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não obstante as referências hipócritas aos direitos humanos, ao internacionalismo proletário e à solidariedade com o Terceiro Mundo (Fraser, 2005)2. Quer a questão fosse a redistribuição, re-

conhecimento ou representação, diferenças de classe, hierarquias de status ou o exercício legítimo do poder político, a maioria dos que reclamavam assumiu que o escopo da justiça coincidia com os limites da sua comunidade política. Só os membros dessa co- munidade contavam como sujeitos de justiça uns para os outros. O efeito foi o de limitar drasticamente, senão excluir totalmente, que obrigações vinculativas de justiça atravessassem fronteiras. Por definição, então, esse enquadramento obscureceu as injusti- ças transfronteiriças.

A compreensão vestefálica do ‘quem’ foi acompanhada por uma representação específica do espaço político, um imaginário político vestefaliano. Neste imaginário, as comunidades políticas apareciam como unidades geograficamente delimitadas, demar- cadas por fronteiras rigorosamente desenhadas. Cada uma asso- ciando essa política ao seu próprio estado, o imaginário político vestefaliano imaginou o Estado como exercendo uma soberania exclusiva e indivisível sobre o seu território; procurando conter a ‘interferência externa’ nos ‘assuntos internos’ do estado, também rejeitou a visão de que o estado deveria ser constrangido por um qualquer poder internacional de nível superior. Além disso, essa visão consagrou uma divisão acentuada entre dois tipos de espaço político qualitativamente diferentes. Enquanto o espaço ‘domés- tico’ era imaginado como o domínio civil pacificado do contrato so- cial, sujeito às leis e obrigações da justiça, o espaço ‘internacional’ era encarado como um estado de natureza, um domínio bélico da negociação estratégica e da raison d’état, desprovido de quaisquer

2 Alguns leitores sugeriram que as pessoas colonizadas nunca aceitaram a legitimi-

dade do enquadramento vestefaliano, pelo que essa estrutura nunca foi verdadei- ramente normalizada. A meu ver, no entanto, a grande maioria dos anticolonialistas da pós-Segunda Guerra Mundial buscava alcançar estados vestefalianos para si próprios. Pelo contrário, apenas uma pequena minoria defendeu consistentemente a justiça no contexto de um enquadramento global - por razões que são inteiramente compreensíveis. O meu argumento, então, é que, longe de contestar o enquadra- mento vestefaliano per se, as forças anti-imperialistas geralmente procuravam rea- lizá-lo de uma maneira genuinamente universal e imparcial. Estou reconhecida a Ann Laura Stoler por levantar vigorosamente esta questão, embora ela não vá ficar satisfeita com a minha resposta.

deveres vinculativos de justiça. No imaginário vestefaliano, por- tanto, os sujeitos de justiça poderiam ser apenas os companheiros de uma cidadania territorializada.

É verdade, é claro, que este mapeamento do espaço político nunca foi totalmente realizado. A hegemonia do Grande Poder e o imperialismo moderno desmentiam a noção de um sistema in- ternacional de estados soberanos iguais. No entanto, este imagi- nário exerceu uma influência poderosa, fazendo infletir os sonhos de independência dos povos colonizados, que na sua maioria re- clamavam estados da vestefalianos para si próprios.

Também é verdade que advogados internacionais e pensado- res cosmopolitas procuraram, ao longo de três séculos, ‘pacificar’ o espaço internacional, sujeitando-o a uma regulação legal. Até há bem pouco tempo, porém, os seus esforços não desafiaram di- retamente a bifurcação fundamental entre o espaço nacional e in- ternacional, nem o correspondente contraste entre um domínio territorialmente limitado, sujeito às restrições da justiça, e outro, região exterior, apenas sujeito, mesmo no melhor dos cenários, a muito mais modestos requisitos normativos mínimos. O efeito consistiu em grande parte no ratificar do mapeamento vestefa- liano do espaço político.

Hoje, no entanto, o mapeamento vestefaliano do espaço polí- tico está a perder preponderância. Por alguma razão, a sua posi- ção de soberania estatal exclusiva, parece cada vez mais contrafactual, em face de um regime ramificado de direitos hu- manos, por um lado, e de redes em espiral de governo global, por outro. Igualmente questionável é a noção de uma divisão acen- tuada entre o espaço doméstico e o internacional, dadas as novas formas de política ‘interméstica’ (Rosenau, 1997), praticada por novos atores não estatais e transterritoriais, incluindo movimen- tos sociais transnacionais, organizações intergovernamentais e ONGIs.

Também duvidosa é a perspetiva da territorialidade como a única base para atribuir obrigações de justiça, dados os manifes- tos problemas transterritoriais, como o aquecimento global ou a agricultura geneticamente modificada, que levam muitos a pen- sar em termos de ‘comunidades de risco’ definidas funcionalmente

(Beck, 1992), que ampliam os limites da justiça para incluir todos os potencialmente afetados. Não é de admirar, portanto, que os ativistas que contestam as desigualdades transnacionais rejeitem a visão de que a justiça só pode ser imaginada territorialmente, como uma relação doméstica entre concidadãos. Ao colocarem pontos de vista pós-vestefalianos de ‘quem conta’, eles sujeitam o quadro vestefaliano a críticas explícitas.

Hoje, portanto, tanto o ‘quem’ da justiça como o mapeamento do espaço político são objetos de luta. De facto, o vestefaliano ‘quem’ está a ser desafiado a partir de pelo menos três direções: primeiro, por localistas e comunalistas, que procuram localizar o escopo da preocupação em unidades subnacionais, como ‘o País Basco’ ou ‘Povos Inuítes’; segundo, por regionalistas e transna- cionalistas, que propõem identificar o ‘quem’ da justiça com uni- dades mais vastas, embora não totalmente universais, como ‘Europa’ ou o ‘Islão’; e terceiro, pelos globalistas e cosmopolitas, que propõem conceder igual consideração a todos os seres huma- nos. Consequentemente, agora existem em jogo pelo menos qua- tro visões rivais do ‘quem’ da justiça: vestefaliana, comunalista local, regional transnacional e cosmopolita global. E estas visões colidem cada vez mais. Logo que uma parte reclama por justiça, com base numa compreensão do ‘quem’, a outra procede ao lan- çamento de uma contra-reclamação, ambas baseadas em conce- ções opostas. O resultado é uma verdadeira cacofonia ou heteroglossia do discurso da justiça, a que eu chamei de ‘justiça anormal’ (Fraser, 2008).

Eu cunhei esta expressão por analogia com a distinção de Thomas Kuhn (1996) entre ciência normal e anormal. Para Kuhn, a ciência é ‘normal’ enquanto um único paradigma domina a in- vestigação, desde que a dissidência em relação a ela permaneça contida. Pelo contrário, a ciência torna-se ‘revolucionária’, quando os desvios se acumulam e os paradigmas concorrentes proliferam. No primeiro caso, os investigadores partilham um conjunto básico de suposições subjacentes, o que confere ao tra- balho uma aparência ordenada e progressiva. No segundo caso, falta uma gramática compartilhada e as discussões científicas as- semelham-se a diálogos de surdos. Por analogia, distingo episó-

dios de ‘justiça normal’, quando a maior parte dos interlocutores compartilha um sentido comum de parâmetros básicos, incluindo no que se refere a ‘quem conta’. Pelo contrário, a ‘justiça anormal’ surge quando este acordo está ausente. Isto significa uma condi- ção na qual aqueles que lutam pela justiça social assumem visões concorrentes neste tipo de assuntos3. Esta é, no meu ponto de

vista, a nossa situação hoje (Fraser, 2008).

Nas circunstâncias atuais, de ‘justiça anormal’, a teorização não pode prosseguir da maneira usual. Ao contrário daqueles que procuraram teorizar a justiça em épocas anteriores, não podemos assumir que já sabemos quem conta. Longe de simplesmente as- sumirmos o ‘quem’ vestefaliano, como eles fizeram, nós temos de colocar explicitamente a questão de quem conta como sujeito da justiça. Devemos perguntar: dado o choque de pontos de vista opostos em relação aos limites da justiça, como devemos decidir que interesses devem ser considerados? Em face de conflitos so- ciais perspetivados de forma oposta, como devemos determinar qual dos mapeamentos do espaço político é o justo?

O truque, proponho, é reconhecer simultaneamente os lados positivo e negativo da justiça anormal. Por um lado, uma abor- dagem viável deve valorizar a contestação alargada em relação ao ‘quem’, o que torna justiças transfronteiriças pensáveis, e cri- ticáveis, obscurecidas pela imagem vestefaliana do espaço polí- tico. Por outro lado, é preciso lidar com a dificuldade exacerbada de resolver disputas nas quais os participantes têm opiniões con- flituantes sobre quem conta. Que tipo de teorização da justiça pode simultaneamente atender a estes dois desideratos? Que tipo de teorização pode simultaneamente abrir espaço para lidar com novas alegações e também fornecer a suspensão provisória, ne- cessária para as examinar e retificar? A resposta que propomos aqui pode ser resumida nos seguintes termos: a teorização ade- quada a tempos anormais deve ser simultaneamente reflexiva e discriminativa. Deixem-me explicar cada parte desta proposta em duas vertentes.

3 Se alguém seguisse fielmente a terminologia de Kuhn, falaria em ‘justiça revolu-

cionária’. Mas, dadas as associações a esta expressão, prefiro seguir a sugestão de Richard Rorty e falar, em vez disso, de ‘justiça anormal’. Rorty distingue ‘normal’ de ‘discurso anormal’ em Rorty (1979, 1989).