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Direito e tecnologia: experiência estrangeira

No documento Processo justo eletrônico (páginas 67-76)

Como ocorreu no Brasil, em outros países a adoção da tecnologia na administração da justiça inicia-se com a criação de sistemas capazes de organizar e recuperar a informação judicial:

Agravado: EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO S.A. - EBC., Relator Ministro Aloysio Corrêa da Veiga. Diário de Justiça, Brasília, 06 dez. 2013).

155

BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho-3ª região. Carta de Caxambu. In: I Congresso Mineiro Justiça e Digital e Direito do Trabalho. Diário de Justiça, Brasília, 21 ago. 2008. Disponível em: <http://goo.gl/xEFfHn>. Acesso em: 08 de out. 2013.

156

Conforme se subsume do item 7 do referido documento “Os princípios processuais não podem ser vislumbrados como obstáculos insuperáveis à implementação concreta do processo eletrônico. O desafio a ser enfrentado é o de adequação dos vetores principiológicos tradicionais à nova realidade processual”.

Os primeiros trabalhos no sentido da utilização de recursos computacionais para a recuperação de textos jurídicos foram realizados entre 1956 e 1968, na Universidade de Pittisburgo, nos Estados Unidos da América, e foram naquele país que surgiram os primeiros bancos de dados jurídicos comerciais.157

Dínio de Santis Garcia aponta (de forma não exaustiva) diversas iniciativas que visavam a recuperação da informação judicial. Em Nova Iorque, em 1965, uma empresa desenvolveu um sistema computacional que armazenava três milhões de julgados dos tribunais federais. Baseava o sistema num dispositivo de pesquisa de um ementário com posterior envio da cópia integral ao cliente via correios, posteriormente telex e posteriormente via fax158.

Outra iniciativa de destaque foi promovida em 1971 pela Ohio Bar Automated Research, uma sociedade sem fins lucrativos que disponibilizou um revolucionário sistema no qual estavam armazenados a Constituição e os códigos do estado e ainda o texto integral das decisões dos Tribunais estatais. O sistema, segundo apresenta o docente Dínio Santis Garcia, se distingue dos demais, pois:

a) opera pesquisando textos integrais, a partir de descritores, sem qualquer manipulação prévia dos documentos originais;

b) trabalha em regime de tempo integral, de sorte que o cliente, através de terminal instalado em seu escritório, tem acesso direito e permanente ao computador;

c) permite que o consulente mantenha um diálogo contínuo com a máquina, vale dizer, o sistema enseja que o cliente faça uma consulta ampla e, tendo em vista a resposta oferecida, formule questões cada vez mais restritas, até ferir o ponto desejado.159

Com capacidade para trezentos terminais, em apenas seis meses o sistema contava com vinte escritórios vinculados à rede, levando serviços a pequenos escritórios instalados em diversos condados do estado.160 Com o sucesso da empreitada, o sistema LEXIS com a adesão de advogados americanos de vários estados, passou a reunir informações legais e jurisprudenciais de Nova Iorque e Ohio, aqui, tratando já com um sistema interligado remotamente.161

Na antiga União Soviética, em 1964, a Academia de Ciências deu início ao projeto denominado Direito Artificial cuja proposta era analisar problemas jurídicos

157

QUINTELLA, Thereza Maria Machado. A experiência europeia. Brasília, DF: Fundação Petronio Portella, 1985, p. 9.

158

GARCIA, Dínio de Santis. Introdução a informática jurídica. SP: J. Bushatsky, 1976, p. 119-120.

159

GARCIA, op. cit.,. p. 120.

160

GARCIA, op. cit., p. 121.

161

concretos e reduzi-los a um número finito de alternativas binárias (sim ou não), objetivando facilitar seu tratamento, encetando um padrão incipiente de informática decisória.162

A Itália, em 1973, inicia a utilização experimental de um sistema capaz de calcular indenizações decorrentes de acidentes de trânsito com base na legislação cível e jurisprudência florentina.163 No mesmo país ainda, aponta Quintella:

A Itália foi um dos primeiros países europeus a se interessar pela informática jurídica e é possivelmente o que mais avançou nessa matéria. Isso deve-se, sobretudo, à ação governamental e à coordenação de esforços entre a Corte Suprema (“Corte Superma de Cassazione”), a Câmara dos Deputados e o Instituto de Documentação Jurídica, que adotaram uma divisão de trabalho na coleta e na preparação das informações, como objetivo de lograr um sistema de informática jurídica, de acesso generalizado e de âmbito nacional. Um decreto de 21 de maio de 1981 confiou ao Centro Eletrônico de Documentação da Corte Suprema a responsabilidade por esse serviço público. 164

Em 2004, o Ministério da Justiça italiano elabora um documento intitulado “Diretrizes para o Desenvolvimento Estratégico do Processo Civil Telemático, editado pela Comissão de Planejamento do Projeto de Apoio à Realização do Processo Civil Telemático” concentrando suas atenções na informatização do processo judicial, pretendendo com isso um sistema capaz de gerir as informações do processo judicial de forma eletrônica, intercambiando-as entre os sujeitos do processo, sejam eles partes, juízes, promotores, auxiliares, peritos, simplificando as atividades burocráticas do processo, evitando e redundância e por fim, dando celeridade, transparência ao processo, criando mecanismos que permitam prever a duração dos atos processuais e procedimentos judiciais.165

Em Portugal atualmente consta previsão no ordenamento processual civil para que os atos sejam realizados por meio eletrônico, conforme se depreende do art. 132º do diploma processual aprovado em Junho de 2013166 (equivalente ao art. 150 do CPC lusitano revogado), que assim dispõe:

162

GUIBOURG, Ricardo A; ALENDE, Jorge O; CAMPANELLA, Elena M. Manual de informática jurídica. Buenos Aires: Ástrea, 1996, p. 14.

163

QUINTELLA, Thereza Maria Machado. A experiência europeia. Brasília, DF: Fundação Petronio Portella, 1985, p. 14.

164

QUINTELLA, op. cit.,p. 37.

165

ZAN, Stefano. (Coord.). Tecnologia, organizzazione e giustizia: l´evoluzione del processo civile telematico. Bolonha: Il Mulino, 2004, p. 17.

166

PORTUGAL. Lei nº 41/2013. Aprova o Código de Processo Civil. Diário da República. Lisboa, 26 jun. 2013. Disponível em: < http://goo.gl/SVuhmY>. Acesso em: 08 out. 2013.

Artigo 132.º

Tramitação eletrônica

1-A tramitação dos processos é efetuada eletronicamente em termos a definir por portaria do membro do Governo responsável pela área da justiça, devendo as disposições processuais relativas a atos dos magistrados, das secretarias judiciais e dos agentes de execução ser objeto das adaptações práticas que se revelem necessárias.

2-A tramitação eletrônica dos processos deve garantir a respetiva integralidade, autenticidade e inviolabilidade.

3-A regra da tramitação eletrônica admite as exceções estabelecidas na lei.

Antes, porém, o Decreto-Lei nº 28/92167 institui o regime de transmissão de cópias e documentos judiciais por meio de telecópia (equivalente ao fax). No decreto, consta na sua parte tópica, a justificativa para o recurso, introduzir alguns ajustamentos à disciplina dos atos processuais, e com isso, modernizar e desburocratizar os serviços judiciais. A disciplina, contudo, por não possuir um mecanismo que garantisse a integridade da informação, exigia que fosse remetido posteriormente o original devidamente assinado no prazo de sete dias, em regulamentação equivalente a lei brasileira que autorizou a remessa de petições por fax.

Posteriormente, o Decreto-Lei nº 324/03 altera a disciplina do CPC lusitano autorizando a prática do ato processual por meio eletrônico, determinando também que o original fosse posteriormente apresentado num prazo de cinco dias. Adiante, torna obrigatória a utilização do sistema de assinatura eletrônica para envio de atos processuais por correio eletrônico, (Portaria n.º 1178-E/2000168), regulamentando posteriormente a assinatura eletrônica pelo Decreto Regulamentar n.º 25/2004169 e mais adiante o Decreto-Lei n.º 116-A/2006170, de 16 de Junho com a criação do sistema de certificação eletrônica.

Em 2008, após a edição da Portaria 114/08171 alterada pela Portaria nº

167

PORTUGAL. Decreto-Lei nº 28/92, Disciplina a Comunicação de Actos Processuais por Meio Eletrônico.Diário da República. Lisboa, 27 fev. 1992. Disponível em: < http://goo.gl/SKKpD8>. Acesso em: 08 out. 2013.

168

PORTUGAL. Portaria nº 1178-E/2000. Altera art. 150 CPC, para adequá-lo a tramitação eletrônica de informações. Diário da República. Lisboa, 15 dez. 2000. Disponível em: <http://goo.gl/eTRI30>. Acesso em: 08 out. 2013.

169

PORTUGAL. Decreto Regulamentar nº 25/2004. Disciplina a eficácia e valor probatório dos documentos eletrônicos. Diário da República. Lisboa, 15 jul. 2004. Disponível em: <http://goo.gl/yPTI7Z>. Acesso em: 08 out. 2013.

170

PORTUGAL. Decreto-Lei nº 116-A. Disciplina a Implementação em curso de vários programas para a promoção da tecnologia de informação e comunicação e introdução e comunicação e da introdução de novos processos de relacionamento em sociedade. Diário da República. Lisboa, 16 jun. 2006. Disponível em: < http://goo.gl/sZxS63>. Acesso: 8 Out. 2013

171

PORTUGAL. Portaria 114/2008. Disciplina a desmaterialização e simplificação de atos processuais.Diário da República. Lisboa, 06 fev. 2008. Disponível em: <http://goo.gl/FbBr1N>. Acesso em: 08 out. 2013.

471/2010172, tem-se então início a elaboração de um sistema para processamento da informação judicial, denominado CITIUS, cujo contexto inicial volta-se unicamente para ações declaratórias cíveis, providências cautelares e notificações judiciais avulsas, com exceção dos pedidos de indenização civil ou dos processos de execução de natureza cível deduzidos no âmbito de um processo penal, ações executivas cíveis, com exceção da apresentação do requerimento executivo.

O sistema, porém, conforme se verifica no regulamento de sua implantação, não é utilizado para o envio de peças importantes e sentenças, determinando assim a criação de um sistema de tramitação processual parcialmente eletrônica,173 as quais devem ser apresentadas em cartório, o que faz concluir que é notadamente um mecanismo de envio e não um sistema de processo eletrônico, até mesmo pelo seu caráter facultativo de utilização.

Compraz verificar, no entanto, que o Ministério da Justiça lusitano vem enfrentando fortes críticas com o repasse da gestão do sistema para uma entidade privada, sem a anuência dos servidores que o elaboraram, o que gera perante a comunidade jurídica do país, o temor de que a justiça reste prejudicada, conquanto estes foram demitidos antes da conclusão da transferência do conhecimento, deixando o sistema sem suporte e com o premente risco de colapso da justiça que atualmente direciona grande parte de sua tramitação eletrônica para o sistema174.

Na Espanha, o sistema LEXNET, cuja implantação decorre do Real Decreto nº 84/2007,175 disponibiliza um sistema de envio de petições, consulta de movimentação, decisões e atos de expediente dos processos, bem como comunicação eletrônica.

Nos Estados Unidos da América, usa-se o sistema Public Access to Court Electronic Records (PACER) juntamente com o CM/ECF que reúne neste mecanismo de

172

PORTUGAL. 471/2010. Altera a Portaria nº 114/2008. Diário da República. Lisboa, 08 jul. 2010. Disponível em: < http://goo.gl/FbBr1N>. Acesso em: 08 out. 2013.

173

Conforme se extrai da Portaria que institui o sistema “Note -se, contudo, que não estão em causa peças essenciais ao processo como peças processuais ou sentenças. Essas, porque são relevantes para a decisão material da causa, estarão no processo em suporte físico.

174

PORTUGAL. Tribunais em Risco de Colapso Informático. Diário de Justiça. Lisboa, 08 fev. 2013. Disponível em: < http://goo.gl/9KT2O5>. Acesso em: 08 out. 2013.

175

ESPANHA. Real Decreto 84/2007, de 26 de enero, sobre implantación en la Administración de Justicia del sistema informático de telecomunicaciones Lexnet para la presentación de escritos ydocumentos, el traslado de copias y la realización de actos de comunicación procesal pormedios telemáticos. Boletin Oficial del Estado, 13 fev. 2013. Disponível em: < http://goo.gl/68BoqE>. Acesso em: 80 out. 2013.

peticionamento eletrônico e naquele somente consulta de informações judiciais176. Observa-se deste modo, que o movimento de inserção da tecnologia do processo é promissor em diversos países, mas acredita-se que sem dúvida, seja mais ambicioso no Brasil, conquanto a proposta é uma integral e ampla prestação jurisdicional e não somente vinculada a etapas processuais e a determinadas espécies de atos processuais.

176

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Public Access to Court Electronic Records (PACER) Disponível em: <http://www.pacer.gov/> Acesso em: 08 out. 2013.

4 PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO: PRIMEIRAS CONCEPÇÕES

O debate envolvendo a natureza jurídica do processo, bem como a busca de sua distinção em relação ao procedimento, foi a tônica dos estudos da disciplina processual no último século. Na precisa lição de Aroldo Plínio Gonçalves:

A questão se reveste da maior importância, por várias razões. Primeiro, pode considerar-se que vem posta no próprio ordenamento jurídico positivo, quando destina suas normas a reger a “jurisdição contenciosa e voluntária”, a regular o “procedimento comum” e os “procedimentos especiais”, o “processo” de conhecimento, de execução e cautelar. Em seguida, observa-se que já se encontra consolidada, no plano teórico, a proposta de um novo tratamento das relações entre procedimento e processo, que suscita nova reflexão sobre seus conceitos. Por fim, a Constituição da República de 5 de outubro de 1988, ao atribuir, no art. 22, item I, competência privativa à União para legislar sobre Direito Processual, e, no art. 24, item XI, competência concorrente aos Estados e ao Distrito Federal, para legislar sobre “procedimentos em matéria processual”, desperta um novo interesse sobre procedimento e processo como objeto das normas estudadas pelo Direito Processual, que ultrapassa o campo acadêmico.177

Adiante complementa:

É nesse sentido que se pode falar na existência, no campo do Direito Processual, de duas tendências distintas, firmadas sobre dois fundamentos teóricos diferentes, cada uma delas trabalhando com base em seus conceitos, suas definições, suas categorias, seus institutos. As diferenças do quadro teórico não incidem apenas no conceito isolado de procedimento e de processo, mas alcançam temas fundamentais do Direito Processual. É necessário se ressaltar, entretanto, que essa diferença de tratamento dado aos temas decorre, fundamentalmente, da concepção que se adote sobre procedimento e sobre processo, porque é por ela que se começará a estabelecer todo um sistema de conceitos de que o Direito Processual necessita para suas construções jurídicas178.

Aparentemente pacificada a divergência, ressurge após a promulgação da LIP, notadamente diante da dicção contida no art. 18 do diploma, preconizando ser competência dos órgãos do Poder Judiciário, a regulamentação da lei, no que couber no âmbito de suas respectivas competências.

Isso, a toda evidência, decanta a predominante discussão que talvez se aparelhe à garantia da publicidade processual no PJE como pontos de maior embate já presenciado na doutrina que discute a informatização do processo, a qual aguarda uma

177

GONÇALVES, Aroldo Plínio. Técnica processual e teoria do processo. 2. ed. -. Belo Horizonte: Del Rey, 2012, p. 46.

178

manifestação do STF em prol de uma correta interpretação sobre essa competência regulamentar, especialmente para que se possa firmar a nova exegese decorrente da prestação jurisdicional pela via eletrônica, identificando-a como regras de processo ou de procedimento, condições essas inafastáveis para que se possam alcançar desideratos inafastáveis de um processo justo.

Importante salientar que a competência legislativa para disciplinar sobre as temáticas de processo, advém do texto constitucional, quando prevê em seu artigo 22, inciso I, ser atribuição exclusiva da União, legislar sobre ele, e noutra vertente, ser concorrente, juntamente com os Estados e Distrito Federal a competência para legislar sobre procedimentos, conforme subsume-se do art. 24, inciso XI da mesma norma.

A atribuição constitucional dá azo e refletem a necessidade da correta alocação das regras do PJE, posto que cabem aos tribunais regular somente a matéria procedimental. Por outro lado, àquelas que sejam eminentemente processuais e que tenha sofrido modificação por texto regulamentar do órgão judicial, será a toda evidência inconstitucional, máxime por lesar o devido processo legal legislativo, garantia inafastável para uma escorreita prestação e tutela jurisdicional.

Portanto, para uma melhor compreensão do tema, imperiosa uma breve digressão com base na doutrina eleita nesse estudo, para que se perquirir acerca da adequada compreensão de um justo processo a ser procedido pelo meio eletrônico, respaldado pela ampla defesa, contraditório e devido processo legal, previsto em lei.

Acerca do procedimento, inicialmente Elio Fazzalari destaca que ele extrapola sua visão enquanto atividade exclusiva da justiça, sendo aplicável inclusive no âmbito da administração pública179. Adiante, esclarece que cada norma que concorre para descrever a sequência chamada procedimento, descreve uma conduta e a qualifica como direito ou obrigação180. Para ele:

O procedimento é, enfim, visto como uma série de “faculdades”, “poderes”, “deveres”, quantas e quais sejam as posições subjetivas possíveis de serem extraídas das normas em discurso e que resultam também elas necessariamente ligadas, de modo que, por exemplo, um poder dirigido a um sujeito depois que um dever tenha sido cumprido, por ele ou por outros, e por sua vez o exercício daquele poder constitua o pressuposto para o insurgir-se de um outro poder (ou faculdade ou dever).181

179

FAZZALLARI, Elio. Instituições de direito processual. Trad. Elaine Nassif. Campinas: Bookseller Editora e Distribuidora, 2006, p. 112.

180

FAZZALLARI, op. cit., p. 113.

181

Para Fazzalari182 o regime de validade e eficácia de cada ato do procedimento, e daquele final, depende da regularidade ou irregularidade do ato que o procede e influi sobre a validade e sobre a eficácia do ato e dos atos dependentes que o seguem (compreendido aquele final) sendo que o que importa o que, para fins da qualificação do ato como “procedimental”, é que ele desenvolva seu importante papel na seqüência “procedimento”. A posição do autor italiano recebeu adesão no Brasil, que tem como protagonista Aroldo Plínio Gonçalves que em sua interpretação explica:

O procedimento é uma atividade preparatória de um determinado ato estatal, atividade regulada por uma estrutura normativa, composta de uma sequência de normas, de atos e de posições subjetivas, que se desenvolvem em uma dinâmica bastante específica, na preparação de um provimento. O provimento é um ato do Estado, de caráter imperativo, produzido pelos seus órgãos no âmbito de sua competência, seja um ato administrativo, um ato legislativo ou um ato jurisdicional.183

A doutrina caminha para o entendimento de que o procedimento ganha nova roupagem quando a atividade desenvolvida pela atividade estatal seja ela administrativa ou judicial tenha como condão modificar, extinguir ou constituir direitos estabelecidos. Nesse rumo, tem-se o processo como:

(...) um procedimento do qual participam (são habilitados a participar) aqueles em cuja esfera jurídica o ato final é destinado a desenvolver efeitos: em contraditório, e de modo que o autor do ato não possa obliterar as suas atividades.184

É necessário, portanto, para identificar o processo, que haja uma série de normas (e atos, e posições jurídicas) que se reportem aos destinatários dos efeitos do provimento, realizando entre eles um contraditório paritário185. A essa noção, imperiosa a contribuição trazida por Aroldo Plínio Gonçalves que preconiza:

Pelo critério lógico, as características do procedimento e do processo não devem ser investigadas em razão de elementos finalísticos, mas devem ser buscados dentro do próprio sistema jurídico que os disciplina. E o sistema normativo revela que, antes que “distinção”, há entre eles uma relação de inclusão, porque o processo é uma espécie do gênero procedimento, e, se pode ser dele separado é por uma diferença específica, uma propriedade que

182

FAZZALLARI, Elio. Instituições de direito processual. Trad. Elaine Nassif. Campinas: Bookseller Editora e Distribuidora, 2006, p. 117.

183

GONÇALVES, Aroldo Plínio. Técnica processual e teoria do processo. 2. ed. -. Belo Horizonte: Del Rey, 2012, p. 87.

184

FAZZALLARI, op. cit., p. 118-119

185

possui e que o torna, então, distinto, na mesma escala em que pode haver distinção entre gênero e espécie. A diferença específica entre o procedimento geral, que pode ou não se desenvolver como processo, e o procedimento que é processo, é a presença neste do elemento que o especifica: o contraditório. O processo é um procedimento, mas não qualquer procedimento; é o procedimento de que participam aqueles que são interessados no ato final, de caráter imperativo, por ele preparado, mas não apenas participam; participam de uma forma especial, em contraditório entre eles, porque seus interesses em relação ao ato final são opostos.186

Por fim, conclui então Gonçalves:

O processo começa a se definir pela participação dos interessados no provimento na fase que o prepara, ou seja, no procedimento. Mas a essa definição se concluirá pela apreensão da específica estrutura legal que, inclui essa participação, da qual se extrairá o predicado que identifica o processo, que é o ponto de sua distinção: a participação dos interessados, em contraditório entre eles.187

Deflui então com indispensável caracterização a viabilidade de se distinguir entre normas processuais e normas procedimentais, objeto dessa análise, no tocante do PJE, máxime para que se possa alcançar a extensão das normas desenvolvidas com o fito de se discipliná-lo, havendo um profícuo debate instalado na doutrina pátria que merece ser trazido a lume sobre a natureza jurídica desse novo substrato, o qual aventado como um processo e não procedimento eletrônico, mas que para isso devem-se analisar as normas a ele aplicadas, bem como sua obediência às garantias da ampla

No documento Processo justo eletrônico (páginas 67-76)