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2 AS TRANSFORMAÇÕES NO DIREITO PRIVADO PARA A PROMOÇÃO DA

2.2.2 Dignidade e solidariedade: os novos princípios fundamentais

Conforme mencionado, o Estatuto da Mulher Casada e a Lei do Divórcio foram importantes marcos para as transformações no direito de família no Brasil em relação às mulheres. Porém, a grande mudança de paradigma nas relações familiares ocorre apenas com o advento do Estado Democrático de Direito através da promulgação da Constituição Federal de 1988, que abarca os institutos de direito privado em seu texto, dando-lhes um novo

direcionamento à luz da dignidade humana46.

A elevação da dignidade da pessoa humana ao posto supremo do ordenamento jurídico se configura como contraposição ao individualismo. Substitui-se o indivíduo pela pessoa, ou seja, afasta-se a concepção jurídica de indivíduo para considerar a pessoa humana a partir de suas especificidades, de suas vulnerabilidades, de sua realidade.

Na família patriarcal, o objetivo estava na manutenção da paz, da harmonia, da segurança e da coesão formal familiar em detrimento de a realização individual de seus

membros47.

No caso da mulher, sua invisibilidade enquanto sujeito de direitos e detentora de dignidade era relativizada em prol da manutenção do lar através das tarefas domésticas, criação dos filhos e deveres conjugais em contraprestação ao marido que provinha o sustento de todos. Uma autonomia, portanto, ainda não alcançada.

45O presente estudo adota a lógica da metodologia civil-constitucional, pautada na incidência direta dos princípios constitucionais nas relações privadas, sustentada por civilistas como o professor Gustavo Tepedino, à luz da construção da legalidade constitucional nas relações privadas.

46Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I - a soberania; II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – pluralismo político.

47ALVES, Leonardo Barreto Moreira. O reconhecimento legal do conceito moderno de família: o artigo 5º, II, parágrafo único, da Lei n. 11.340/2006 (Lei Maria da Penha). Revista Brasileira de Direito de Família, Porto Alegre, n. 39, p. 131-153, dez./jan.2007.

Com advento da Constituição de 1988, a mulher conquista um novo espaço nas relações

familiares, tendo sua dignidade reconhecida formalmente. Nos dizeres de Maria Celina Bodin48,

a ordem constitucional coloca os valores existenciais “no vértice do ordenamento jurídico brasileiro, de modo que é este o valor que conforma todos os ramos do direito”. Há, portanto, uma mudança de paradigma no direito civil no sentido de privilegiar as relações existenciais, abandonando o cunho essencialmente patrimonialista até então dominante.

A família, após a Constituição Federal, se torna instrumento voltado para a satisfação das pessoas que a integram. Ensina Paulo Lôbo: “a família, tutelada pela Constituição, está funcionalizada ao desenvolvimento da dignidade das pessoas humanas que a integram. A entidade familiar não é tutelada para si, senão como instrumento de realização existencial de

seus membros” 49.

A família se volta para o “ser” – e não mais para o “ter”. Agora, com uma função social, se torna o meio para o alcance da felicidade, da solidariedade e do afeto por parte de todas as pessoas que a integram.

Tem-se, assim, um novo olhar direcionado para a tutela da pessoa, que se torna destinatária da proteção especial do Estado, em respeito ao caráter intersubjetivo e relacional

da dignidade da pessoa humana50.

Mas o que seria dignidade? Recorremos a Kant:

No reino dos fins tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode-se pôr em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e, portanto, não permite equivalente, então ela tem dignidade.51

Sob essa reflexão, a dignidade compreende os valores indisponíveis, imensuráveis e inalienáveis atrelados à pessoa humana. O valor humano enquanto imperativo categórico a ser obedecido pelo próprio ser humano enquanto ética máxima.

Na visão kantiana, a dignidade estaria atrelada a um valor humano individual e insubstituível, ao qual impossível seria a atribuição de algum preço. Tal valor está ligado à

personalidade, distinta de cada ser humano, no exercício da razão e da moral que o move52.

48MORAES, Maria Celina Bodin de. Na medida da pessoa humana: estudos de direito civil. Rio de Janeiro: Editora Processo, 2016, p11.

49LÔBO, Paulo. Direito Civil: Famílias. Vol.5. ed. 9. Saraiva: São Paulo, 2019, p. 59.

50SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004, p. 32.

51KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Paulo Quintela. Lisboa: Ed. 70, 1986, p.77.

Assim, ao ser inserida no rol de fundamentos do Estado brasileiro, a dignidade surge como vetor máximo do ordenamento jurídico, se tornando prioridade absoluta na elaboração e

interpretação do direito civil, conforme ensina Gustavo Tepedino53:

(...) consagra-se uma nova tábua axiológica, alterando o fundamento de validade de institutos tradicionais do direito civil. A dignidade da pessoa humana, a cidadania, a igualdade substancial tornam-se fundamentos da República, ao mesmo tempo em que os valores inerentes à pessoa humana e um expressivo conjunto de direitos sociais são elevados ao vértice do ordenamento jurídico. A partir de então, todas as relações de direito civil, antes circunscritas à esfera privada, hão de ser revisitadas, funcionalizadas aos valores definidos no Texto Maior.54

Rompe-se com a prevalência da finalidade patrimonial, inaugurando-se um novo sistema fundado nas relações existenciais para garantir à pessoa humana a tutela e a proteção

prioritária55. A entidade familiar se torna o meio de promoção do desenvolvimento dos filhos,

bem como de efetivação da dignidade de todos os membros que a integram, deixando de ser

um mero instituto56.

Nos dizeres de Maria Celina Bodin de Moraes, “(...) será desumano, isto é, contrário à dignidade da pessoa humana, tudo aquilo que puder reduzir a pessoa (o sujeito de direitos) à

condição de objeto” 57.

A mulher, em especial, alcança o reconhecimento normativo da autonomia e liberdade, historicamente relegadas pela legislação, sendo este um passo decisivo para a sua emancipação jurídica e, assim, para a sua dignidade. Na própria visão kantiana, a dignidade encontra-se

respaldada na emancipação, ocorrendo através do exercício da autonomia e da liberdade58.

A família, abarcada por esse processo de constitucionalização do direito civil, deixa de ser disciplinada por um diploma civil isolado de cunho essencialmente patrimonial e insensível aos valores voltados para a pessoa humana. A lei n. 8.009/1990 é um exemplo disso, ao estabelecer a impenhorabilidade do bem de família, objetivando, assim, resguardar o direito à

reconstrução do Direito Privado – reflexos dos princípios constitucionais e dos direitos fundamentais no Direito Privado. Org. Judith Martins-Costa.

53TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil. 4. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2008.

54TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil. 4. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2008.

55MORAES, Maria Celina Bodin de. Na medida da pessoa humana: estudos de direito civil. Rio de Janeiro: Editora Processo, 2016, p. 31.

56TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil. 4. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2008, p. 422.

57MORAES, Maria Celina Bodin de. Danos à pessoa humana: uma Leitura Civil-Constitucional dos Danos Morais. Rio de Janeiro: Renovar, 2003, p. 85.

58SALOMÃO, Kátia Rocha; JUNIOR, Waldomiro Salles Svolinski. Kant: os fundamentos da dignidade da pessoa humana como condição para uma hermenêutica do dever. E-Civitas - Revista Científica dos Cursos de Direito e Relações Internacionais do UNIBH - Belo Horizonte - ISSN: 1984-2716. Disponível em: <http://revistas.unibh.br/index.php/dcjpg/article/viewFile/1422/856. Acesso em 20 de julho de 2019.

moradia como valor fundamental imprescindível para a dignidade humana.

O ser humano alcança, assim, a primazia do ordenamento jurídico, deixando de ser meio para se tornar fim. Nos dizeres do professor Miguel Reale, a pessoa humana enquanto valor-fonte de todos os valores:

Partimos dessa ideia, a nosso ver básica, de que a pessoa humana é o valor-fonte de todos os valores. O homem, como ser natural biopsíquico, é apenas um indivíduo entre outros indivíduos, um animal entre os demais da mesma espécie. O homem, considerando na sua objetividade espiritual, enquanto ser que só se realiza no sentido de seu dever ser, é o que chamamos de pessoa. Só o homem possui a dignidade originária de ser enquanto deve ser, pondo-se como razão determinante do processo histórico. A ideia de valor, para nós, encontra na pessoa humana, na subjetividade entendida em sua essencial intersubjetividade, a sua origem primeira, como valor-fonte de todo o mundo das estimativas, ou mundo histórico-cultural.59

Sob o prisma jurídico e, especialmente, sobre as relações familiares, Pablo Stolze e Pamplona Filho reconhecem a dignidade humana enquanto princípio solar do ordenamento jurídico que “traduz um valor fundamental de respeito à existência humana, segundo as suas possibilidades e expectativas, patrimoniais e afetivas, indispensáveis à sua realização pessoal e

à busca da felicidade” 60.

Nesse mesmo sentido, analisa Ingo Sarlet:

Temos por dignidade da pessoa humana a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos, mediante o devido respeito aos demais seres que integram a rede da vida.61

Além da dignidade da pessoa humana como fundamento da República, o diploma constitucional também estabelece em seu artigo 3º, inciso I, o princípio da solidariedade como

objetivo do Estado brasileiro.62

59REALE, 1989, p. 168.

60GAGLIANO, P. S; PAMPLONA FILHO, R. Novo Curso de Direito Civil Brasileiro. V. 6. São Paulo: Saraiva, 2018, p. 82.

61SARLET. I. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. 2001, p. 60

62Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Pautado da construção de uma sociedade livre, justa e solidária, o princípio da solidariedade também provoca uma mudança de paradigma nas relações privadas, em especial nas relações familiares. Ensina Paulo Lôbo:

Na evolução dos direitos humanos, aos direitos individuais vieram concorrer os direitos sociais, nos quais se enquadra o direito de família. No mundo antigo, o indivíduo era concebido apenas como parte do todo social; daí ser impensável a ideia do direito subjetivo. No mundo moderno liberal, o indivíduo era o centro de emanação e destinação do direito; daí ter o direito subjetivo assumido a centralidade jurídica. No mundo contemporâneo, busca-se o equilíbrio entre os espaços privados e públicos e a interação necessária entre os sujeitos, despontando a solidariedade como elemento conformador dos direitos subjetivos.63

A solidariedade se projeta no mundo jurídico enquanto categoria ética e moral vinculada a um sentimento racionalmente guiado pelos valores humanos afirmados na Carta democrática

atrelados aos direitos sociais.64 Tem-se, assim, o abandono do individualismo, cuja

solidariedade perpassa a esfera da responsabilidade estatal. A sociedade e cada um dos

membros que nela vivem também assumem essa responsabilidade.65

As relações familiares ganham um direcionamento constitucional pautado em valores essenciais à pessoa, tendo a dignidade humana e a solidariedade como núcleo existencial. A solidariedade surge como cláusula geral a guiar as relações privadas.

Com o advento da Constituição, a dignidade e solidariedade se tornam, portanto, presentes em todo o ordenamento jurídico, inclusive nas normas que regem as relações familiares, sendo considerados para a doutrina como princípios jurídicos fundamentais do direito de família.