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Quando se pretendem identificar as determinantes das despesas turísticas, o investigador depara-se com algumas limitações, entre as quais se destaca a falta de homogeneidade das propostas sugeridas na literatura, fruto deste assunto ser estudado por investigadores com diferentes áreas de formação. Por exemplo, observa-se que quando esta temática é estudada por um economista, é reforçado o papel das determinantes económicas, enquanto que se for abordada por um sociólogo, a ênfase é dada às características sócio-demográficas e psicográficas dos visitantes. Apesar desta realidade, procura-se nesta secção sistematizar os principais estudos que têm sido realizados nesta área, com a finalidade de construir um quadro de referência que se considera ser o mais adequado sobre esta temática.

Em termos de investigadores que têm analisado, do ponto de vista teórico, a temática dos factores que influenciam a compra de produtos turísticos, referem-se Archer (1976), McIntosh e Goldner (1986), Witt e Witt (1992), Tribe (1995), Bull (1996), Sinclair e Stabler (1997), Loomis e Walsh (1999) e Swarbrooke e Horner (2001).

Swarbrooke e Horner (2001) classificam os factores que influenciam a aquisição de produtos turísticos em dois grandes grupos: factores internos ao visitante e factores externos (Figura 5.7).

Estada média dos visitantes Despesas turísticas totais Número de visitantes Despesa diária por visitante = x x Modelos

Figura 5.7 – Factores que influenciam a tomada de decisão em turismo segundo Swarbrooke e Horner (2001) Fonte:Swarbrooke e Horner (2001)

Por sua vez, Sinclair e Stabler (1997) atribuem maior ênfase às determinantes económicas das despesas turísticas, referindo que, em termos gerais, a procura de produtos turísticos depende da restrição

orçamental e das preferências por turismo em relação a outros bens ou serviços. No limite, um

indivíduo pode gastar todo o seu orçamento em produtos turísticos ou em outro tipo de produtos. Entre estes dois extremos existe um vasto conjunto de combinações possíveis (Figura 5.8)

Figura 5.8 - Consumo de produtos turísticos em relação ao consumo de outro tipo de produtos Fonte: Sinclair e Stabler (1997)

O G 1 G T 1 T D Outros Produtos Produto Turismo I I O G 1 G T 1 T D Outros Produtos Produto Turismo I I O G 1 G T 1 T D Outros Produtos Produto Turismo I I O G 1 G T 1 T D Outros Produtos Produto Turismo I I Decisão em turismo Rendimento disponível Saúde Compromissos familiares Compromissos profissionais Experiência Hobbies e interesses O conhecimento da existência de produtos turísticos Estilo de vida Atitudes, opiniões e percepções Personalidade Motivações Promoções levadas a cabo pela oferta turística Problema de saúde e necessidades de vacinação Restrições políticas e militares Recomendações de familiares e amigos Informação obtida do

destino através dos meios de comunicação formais Comunicação dos agentes de viagens Disponibilidade de produtos adequados Atributos do destino Decisão em turismo Rendimento disponível Saúde Compromissos familiares Compromissos profissionais Experiência Hobbies e interesses O conhecimento da existência de produtos turísticos Estilo de vida Atitudes, opiniões e percepções Personalidade Motivações Promoções levadas a cabo pela oferta turística Problema de saúde e necessidades de vacinação Restrições políticas e militares Recomendações de familiares e amigos Informação obtida do

destino através dos meios de comunicação formais Comunicação dos agentes de viagens Disponibilidade de produtos adequados Atributos do destino

A quantidade de produtos turísticos e de outros produtos que é possível consumir depende do preço dos primeiros em relação ao preço dos segundos. Desta forma, quanto mais baixos forem os preços dos produtos turísticos em relação ao preço dos outros produtos mais alto tenderá a ser o seu consumo e vice-versa. No entanto, estas decisões dependerão das preferências dos consumidores. Combinações alternativas de produtos turísticos e de outros produtos podem dar ao consumidor o mesmo nível de satisfação. Com base no exposto, verifica-se que, para Sinclair e Stabler (1997), o rendimento disponível, os preços dos

produtos turísticos e os preços dos produtos substitutos e dos produtos complementares são as

principais determinantes que influenciam as despesas turísticas. Opinião partilhada por Archer (1976), que refere ainda como determinantes das despesas turísticas a nível macro a dimensão da população do país de origem dos visitantes.

Song e Witt (2000) referem, para além das determinantes enunciadas por Archer (1976), que as despesas

em promoção feitas pelo destino turístico, as expectativas e a persistência dos hábitos dos visitantes e efeitos qualitativos, como por exemplo um evento especial, como foi o caso em Portugal da Expo 98 ou o

Euro 2004, são variáveis que terão uma influência nas despesas turísticas.

Tribe (1995), ao abordar esta problemática, defende que as principais determinantes da procura turística são a qualidade dos produtos turísticos, os gostos dos visitantes, a moda em termos de destinos turísticos,

a publicidade realizada pela oferta turística dos destinos, os preços dos outros produtos, a dimensão da população de um determinado país de origem, as oportunidades de consumo nos destinos turísticos e o rendimento dos potenciais visitantes.

Para McIntosh e Goeldner (1986), a procura de um determinado destino turístico é função da “propensão”

e da “resistência”. A “propensão” é determinada pelas características psicográficas, demográficas e sócio-

económicas dos potenciais visitantes e pelas despesas de marketing realizadas pelos destinos turísticos na região/país de origem dos visitantes. Por sua vez, a resistência é determinada pela distância económica e cultural, custo dos serviços turísticos, qualidade dos serviços e sazonalidade.

Bull (1996), tal como Sinclair e Stabler (1997), faz principalmente referência às determinantes económicas da procura turística, categorizando-as conforme o exposto na Tabela 5.1

Tabela 5.1 – Determinantes da procura turística segundo Bull, 1996 Grupo A – Variáveis económicas

da região de origem Grupo B – Variáveis económicas da região de destino Grupo C - variáveis de ligação região de origem - região de destino

- Rendimento - Valor da moeda

- Política fiscal e controlo das despesas turísticas

- Nível geral de preços - Grau de competição da oferta turística

- Qualidade dos produtos turísticos - Regulamentação económica das actividades turísticas

- Nível de preços comparativo entre a origem e o destino

- Esforços em termos de promoção do destino na origem

- Taxas de câmbio - Custo da viagem

Quando se pretende validar empiricamente as determinantes da procura turística referidas a nível teórico, o investigador depara-se com uma quantidade considerável de estudos, em que se torna difícil realizar análises comparativas.

Crouch (1994) realizou um estudo de revisão no sentido de avaliar os trabalhos realizados nos últimos 30 anos no âmbito da procura de turismo internacional. Este autor avaliou os resultados de 44 estudos. As principais conclusões que retirou evidenciam que o preço e o rendimento são as variáveis mais utilizadas em termos de determinantes da procura de turismo internacional (Tabela 5.2) e que existe uma grande variabilidade em termos de coeficientes estimados, podendo esta variabilidade estar relacionada com os seguintes factores: especificação do modelo, características ambientais (tais como o período de análise e os países estudados), características dos dados e o método de estimação utilizado.

Tabela 5.2 – Determinantes da procura turística: resultados dos estudos de revisão elaborados por Lim (1997) e Crouch (1994)

Lim (1997) – artigo de revisão sobre as determinantes da

procura turística – analisados 100 estudos Crouch (1994) – artigo de revisão sobre as determinantes da procura turística – analisados 85 estudos - Rendimento (84%) - Preços relativos (73%) - Custos de transporte (55%) - Taxas de câmbio (25%) - Tendência (25%) - Dinâmicas (26%) - Destinos competitivos (15%) - Factores sazonais (14%) - Despesas de marketing (7%) - Fluxos migratórios (5%)

- Factores relacionados com “Business Travel” (5%) - Indicadores da actividade económica (3%) - Factores qualitativos (60%)

- Outros factores (27%)

- Rendimento (85%)

- Rendimento desfasado temporalmente (13%) - Preços relativos (64%)

- Preços relativos desfasados temporalmente (15%) - Preços absolutos (6%)

- Taxa de câmbio (29%)

-Taxa de câmbio desfasada temporalmente (5%) - Custos de transporte (56%)

- Despesas de marketing (8%) - Clima (5%)

- Distância da viagem (11%) - População (15%)

- Factores relacionados com a oferta de produtos turísticos (3%)

- Tendência (19%) - Variáveis dummy (55%) - Outros factores (60%)

Legenda: dentro de parêntesis encontra-se a percentagem dos estudos analisados pelos autores que incluem essa determinante.

Fonte: elaborada a partir de Lim (1997) e Crouch (1994)

Por sua vez, Lim (1997) realizou uma classificação econométrica de 100 estudos realizados no âmbito da modelização da procura turística e verificou, tal como Crouch (1994), que as principais determinantes analisadas são: o rendimento dos visitantes, o preço (preços relativos, custos de transporte e taxas de câmbio) e determinantes qualitativas (analisadas através da inclusão de variáveis dummy nos modelos) (Tabela 5.2). Por sua vez, as determinantes que têm sido mais omitidas nos modelos são as despesas em actividades de marketing realizadas pelos destinos turísticos, os preços dos destinos turísticos concorrentes e indicadores da actividade económica dos destinos turísticos.

Enquanto que os estudos de revisão efectuados por Lim (1997) e por Crouch (1994) incluíram todos os estudos de modelização da procura turística internacional, independentemente da variável dependente em análise, Sheldon (1990) realizou um estudo de revisão apenas dos estudos em que a variável dependente era representada pelas despesas turísticas. Este autor verificou que as três variáveis explicativas utilizadas tipicamente nos modelos macro das despesas do turismo internacional são a taxa de câmbio, o rendimento no país de origem e o nível de preços no destino comparado com o nível de preços na origem.

No âmbito desta dissertação foi realizado um estudo de revisão de 86 artigos, publicados em revistas internacionais, sobre a modelização da procura turística (Anexo 5.1). Em termos de variáveis utilizadas para quantificar a procura turística de um determinado destino, observou-se que o número de visitantes é avaliado em cerca de 40% dos estudos, enquanto que a permanência média dos visitantes nos destinos é apenas avaliada em 8% dos estudos. A quantificação monetária da procura turística (despesas turísticas/receitas turísticas) é estudada em 59% dos estudos analisados (Anexo 5.2). Este estudo de revisão permitiu também concluir que as determinantes mais utilizadas para explicar as despesas turísticas a nível macro são: as

taxas de câmbio, o rendimento no país de origem e os preços relativos (nível de preços no pais de

destino comparado com o nível de preços no pais de origem) (Anexo 5.3). Embora estas sejam as variáveis mais utilizadas, alguns modelos incluem determinantes como custos de transporte, variáveis relacionadas com o gosto dos visitantes, despesas em actividades de promoção realizadas pelos responsáveis pelo desenvolvimento turístico dos destinos nos mercados de origem e variáveis dummy para reflectir determinantes qualitativas e acontecimentos esporádicos que tenham influência no valor das despesas turísticas. Por sua vez, a nível micro, as determinantes mais utilizadas são as características sócio-

demográficas dos visitantes e as características da viagem (Anexo 5.4). Esta conclusão é também obtida

nos estudos de revisão realizados por Sheldon (1990) e por Lim (1997).

Apesar da relevância dos estudos de modelização das despesas turísticas realizados recorrendo a modelos macro, nesta dissertação pretende-se desenvolver modelos micro que permitam compreender o comportamento de consumo dos visitantes num determinado destino, podendo desta forma contribuir para um acréscimo do conhecimento nesta área que, tal como já foi referido e fundamentado, se encontra ainda pouco explorada. Perante esta opção apresentar-se-á em seguida uma análise mais detalhada das determinantes das despesas dos visitantes que podem ser incorporadas em modelos micro, categorizando- as de acordo com o exposto na Figura 5.8.

Figura 5.9 – Categorização das variáveis que influenciam as despesas turísticas de um visitante

As despesas turísticas totais realizadas por um visitante dependem directamente da duração da estada

nesse destino e do valor da despesa diária que aí realizam. Por sua vez, tanto a duração da estada como

a despesa diária e a estrutura dessa despesa em termos de produtos consumidos são influenciados por um conjunto de determinantes que se categorizaram de acordo com a Figura 5.9 e que irão ser objecto de uma explanação mais detalhada nas sub-secções seguintes.

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