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PARTE I: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2. O conceito de linguagem: algumas considerações gerais

Capítulo I: Conceitualização e Hierarquia da Linguagem

1. Introdução

Este capítulo, designado de Conceitualização e hierarquia da linguagem, para além da

Introdução, é constituído por mais dois subcapítulos, onde se abordam conceitos gerais

sobre linguagem e se explora a forma hierarquizada como esta última se desenvolve. No primeiro subcapítulo 2. O Conceito de Linguagem: algumas considerações

gerais, tecemos algumas considerações sobre o processo de desenvolvimento dos

sistemas simbólicos da linguagem, de acordo com teorias que lhe estão subjacentes, com vista a compreender melhor este conceito em que assentam e do qual fazem parte. Para alcançarmos este objetivo, exploramos alguns modelos explicativos da hierarquia da linguagem: o modelo da hierarquia da linguagem de Myklebust (1978); o modelo em cascata da hierarquia da linguagem de Fonseca (1999); o modelo das três faces da linguagem, de Heaton e Winterson (1996).

Na sequência do subcapítulo anterior, podemos concluir que a linguagem, uma especificidade do ser humano, se desenvolve em diferentes níveis, ou seja, de forma hierarquizada. Assim, no segundo subcapítulo 3. Hierarquia da Linguagem, procuramos abordar cada uma das etapas desta mesma hierarquia em que a linguagem assenta: Linguagem interior (verbal e não verbal); linguagem auditiva e falada; linguagem visual ou escrita.

Os subcapítulos anteriores remetem-nos para uma constatação que sustenta a teoria que defende ser a leitura e a escrita atividades cerebrais. Nesse sentido, encerramos este capítulo com alguns apontamentos que encaram a leitura e a escrita como tarefas cognitivas.

2. O conceito de linguagem: algumas considerações gerais

As tarefas complexas e simbólicas de ler, escrever e contar, iniciadas pela criança, quando esta entra na escola, dependem de progressos anteriores realizados, muito antes, do início da sua aprendizagem formal. Na verdade, estas tarefas são elementos de uma faculdade abrangente e hierarquizada, isto é, a linguagem (Lerner, 2003; Cruz, 1999,

Dificuldades de Leitura e de Escrita

2007). Isto quer dizer que, para percebermos a natureza da leitura e escrita, torna-se necessário abordar o conceito em que assentam, neste caso, a linguagem.

Silveira (2013:71) define a linguagem como “o conjunto de processos que permitem criar representações de conceitos mentais sobre o mundo e/ou comunica-los através de um conjunto de símbolos sequencialmente organizados”.

De acordo com Castilho (1998), a conceção de linguagem assenta em três grandes modelos teóricos: o primeiro deles encara a linguagem como uma atividade mental que encara a linguagem como que se fosse a expressão do pensamento; o segundo concebe a língua como uma estrutura, ou seja, como um instrumento de comunicação; e o terceiro modelo teórico vê na linguagem uma atividade social, isto é, a linguagem, neste caso, é considerada como um meio ou forma de interação.

Sim-Sim (1998) considera que o desenvolvimento da linguagem, nos primeiros anos de vida, se desenvolve num contexto estrito ou familiar. Depois, com a entrada para a escola, o contexto torna-se mais alargado e, por conseguinte, mais rico, em termos linguísticos. Desta forma, a diversidade de experiências específicas dos grupos com quem a criança contacta proporciona-lhe a possibilidade de interagir e enriquecer as suas próprias experiências, ou seja, possibilita-lhe o desenvolvimento das suas aprendizagens.

Segundo Fonseca (1999), no processo de desenvolvimento dos sistemas simbólicos da linguagem estão presentes dois componentes que se sucedem um ao outro: o formulativo e o executivo. O primeiro diz respeito ao ato motor de falar ou escrever, sendo o segundo responsável pelas ideias e pela planificação do que vai ser dito ou escrito.

Citoler (1996), por seu lado, designa os dois componentes presentes no desenvolvimento dos sistemas simbólicos da linguagem como recetivo (compreensivo) e expressivo (produtivo). O primeiro relaciona-se com a compreensão, por parte do recetor ou sujeito, da mensagem, que pode ser oral ou escrita; o segundo componente, isto é, o expressivo, na perspetiva do estudioso, diz respeito à capacidade que o sujeito

Capítulo I: Conceitualização e Hierarquia da Linguagem

Shaywitz (2003) considera que os sistemas simbólicos da linguagem são constituídos por quatro componentes que se apresentam, segundo uma hierarquia de níveis que se situa entre o nível inferior (fonologia) e o nível superior (discurso): (a) A fonologia, responsável pelo processamento dos elementos sonoros da linguagem; (b) A semântica, referente ao vocabulário e ao significado das palavras; (c) A sintaxe, focalizada na abordagem do domínio da estrutura gramatical; (d) O discurso, relacionado com a ligação de conceitos e ideias.

Interessa referir, em relação a esta última abordagem, que o desenvolvimento do sistema simbólico da linguagem está dependente do nível de desenvolvimento simbólico precedente. Ou seja, os sistemas verbais e não verbais seguem uma determinada sequência, que é a seguinte: a linguagem interior; a linguagem auditiva ou falada; a linguagem visual ou escrita (Rebelo, 1993; Heaton e Winterson, 1996).

Para compreendermos melhor esta sequência pela qual estão organizados os sistemas da linguagem, referir-nos-emos a três modelos. O primeiro modelo diz respeito à hierarquia da linguagem de Myklebust (1978, in Cruz, 2007), representado na figura

1, sendo o segundo o modelo em cascata desenvolvido por Fonseca (1984, 1999), e o

último, o modelo das três faces, concebido por Heaton e Winterson (1996).

LINGUAGEM VERBAL Auditiva e visual

LINGUAGEM VISUAL EXPRESSIVA

Escrita 2º Sistema

Simbólico

LINGUAGEM VISUAL RECEPTIVA VISUAL

Leitura

LINGUAGEM AUDITIVA EXPRESSIVA

Fala 1º Sistema

Simbólico

LINGUAGEM AUDITIVA RECEPTIVA AUDITIVO

Compreensão

LINGUAGEM INTERIOR Não verbal e verbal

EXPERIÊNCIA Evolução cognitiva S is tem a s P ré-es tru tu ra d o s Pr oc essos c ogn it ivos

Figura 1: Modelo da hierarquia da linguagem de Myklebust (1978), adaptado de Fonseca

Dificuldades de Leitura e de Escrita

O modelo de hierarquização da linguagem de Myklebust (1967, 1978), que podemos observar no esquema da figura anterior, que tem como “génese a experiência (ou a ação, como defende Piaget), incorporada através da linguagem interior, constitui o primeiro estádio da aquisição da linguagem. Mais tarde, prolonga-se, na linguagem

falada, subdividindo-se esta última na linguagem recetiva e na linguagem expressiva.

Por último, surge a linguagem escrita, também ela subdividida em recetiva (leitura) e

expressiva (escrita)” (Fonseca, 1999:277).

LINGUAGEM QUANTITATIVA LINGUAGEM ESCRITA LINGUAGEM FALADA LINGUAGEM INTERIOR Desenvolvimento harmonioso Linguagem corporal não verbal Linguagem auditiva Processo auditivoverbal Linguagem visual Processo visuomotor Linguagem conceptual Desenvolvimento à luz de Piaget Período sensoriomotor Período pré- operacional Período operacional Período formal

Figura 2: Adaptação do modelo em cascata da hierarquia da linguagem (In Fonseca, 1999).

O modelo em cascata da hierarquia da linguagem de Fonseca (1984, 1999), para além da linguagem interior, linguagem falada e linguagem escrita, inclui a linguagem quantitativa, ou seja, a linguagem matemática.

Embora este não seja um ponto que pretendamos explorar, se nos basearmos na nossa própria experiência profissional e nas perspetivas de alguns autores, notamos que as dificuldades a nível linguístico influenciam, negativamente, o desenvolvimento do cálculo matemático (Gerber, 1996; Garcia, 1998).

Na figura 3, a seguir, podemos observar o modelo das três faces de linguagem, de Heaton e Winterson (1996).

Capítulo I: Conceitualização e Hierarquia da Linguagem

INTERIOR EXTERIOR

auditivamente como

1. "Conhecimento da linguagem 2. Fala (faculdade da Linguagem)

que pode expressar-se"

visualmente como

3. Escrita

Figura 3: Adaptação do modelo das três faces da linguagem (In Heaton e Winterson, 1996).

A figura 4 representa, de forma esquematizada, como Heaton e Winterson (1996) vêem a relação entre as três faces da linguagem.

Escrever, assenta na e interage com a fala ESCRITA FALA Falar, assenta na e interage com a faculdade da linguagem FACULDADE DA LINGUAGEM

Figura 4: Relação entre as três faces da linguagem (adaptado de Heaton e Winterson, 1996).

Como podemos constatar, a partir da observação e leitura dos três esquemas acima, estes três modelos da hierarquia da linguagem apontam para a existência de três níveis distintos da linguagem (Cruz, 2007:15):

- Linguagem interior (não verbal e verbal);

- Linguagem auditiva ou falada, que envolve um nível recetivo (compreensão) e um nível expressivo (fala);

- Linguagem visual ou escrita, que envolve, igualmente, um nível recetivo (leitura) e um nível expressivo (escrita).

Dificuldades de Leitura e de Escrita

Em síntese, é de salientar que a linguagem como sistema simbólico complexo assenta numa compreensão interiorizada da experiência, sendo, inicialmente, corporal e não verbal, para evoluir e transformar-se, depois, em linguagem intelectual e verbal. Por outras palavras, regista-se uma evolução do ato para o pensamento e do gesto para a palavra (Wallon, 1979).

Deste modo, tanto do ponto de vista filogenético como ontogenético, podemos considerar a experiência como o fundamento sensório-motor, percetivo-motor e psicomotor que resulta na linguagem. Com efeito, embora, numa fase inicial, a linguagem surja da ação, complementada pela motricidade (linguagem gestual e não verbal), depois de edificada, é a linguagem que regula e estrutura a ação, de modo sistemático (Cruz, 2007).

Para cumprirmos o nosso objetivo imediato, que é, precisamente, o de entender a hierarquia da linguagem, passamos, de seguida, a abordar, separadamente, estes três níveis ou sistemas da linguagem: linguagem interior (não verbal e verbal); linguagem auditiva ou falada (compreensão e fala); linguagem visual ou escrita (leitura e escrita).