2.2 TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADE
2.2.1 Território
De acordo com Haesbaert (2004), o conceito de território possui uma conotação material e simbólica, pois etimologicamente se aproxima tanto de
terra-territorium quanto de terreo-territor (terror, aterrorizar). Para esse autor, a
palavra território se relaciona com dominação jurídico-política da terra e com a fomentação do medo (terror) sobre aqueles que devem ser impedidos de entrar. Ao mesmo tempo que sugere a dominação, o território desperta identificação para aqueles que usufruem ou se apropriam dele. De acordo com Albagli (2004, p.26), a palavra territorium na língua francesa deu origem às palavras terroir e
territoire. Terroir se refere não somente à noção de terreno ou solo, mas também
aos atributos que distinguem e agregam valor aos produtos provenientes de uma determinada região (ALBAGLI, 2004, p. 26). Territoire se refere ao local sobre o qual o príncipe reina, incluindo a terra e seus habitantes (ALBAGLI, 2004, p. 26). De acordo com Milton Santos (2007), é o uso do território e não o território em
si, que faz dele uma categoria de análise. Para Santos e Silveira (2001), o uso do território pode ser definido pela instalação de infraestrutura e pelos movimentos sociais e econômicos que nele ocorrem.
Para Haesbaert (2004), o território se relaciona às formas de poder tanto no sentido estrito, enquanto forma de dominação, quanto no sentido mais simbólico, como forma de apropriação. De acordo com Albagli (2004, p.26), território é o espaço apropriado por um ator e, portanto, é definido e delimitado por relações de poder em suas diversas dimensões. Cada território é produto da intervenção e do trabalho de um ou mais atores sobre determinado espaço (ALBAGLI, 2004, p. 26). Para Haesbaert e Limonad (2007), o território não deve ser reduzido à materialidade do espaço socialmente construído, nem ao conjunto de forças que ocorrem nesse espaço.
De acordo com Haesbert (2004), todo território é, ao mesmo tempo, funcional e simbólico, pois os atores exercem domínio sobre o espaço tanto para realizar “funções” quanto para produzir “significados” (HAESBERT, 2004). No sentido funcional, o território é um recurso, uma proteção ou um abrigo; é também fonte de recursos naturais e de matérias-primas. No sentido simbólico, de acordo com Haesbaert e Limonad (2007), o território pode moldar identidades culturais e ser moldado por estas. Dessa forma, os atores sociais fazem de seu próprio território um referencial importante para definir formas de agir e para buscar a coesão social. Haesbaert (2004) ressalta que os aspectos funcionais e simbólicos nunca se manifestam isoladamente, pois todo território “funcional” possui uma carga simbólica e todo território “simbólico” possui algum caráter funcional.
Haesbaert e Limonad (2007) apoiam-se na distinção feita por Henri Lefebvre13 (1986) sobre apropriação e dominação para explicar que o território é constituído tanto por uma dimensão subjetiva, que se refere à apropriação e à identidade territorial, quanto por uma dimensão mais objetiva, que se refere à dominação do espaço por meio de instrumentos de ação político-econômica. Dessa forma, esses autores afirmam que território é, ao mesmo tempo, a apropriação (simbólica) e o domínio político-econômico (em um sentido mais concreto) de um espaço socialmente compartilhado. Sendo assim, a formação
do território desdobra-se ao longo de um processo histórico (social), partindo r das relações de poder que abrangem a sociedade e o espaço geográfico habitado por ela (HAESBAERT; LIMONAD, 2007).
Haesbaert e Limonad (2007) também comparam as antigas e as atuais formas pelas quais os territórios se constituem. Esses autores afirmam que nas sociedades tradicionais os territórios eram baseados em áreas, enquanto que nas sociedades modernas predominaria a construção de territórios constituídos por redes. Referindo-se às sociedades antigas, Milton Santos (2007) explica que “naquele tempo” a vida material se impunha sobre a vida social e “o valor daquele pedaço de chão lhe era atribuído pelo próprio uso daquele pedaço de chão”. Haesbaert e Limonad (2007) explicam que enquanto as sociedades tradicionais utilizavam o território como abrigo e fonte de recursos, as sociedades contemporâneas tendem a dissolver o caráter geográfico do território e transformá-los em território-rede. Nesse sentido, segundo esses autores, as possibilidades de mobilidade passam a ser um elemento fundamental na construção do território. No contraste entre as sociedades tradicionais e modernas, esses autores também comparam a agência do território sobre os grupos. Enquanto que nas sociedades tradicionais o território era excludente em relação a outros grupos culturais e integrador em relação ao grupo social interno, nas sociedades modernas, os territórios são fragmentados internamente e moldados por fluxos e redes que são permeáveis às influências externas (HAESBAERT; LIMONAD, 2007). As redes sociais e os sistemas de relações que vinculam indivíduos ou grupos sociais entre si podem servir tanto para estabelecer vínculos quanto para promover exclusões e seletividades (ALBAGLI, 2004, p.35).
De acordo com Haesbert (2004), os múltiplos territórios podem ser identificados por meio das seguintes modalidades:
a) territorializações mais fechadas, que correlacionam poder político e identidade cultural. Como exemplo dessa modalidade, Haesbert (2004) cita grupos étnicos que aspiram por uma identidade cultural homogênea e não admitem a pluralidade territorial de poderes e identidades.
b) territorializações político-funcionais mais tradicionais, como a do Estado- nação que, mesmo admitindo alguma pluralidade cultural (sob a bandeira de uma mesma “nação”), não admite a pluralidade de poderes.
c) territorializações mais flexíveis, que admitem a sobreposição territorial periódica ou transitória, como pode ser observado em territórios ou espaços localizados na região central das grandes cidades.
d) territorializações efetivamente múltiplas, que admitem “multiterritorialidades” com a permanência concomitante de territórios multifuncionais e multi- identitários.