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I. CAPÍTULO

II.1. Caracterização e tipologia das Fontes de Informação

II.1.1. Documentos administrativos

II.1.1.1. Diário do Governo

O Diário do Governo era o jornal oficial da Monarquia e mais tarde da República Portuguesa (1910), no qual se publicavam as leis para posteriormente entrarem em vigor. Hoje, foi substituído pelo Diário da República. Para a nossa investigação foram consultados diversos Diários do Governo, datados entre 1906 e 1962. Numa primeira fase, procurámos conhecer qual a Lei em vigor e depois examinámos as Leis e Portarias relacionadas com a própria concessão mineira que explorou as Minas de Ervedosa.

O primeiro Diário do Governo, consultado para o nosso trabalho, data de 1892, pois era a Lei vigente, quando a concessão mineira de Ervedosa, Société de Mines d’Étain de

Ervedosa, iniciou a sua lavra, que nos informa de todos os parâmetros que deviam ser

seguidos para registar uma mina e posterior prosseguimento para início de lavra. Segundo esta Lei, qualquer pessoa que tivesse feito a descoberta de um depósito mineral e quisesse assegurar o seu direito, devia apresentar, na Câmara Municipal do respectivo concelho, a Nota do Descobrimento, para registar a descoberta. De seguida, com esta Nota e a cópia autenticada do registo eram devolvidas ao manifestante, que poderia requerer os Direitos de Descoberta, depois de feitos os necessários trabalhos de pesquisa. Na Nota do Registo de uma descoberta declarava-se: o nome do registador, a naturalidade, a residência, a idade, o estado civil e a profissão; a natureza do depósito mineral descoberto ou presumível; o nome da localidade e as suas confrontações; o nome e a residência do proprietário ou proprietários do solo e qual o ponto de partida. A contar da data de um registo, eram concedidos doze meses para o manifestante proceder aos trabalhos de pesquisa necessários para pôr a descoberto o jazigo mineral que foi objecto do manifesto, e requerer, ao Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, os direitos de descoberta. Expirado esse prazo improrrogável, sem que o proprietário do manifesto tenha requerido os direitos de descoberta, ficava por esse facto nulo o registo e considerado livre o campo para novos registos.

Todo o português, ou estrangeiro, que tivesse manifestado, na respectiva Câmara Municipal, um depósito de substância mineral, poderia fazer trabalhos de pesquisa em quaisquer terrenos, que nunca tenham sido cultivados, quer pertencessem ao Estado, quer ao município, quer a particulares.

Feito o Registo da Descoberta de um depósito mineral, na Câmara Municipal, dentro do respectivo prazo e aprovada a sua existência, era concedido o Diploma de Descobridor. Este requerimento devia designar os seguintes elementos: nome, idade, estado civil, naturalidade, residência e profissão do proprietário do manifesto; a situação da mina, com indicação do concelho e freguesia onde o depósito foi descoberto; a natureza precisa do mineral que caracterizava o jazigo determinado pelos trabalhos de pesquisa a que se tivesse procedido. Ao pedido, o manifestante devia anexar o manifesto original, apresentado e registado na Câmara Municipal, e o recibo comprovativo da entrega no Banco de Portugal a quantia de 130$000 réis, montante das despesas oficiais que existiam desde o reconhecimento até à concessão.

Logo depois da entrada de um requerimento para Direitos de Descoberta, a Administração, pela Repartição de Minas, faria publicar um Édito de sessenta dias, na folha oficial, e afixá-lo, por espaço de oito dias, na sede de concelho, onde estivesse situada a mina, chamando todos os que tivessem a reclamar contra os direitos de descoberta requeridos. Terminado o prazo, sem reclamação, o governo mandaria proceder ao reconhecimento do jazigo. A área mínima para uma concessão seria de 10 hectares, no entanto, sempre que fosse possível, e o terreno o permitisse a área preferível seria um rectângulo de 50 hectares. Os pontos de demarcação, qualquer que fosse a sua figura, eram fixados na presença do interessado, do administrador do concelho e do seu escrivão que lavraria um Auto de Demarcação, que seria assinado por todos e de que seria dada uma cópia ao engenheiro, para a remeter ao Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, com o relatório e a planta do reconhecimento.

O Governo depois de ouvida a Junta Consultiva de Obras Públicas e Minas sobre o processo de direitos de descoberta, remetido pelo engenheiro de minas que tivesse procedido ao reconhecimento, concederia ao interessado o Diploma Legal, com a descrição dos limites adoptados para a demarcação da mina e futura concessão mineira. Ao descobridor de uma mina, que tivesse sido reconhecido proprietário legal da descoberta, eram concedidos seis meses para requerer a concessão.

No alvará de concessão estavam expressas as condições gerais que o concessionário deveria cumprir, a saber: 1) – executar os trabalhos de lavra segundo as regras da arte, submetendo-se os concessionários, directores técnicos, empregados e trabalhadores às regras de polícia estabelecidas nos regulamentos; 2) – responder pelos danos e prejuízos que da lavra podiam resultar a terceiro; 3) – ressarcir os danos e prejuízos que podiam sobrevir a terceiro,

vizinhos pelas águas acumuladas nos trabalhos, se não as esgotasse quando para isso seja intimado; 5) – dar princípio aos trabalhos dentro de três meses a contar da data da publicação do alvará de concessão salva a circunstância de força maior, devidamente comprovada; 6) – ter a mina em constante estado de lavra activa; 7) – executar as providências que lhes fossem ordenadas no prazo que lhe for marcado, para evitar a ruína dos trabalhos; 8) – não fazer lavra ambiciosa que dificultasse o ulterior aproveitamento do jazigo; 9) – não suspender os trabalhos com intenção de os abandonar, sem dar parte ao Governador Civil, e sem os deixar em bom estado de segurança; 10) – satisfazer aos impostos que as leis estabeleciam; 11) - enviar ao Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, anualmente, relatórios e plantas dos trabalhos executados no período anterior; 12) – não admitir novo director técnico, sem licença do Governo, ouvida a Junta Consultiva de Obras Públicas e Minas; 13) – estabelecer as obras necessárias para segurança e salubridade das povoações e dos operários; 14) – executar as obras necessárias para evitar o extravio das águas de regas; 15) – extrair do solo somente as substâncias úteis, indicadas no alvará e as que com elas se achassem intimamente associadas; 16) – não admitir nos trabalhos subterrâneos menores de 14 anos de idade.

Ao concessionário de uma mina, a contar da data da publicação do alvará de concessão, no Diário do Governo, eram concedidos doze meses para a apresentação no Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, do plano de lavra da mina, em duplicado, acompanhado de uma memória justificativa, também em duplicado, sendo um dos exemplares devidamente selado. Uma concessão mineira era atribuída por tempo ilimitado, enquanto o concessionário cumprisse as condições gerais acima mencionadas. Para que a Administração estivesse sempre ao corrente de como as minas eram lavradas, deveriam os concessionários enviar, ao Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, no mês de Janeiro de cada ano, uma nota dos trabalhos feitos no ano anterior, a planta e perfis respectivos a esses trabalhos. Todas as minas eram visitadas anualmente, pelo menos uma vez; o engenheiro que fizesse a visita registaria em Auto todos os progressos dos trabalhos realizados, bem como deveria especificar todas as anomalias, com a recomendação de serem corrigidas. Todos os concessionários de minas eram obrigados a pagar, ao Estado, um imposto fixo anual, dependendo da área de concessão, e um imposto proporcional ao valor do minério utilizado.

Esta Lei de 1892 era composta por dez capítulos. O primeiro estava relacionado com as disposições fundamentais; o segundo com os manifestos de minas; o terceiro com as

sexto com as penalidades aplicadas aos concessionários de minas; o sétimo com os direitos e obrigações dos proprietários dos terrenos; o oitavo com os privilégios dos concessionários de minas; o nono com a polícia e jurisdição relativa às minas e por último, o décimo capítulo relacionado com as disposições transitórias. Toda a documentação encontrada relacionada com o registo das várias concessões mineiras de Ervedosa, bem como as etapas posteriores estavam de acordo com a Lei referida.

O Diário do Governo nº 57, I série, de 13 de Abril de 1917, publica a Lei nº 677, que regulava o exercício da indústria de exploração de minas. Este assunto estava sob a tutela do Ministério do Fomento. Nesta disposição foram suprimidos alguns capítulos da lei anterior e criados outros como: o capítulo relacionado com os impostos; com a exportação, venda e circulação de minérios; e com o Conselho Superior de Minas. Em relação a este último aspecto, era criado um Conselho Superior de Minas, no Ministério do Fomento, ao qual competia emitir parecer sobre: os assuntos relativos à concessão, exploração e lavra de minas, e das reclamações que lhe dissessem respeito. Seria criado, também, um museu para coleccionar e classificar os exemplares mineiros e metalúrgicos e um boletim de publicação anual tendo por director o inspector-geral de minas, e por secretário o chefe da repartição de minas. Neste boletim, seriam publicadas as memórias científicas relativas ao movimento mineiro e metalúrgico do país, à exploração de águas mínero-medicinais, aos trabalhos e investigações químico-metalúrgicas, às cotações dos minérios nos diversos mercados, e os relatórios dos trabalhos realizados para a conclusão do levantamento da carta mineira e minero-gráfica continental. O Conselho Superior de Minas seria constituído por um professor da secção de mineralogia e geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, por um professor da cadeira de arte de minas do Instituto Superior Técnico, e por três engenheiros da secção de minas. Esta Lei não acrescentava nada de novo, em relação a anterior.

Em 1930, a publicação do Decreto nº18713, de 1 de Agosto, vem codificar e actualizar a legislação mineira anterior. Referia ainda medidas a adoptar para evitar a incorporação das águas de esgoto ou residuais dos trabalhos mineiros nos rios, ribeiras ou pontes, da qual poderia resultar prejuízo para terceiros. Neste Decreto, o Governo preocupou-se com algumas questões novas que, até então, não tinham sido abordadas nas leis anteriores. Assim, houve uma preocupação em proteger os trabalhadores nacionais, não permitindo que mão-de-obra estrangeira invadisse a indústria mineira, e atendeu às condições sanitárias, bem como à assistência médica, farmacêutica e escolar. Também foi estabelecido que, para um conjunto de concessões contíguas ou vizinhas, das mesmas substâncias minerais, poderia o respectivo

demarcação única. Para todos os efeitos legais, a esse conjunto denominar-se-ia por Couto Mineiro, que corresponderia a uma só concessão.

No capítulo referente às obrigações e direitos dos concessionários mineiros, salientámos as alíneas mais importantes que depois encontrámos nos relatórios da concessão mineira de Ervedosa, nomeadamente, as concessionárias eram obrigadas a subvencionar a construção de estradas do estado e dos corpos administrativos, vias férreas e vias navegáveis que fossem utilizadas para os transportes dos produtos das minas; subsidiar estabelecimentos de assistência pública de que aproveitassem os respectivos operários; manter uma escola primária desde que o pessoal na mina atingisse o número de 100 indivíduos; e garantir assistência médica e farmacêutica, com obrigação de possuir uma ambulância permanente para os primeiros socorros. O não cumprimento das leis seria punido com multas fixadas pelas tabelas em vigor na época.

Em 1959, através do Decreto-Lei nº42205, pretendia-se afirmar algumas disposições do Decreto nº18713, de 1 de Agosto de 1930, redacção mais adequada aos princípios gerais que o enformam, solucionando as questões emergentes do direito às concessões mineiras, nos casos de transmissão, por morte do concessionário, estabelecendo algumas providências aconselhadas pela prática quanto a acessórios mineiros, trânsito de minérios e respectivas guias, bem como ao abandono de facto das concessões.

Passamos a apresentar os Diários do Governo referentes a cada concessão em estudo: a mina da Borralheira (ver quadro I e anexo I), a mina do Pereiro (ver quadro II e anexo II) e a mina do Alto do Vale da Veiga (ver quadro III e anexo III) e, a partir de 1938, surge o Couto Mineiro de Ervedosa (ver quadro IV e anexo IV):

Quadro 1 - Diários do Governo relacionados com a concessão mineira da Mina da Borralheira

Mina da Borralheira

Diário do Governo nº196 de 1 de Setembro de 1906 (Édito) Diário do Governo nº126 de 8 de Junho de 1909 (Portaria)

DG nº291 de 23 de Dezembro de 1909 (Alvará)

DG nº233, II Série de 6 de Outubro de 1914 (Aprovação do plano de lavra) DG nº126, II série de 1 Junho de 1920

DG nº 291 de 22 de Novembro de 1920 (Alvará de transmissão)

DG nº62, II série de 17 de Março de 1922 (Nomeação do director técnico) DG nº156, III Série de 10 de Julho de 1928 (Escritura)

DG nº7 II Série de 9 de Janeiro de 1937 (Autorização de transferência) DG nº25 de 5 de Maio de 1937 (Alvará de transmissão nº2005)

DG nº102, II Série de 5 de Maio de 1938 (Incluída no Couto Mineiro de Ervedosa)

Quadro 2 - Diários do Governo relacionados com a concessão mineira da Mina do Pereiro

Mina do Pereiro

Diário do Governo nº196 de 1 de Setembro de 1906 (Édito) Diário do Governo nº126 de 8 de Junho de 1909 (Portaria)

DG nº292 de 23 de Dezembro de 1909 (Alvará) DG nº126, II série de 1 Junho de 1920

DG nº 260 de 20 de Novembro de 1920 (Alvará de transmissão)

DG nº62, II Série de 17 de Março de 1922 (Nomeação do director técnico) DG nº156, III Série de 10 de Julho de 1928 (Escritura)

DG nº7, II Série de 9 de Janeiro de 1937 (Autorização de transferência) DG nº103, II Série de 5 de Maio de 1937 (Alvará de transmissão nº2006)

DG nº102, II Série de 5 de Maio de 1938 (Incluída no Couto Mineiro de Ervedosa)

Quadro 3 - Diários do Governo relacionados com a concessão mineira da Mina do Vale da Veiga

Mina do Alto do Vale da Veiga

Diário do Governo nº96 de 3 de Maio de 1909

DG nº247 de 21 de Outubro de 1912

DG nº259, II Série de 5 de Novembro de 1914 (Alvará) DG nº126, II Série de 1 de Junho de 1920

DG nº258, II série de 18 Novembro de 1920 (Alvará de transmissão) DG nº62, II Série de 17 de Março de 1922 (Nomeação do director técnico) DG nº156, III Série de 10 de Julho de 1928 (Escritura)

DG nº7, II Série de 9 de Janeiro de 1937 (Autorização de transferência) DG nº103, II Série de 5 de Maio de 1937 (Alvará de transmissão nº2004)

DG nº102, II Série de 5 de Maio de 1938 (Incluída no Couto Mineiro de Ervedosa)

Quadro 4 - Diários do Governo relacionados com o Couto Mineiro de Ervedosa

Couto Mineiro de Ervedosa

Diário do Governo nº102, II Série de 5 de Maio de 1938 (Demarcação do Couto Mineiro)

DG nº87, II Série de 15 de Abril de 1939 (paiol para explosivos)

DG nº171, II série de 27 Julho de 1946 (verba atribuída para a reparação de estradas)

DG nº241, II Série de 16 de Outubro de 1946 (verba atribuída para a reparação de estradas – 1ª fase) DG nº189 de 15 de Agosto de 1947 (verba atribuída para a reparação de estradas – 2ª fase)

DG nº66, II Série de 22 de Março de 1949 (autorização de inauguração da estrada)

DG nº290, III Série de 16 de Dezembro de 1949 (autorização para a instalação de uma máquina de extracção e respectivo cavalete)

DG nº247, III Série de 18 Outubro de 1952 (nomeação de engenheiro) DG nº 157, III Série de 7 Julho de 1953 (instalação do Paiol de 2ª espécie) DG nº277, III Série de 28 de Novembro de 1957 (nomeação de engenheiro) DG nº86, III de 11 de Abril de 1962 (aprovação de um novo engenheiro)

Pela leitura verificámos que os procedimentos tomados pelos concessionários (Société

des Mines d’Étain de Ervedosa, Sociedade Ervedosa Tin Mines Ldt., e a sociedade Tuella Tin Mines Ldt.) na legalização das concessões, estavam de acordo com as Leis acima analisadas.

Todos estes Diários do Governo foram referidos nos processos consultados no arquivo do INETI de Alfragide, que mais à frente analisaremos. Após o levantamento dos Diários do

Governo, recorremos à Biblioteca Nacional de Lisboa para uma análise mais aprofundada.

Completámos este estudo recorrendo ao trabalho de FERNANDES (1996), embora tivéssemos verificado que estava incompleto.

II.1.1.2. Registo da Nota do Descobrimento ou Nota de Registo ou Registo do Manifesto

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