Aquilo por que nós humanos realmente ansiamos é desapa- recer, fundindo-nos neste fluxo generativo de devir, que tem como precondição a perda, o desaparecimento e a disrupção do eu indi- vidual atomizado. O ideal seria levar apenas lembranças e deixar
apenas pegadas. Aquilo que mais verdadeiramente desejamos é entregarmos o eu, de preferência na agonia do êxtase, escolhendo assim a nossa própria maneira de desaparecer, o nosso modo de morrer para e como nós mesmos. Isto também pode ser descrito como o momento da dissolução ascética do sujeito; o momento da sua fusão com a teia de forças não humanas que o enquadram, o cosmos como um todo. Podemos chamá-lo de morte, mas, numa ontologia monista do materialismo vitalista, tem mais a ver com a imanência radical. Quer isto dizer, a totalidade fundamentada do momento em que coincidimos completamente com o nosso corpo para nos tornarmos finalmente no que sempre fomos: um cadáver virtual.
A morte, o inumano interior, marca o devir impercetível do sujeito como a fronteira mais distante dos processos de transfor- mação ou devir intensivo. Isto não é transcendência, mas sim uma imanência empírica radical, isto é, uma reversão de tudo o que vive no rugido da câmara de devir “caósmica” que ecoa. Marca a força geradora da zoe, a grande máquina-animal do universo, além da morte pessoal individual. Convém recordar que este é um discurso secular, gerado por uma teoria crítica que quer até ao fim pensar no continuum natureza-cultura dentro de uma on- tologia monista que considera toda a matéria como inteligente e auto-organizada. Reconhecer este continuum faz-nos capazes de ser dignos de tudo o que nos acontece: amor fati é o reconheci- mento pragmático de que o sujeito pós-humano é a expressão de sucessivas ondas de devir, alimentadas pela zoe como o motor on- tológico. Não é material humano nem divino, mas implacável, e prometido à relacionalidade multidirecional e interespécie. A vida continua implacavelmente não humana na força vital que a anima. Tornar-se impercetível marca o ponto de evacuação ou evanescência dos eus limitados e a sua fusão no ambiente, a po- sição intermediária, a imanência radical da própria terra e a sua ressonância cósmica. Devir impercetível é o evento para o qual não há representação, porque ele baseia-se no desaparecimento do eu individuado. Escrever como se já se tivesse partido, ou pen- sar além do eu limitado, é o gesto supremo de des-familiarização. Este processo atualiza as possibilidades virtuais no presente, numa sequência temporal que está algures entre o “já não” e o
“ainda não”, misturando passado, presente e futuro na massa crí- tica de um evento. A energia vital que impulsiona a transmutação dos valores em afirmação é a potentia da vida como devir perpétuo que se expressa através do vazio caótico e generativo da positivi- dade. O evento representa uma sedução para a Vida que quebra com a economia espectral da negatividade e envolve fazer ami- zade com a morte impessoal.
A teoria pós-humana da morte como um continuum vital não poderia estar mais distante da noção de morte como o estado ina- nimado e indiferente da matéria, o estado entrópico ao qual o corpo supostamente “regressa”. Em vez disso, significa o desejo como plenitude e sobrefluxo, não como falha. A morte é o devir impercetível do sujeito pós-humano e, como tal, faz parte dos ci- clos do devir, é mais uma forma de interconexão, um relaciona- mento vital que liga um a múltiplas forças outras. O impessoal é a vida e a morte como bios/zoe em nós – o exterior supremo como fronteira do incorpóreo: devir impercetível.
O paradoxo de afirmar a vida como potentia, energia, mesmo na e pela supressão da fatia específica da vida que o “eu” habita, é uma maneira de levar tanto o pós-humanismo quanto o pós-an- tropocentrismo ao ponto de implosão. Dissolve a morte em mu- danças processuais em permanente mutação e, assim, desintegra o ego, com o seu capital de narcisismo, paranóia e negatividade. A morte como processo do ponto de vista específico e altamente restrito do ego não tem qualquer significado. O tipo de “eu” que é “estilizado” em e através de tal processo é não-Uno, mas também não é uma multiplicidade anónima. O eu é diferencial e consti- tuído por conjuntos de inter-relações implantados e corporifica- dos. A coerência interna deste sujeito pós-humano mantém-se unida pela imanência das suas expressões, atos e interações com os outros e pelos poderes da recordação, ou continuidade no tempo. Refiro-me a este processo em termos de sustentabilidade, com vista a enfatizar a ideia de resiliência que ele acarreta. A sus- tentabilidade assume a fé num futuro, e também um sentido de responsabilidade por “deixar” às gerações futuras um mundo que é habitável e digno de se viver. Um presente que perdura é um modelo sustentável do futuro. Contra esta imagem autoglorifica-
dora de uma consciência pretensiosa e egoísta, narcísica e para- nóica, a teoria crítica pós-humana desencadeia as múltiplas for- ças dinâmicas da zoe que não coincidem com o humano, muito menos com a consciência. Estas marcas não essencialistas do vi- talismo enquadram o sujeito pós-humano. A minha visão vitalista de materialismo não poderia estar mais distante da afirmação cristã da Vida ou da delegação transcendental do significado e do sistema de valores para categorias superiores ao eu corporificado. Muito pelo contrário, é a inteligência da carne radicalmente ima- nente que afirma, a cada respiração, que a vida em nós não é mar- cada por nenhum significante mestre e certamente não tem os nossos nomes. A consciência da diferença absoluta entre os afetos intensivos ou incorpóreos e os corpos específicos afetados que um indivíduo é, é crucial para a ética positiva pós-humana. A morte é o insustentável, mas também é virtual, no sentido em que tem a capacidade generativa de engendrar o real. Consequentemente, a morte é apenas uma manifestação óbvia de princípios que estão ativos em todos os aspetos da vida, nomeadamente, o poder im- pessoal da potentia. O sujeito pós-humano baseia-se na afirmação deste tipo de multiplicidade e na conexão relacional com um “ex- terior” que é cósmico e infinito.