Capítulo II: O Sistema de Leitura e de Escrita, Segundo a Perspetiva Cognitiva Perspetiva Cognitiva
3. A escrita enquanto atividade cognitiva
3.1. Processos cognitivos que intervêm na escrita compositiva
3.1.1. Planificação
Para se produzir um texto, é necessário que se dominem três competências: compositiva, ortográfica e gráfica. A automatização das competências ortográfica e gráfica deve ser adquirida, o mais cedo possível, para que o escrevente (aluno) possa dedicar toda a capacidade de processamento à competência compositiva, na perspetiva de Barbeiro e Pereira (2008).
Segundo, ainda, os mesmos autores, a competência compositiva implica várias tarefas: ativar conteúdos; decidir sobre a sua integração ou não; no caso da sua integração, articular os conteúdos com os outros elementos do texto; e, por último, dar-lhes uma expressão linguística para integrarem o texto, respeitando, para isso, exigências de coesão e de coerência.
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formulação de expressões linguísticas que constarão no texto, sendo, também, um ato influenciado por diferentes fatores: cognitivos, emocionais e sociais.
Na escrita compositiva, a componente de planificação deste processo é, certamente, o processo de maior complexidade cognitiva. Também chamada de componente de resolução de problemas e de tomada de decisões, por alguns investigadores (Bereiter e Sardamalia, 1987), o certo é que o escrevente tem de realizar um plano onde terá de decidir sobre o assunto que se apresenta, em primeiro plano, e, em segundo plano, decidir a quem se dirige, a forma como vai dizer, o que pretende, o que sabe sobre o assunto, entre outros (Black, 1982).
Flower e Hayes (1981) consideram que o processo de planificação da mensagem se desenrola em três etapas ou subprocessos:
- 1ª Etapa: gera-se a informação sobre o que o indivíduo pretende escrever, através da procura de informação, na memória de longo prazo. A informação que o sujeito vai encontrando serve de motor de busca de nova informação relacionada com a primeira, e, nalguns aspetos, de tipo causal, temporal, espacial, etc.
- 2ª Etapa: depois de gerada a informação, nesta etapa, selecionam-se os conteúdos mais relevantes, de entre os recuperados da memória, e organizam-se, em consonância com um plano coerente. Este plano de ideias pode estar organizado, em função das variáveis temporais, seguindo, para isso, uma ordem cronológica dos acontecimentos. Este plano pode, ainda, estar estruturado, de diferentes formas, o que depende da estrutura do tipo de texto que se pretenda escrever.
- 3ª Etapa: estabelecem-se os critérios para as perguntas que serão utilizadas, posteriormente, aquando do processo de revisão, para se verificar se o texto está de acordo com os objetivos.
Ao adotar esta perspetiva, Carvalho (2003:20) acrescenta que, deste modo, o processo “pressupõe uma forma de representação da realidade, a representação mental, numa outra forma de representação dessa realidade, a linguagem verbal. Essa
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representação mental apresenta uma forma própria, assente, não apenas no sistema linguístico, mas também em imagens, sensações, representações cinésicas…”.
De acordo, ainda, com Fonseca (1994), trata-se, igualmente, de um processo exigente a nível mental, porque implica a capacidade de relacionar diferentes ideias e de as colocar segundo uma ordem linear de informação, tendo em conta que destes mecanismos de linearidade da sequência discursiva que resulta a coerência do texto.
A planificação é um processo que depende de variáveis psicológicas inerentes ao próprio escritor, tais como a motivação, afeto e memória, assim como variáveis contextuais (Hayes, 1996).
É um processo de resolução de problemas, uns mais relacionados com os aspetos concetuais da escrita e outros mais relacionados com os aspetos da realização da tarefa de escrita (Nicholls et al., 1989). Assim, nesta perspetiva, é fundamental a colaboração, entre o professor e o aluno, antes e durante a atividade de escrita, assim como a colaboração do par ou do grupo (Martins e Niza, 1998).
Este processo é, de igual forma, um processo exigente a nível atencional, como advoga Cuetos (2009).
Segundo este autor, existem três estratégias que permitem ao escritor ultrapassar as exigências, relativamente à atenção, durante a componente da planificação: (1) alternar o foco de atenção de uma tarefa para a outra; (2) realizar todas as tarefas, em simultâneo, mas dando prioridade a umas sobre as outras; (3) recorrer a procedimentos automatizados, pois estas mesmas exigências requerem menos energia atencional (uso de expressões, introduções, entre outros).
Em síntese, podemos concluir que a planificação da mensagem é responsável pela criação e organização de ideias; por estabelecer objetivos e antecipar efeitos; por seleccionar conteúdos; pela organização da informação; e pela programação da realização da própria tarefa (Amor, 1993).
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3.1.2. Construção das estruturas sintáticas
Ultrapassada a componente da planificação e a decisão, relativamente àquilo que vai escrever, o escrevente passa para a redação propriamente dita do texto, isto é, à textualização (Barbeiro e Pereira, 2008).
Nesta fase, o escritor passa à construção das estruturas gramaticais que lhe permitem expressar a sua mensagem (Cuetos, 2009).
Segundo este autor, as estruturas sintáticas, neste estádio, constituem-se como armazéns vazios de conteúdo – uma vez que são as regras sintáticas que nos orientam na forma como a mensagem deve ser dita –, mas nunca nos indicam as palavras que devemos utilizar. Assim, na construção das estruturas sintáticas, o escritor terá de ter sempre em conta alguns fatores, tais como o tipo de frase (interrogativo, passivo, relativo, imperativo, etc.) e a colocação das palavras funcionais, que servirão de nexo de união entre as palavras e o conteúdo (Cuetos, 2009).
Assim sendo, podemos afirmar que estamos perante a passagem de um nível de discurso interior – caracterizado por uma sintaxe própria, desconexa e incompleta, com tendência para a elipse e a predicação –, para um nível em que o significado depende da forma como as palavras se combinam entre si (Vigotsky, 1993).
Deste modo, é importante referir que, embora alguns dos componentes da frase não sejam obrigatórios, todos eles têm de se ajustar às regras ortográficas.
O mesmo se passa em relação à construção das orações, em que um dos aspetos da linguagem escrita tem de estar presente, ou seja, os sinais de pontuação e auxiliares de escrita, pois o escritor tem de representar os traços prosódicos, através de sinais gráficos.
Ainda em relação à oração, é de referir que a escolha é, definitivamente, influenciada por fatores de âmbito linguístico e contextual (Block, 1982).
Assim, de acordo com o ponto de vista do autor citado anteriormente, podemos acrescentar, também, que o contexto prévio é determinante para a escolha da oração que o escritor (neste caso, o aluno) deve usar.
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Watson (1979) propõe que, no âmbito dos fatores contextuais que influenciam a escolha das orações, se inclui o tipo de texto, pois este determina a sua estrutura. Por exemplo, um tipo de texto persuasivo em relação ao destinatário, por norma, é constituído por orações, sintaticamente, mais complexas que textos do tipo narrativo ou descritivo.
Quanto à colocação das palavras funcionais, é necessário dominar as regras que regem a sua colocação. Por exemplo, sabemos, implicitamente, que o sintagma nominal ou grupo nominal requer a presença de um artigo; o complemento circunstancial, de uma preposição ou de um advérbio; etc. (Cuetos, 2009).
Neste sentido, podemos concluir que a ordem das palavras remete-nos para o significado, e, assim sendo, a alteração da sua ordem pode alterar o significado da mensagem.
É de referir, por último, que um dos aspetos marcantes da linguagem escrita é a pontuação. Com efeito, os sinais de pontuação e auxiliares de escrita permitem ao escritor representar, graficamente, a prosódia. Assim, este aspeto sintático é exigente relativamente aos conhecimentos do escritor, pois este tem de saber qual a função associada a cada sinal de pontuação (Cuetos, 2009).
3.1.3. Seleção das palavras
Depois de construído o armazém sintático pelo qual vai expressar a mensagem, o escritor passa para a seleção da(s) palavra(s). Esta realiza-se quase de maneira automática, através da ativação da representação da palavra que melhor se ajusta ao conceito que o escritor quer expressar, até mesmo quando, para o mesmo conceito, existe mais do que uma palavra. Neste caso, o escritor escolhe a palavra que mais se ajusta, de acordo com algumas restrições, isto é, se é repetida, se está mais de acordo com o estilo do texto, etc. (Cuetos, 2009).
A seleção das palavras implica, como já dissemos, o domínio do sistema ortográfico (competência ortográfica). Tal como acontecia, na leitura, o escritor pode
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Através da via léxica, o escrevente, por intermédio, da mensagem que quer expressar, ativa o significado ou o conceito que se encontra numa memória de conceito, denominada de sistema semântico. A seguir, procura a forma fonológica correspondente a esse significado, noutro armazém (memória), denominado léxico fonológico. Por último, a conversão dos sons que compõem a palavra em grafemas efetua-se, mediante o mecanismo de conversão fonema-grafema (CFG). Os grafemas que correspondem à palavra que se quer escrever ficam armazenados, numa memória operativa, denominada armazém grafémico (Lúria, 1974).
À semelhança do que acontecia na leitura, na via léxica, a representação ortográfica diretamente do léxico mental não permite a escrita de palavras desconhecidas ou de pseudo-palavras. Mas, o que é certo, é que é possível escrevê-las, o que prova a existência de outra via, neste caso, a via subléxica. A via sublexical permite ao escrevente obter a ortografia, graças à aplicação das regras de transformação de fonemas em grafemas, permitindo, assim, escrever palavras desconhecidas que sejam regulares. No entanto, se utilizada na escrita de ortografia arbitrária, pode levar a erros ortográficos (Ellis, 1982; Ellis e Young, 1988; Festas et al., 2007).
Estas duas vias de chegar à forma ortográfica de uma palavra encontram-se esquematizadas, nas figura 9 e 10.
Figura 9: Via subléxica da escrita, adaptado de Cuetos (2009).
Desta forma, embora esta via subléxica permita a escrita de muitas palavras, ela só é suficiente em idiomas completamente transparentes, o que não é o caso do
Sistema semântico
Léxico fonológico
Fonemas Grafemas
ESCRITA
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Português, por este ser um idioma onde existem muitas palavras homófonas e homógrafas. Depois disto, para tornar possível o acesso à forma ortográfica destas palavras, é necessário fazê-lo através de uma segunda via, a via léxica, neste caso.
Como podemos observar, no esquema abaixo, a recuperação da forma ortográfica faz-se através da via léxica.
Conforme ilustra a figura abaixo, começa-se pela ativação do significado, no sistema semântico; e, depois do sistema semântico, ativa-se, diretamente, a sua representação ortográfica armazenada no sistema ortográfico constituído pelas representações ortográficas das palavras (Cuetos, 2009).
Figura 10: Recuperação da forma ortográfica através da via léxica, adaptado de Cuetos (2009).
Em síntese, a via léxica não é eficiente para a escrita de palavras desconhecidas, ao passo que, pela via subléxica, é possível escrever uma palavra nunca vista, bastando, para isso, que seja regular, ou seja, que haja uma correspondência biunívoca, entre fonemas e grafemas.
Esta forma de explicar como se selecionam as palavras, consolida, uma vez mais, a ideia de ser a escrita uma tarefa cognitiva complexa. Os dois esquemas, representados pelas figuras 9 e 10 acima, são prova disso. Só nas duas vias de recuperação ortográfica das palavras estão implicados os seguintes processos: o sistema semântico; o léxico fonológico; o léxico ortográfico; os mecanismos de conversão fonema-grafema; o armazém de pronunciação; e o armazém grafémico.
Sistema semântico
Léxico ortográfico
Grafemas
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3.1.4. Processos motores
Depois de ativado o armazém grafémico, para ter acesso à forma gráfica das palavras que o escrevente vai compor, são necessários diferentes processos, antes de a palavra ser representada em qualquer tipo de suporte.
Fernando Cuetos (2009) considera que a primeira tarefa consiste em ir buscar a codificação grafémica da palavra que se encontra no armazém grafémico. De seguida, antes da palavra ser representada, procede-se à seleção do tipo ou forma de letra, os denominados alógrafos, que se encontra na zona da memória designada como armazém
aleográfico.
Terminado este mesmo processo linguístico, é a vez de se pôr em ação o processo motor, que permite, através de movimentos musculares, traduzir, graficamente, os alógrafos. É de referir, também, que a recuperação do padrão motor relativa ao alógrafo que o escritor pretende escrever, depende de uma zona cerebral próxima da área motora e que os padrões diferem, em função da escrita (tamanho de letra, o suporte da escrita, o material com que se escreve, etc.).
Em suma, podemos dizer que a concretização desta tarefa gráfica é uma tarefa perceptivo-motora muito complexa, uma vez que pressupõe uma sequência de movimentos coordenados, sendo que cada um deles tem de ocorrer, precisamente, no momento que lhe corresponde (Thomassen e Teulings, 1983).