2.2 TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADE
2.2.2 Territorialidade
2.2.2.1 Dimensões da territorialidade
De acordo com Albagli (2004), o território e a territorialidade podem ser caracterizados e analisados a partir de quatro dimensões distintas: a dimensão física, a político-organizacional, a cultural e a econômica.
i) dimensão física
De acordo com Haesbaert e Limonad (2007), as características geográficas naturais foram umas das primeiras bases para a formação de territórios, e continuam sendo fundamentais para determinados grupos sociais, como os indígenas da Amazônia, os tuaregues do Sahara ou os nômades mongóis e tibetanos. Para esses autores, a diferenciação natural ajudou a moldar diferentes identidades territoriais, a partir dos relevos e recurso naturais predominantes.
Haesbaert e Limonad (2007) explicam que, devido às dinâmicas que passaram a ser, cada vez mais, pautadas pela tecnologia, as diferenças naturais passaram a atrair menos atenção na análise dos territórios. Entretanto, com a crescente necessidade de promover um desenvolvimento sustentável, a biodiversidade voltou a ser valorizada nos estudos sobre territorialidades.
De acordo com Albagli (2004), a materialidade do território pode ser descrita tanto pelas suas características geoecológicas quanto pelas formas de utilização dos recursos naturais pelos atores sociais. Albagli (2004) afirma que atualmente o espaço é entendido como um conjunto indissociável composto por objetos naturais e objetos sociais. Nesse sentido, o objeto de estudo da geografia tornou-se todo e qualquer espaço da superfície terrestre dotado de uma identidade atribuída, estruturada e organizada pelas sociedades humanas.
De acordo com Albagli (2004), os elementos naturais de um determinado território podem ser transformados em potencialidades, desde que a sociedade perceba a importância desses elementos e os integre a suas práticas territoriais. Albagli enfatiza que essas práticas podem ser predatórias ou sustentáveis, se forem conservadas e mantidas em equilíbrio.
ii) dimensão política-organizacional
Para Haesbaert e Limonad (2007), a dimensão político-organizacional é uma condição sinequa non para a formação do território que, segundo esses autores, se constrói a partir das relações de poder que envolvem os grupos sociais e o espaço geográfico. De acordo com Castro15 (1995 apud ALBAGLI, 2004, p. 38), o sistema político, de modo geral, comporta duas dimensões: a primeira reúne os conflitos e as alianças entre grupos socialmente distintos; a segunda consiste na competição e cooperação entre grupos espacialmente diferenciados. Para Albagli (2004, p.38), o domínio do espaço, tornado território, é fundamental para a formação e a concentração de poder social. As relações entre poder e território, segundo Albagli (2004), podem ser verificadas no desenvolvimento desigual entre as regiões, nos processos de colonização, e, mais recentemente, na formação de um mercado global orquestrado por grandes conglomerados multinacionais.
Ao apropriar-se do espaço, o grupo social realiza uma série de intervenções para estruturar, organizar e dotar o território de uniformidade, com o objetivo de refletir e reproduzir o sistema de crenças do grupo dominante (ALBAGLI, 2004)
De acordo com Albagli (2004), a nomeação é uma das primeiras marcas da apropriação do território, servindo para sinalizar não somente a sua existência, mas também sua identidade, que é resultado das paridades e diferenças em relação aos grupos externos.
iii) dimensão cultural
Haesbaert (2002) afirma que ao analisarem as características de determinado território, muitos autores preferem priorizar a dimensão simbólica. O território é fruto de uma apropriação simbólica que ocorre por meio do processo de identificação de determinado grupo em relação ao espaço onde que ele vive. Para Albagli (2004), a dimensão simbólica se confunde com a dimensão cultural do território. Essa autora define a dimensão simbólica como um conjunto
15 CASTRO, Iná E. O Problema da Escala. In: CASTRO, Iná E.; GOMES, Paulo C.C.; CORRÊA, Roberto
específico de laços afetivos de um grupo em relação ao lugar por ele apropriado. Ao se formar uma identidade coletiva vinculada a um território, definem-se as diferenças em relação aos outros, e estabelecem-se as relações com aqueles que serão considerados rivais ou aliados. A dimensão cultural vincula os indivíduos ao espaço, marcando semelhanças e diferenças entre as comunidades (ALBAGLI, 2004).
Para Albagli (2004), cultura é um atributo que distingue o ser humano dos demais seres vivos. De acordo com De Barros Laraia (1986), desde as primeiras décadas do século XX, a antropologia está convencida de que homens e mulheres são seres predominantemente culturais. O comportamento humano não é biologicamente ou geograficamente determinado, mas resultado de um processo de aprendizado. Para De Barros Laraia, John Locke (1632 – 1704) demonstrou em O Ensaio acerca do entendimento humano que - no momento do nascimento - a mente humana é uma caixa vazia dotada apenas da capacidade de obter conhecimento por meio de um processo de endoculturação. De acordo com De Barros Laraia (1986), a cultura foi definida primeiramente por Edward Taylor - ainda sob a influência evolucionista - como todo o comportamento que pode ser aprendido, independente da herança genética. Franz Boas (1858 – 1949) foi um dos primeiros antropólogos a se opor ao método comparativo – que classificava as culturas conforme uma escala unidirecional de evolução – ao afirmar que cada cultura se desenvolve em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou (DE BARROS LARAIA, 2001).
Considerando que a cultura é construída a partir da história particular de cada grupo, Albagli (2004) afirma que a comunicação entre os indivíduos estabelece um processo cumulativo de transmissão de experiências, percepções e conhecimentos, que é absolutamente central na produção da territorialidade.
As representações, tanto individuais como sociais, não só contribuem para forjar o território, como também constituem um patrimônio ideológico que atua no sentido da sua conservação, estabelecendo-se uma complexa relação território/identidade/mito/ legitimação política (ALBAGLI, 2004).
Para Haesbaert (2002), as questões do controle, do ordenamento e da gestão do espaço têm sido centrais nas discussões sobre território. De acordo com Albagli (2004), cada território possui uma capacidade particular de oferecer vantagens que podem ser revertidas em competitividade e rentabilidade para as empresas.
De acordo com Moreira (2006), a configuração econômica relaciona-se à esfera da produção combinada com a circulação, de acordo com a forma de acumulação. O processo de acumulação de capital produz uma divisão do trabalho e a hierarquização de regiões. No arranjo predominantemente industrial e capitalista, segundo Moreira (2006), o campo se institui como o território da agropecuária e a cidade como o território da atividade da indústria e do setor terciário, estabelecendo-se no comando da organização do território. No arranjo predominantemente financeiro, do capitalismo atual, o espaço se globaliza, eliminando as fronteiras regionais e nacionais que demarcavam os antigos espaços e promovendo novas organizações baseadas em redes (MOREIRA, 2006).
De acordo com Albagli (2004), o economista inglês Alfred Marshall cunhou, no final do século XIX, o termo “distrito industrial” para designar a concentração de pequenas empresas dedicadas à manufatura de produtos específicos em determinado espaço geográfico. Já nas décadas de 60 e 70, as noções acerca de “pólos de crescimento” e “polos de desenvolvimento” desenvolvidas por François Perroux passaram a ser adotadas nas práticas de planejamento regional em vários países (ALBAGLI, 2004). Na definição de Perroux (1955 apud ALBAGLI, 2004), o polo de crescimento é um conjunto de empresas que capazes de estimular o crescimento de outro conjunto. Já o polo de desenvolvimento, segundo Perroux (1955 apud ALBAGLI, 2004), tem a capacidade de articular estruturas econômicas e sociais para ampliar o desenvolvimento do conjunto (ALBAGLI, 2004). Nos anos 80, novos padrões de localização produtiva foram sendo estabelecidos por modelos de gestão mais flexíveis e que exigiam maior mobilidade produtiva. De acordo com Albagli (2004, p.44), na década de 90, as vantagens das aglomerações territoriais deixaram de depender somente da proximidade geográfica e passaram a enfocar a qualidade das interações locais que poderiam potencializar processos de aprendizado e de inovação. A partir de então, o território passa a ser visto como ambiente de
interação, de inovação sistêmica e de aprendizado coletivo (ALBAGLI, 2004). A seguir, serão apresentados os recortes territoriais por Estado, região e local.