E TAXINOMIA DE DEFICIÊNCIA INCAPACIDADE E DESVANTAGEM
1.5 O modelo de Funcionalidade e Incapacidade
Este modelo proposto pela ICIDH-2 não pretende demostrar o processo de funcionalidade e deficiência. Em vez disso, este modelo pode ser usa- do como ferramenta capaz de descrever e fornecer condições que locali- zem as diferentes dimensões e domínios de aplicação. A ICIDH-2 fornece uma aproximação de várias perspectivas à classificação de funcionalida- de e deficiência como um processo interactivo e evolutivo, ou seja fornece as pedras base para os possiveis utilizadores desta classificação que pre- tendam criar modelos e estudar os diferentes aspectos deste processo, como é o caso deste presente trabalho. De forma a ilustrar este modelo e como ele se caracteriza e relaciona podemos ver em seguida o diagrama de interacção entre as dimensões da ICIDH-2.
Podemos então concluir e de acordo com o diagrama apresentado, que funcionalidade e deficiência são vistos como uma complexa relação de constante e dinâmica interacção entre condições de saúde e os factores contextualizadores que são o ambiente e os factores pessoais. Qualquer intervenção que seja efectuada num desses níveis tem sério potêncial de modificar outro nível relacionado, essas interacção são específicas mas nem sempre é possível prever uma relação directa entre esses factores. As interacções funcionam em duas direcções, ou seja, a presença de uma deficiência pode modificar a condição de saúde.
Um determinado indivíduo pode ter um problema numa função física e não ter qualquer limitação de executar uma actividade, ou ter uma limita- ção em executar uma actividade, sem ter um problema visível numa fun-
Figura 4
Adapção gráfica do diagrama de interacção entre as dimensões da ICIDH-2. Fonte: ICIDH-2, p. 23, 1999.
ção física. Pode também ter problemas de participação, sem quaisquer problemas de função física ou limitações em executar uma actividade, ou ter limitações em executar uma actividade sem ter um problema de participação. Apoiados em alguns exemplos demonstrativos destas pos- sibilidades de interacção entre as diferentes dimensões, no Appendix 5 da ICIDH-2, tentaremos facilitar a compreensão e contextualização das mesmas, através de alguns casos concretos:
- Um problema numa função física, que não despoleta nunhum problema de participação ou limitação em executar uma actividade.
Uma criança que nasce sem uma unha da mão. Esta malformação é um problema de estrutura, mas não interfere com a função da mão da criança ou em qualquer actividade que tenha de executar com essa mão, portan- to não há uma limitação na execução de uma actividade. Essa mesma criança também pode perfeitamente brincar com outras crianças sem que seja gozada ou excluida das brincadeiras devido à sua malformação, como tal também não existe qualquer tipo de restrição na sua participa- ção em sociedade.
- Um problema que não origina a limitação de uma actividade, mas que origina um problema de participação.
Uma criança diabética tem um problema numa função, originada pela incapacidade do seu pâncreas em produzir insulina. Essa incapacidade pode ser superada através de medicação, ou seja quando a função cor- poral, neste caso o nível de insulina, está sob controlo, não há limitações de actividade associadas a este problema. Contudo a criança com dia- betes pode viver um problema de participação quando, está incapaz de ingerir açucar, ou seja não lhe é permitido a convivência com os colegas em situações de participação conjunta com outras crianças como numa festa de anos onde predominam alimentos doçes.
- Problemas que originam limitações na actividade e dependendo das circunstâncias, a problemas ou não problemas na participação.
Uma criança com um problema do foro mental pode sentir algumas des- vantagens, num ambiente controlado por um leque de simples mas ne- cessárias tarefas a serem cumpridas. Isto pode levar a algumas limitações nas várias actividades do indivíduo. Os factores ambientais podem afectar a participação individual em diferentes domínos da vida. Outro exemplo que nos é demonstrado no Appendix 5 da ICIDH-2 é o de uma criança que cresce num ambiente escolar de elevado grau de exigência e espec- tativa, pode sentir a restrição em participar em diversas situações sociais. - Problemas que não conduzem a nenhum tipo de limitação de activida- des mas que causam problemas de participação.
carrega consigo o estigma de “doente mental”, pode ver ser recusado emprego ou aceitação social.
- Diferentes problemas e limitações de actividades, conduzem a proble- mas de participação similares.
Um problema na participação num dos domínios da vida como é o do emprego, pode existir quando um indivíduo pode deixar de ser contratado para um determinado emprego devido à extensão que o seu problema de tetraplegia produz no incumprimento de certos requisitos necessários à realização dessa tarefa. Outro indivíduo com um menos severo grau de tetraplegia e que preenche certos requisitos para a execução dessa tare- fa, pode não ser contratato pela justificação de que as vagas respeitantes a pessoas com deficiência já se encontram preenchidas. Outro indivíduo que é capaz de cumprir certos requisitos necessários à realização de um determinado trabalho, pode não ser admitido porque utiliza para minimi- zar os danos da sua deficiência uma cadeira de rodas, que não se ajusta ao espaço físico onde se vai desenrolar a tarefa. E por último, um outro indíviduo exactamente com as mesma deficiência, que utiliza uma cadeira de rodas como ajuda na execução das tarefas e que o espaço físico onde essa tarefa vai ser executada cumpre os requisitos de mobilidade, pode se ver impossibilitado de uma participação interdisciplinar com outros co- legas de trabalho, porque não tem acesso aos diferentes locais onde se encontram os restantes colegas.
- Suspeita de um problema que conduz à restrição na participação sem limitações de actividades.
O indivíduo que trabalha com pacientes contaminados com SIDA, apesar de ser completamente saudável, este indivíduo tem de ser constantemen- te submetido a testes ao VIH devido á natureza da sua profissão. Como tal este indivíduo não sofre qualquer tipo de limitação na sua actividade. Contudo no seio das suas relações sociais suspeita-se que ele contraiu o víru e começam a evita-lo. Esta conduta conduz à restrição do indivíduo na sua participação social.
- Por último alguns problemas que não são classificados na ICIDH-2 e que levam a restrições na participação
Uma determinada pessoa cuja mãe morre de cancro da mama, por uma questão de precaução executa o exame que lhe permite verificar se é por- tadora do código genético que a coloca em risco de vir a contrair esse tipo de cancro. Essa pessoa não tem qualquer tipo de problema nas funções estruturais e corporais, nem tem nenhum tipo de limitação nas suas acti- vidades, mas foi-lhe negado um seguro de saúde pela seguradora, devido ao maior risco que apresenta, em contrair o cancro da mama.
O diagrama demostra o potencial influenciador que os factores contex- tuais têm no processo. Esse factores interagem com o indivíduo através da condição de saúde desse mesmo indivíduo, e determinam o nível e
aproximação à funcionalidade individual.
Os factores contextuais são intrínsecos ao indivíduo e são classificados pela ICIDH-2 tais como: as atitudes da sociedade, características arqui- tectónicas, o sistema legal. Por outro lado, os factores pessoais não são classificados na versão da ICIDH-2 que data de 1999 (por motivos de acessibilidade à versão completa desta classificação de funcionalidade e deficiência, só tivemos acesso à uma versão Beta) a avaliação destes é deixado ao critério do utilizador cajo seja necessário e podem incluir: idade, género, outras limitações de saúde, estilos de vida, peso, contexto e passado social, educação, profissão, expeirência passada e presente, padrões de comportamento e carácter, avaliações psicológicas individu- ais e outras caracteristicas, todos ou nenhum destes factores podem desempemhar um papel importnate na deficiência a um qualquer nível. Em Portugal o Secretáriado Nacional para a Reabilitação e Integração de Pessoas com Deficiência1 (SNRIPD) actua como entidade reguladora, coordena, desenvolve e executa a política nacional de prevenção, habilita- ção, reabilitação, e participação das pessoas com deficiência.