• Nenhum resultado encontrado

TIPOS DE DISLEXIAS

4. A aprendizagem da escrita: obstáculos, dificuldades e perspetivas

4.1. Dificuldades de escrita dos alunos do 1º CEB

Os diferentes tipos de distúrbios causadores das dificuldades com que algumas crianças se deparam na escrita correta das palavras são denominados por disgrafia ou disortografia (Fonseca, 1999; Cruz, 2009; Cuetos, 2009).

Dificuldades de Leitura e de Escrita

4.1.1. A disgrafia

A disgrafia é um problema que se prende mais com a execução do que com a composição. Por seu lado, a disortografia é um problema que se relaciona com a capacidade de planificação e de formulação escrita (Cruz, 2009).

Citoler (1996) e Cuetos (2009) sugerem uma classificação das disgrafias, onde se distinguem dois tipos: as disgrafias adquiridas, quando causadas por lesão cerebral, cujo aspeto da escrita passa a apresentar alterações, depois do sujeito já ter aprendido a escrever; as disgrafias evolutivas ou de desenvolvimento, quando os indivíduos têm dificuldades de aquisição da escrita sem que, para isso, exista uma razão que as justifique.

Dentro das disgrafias adquiridas, são considerados dois tipos: a disgrafia adquirida central e a disgrafia adquirida periférica. A disgrafia adquirida central resulta de transtornos feitos ao nível de uma ou de ambas as vias de acesso ao léxico, daí resultando, consequentemente, distúrbios na produção escrita das palavras. Por seu lado, a disgrafia adquirida periférica resulta de transtornos nos processos motores posteriores à recuperação léxica das palavras (Citoler, 1996; Cuetos, 2009).

Segundo os mesmos autores, a disgrafia adquirida central pode ter as seguintes variedades, tendo em conta o tipo de transtornos:

ـ Fonológica - os transtornos situam-se na via fonológica (indireta), o que provoca distúrbios, ao nível de conversão de fonemas em grafemas. Deste modo, e porque os sujeitos só conseguem usar a via léxica, a principal dificuldade reside na escrita de pseudo-palavras e de palavras desconhecidas. ـ Superficial - como os transtornos se situam na via ortográfica (direta), os

sujeitos só podem usar a via fonológica, residindo as dificuldades na recuperação dos padrões ortográficos das palavras. Ou seja, os sujeitos não conseguem escrever corretamente palavras irregulares, mas conseguem escrever pseudo-palavras e palavras sujeitas a regras; cometem, em contrapartida, erros na escrita de palavras de ortografia arbitrária.

Capítulo III: O Ensino e a Aprendizagem da Leitura e da Escrita a Alunos do 1.º Ciclo

nível da escrita de palavras irregulares resultantes do mau funcionamento da via ortográfica, e de uma total incapacidade de escrita de pseudo-palavras, por causa da obstrução da via fonológica. O principal sintoma dos disléxicos profundos são os erros semânticos, na escrita de ditado e escrita espontânea isto é, manifestam dificuldade em substituir uma palavra por outra que com ela se relacione, semanticamente (Cuetos, 2009).

ـ Semântica - neste caso de disgrafia, os sujeitos escrevem sem saber o significado daquilo que estão a escrever. Assim, os sujeitos podem escrever corretamente um ditado de palavras de ortografia arbitrária ainda que não compreendam o significado daquilo que escreveram (Cuetos, 2009).

Em relação à disgrafia periférica, esta resulta de falhas nos processos motores (Citoler, 1996; Cuetos, 2009; Cruz, 2009).

Na perspetiva de Cuetos (2009), as disgrafias periféricas podem afetar somente algumas formas de escrita, continuando outras a funcionarem corretamente. Isto explica que se subdividam em vários tipos relacionados com as lesões a nível de vários processos, que podem ir desde o armazém grafémico até à realização motora. Assim, quando a lesão é no armazém grafémico, os distúrbios são iguais em todas as palavras, nomeadamente em palavras extensas, por se tratar de um armazém de memória de curto prazo, revestindo-se, ao mesmo tempo, de omissões e substituições; quando a lesão se situa num estádio posterior ao armazém grafémico, as dificuldades residem na soletração das palavras e não na escrita; se a lesão for no mecanismo de conversão alográfica, pode ocorrer um correto conhecimento do grafema, mas não uma utilização correta do alógrafo; se a lesão for no próprio armazém alográfico, as dificuldades residem em certos alógrafos ou em toda a classe de alógrafos; quando a lesão é concebida na conexão do armazém grafémico com o armazém de padrões motores, os erros situam-se, quase sempre, nas substituições de letras (este distúrbio só existe na escrita à mão); se a lesão estiver no mecanismo de acionamento do padrão motor grafémico, verifica-se a perda de informação nos programas motores que dirigem a formação das letras, dando origem à disgrafia apráxica; quando a lesão se situa nos processos percetivos, por ausência visual e quinestésica dos movimentos que executam a escrita, as dificuldades maiores residem na escrita à mão e em letras que exigem a

Dificuldades de Leitura e de Escrita

repetição de traços (“m”, “n”, “E”, …). A presença destas dificuldades é denominada de disgrafia aferente.

Cuetos (2009) considera, ainda, a existência de outros tipos de distúrbios na escrita, motivados por problemas, exclusivamente, motores, ou seja, pela debilidade muscular, pelo tremor de mãos, pela ausência de controlo motor, entre outros.

Em síntese, podemos concluir que as dificuldades de aquisição da escrita podem ser originadas por transtornos na via fonológica, na via ortográfica ou nas duas vias. Assim, as dificuldades resultam de falhas na planificação, porque o sujeito não consegue redigir um pequeno texto; de falhas na construção da estrutura sintática, no processamento léxico e nos processos motores (Cuetos, 2009).

No que diz respeito às disgrafias evolutivas ou de desenvolvimento, podemos dizer que ocorrem sem razão aparente que as justifique (Cruz, 2009). Provavelmente, o problema terá origem em alguma disfunção cerebral na área da linguagem (Cuetos, 2009).

Tal como acontece em relação aos tipos de disgrafias adquiridas, as disgrafias evolutivas ou de desenvolvimento, tendo em conta a sua origem, também se apresentam divididas em várias tipologias (Citoler, 1996; Cuetos, 2009):

ـ Fonológica - quando se verifica que os sujeitos não conseguem aprender as regras de conversão fonema-grafema, ou seja, revelam dificuldades de aquisição da via fonológica, e, logo, surgem dificuldades na escrita de pseudo-palavras.

ـ Superficial - quando as dificuldades se situam na aquisição da via ortográfica, os sujeitos cometem mais erros nas palavras irregulares ou não familiares do que nas regulares ou familiares.

ـ Mista - quando há dificuldade na aquisição de ambas as vias, isto é, a fonológica e a ortográfica.

Capítulo III: O Ensino e a Aprendizagem da Leitura e da Escrita a Alunos do 1.º Ciclo

ـ Confusão de grafemas (“m” e “n”, “d” e “b”, …) e confusão originada pela conversão fonema/grafema (“j” e “x”, “f” e “v”,…);

ـ Erros ortográficos pelo uso deficitário da via ortográfica (troca do “v” pelo “b”, “g” e “j”, etc.);

ـ Escrita em espelho, quando os traços das letras são invertidos (“d” e “b”, “p” e “q”,…), e letras nas palavras (“pai” e “pia”, “ema” e “ame”, …).

A última característica que enunciámos, ou seja, a escrita em espelho, é um tipo de alteração na escrita, resultante do facto de a criança não ter desenvolvido, suficientemente, a lateralidade, e de, por conseguinte, confundir a direita com a esquerda, não conseguindo, por isso, distinguir o lado em que deve colocar a letra. Isto é, este transtorno de escrita é sustentado pela teoria que considera que muitas crianças com problemas na escrita confundem a direita com a esquerda.

Embora, na nossa opinião, esta seja uma interpretação pouco sustentada da problemática, tendo em conta que há crianças que não cometeram esses erros e não têm a noção de direita e esquerda, existindo outras perfeitamente lateralizadas a cometerem tais erros. Além disso, encontrámos outras explicações da escrita em espelho que sugerem que esta se deve ao fraco domínio do esquema corporal, embora investigações, nesta área, tenham demonstrado que a relação de causa e efeito entre a escrita e o conhecimento do corpo não existe (Cuetos, 2009).

Uma outra explicação da escrita em espelho considera que as inversões nos traços que constituem as letras são causadas pela deficiente representação do signo, por parte do sujeito. Ou seja, o sujeito conhece parte da representação, mas não a sua totalidade (Miles e Ellis, 1981).

Cuetos (2009), na abordagem à escrita em espelho, refere-se a dois tipos de inversões, as referentes às inversões dos traços e as relativas às inversões de letras. Nas inversões de letras que compõem uma palavra, o sujeito tem uma representação incompleta do léxico, por deficiência na representação ortográfica, e por deficiência nas regras de conversão fonema grafema. Este distúrbio poderá situar-se, ao nível da memória de trabalho, dependendo, ao mesmo tempo, da eficácia da recuperação dos grafemas pela criança. Ou seja, se a criança for muito lenta e tiver uma memória de

Dificuldades de Leitura e de Escrita

trabalho reduzida, a sua escrita vai caraterizar-se pela omissão de letras e sílabas, devido ao esquecimento de alguma delas.

Cuetos (2009) sugere a existência de uma relação bastante estreita entre disgrafia fonológica e dislexia fonológica, porque as crianças que apresentam dificuldades em aprender a converter grafema em fonema também apresentam problemas para aprender a converter os fonemas em grafemas. Ao mesmo tempo, o especialista defende que a disgrafia superficial pode estar presente em crianças que não apresentam dificuldades na leitura. Por isso, na perspetiva do autor, encontram-se, com frequência, leitores fluentes que cometem várias falhas na ortografia.

4.1.2. A disortografia

A disortografia ou dificuldades na escrita compositiva “ocorre quando o indivíduo apresenta perturbações nas operações cognitivas de formulação e sintaxe, em que o indivíduo, apesar de comunicar oralmente, de poder copiar e revisualizar palavras e de conseguir escrevê-las quando ditadas, não consegue organizar nem expressar os seus pensamentos segundo regras gramaticais (Fonseca, 1999, in Cruz, 2009:185).

Ou seja, de um modo geral, os indivíduos com disortografia apresentam grandes dificuldades na execução dos processos cognitivos subjacentes à escrita compositiva (planificação, construção da estrutura sintática, selecção de palavras e revisão).

Assim, segundo Cuetos (2009), os indivíduos disortográficos produzem textos com características específicas.

Assim, ao nível da planificação, verificam-se dificuldades na criação de mensagens escritas minimamente aceitáveis. São características de crianças com níveis de inteligência baixa, pouco criativas e de contextos familiares pobres, que exprimem as suas ideias, desordenadamente, segundo a ordem pela qual elas vão surgindo. Ao nível da construção da estrutura sintática, as dificuldades são características em crianças possuidoras de uma linguagem oral gramaticalmente pobre.

Capítulo III: O Ensino e a Aprendizagem da Leitura e da Escrita a Alunos do 1.º Ciclo

como a contextos socioeconómicos baixos de fraca familiaridade com a escrita. Como consequência destes fatores, a criança apresenta um vocabulário muito reduzido e as suas produções escritas são repetitivas e simples.

Nos processos motores, as principais dificuldades são de três tipos: referentes aos alógrafos (confusão de alógrafos, mistura de letra minúscula com letra maiúscula, mistura de diferentes tipos de escrita, adição ou omissão de riscos, etc.); referentes aos padrões motores (letras mal desenhadas, excessivamente grandes ou pequenas, muito inclinadas, etc.); relativas à organização geral (desorganização espacial, palavras amontoadas, grandes espaços entre linhas, etc.).

Assim, para além de ser caracterizada pelos aspetos que acabámos referir, um outro aspeto merece referência, no que respeita à escrita dos indivíduos disortográficos, ou seja, é comum estes indivíduos esquecerem-se de fazer a revisão do texto (Citoler, 1996).

Cruz (2009) ou Baroja, Paret e Riesgo (1993), identificam uma série de falhas no indivíduo disortográfico: alterações na linguagem; erros na perceção; falhas na atenção; aprendizagem incorreta da leitura e da escrita.

Em relação às alterações na linguagem, os erros de escrita são provocados por falhas que se relacionam com o atraso maturacional na aquisição e utilização da linguagem, a escassez de vocabulário, o desconhecimento da escrita das palavras. Isto significa que a escrita da palavra ainda não foi interiorizada, registando-se falhas de compreensão linguística (Cruz, 2009). O mesmo autor refere que, nas falhas que provocam dificuldades de articulação, se incluem as disartrias, ao passo que as falhas que geram dificuldades de pronúncia incluem as dislalias.

Ainda no âmbito das causas das dificuldades de escrita, nomeadamente no que se refere aos erros de perceção, Cruz (2009) sugere que estes tanto podem ser de nível visual (dificuldade em memorizar os esquemas gráficos e discriminar qualitativamente os fonemas) como serem provocados por instabilidade atencional.

Por último, as falhas provocadas por uma aprendizagem incorreta da leitura e da escrita geram dificuldades de aprendizagem desta última capacidade, não só nas fases iniciais de aprendizagem como também em fases posteriores (Cruz, 2009).