2.2 TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADE
2.2.4 Territorialidade e desenvolvimento local
De acordo com Naselli (2016), as contínuas inovações tecnológicas, o livre acesso à informação e a disseminação do conhecimento têm provocado mudanças profundas que, independentemente de tentativas de controle ou simplificação, se refletem sobre o funcionamento das cidades e dos territórios. Verificam-se iniciativas de desenvolvimento sustentável “de baixo para cima”, a valorização dos direitos humanos, a modificação dos ciclos de produção e consumo e um retorno em direção a uma economia local (NASELLI, 2016).
Lages, Braga e Morelli (2004) afirmam que a dimensão cultural dos territórios produz singularidades que devem ser valorizadas e traduzidas em estratégias de competitividade que, a partir de dinâmicas socioculturais sustentáveis, qualifique as empresas locais para a atuação em mercados globalizados. De acordo com Lages, Braga e Morelli (2004), expansão dos pequenos negócios é decisiva para qualquer estratégia que queira combinar o crescimento econômico com a redução das desigualdades de renda.
De acordo com De Paula (2005), a globalização modificou os padrões de produção, mundializou o mercado financeiro, modificou hábitos de consumo e
provocou uma série de mudanças culturais decorrentes da troca de informação e conhecimento. Em consonância com Giddens (1991), De Paula (2005, p.75) afirma que a globalização não pode ser tratada como um fenômeno unilateral, pois, na medida em que uma força global age sobre um determinado lugar, surge uma contrapartida local que age em resistência à exclusão ou como tentativa de integração não subordinada. Para De Paula (2005), o conceito de “local” não deve se confundir com o conceito de município.
O conceito de local surge em relação ao conceito de “global”, seja numa relação de oposição, seja numa relação de integração, soberana ou subordinada, do local no global. Assim, o “local” pode ser definido como qualquer porção territorial que se distingue a partir de determinados elementos de identidade. (DE PAULA, 2005, p. 75)
Para De Paula (2005), a temática do “desenvolvimento local” emerge do contexto da globalização que, se por um lado, dissemina a estandardização de produtos, por outro, renova os interesses sobre os aspectos que caracterizam as culturas locais. A tendência de valorização de territórios ricos de referências culturais indica novas possibilidades para a promoção do desenvolvimento social e humano, pois eles pertencem a comunidades que frequentemente ficam à margem da modernidade (ARANTES, 2004).
Albagli (2004) identifica pelo menos duas formas de valorização do território: a primeira de caráter instrumental e movida por interesses externos ao território, e outra que parte de uma iniciativa interna de desenvolvimento. De acordo com De Paula (2005), na ação exógena, movida por interesses externos, as divisões territoriais são impostas “de cima para baixo” pelos planos governamentais de desenvolvimento. Nesses casos, a população local – que não participou dos processos de decisão – nem sempre se reconhece como pertencente a um mesmo território (DE PAULA, 2005). Sob uma perspectiva puramente instrumental, o território torna-se uma ferramenta para a reprodução do capital (ALBAGLI, 2004, p.63). Dessa forma, suas características e particularidades são utilizadas apenas para atrair investimentos e gerar lucros (ALBAGLI, 2004). Essa forma de atuar sobre o território tende a apropriar e a consumir de forma predatória e, portanto, insustentável os recursos que a territorialidade pode gerar, além de destruir o seu capital social (ALBAGLI, 2004, p.64). Para De Paula (2005), é difícil construir territorialidades de fora para dentro
sem um “capital socioterritorial” acumulado de processos históricos de longo prazo.
Na ação endógena, por outro lado, o território é delineado por elementos de identidade definidos pelos atores locais, de forma autônoma e, na maioria das vezes, por meio de um processo mais democrático. Nesses casos, segundo Albagli (2004), o território atua como elemento de transformação sociopolítico- econômica, concentrando e articulando novas formas de solidariedade, parceria e cooperação entre os diferentes agentes econômicos, políticos e sociais. De acordo com Vale (2004), cabe à comunidade local identificar, valorizar e aproveitar suas potencialidades e riquezas. Também é necessário definir uma estratégia competitiva capaz de solucionar problemas internos e, ao mesmo tempo permitir a inserção dessa comunidade em um mundo globalizado (VALE, 2004). A partir da ação endógena, segundo Albagli (2004), o território constitui- se como locus para a formação de redes sociais que desenvolvem e fortalecem a territorialidade, favorecendo a sustentabilidade social, econômica e ambiental. De acordo com De Paula (2005), acreditava-se que as micro e pequenas empresas seriam mais competitivas na medida em que fossem capazes de incorporar as características das empresas de grande porte. Entretanto, as vantagens competitivas das grandes empresas – tais como escala de produção e a capacidade de investimento em inovação tecnológica - jamais poderão ser alcançadas pelas micro e pequenas empresas. Pequenas empresas obtêm vantagens decorrentes da proximidade, da cooperação com outras pequenas empresas situados no mesmo território (DE PAULA, 2005). Redes de empresas facilitam os processos de interação, articulação e aprendizagem que segundo De Paula, favorecem a produção de conhecimento tácito. Para esse autor, o conhecimento tácito - difundido pela convivência e pela troca de experiências – são fundamentais para os processos de inovação.
Para De Paula (2005), o desenvolvimento territorial depende não somente da construção de redes de atores locais, redes de cidadãos, políticos e empresários, mas da articulação entre esses atores para a elaboração do planejamento e da gestão do desenvolvimento territorial. Para Naselli (2016), “pensar globalmente e agir localmente” requer novas formas de abordagem a partir de uma visão sistêmica, transdisciplinar e realmente estratégica. O planejamento que busca estratégias de forma endêmica torna-se uma ação
integrada que envolve os diferentes componentes territoriais em idéias e projetos em comum (NASELLI, 2016). De acordo com De Paula (2005), a competitividade territorial depende também da capacidade da criação de instituições que facilitem o diálogo, a cooperação e a parceria entre os agentes locais mais relevantes. A organização dos atores locais é uma condição sine qua non para o desenvolvimento endógeno, promovido por iniciativas que partem de baixo para cima e de dentro para fora (DE PAULA, 2005).