais de quem trabalha ou estuda, destinadas a clientes seniores).

Em todos os grupos etários as pessoas têm necessidades comuns no que respeita à habitação, equipamento doméstico, transporte, alimenta- ção, entre outros. Para Coleman é necessário então a inclusão de grupos que são normalmente excluídos. No actual processo são projectadas so- luções para a denominada idade média ou idade adulta, que começa a apresentar poder de compra separado da dependência dos progenitores. No entanto, a inclusão de outros grupos etários no mercado, com base

nas necessidades diárias e aspirações, assim como, na funcionalidade e facilidade de uso (Coleman, p. 12, 2001) (1), pode ser uma das alter- nativas de aproximação viável à saturação desse mercado centrado nos jovens e adultos.

O mesmo autor afirma, que quanto maior sucesso tiver esta aproximação, maior será o círculo em que as população idosa encontrará produtos e serviços que correspondam e apoiem o seu estilo de vida em mudança, implementando uma atitude baseada no investimento, contrariamente à poupança. Para Coleman, é necessário perceber então o que signifi- ca envelhecer, desde os estereótipos do passado, até ir ao encontro de algo que reflicta a dinâmica da mudança social em que vivemos, tal como tenta explicar o seguinte exemplo: para uma pessoa na terceira idade, a mudança do mobiliário doméstico não é feita com base na mudança da cor das paredes da habitação – como pode ser no caso de uma pessoa jovem -, mas sim com base, na fiabilidade e baixa depreciação ou dete- rioração desse mobiliário.

A procura de cuidados de saúde para todas as idades, assim como das tecnologias envolventes (ver capítulo 3.4), está a aumentar. Contudo po- dem surgir questões acerca de como a procura se pode financiar e pagar. No entanto, para Coleman é inegável que a redução da incapacidade e dependência, irá conduzir à poupança destinada a financiar o custo des- ses cuidados. Este tipo de população percebe que há valor acrescentado no investimento de produtos ou serviços que sejam capazes, de melhorar a qualidade de vida. A intervenção do design nesta matéria, pode tam- bém fazer muita diferença, o design pode melhorar a forma como esses produtos ou tecnologias são implementados, encorajando os estilos de vida que melhorem a saúde e vitalidade das pessoas, como também, pode proporcionar redes locais de suporte a essa população (Coleman, p. 18, 2001) (1).

O mesmo autor corrobora, que o design inclusivo demonstra que os pro- dutos que funcionam melhor para as pessoas idosas, funcionam também melhor para as pessoas de todas as idades, promove a integração social, reduz o impacto da deficiência ou incapacidade e aumenta a indepen- dência.

Figura. 37

Conjunto de utensílios de higiene pessoal para utilizadores com ar- trite ou pouca destreza manual, projectados pela Smart Design para a empresa Denco, com o conceito “fáceis de usar, fáceis de abrir”.

Fonte: http://www. smartdesignworldwide.com

Derivado da dificuldade das empresas desenvolverem, produzirem e co- mercializarem produtos destinados às necessidades das pessoas com algum tipo de deficiência ou incapacidade, há uma tendência no universo empresarial de demarcação dessa responsabilidade, afirmando que é um problema para ser resolvido pelos serviços sociais ou por organizações não governamentais.

Segundo Mike Martin, no capítulo People with Special Needs as a Market, da publicação de Tetzchner Issues in Telecommunication and Disability, muitos países dispõem de serviços sociais que fornecem ajuda financeira para a aquisição de ajudas técnicas, contudo, essas ajudas derivado à sua especificidade são bastante dispendiosas para que possam ser ad- quiridas por toda a população idosa. Desta forma Martin sugere que “(…)

não é suficiente ter este tipo de equipamentos disponíveis, é sim neces- sário, direcciona-los para um vasto grupo de consumidores e utilizado- res, que não desejam ser vistos como deficientes ou incapacitados, mas que têm consciência que são portadores de uma pequena dificuldade no empreendimento de uma função. (…)” (Tetzchner, p. 57, 1991, tradução

livre).

Se o mercado for visto somente como um mercado altamente especiali- zado numa minoria, nenhuma grande empresa irá investir nele. Contudo, se o mercado for visto como capaz de fornecer uma variedade de produ- tos que melhorem o seu uso para o maior número de utilizadores possível, é então provável que as empresas considerem esse mercado repleto de oportunidades (Tetzchner, p. 59, 1991). Como consequência desta série de cenários, o design inclusivo pode ser uma mais valia não somente para o utilizador – com ou sem incapacidade – tendo acesso a produtos, serviços ou ambientes que correspondam de forma positiva às suas reais necessidades funcionais ou emocionais para as empresas, que represen- tam as entidades competentes em fazer chegar essas soluções materiais aos diversos utilizadores e que vêm o seu investimento dar frutos na acei- tação por parte do mercado; e para os designers que na implementação do design inclusivo, vêm reconhecido o resultado do seu trabalho, através do sucesso da performance do produto, na satisfação do utilizadores no seu uso e pelo seu valor material, refletido no retorno financeiro ao inves- timento realizado pelo produtor (empresa).