2.3 MODA
2.3.2 A indústria da moda
2.3.2.2 Rumo à Indústria 4.0
O aprofundamento da concorrência internacional levou os produtores locais a revisarem suas estratégias competitivas e seus sistemas de produção. O sistema fast fashion fomentou uma dinâmica que prioriza a larga escala de produção, forçando os produtores menores – que não podem competir em escala e preço baixo – a saírem do negócio (BRUNO, 2016; FLETCHER; GROSE 2011). Empresas produtoras que não possuem condições de concorrer diretamente com os grandes produtores de fast fashion passaram a se concentrar em segmentos menores, investindo no desenvolvimento de produtos de maior valor agregado e na gestão de marcas (AGÊNCIA BRASILEIRA DE DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL, 2010; BRUNO, 2007, 2016). As empresas passaram também a investir na redução do tempo de desenvolvimento, produção e distribuição para melhor adaptar as tendências de moda e desviar da concorrência com produtos mais padronizados. (AGÊNCIA BRASILEIRA DE DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL, 2010).
Atualmente, os países do sudeste asiático concentram 73% do volume de produtos têxteis e confeccionados produzidos no mundo (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA TÊXTIL E DE CONFECÇÃO, 2015). Entretanto, devido a gradativa elevação dos salários nesses países asiáticos, uma boa parte das fábricas tem se deslocado para o Leste Europeu, para a região norte da África e para o Caribe (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA TÊXTIL E DE CONFECÇÃO, 2015). Além disso, os custos derivados do transporte vêm dissolvendo as vantagens da produção em países distantes dos mercados mais ricos (BRUNO, 2016).
Atraso tecnológico, ineficiências produtivas, qualificação insuficiente,
àqueles assinalados anteriormente, no caso da China, enquanto instabilidades políticas regionais introduzem ameaças e aumentam os riscos de investimento, assim como longas distâncias aumentam os custos com energia. (BRUNO, 2016, p. 42)
De acordo com Bruno (2016), há um novo sistema técnico-econômico global que modificará profundamente a indústria da moda. Para esse autor, a produção em larga escala de produtos e insumos padronizados deverá ser substituída pela individualização da produção. Nesse novo modelo, a sustentabilidade emerge como um novo valor a ser adicionado ao valor econômico (BRUNO, 2016). Entretanto, essa dissertação segue a visão de Fletcher e Grose (2011) para quem a produção em larga escala não será inteiramente substituída, mas complementada por sistemas produtivos mais enxutos e mais sustentáveis. Para Caldas (2013), há uma demanda emergente que busca um consumo menos acelerado, mais sustentável, menos consumista, e menos estandardizados. Nesse contexto, surge de um novo modelo de empresa, menor, mais flexível, intensiva em criatividade e em tecnologia, com produção mais localizada. “Nele, os produtos deverão falar cada vez mais a língua da qualidade e da durabilidade, e cada vez menos a do descarte imediato” (CALDAS, 2013, p. 1345). À medida que a preocupação ambiental aumentar e as empresas forem pressionadas a incorporar tecnologias mais “limpas”, as vantagens comparativas entre países em desenvolvimento deverão diminuir (BRUNO, 2016).
Atualmente, o consumidor tem mais acesso aos métodos produtivos e estão cada vez mais conscientes das consequências negativas provocadas pelos excessos de produção e de consumo. Dois terços dos consumidores no mundo inteiro afirmam utilizar as mídias sociais para acompanhar ou aderir as políticas de Responsabilidade Social Corporativa das marcas que consomem (BRUNO 2016). Além disso, aspectos socioambientais já são levados em consideração por 87% dos consumidores, durante a decisão de compra (BRUNO 2016). No Brasil, 75% das pessoas comprariam um produto atrelado a uma causa, enquanto cerca de 95% afirma que ajudaria a divulgar ações socioambientais corporativas (BRUNO 2016). Na opinião de Bruno (2016), essas afirmações enfatizam ainda mais essa nova orientação em relação aos valores de utilidade, necessidade, responsabilidade e posicionamento social.
De acordo com Bruno (2016), a difusão das tecnologias de informação e comunicação impulsiona o desenvolvimento de capacidades operacionais, tanto em relação à eficiência quanto no desenvolvimento de produtos. Produtos mais sofisticados dependem de um know how técnico e tecnológico mais específico e também da participação dos trabalhadores na geração de novas ideias (BRUNO, 2016).
Nesse sentido, a Manufatura Social emerge como um novo modelo de fabricação, que permite a abertura do processo de confecção a qualquer pessoa que queira participar do processo (BRUNO, 2016). A manufatura social envolve o consumidor na concepção da ideia, no design e na produção, para que o produto possa melhor atender às suas necessidades (SHANG et al., 2013). É um processo que amplia as chances de sucesso do produto, evitando o seu descarte precoce.
Aplicada à indústria de confecção, a manufatura social é um novo modo de fabricação baseada em rede, provador 3D e outras tecnologias, com o objetivo de personalizar o produto de acordo com as preferências do consumidor final (SHANG et al., 2013). A Figura 3 traz a modelo Dita Von Teese usando um vestido vestido manufaturado por impressora 3D. Na manufatura social, os consumidores serão envolvidos integralmente no processo de produção pela internet, que disponibilizará os equipamentos de fabricação e os serviços interativos, formando a rede de fabricação e equipamentos de serviço (MOHAREJI, 2015; SHANG et al., 2013).
Para De Jesus Conceição e Dos Santos (2017), a prototipagem com simulação 3D já permite criar e editar modelos com a representação do caimento do tecido e do uso de aviamentos, para depois desenvolver uma modelagem digital compatível. As medidas utilizadas serão adquiridas por meio de um body
scanner, que extrai as medidas do corpo de forma rápida e precisa,
possibilitando que a peça seja modelada sob medida para cada usuário (DE JESUS CONCEIÇÃO; DOS SANTOS, 2017). Na manufatura aditiva (termo técnico para os processos de impressão 3D), os métodos de produção e os processos envolvidos na customização não precisarão ser modificados, pois as alterações poderão ser realizadas a partir de uma base única customizável. Com um sistema RP – Rapid Prototyping, o produto poderá ser prototipado e alterado
de forma rápida e eficiente, sem que seja necessário confeccionar um molde preliminar (DE JESUS CONCEIÇÃO; DOS SANTOS, 2017).
Body scanners também podem ser usados para criar avatares com a
representação tridimensional dos corpos dos consumidores para a experimentação de peças no ambiente virtual dos e-commerces (DE JESUS CONCEIÇÃO; DOS SANTOS, 2017).
Figura 3- Vestido confeccionado por meio da manufatura aditiva.
Fonte: Pinterest (2018).
Para Shang et al. (2013), a manufatura social deverá transformar a confecção em empresas mais inteligentes, capazes de responder de forma proativa as demandas individuais do consumidor final.
Para Mohajeri (2015), a manufatura social pode reverter as políticas de terceirização e internacionalização da produção no longo prazo. Além disso, novas técnicas de fabricação reduzem a quantidade de trabalho necessário para a produção. Como resultado, os custos do frete poderão ter um impacto maior do que os custos derivados da mão de obra. Ao invez de fabricar produtos nos países em desenvolvimento, poderá ser mais vantajoso e mais rápido produzir localmente (MOHAJERI, 2015).
De acordo com Bruno (2016), a produção sob demanda já vem sendo testada em uma minifábrica piloto instalada pela Virtual Inventory Manufacturing Alliance em parceria com diversas empresas e instituições norte-americanas. A minifábrica é uma unidade de instalação fabril verticalizada, modular, flexível, e baixo impacto ambiental. Para Bruno (2016), o desenvolvimento de minifábricas totalmente automatizadas e integradas ao consumidor permitirá que pequenos produtores locais voltem a competir com produtores internacionais, desde que sejam capazes de oferecer produtos customizados em prazos mais curtos. Segundo esse autor, o Purchasing Manufacturing Index de 2014 revelou que algumas atividades industriais poderão retornar aos países desenvolvidos, sem, no entanto, gerar a mesma quantidade de emprego que se via na época anterior à globalização da produção. Os sistemas de produção que vêm sendo instalados nos EUA, por exemplo, são mais produtivos e intensivos em tecnologia, o que atrai profissionais mais qualificados e elimina empregos de baixa qualificação (BRUNO, 2016).
A seguir será apresentado o mapeamento dos sistemas sustentáveis aplicados ao desenvolvimento de produtos de moda.