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131Dificuldades, resultados e perspectivas

A maior dificuldade encontrada no desenvolvimento do projeto refere-se à continuidade do ensino dos alunos que deixam a Escola Família. Alguns deles se formariam em 1999, não havendo escola de ensino médio próxima à sua residência, nem transporte escolar. A fim de atender alunos nessa situação, prefeituras de alguns municípios mineiros (inclusive Turmalina) estavam se mobilizando, juntamente com Sindicatos de Trabalhadores Rurais e com a Federação dos Traba- lhadores Agrícolas de Minas Gerais (FETAEMG), para levar ao gover- no estadual uma proposta alternativa ao transporte escolar. De acordo com essa proposta, o governo do Estado se responsabilizaria pela im- plantação de escolas famílias agrícolas para o ensino médio.

O investimento na área social enfrenta muita resistência política no município. Embora nove dos 13 vereadores de Turmalina perten- çam aos partidos da coligação que apóia o prefeito, a Câmara dos Ve- readores determinou que os investimentos em educação representem, no máximo (ao invés de no mínimo), 27% do orçamento municipal.3

Em relação à criação da Escola Família Agroindustrial, a Prefeitura de Turmalina também enfrentou dificuldades. Os vereadores não apro- varam de imediato a criação da Escola e continuam com uma certa indisposição para atender questões que dizem respeito a ela. Após dois anos de funcionamento da Escola, a resistência persiste, mas em me- nor grau, diante dos resultados positivos alcançados.

Outra dificuldade que o projeto enfrenta é de ordem financeira. A prefeitura assume a maior parte dos custos da Escola, mas não possui recursos para melhorar sua infra-estrutura. A Secretaria de Educação trabalha com a idéia de tornar a Escola auto-sustentável, a partir da comercialização de seus produtos. Com esse mesmo objetivo, a Escola Família planeja instalar uma máquina para despolpamento de frutas, como manga, abacaxi, mamão, maracujá, etc. A máquina também poderá contribuir para a manutenção da Escola, aumentando suas pos- sibilidades de se tornar auto-sustentável.

Por outro lado, o projeto já apresenta conquistas importantes. Uma delas é a garantia de acesso ao segundo ciclo do ensino fundamental a todas as crianças da zona rural que não são transportadas nos veículos

3. De acordo com a Constituição de 1988, os municípios devem investir em educação pelo menos 25% das suas receitas tributárias.

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escolares. O índice de evasão escolar diminuiu de 17,4% em 1996 para apenas 2,6%, em 1998 (ver quadro 1).

O filho do agricultor empobrecido tem a possibilidade de acesso à educação e à saúde, além de ter a oportunidade de desenvolver habili- dades básicas, como a pré-qualificação profissional, por meio de cur- sos, palestras e oficinas realizadas na Escola Família. Assim, ele associa o trabalho teórico da escola com o trabalho prático realizado em casa, aumentando seus conhecimentos de técnicas agrícolas, o que tende a contribuir para a melhoria de vida de toda a família e para sua perma- nência no campo.

A Secretaria pretende continuar atendendo aproximadamente 100 alunos. Com isso, ela acredita que poderá manter a qualidade do ensi- no, além de contemplar a demanda do município.

Conclusão

A Escola Família Agroindustrial de Turmalina não é a primeira no Brasil. Nem a primeira no Vale do Jequitinhonha (a escola de Itinga foi criada antes). Mas não deixa de ser uma iniciativa inovadora dentro da realidade local, em um município acostumado a políticas assistencialistas que beneficiavam apenas as pessoas próximas aos de- tentores de poder.

Dentro de uma realidade como a de Turmalina, onde as dificulda- des econômicas e geográficas são muitas, deve ser reconhecida, incen- tivada e valorizada a iniciativa da Secretaria Municipal de Educação, de criar uma escola agroindustrial em que o aluno tem a oportunidade de estudar e permanecer no campo, aprendendo a aproveitar melhor a terra e, ao mesmo tempo, respeitando o meio ambiente.

QUADRO 1

Dados municipais da área de educação

Evasão escolar rural Salas de aula construídas

1996: 17,44 1993/1996: 2 salas

1998: 2,6 1998: 16 salas

Transporte escolar rural Alunos atendidos na suplência

1996: 128 alunos 1993/1996: zero

1998: 391 alunos 1998: 124

Produção da padaria Atendimento pré-escolar na EFAT

1998: 1.500 pães por dia 1993/1996: 35 1998: 183 alunos

Alfabetização de adultos

1993/1996: zero 1998: 261 alunos

Escolas de 5ª à 8ª série ou criadas pela prefeitura mantidas

1993/1996: zero

1998: 3 escolas (inclusive a EFAT), com 364 alunos

Distribuição regular de cadernos para alunos de 1ª à 4ª série, ré-escolar e alfabetização de adultos

1996: 744 cadernos 1998: 9.000 cadernos

Número de alunos matriculados na rede municipal de ensino fundamental

1997: 810 1998: 1.862 1999: 2.032

Número de alunos matriculados na rede estadual de ensino fundamental

1997: 3.150 1998: 2.543 1999: 2.613

FONTE: SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE TURMALINA. DADOS COMPARATIVOS: 1996 A 1998. TURMALINA (MG), 1999.

TABELA 2

Turmalina: utilização das terras, segundo a condição do produtor e grupos de área total.

Condição do produtor Estabelecimentos Área (ha) – inclusive e grupos de área total terras inaproveitáveis

Condição do produtor TOTAL 618 63.673 Proprietário 611 63.587 Arrendatário 3 61 Parceiro 1 3 Ocupante 3 22

O Programa Bolsa-Escola de Belém começou a ser elaborado em dezembro de 1996, após o segundo turno das eleições municipais. Durante a campanha eleitoral, o então candidato a prefeito, Edmilson Rodrigues, havia priorizado a área educacional em sua plataforma de trabalho. Espelhando-se em eficientes experiências similares no país – sobretudo a do Distrito Federal –, Rodrigues enfatizara a Bolsa Fami- liar para a Educação, o Bolsa-Escola de Belém, como um dos pontos centrais de sua proposta de governo.

Na fase de elaboração, houve diversos seminários, envolvendo ór- gãos municipais como a Secretaria de Educação (Semec), a Secretaria de Economia (Secon), a Fundação Papa João XXIII (Funpapa)2 e a

Câmara Municipal. Também participaram entidades representativas da sociedade civil, como o Conselho Municipal dos Direitos da Crian- ça e do Adolescente (Condac) e o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR). As discussões entre os técnicos dos ór- gãos municipais e os representantes das entidades levou à construção do Programa, tendo como principal objetivo garantir a permanência

Ivanete Amaral Silva1