• Nenhum resultado encontrado

O ilustrador: Intermediário na relação do texto e da imagem O recorrente uso do termo imagem, por vezes, é suportado com diversos significados sem

16. Entrevista Catarina Sobral

2.6.2 Die Grosse Flut

O último caso de estudo, pertence ao colectivo It’s Raining Elephants. A publicação que ire-

mos analisar é Die Grosse Flut (2011), que consiste numa reinterpretação de um texto bíblico,

A Arca de Noé. As ilustradoras ficaram fascinadas com a força arcaica e o absurdo, de deter- minados excertos que possui este texto, que já teve enumeras publicações e interpretações, inclusive a nível da ilustração. Esta nova abordagem cria metáforas sobre padrões dominan- tes entre as pessoas. Arrecadou uma menção honrosa na Illustrarte Portugal, dois prémios no

CJ Picture Book Festival, na Coreia e ganhou o prémio internacional de ilustração na feira do

livro infantil e juvenil em Bolonha.

A publicação, explora o artefacto de forma interessante, o suporte na sua magnitude. Numa história ilustrada sobre a queda, salvação e renovação, o colectivo criou uma em-

balagem (Fig.15), que inclui no seu interior três cadernos desdobráveis, correspondentes

aos temas mencionados, onde o leitor pode ler e descobrir as ilustrações. E no fim, quan- do abrimos o desdobrável é possível obter uma ilustração em grande formato, densa de elementos e personagens.

69

Capítulo II

A capa principal da embalagem (Fig.15), tem o título da publicação no canto superior esquer-

do e é composta por três cores, azul, vermelho e amarelo, sobrepostas por cima da ilustração a grafite. Estas três cores correspondem, no interior, a um respectivo caderno. A ilustração, da capa, remete-nos para um ambiente atmosférico, de sonho, como se o observássemos através de um binóculo. Um lugar, que poderá ser aquele que Noé anseia encontrar para desembarcar com todas as espécies, e assim, salvar a vida na Terra.

Quando abrimos a publicação, visualizámos a ilustração de uma cápsula petri, com diversas células microscópicas, que nos remetem para a criação do Universo. O texto presente na publicação é em alemão, com uma adaptação para francês, infelizmente não conseguiremos

traduzir expressões na sua totalidade. No entanto, na parte superior e inferior (Fig.15), o leitor

é confrontado com uma lista, cujo o título é Vor Der Sinflut, refere-se à informação antes do Dilúvio, e contêm um símbolo que nos remete para um contexto religioso. Ao continuar, a descobrir o objecto, o leitor é confrontado com a presença de metade de uma maçã ilustrada, que é recorrentemente, tida como símbolo do pecado, mas também, da fertilidade, conheci- mento, desejo e de mundo, pela sua forma.

Os três cadernos (Fig.16), contém inscrito na capa, no canto superior direito, Genesis, e uma ilustração no centro página.

70

Capítulo II

Ao continuarmos a leitura, de forma contrária, deparamo-nos com uma noz, símbolo da

fertilidade. Na página seguinte, observamos uma nova aproximação ao rosto de Noé (Fig.18),

com uma expressão séria, pensativa. A última ilustração dá-nos sinais para o que iremos descobrir a seguir. No meio do condenável comportamento humano, há uma personagem que está a cortar uma árvore. Certamente, para a construção da arca de Noé, que podemos

descobrir quando abrimos o interior do caderno (Fig.19).

As ilustrações são compostas por inúmeras personagens, onde o colectivo, intervém e acres- centa mais informação ao texto, por vezes de forma irónica, onde até a morte (representada por um esqueleto) tenta salvar a vida na Terra, ao intervir na construção da arca.

Fig.18 Ilustração primeiro caderno - terceira dupla página Fig.19 Ilustração primeiro caderno - quarta dupla página

Na capa do primeiro caderno, com o tema a queda, dominante pelo tom vermelho, conse- guimos observar a vista de cima de um tronco com todos os seus anéis, que representam os anos de vida de uma árvore, portanto o tempo, que está a ser perfurado. A madeira também é o material utilizado na construção da arca.

No decorrer da visualização do caderno, observamos que a ilustração conjuga-se ao lado do texto, demonstra cenas sobre o comportamento do ser humano, que são impróprias, tidas como pecado, no recorrer do texto. As ilustrações presentes, nas últimas duplas páginas, são

um momento de silêncio, de reflexão e comparação. Um homem (Fig,17), Noé, aparece com

um olhar baixo (na página direita), ao lado, na página esquerda há uma aproximação ao que ele vê, uma pequena formiga. Quando fechamos o caderno, é representado o momento em que Deus (os raios de luz), fala com Noé.

71

Capítulo II

Fig.20 Ilustração primeiro caderno - em grande formato

O segundo caderno, a salvação, é composto pela cor azul. A ilustração da capa é uma nu- vem densa, com chuva, remetendo-nos para o dia do Dilúvio. Quando iniciámos a leitura

do caderno, somos surpreendidos por uma dupla página, de cor azul (Fig.20), só com texto.

Na dupla página seguinte, apenas com ilustração, podemos observar a reunião dos diversos casais de animais, a entrarem para dentro da arca de Noé. As restantes ilustrações são muito saturadas de negro, muito texturadas, remetem o leitor para a acção que está a decorrer, a

tempestade. Como se irá descobrir quando abrirmos o caderno (Fig.21) onde em torno de uma

silhueta, numa posição embrionária, (um novo ser humano está a ser gerado), tudo o que era menos bom à sua volta parece desaparecer.

72

Capítulo II

O último caderno, a renovação, dominante pelo tom amarelo tem na capa uma pena, que simboliza, principalmente o pensamento, e neste caso, marca um novo início, uma nova for-

ma de pensar. A primeira dupla página, é composta por ilustração (Fig.21), o leitor pode ver

os animais amontoados dentro da arca, não há espaço. E na próxima ilustração (Fig.22), estes

apresentam uma expressão triste, cansada e de desespero. Seguidamente, após cento e cin-

quenta dias, Deus mostra a terra. Na ilustração de grande formato (Fig.23), depois de todo o

tempo de espera e angustia, os animais e as pessoas encontram um novo espaço para viver e prolongar a vida na Terra, é o momento da libertação.

Fig.23 Ilustração terceiro caderno - primeira dupla página Fig.24 Ilustração terceiro caderno - terceira dupla página

73

Capítulo II

Comparativamente, ao estudo de caso anterior, neste artefacto, a ilustração assume um pa- pel predominante face ao texto, atendendo que este não é tão denso.

Die Grosse Flut (2011), também é uma publicação recente, foi uma das principais influências

na concretização do projecto prático. Em comparação, trata-se da interpretação de um texto com muitos séculos, um tema bíblico, representado contemporaneamente. É bastante inte- ressante a forma como o objecto físico foi construído. Consegue prolongar no leitor, a sensação de descoberta sempre que é manuseado. O tratamento de cor plana ajuda a cons- truir um ritmo bastante dinâmico. É evidente que o colectivo de ilustradoras interpretou e acrescentou uma nova leitura sobre o texto, através dos signos icónicos. Ressaltámos a importância da pesquisa, e da criação de metáforas em torno da ilustração, que enriquece o texto e aumenta as possibilidades de interpretação, relativamente às expectativas que o leitor poderá criar.

Fig.25 Ilustração terceiro caderno - em grande formato

74

Capítulo III

75 • Capítulo III

Capítulo III

3.1 Artefacto

Projecto Prático

Um projecto pode desenvolver-se de diversas formas. No terceiro capítulo, desta investiga- ção, iremos referenciar todas as etapas da concretização do projecto prático.

Até à materialização final, esta publicação passou por diversas fases projectuais, como são exemplo, o estudo do objecto, a interpretação do texto, a realização da ilustração, a edição e a paginação do artefacto final. Serão estes, os tópicos abordados ao longo deste último capítulo. Pois, o livro comunica através de um conjunto de factores, para além do texto e da ilustração, o processo editorial, apesar de ter um papel mediador, ajuda a reforçar a ideia que tentámos transmitir.

Inicialmente debruçámo-nos sobre uma intensa pesquisa, excedente ao texto, que foi referi- da na primeira parte desta investigação. Obtivemos informação sobre o enunciado narrativo, que podíamos usar, não só para interpretar a ilustração e criar a nossa própria visão sobre o texto, mas para pensar o artefacto gráfico.

Simultaneamente, a este processo, desenvolvemos o primeiro mono, um estudo sobre o li- vro, enquanto objecto físico, que pudesse representar e identificar Mariana Alcoforado e As

Cartas Portuguesas. Com o intuito, de criar uma base de trabalho que nos ajudasse a tomar

decisões, sobre a realização prática da ilustração, nomeadamente, o tamanho original do suporte que deveríamos usar. O formato do livro é uma característica importante, para além da capa, que comunica imediatamente, o tamanho, a escolha dos materiais e dos caracteres dispostos ao longo do objecto, também, são factores que devemos ter em conta.

Atendemos à magnitude que As Cartas Portuguesas atingiram ao longo dos séculos, o que nos levou a explorar um formato maior, comparativamente às edições que consultamos da obra, e tendo em conta, as possibilidades de produção enquanto protótipo, a sua dimensão é de vinte e quantro por trinta e quatro centímetros.

Esta edição das cartas de Mariana Alcoforado é impressa em Munken Lynx, de cem gramas, que possui um agradável toque, uma sensação natural e genuína no papel, que cria um forte contraste com a densidade escura das ilustrações e do texto. A cor branca, símbolo de pure- za, limpeza e paz, remete o leitor para os sentimentos verdadeiros e o alívio que o desabafo das cartas significava para a remetente. O branco também é o símbolo do amor de Deus, da espiritualidade, inocência e virgindade, partindo do estatuto de freira e do facto desta se sentir enganada pelo seu amado, pensámos que faria todo o sentido o objecto ser, comple- tamente nesta tonalidade. Assim sendo, a capa, recorre ao mesmo papel, numa gramagem superior, para dar continuidade a este bloco de cor.

76

Capítulo III

A capa, é o primeiro indício de toda a mensagem e interpretação contida no livro ilustrado. A exploração gráfica da capa e contra-capa procurou acentuar a potencialidade da narrativa, desafiando o leitor, num carácter pouco comum numa publicação, a questionar-se sobre a ausência de informação. Pois, tratam-se de cartas de amor, são um conteúdo muito pessoal, apesar de neste caso particular, já não serem secretas, tencionámos explorar um certo mis- tério na descoberta do objecto.

Na capa, apenas está cravado um calo com uma folha caída. Simboliza o narrador do texto, a última lembrança que restou deste sentimento e as suas cartas. A morte de todas as esperan- ças, a folha caída, ao lado do calo que ficou de pé, abandonado, como Mariana Alcoforado. A envolver todo o objecto, está um material “precioso”, a folha dourada, da qual foi possível carimbar a capa. Este material, é bastante sedutor pelo seu brilho e cor, remete, não só para a classe nobre, de que a autora e o cavaleiro pertenciam, como para a preciosidade da obra. Afinal, estamos perante a interpretação de um texto que remonta o século XVII, que viajou por diversos idiomas e tantas controvérsias e interpretações arrecadou.

A concepção, do saco dourado foi bastante difícil, pela sensibilidade do material, no entanto, achámos que seria o mais indicado, atendendo à sua fragilidade e leveza, caracteriza a auto- ra e o conteúdo do texto.

77

Capítulo III

78

Capítulo III

Outro elemento que assume um carácter relevante, no objecto, é a presença das cinco fitas que correspondem a cada carta. As primeiras quatro cartas possuem uma transição de cor, entre o branco, passando por tons cada vez mais escuros de cinzento, até à cor preto. Mais uma vez é representado, à semelhança do primeiro caso de estudo, o declínio da pureza des- te “encantamento” e o fim da relação. Como tal, a última carta corresponde a uma fita de cor azul, associada à tranquilidade, serenidade e harmonia, o estado que certamente Mariana terá alcançado depois da importante decisão. Para além, de ter uma relação simbólica com uma das cores, dos uniformes dos cavaleiros franceses, nesta época, “uniformes vistosos,

azuis e oiro (...)” (Martins, 2006, P.6). Este primeiro contacto com o objecto, reforça o jogo de ex-

pectativas que se dirigem ao leitor, todos estes elementos, introduzem o leitor ao conteúdo. As guardas, para além da sua função funcional, na abertura do livro, ou conceptual (pelo conteúdo), primeiramente devem antecipar a narrativa e por fim remeter novamente para a mesma. Frequentemente, são uma extensão da narrativa visual do livro, neste caso, princi- palmente, por questões de produção, não transcenderemos o miolo para as guardas. Estas serão representadas por cores planas. A primeira será no tom azul, é uma relação directa com a última carta, leva o leitor para o interior do livro. A última guarda será na cor preto, que remeterá novamente o leitor para o interior da narrativa, visto que, é uma cor muito presente na densidade das ilustrações monocromáticas.

79

Capítulo III

A folha de rosto, revela ao leitor as principais informações para iniciar a leitura do texto, identifica o autor, da obra em questão, o ilustrador e o autor da tradução para português (das cinco cartas), pois, dependendo do tradutor do texto, determinadas expressões textuais poderão ser diferentes. Visto que, as guardas são numa cor plana, decidimos que a folha de rosto fosse sugestiva, na medida em que oferece ao leitor, um primeiro contacto com a ilus- tração que encontrará no interior do livro, dando início à narrativa.

A paginação do texto, inicialmente, revelou-se um desafio. Atendendo à densidade do enun- ciado narrativo e a ausência de níveis diferenciados de informação. Como tal, a análise ao segundo caso de estudo revelou-se fundamental, apesar de As Cartas Portuguesas, não pos- suírem uma estrutura tão igualitária. Decidimos apenas, ressaltar alguns excertos, que saem fora da estrutura da grelha do texto corrente, e que se relacionam com a metáfora da ilustra- ção. Cria-se diferentes níveis de leitura, o texto torna-se mais apelativo para o leitor.

80

Capítulo III

Como tal, foi necessário também, marcar os parágrafos do enunciado narrativo. Optámos por não numerar as páginas do livro, porque partimos do princípio que o texto original, corresponderia, ao formato de carta. Na escolha tipográfica, seleccionámos duas tipografias serifadas, para os destaques atribuímos preferência a uma que transparecesse uma

base caligráfica.

O ritmo do livro foi construído numa organização de dupla página, que mantém separado, o texto e a imagem, apenas no fim de cada carta, aparecem em páginas articuladas. Com o intuito de preservar os mesmos, valorizando ambas as vertentes, para que o leitor tenha a possibilidade de explorar as duas leituras, a narrativa textual e visual, como mencionámos no capítulo anterior.

81

Capítulo III

Fig.31 Visualização dos spreads do livro, página 1 à 29

82

83

Capítulo III

Fig.32 Visualização dos spreads do livro, página 30 à 90

84

Capítulo III

85

Capítulo III