Feita a digressão sobre a opção legislativa para qualificar o fenômeno da informatização, pretende-se agora compreender se a disciplina proposta na LIP refere-se ao processo eletrônico propriamente ou a um procedimento eletrônico, especialmente em razão da expressão contida na ementa da lei, cujo desiderato propõe regulamentar a informatização do processo judicial.
Observa-se que no primeiro capítulo da norma, encontra-se novamente a dicção processo judicial (art. 1º) para na sequência, no terceiro capítulo também declinar a sua aplicação ao processo denominado como eletrônico. A expressão procedimento é encontrada uma única vez na LIP, contudo sem qualquer relevância prática, pois afeita ao sistema de credenciamento dos interessados em utilizar o processo eletrônico (art. 2º, § 1º).
A lei, embora primando pela definição do chamado processo eletrônico não recebeu o aceite da doutrina quanto a essa designação, sendo objeto de debate acerca da melhor designação para essa forma de tramitação processual eletrônica.
Nesse diapasão, Dheniz Cruz Madeira defende que o que a LIP disciplina é o meio criado para estruturação procedimental, incluindo-se a comunicação, a transmissão de petições e atos judiciais. Para ele:
Caso o procedimento eletrônico seja regido pela isonomia, contraditório, ampla defesa e pelo devido processo, constatar-se-á que o exercício do processo foi assegurado pela via eletrônica (e não cartular). Caso seja restringido às partes o direito de comparticipar da construção das decisões, ter-se-á mero procedimento, mero rito, ou melhor um procedimento
eletrônico sem processo, o que não quer dizer que o mesmo seja ilegal, porquanto o ordenamento brasileiro admite, em alguns casos, procedimentos sem processo199.
Isso, claro, depende da estrutura esperada com prestação jurisdicional. Se evidenciada a possibilidade de intervenção na órbita de direitos de ação ou defesa dos interessados, ter-se-á um processo, no qual devem inexoravelmente ser observadas as garantias do processo previstas na CRFB, notadamente para o alcance de seus desideratos como reflexos do texto maior.
Noutro sentido, não se tem um novo processo, como vem debatendo outra parte da doutrina. Edilberto Barbosa Clementino sugere somente uma nova forma para o processo, continuando o mesmo:
A adoção do Processo Eletrônico apenas confere nova roupagem ao Processo Judicial. O Processo Judicial Eletrônico deverá estar sujeito às mesmas formalidades essenciais que o Processo tradicional, no tocante a ser obedecido o procedimento legalmente previsto para a apuração da verdade, em uma sucessão concatenada de atos Processuais, em que seja assegurado o contraditório e a ampla defesa, umbilicalmente ligados ao Princípio do Devido Processo Legal200.
José Carlos de Araújo Almeida Filho, por seu turno entende tratar-se de norma procedimental, cuja competência seria concorrente entre a União, Estados e Distrito Federal. Segundo entende o Autor com o advento da Lei nº 11.280/2006, inserindo o parágrafo único ao art. 154, não se pode olvidar tratar-se de procedimento a norma disposta naquela lei, máxime por serem todos os tipos de processo manejáveis por meio dessa espécie de procedimento que comporta dentro desse novo procedimento especial a promoção de outros procedimentos como o sumário e os sumaríssimos, manejáveis nos juizados especiais201.
Nesse ponto merece um apontamento acerca da imprecisão do autor ao buscar definir a natureza jurídica da tramitação eletrônica, máxime por entender sobrelevação do procedimento eletrônico aos outros tipos procedimentais definidos no CPC. Visto que o procedimento é uma série de faculdades, poderes, deveres, em
199
MADEIRA, Dhenis Cruz. Processo eletrônico e cognição no direito democrático. Revista Dialética de Direito Processual, São Paulo , n.55 , p. 51-68, out. 2007, p. 60.
200
CLEMENTINO, Edilberto Barbosa. Processo judicial eletrônico: o uso da via eletrônica na comunicação de atos e tramitação de documentos processuais sob o enfoque histórico e principiológico, em conformidade com a Lei 11.419, de 19.12.2006. Curitiba: Juruá, 2008, p. 144.
201
ALMEIDA FILHO, José Carlos de Araújo. Processo eletrônico e teoria geral do processo: a informatização judicial no Brasil. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 148-151.
decorrência das posições subjetivas possíveis de serem extraídas das normas que ligam os sujeitos vinculados ao objeto da lide, não se pode pretender que o procedimento, agora por ser eletrônico, teria uma nova feição, a ponto de ser definido com uma natureza jurídica distinta. Ele continua o mesmo, possuindo a partir da Lei nº 11.280/06 que modifica o art. 154 do CPC uma nova forma de serem realizados os atos (pela via eletrônica) que merece uma disciplina específica, mas não autônoma.
José Eduardo Resende Chaves Jr. em sentido diverso entende que na verdade tem-se verdadeiramente um processo eletrônico, visto que sob a ótica da desmaterialização, adquire uma referencial exponenciação que o transforma em um processo em rede202 conquanto:
Transportando essas perspectivas para o caso especial do processo eletrônico, o que nos parece decisivo, aí, é, sobretudo, concebê-lo como fenômeno de interação entre o juiz, as partes e a sociedade, enfim, como fenômeno de uma rede social, econômica e política e não como mera estrutura de TI para as demandas judiciais.203
Adiante, sustentando a viabilidade do PJE inclusive para o alcance do caráter instrumental do processo, atinente aos seus escopos sociais e políticos em decorrência da forma em que se processaram as demandas, sustentando a necessidade de adoção de princípios próprios para o processo eletrônico, conclui que:
Nesse sentido, importar mecanicamente os princípios clássicos do processo de papel, para o processo eletrônico nos parece absolutamente inadequado, e por isso mesmo divergimos daqueles que defendem tratar a Lei n. 11.419/2006 de mero procedimento. Urge que se desenvolva uma tecnologia jurídica específica, para otimizar o potencial que essas novas tecnologias de comunicação e informação podem proporcionar para a resolução dos conflitos judiciais.204
Também, não há ainda que concluir tratar-se de um novo processo, que recebe a qualificação eletrônico, especialmente pelo fato de que este Autor, para validar sua tese, a sustenta em diversas passagens de seu trabalho, a referência ao processo, influenciado pela informatização, que desmaterializa os atos processuais e o conecta ao mundo,205 ou seja, o meio de se provocar a jurisdição, a tramitação do processo e ao
202
CHAVES JÚNIOR. José Eduardo Resende. O processo em rede. In: CHAVES JÚNIOR, José Eduardo Resende (Coord.). Comentários à lei do processo eletrônico. São Paulo. LTr Editora, 2010, p. 16.
203
CHAVES JÚNIOR, op. cit., p. 20.
204
CHAVES JÚNIOR, op. cit., p. 22.
205
CHAVES JÚNIOR. José Eduardo Resende. O processo em rede. In: CHAVES JÚNIOR, José Eduardo Resende (Coord.). Comentários à lei do processo eletrônico. São Paulo. LTr Editora, 2010, p. 16.
cabo, a tutela passa a ser eletrônica, de sorte que acredita-se não se tratar de uma nova sistemática processual e sim relativa aos meios como se inicia, desenvolve e conclui o processo.
Impõe-se então discernir acerca do fenômeno jurídico denominado processo, meio pelo qual o Estado exerce a autoridade jurisdicional sob determinada situação litigiosa, visando aplicar-lhe a lei repousada abstratamente no universo legislativo e dela extrair um comando para conferir a tutela estatal, que poderá ser cognitiva, executiva ou cautelar em decorrência do litígio proposto. Para tanto, serão eleitos procedimentos (conjuntos de técnicas para realização dos atos processuais) destinados a alcançar a pretensão tutelar esperada, que por ser turno deverá ser enquadrada num tipo de procedimento que será ordinário, sumário, sumaríssimo ou especial, cujas técnicas, decorrentes das normas lhes são próprias.
O resultado concreto, exterior dessa atividade hodiernamente é materializado em autos processuais, corporificação dos atos processuais, que redundaram numa espécie de processo, os quais atualmente em grande parte encontram- se num substrato tangível. Mas, paulatinamente abandona-se a matéria, o átomo, para transferir os atos para o mundo dos bits, o que demanda uma reflexão sobre essa passagem e posterior manutenção da informação processual nesse novo universo, máxime face à sempre vigilante observância das garantias e princípios processuais.
Com efeito, a inexistência de um novo processo é referendada por processualistas que entendem inexistir um novo modelo de processo e sim uma forma especial para realização dos atos processuais:
(...) Quanto ao processo eletrônico, muito ao contrário do que se tem afirmado, não tem, esse mecanismo, qualquer impacto relevante sobre os institutos processuais, mas, de forma diversa, consiste apenas em um conjunto de regras especiais de procedimento, que podem muito bem ser tratadas em lei especial ou parte separada do código. O fato de o processo ser eletrônico ou em papel não muda os requisitos da petição inicial, a ordem e forma de apresentação das defesas, a dinâmica das audiências, a coisa julgada e preclusões ou o cabimento dos recursos. A verdade é que não se está, ao se tratar do processo eletrônico, diante de outro processo, de outra espécie de relação jurídica processual, mas apenas diante de um novo ambiente em que se desenvolverão as atividades processuais. (...)206
A asserção dos doutrinadores constantes do mesmo texto merece ser criticada, em razão de alguns aspectos não observados quando da elaboração do Projeto
206
BAHIA, Alexandre, et. al. Juristas dizem que projeto do novo CPC está maduro. Informativo Migalhas. São Paulo, 10 jul. 2013. Disponível em: <http://goo.gl/El7S95>. Acesso em: 10 out. 2013.
de Lei no Novo Código de Processo Civil sobre o PJE. Inconteste a conclusão deles, de que se trata essa nova sistemática, somenos, um ambiente para desenvolvimento das atividades processuais, um novo meio para armazenamento dos autos do processo, que merece uma nova compreensão, mas não um novo processo, por não ser uma nova espécie de relação jurídica, como disposto por eles, muito menos, um novo conjunto de faculdades, obrigações destinadas aos sujeitos processuais, denominado como procedimento pela doutrina italiana.
Concorda-se sim, que não é um novo processo muito menos um novo procedimento. Mas é inevitável a necessidade de adequação dos princípios e garantias do processo nesse novo universo, dentre eles, aqueles conformadores de um justo processo. Essa realidade que se aporta no poder judiciário em que os autos do processo possuem uma nova caracterização, com importante inflexão sobre a prestação e tutela estatal.
Não se tratando, pois, de um processo ou procedimento eletrônico, mas tão somente da informatização do mecanismo utilizado para o exercício jurisdicional, esse fenômeno é definido como:
(...) a total informatização de um conjunto mínimo e significativo de ações e, por conseqüência, de documentos organizados em uma forma determinada e diversificada de fluxos que garantisse a esses documentos, individual e em conjunto, autenticidade, integridade e temporalidade207.
Esse fenômeno, a toda evidência, por sua importância e relevância no cenário jurídico merece uma nova análise, pois:
É ingênuo imaginar que a folha de papel tenha o mesmo potencial político e social de um monitor de computador. A imprensa demoliu uma hegemonia de mil anos, da cultura do manuscrito, do punho de ferro da igreja, dando lugar à galáxia de Gutembert. As novas tecnologias da mesma forma já estão rearticulando as formas de poder.208
Em face disso é que se propõe uma releitura das vetustas garantias do processo em cotejo ao que se propugna com a inserção da TIC’s no processo, haja vista a inserção e aproveitamento dos seus beneplácitos e reflexos, em consonância com a observação daquelas garantias que se mantêm incólumes, inclusive aquelas relativas ao
207
ROVER, Aires José. Definindo o termo processo eletrônico. Disponível em: <http://goo.gl/zRSvQD>. Acesso em: 10 out. 2013.
208
CHAVES JÚNIOR. José Eduardo Resende. O processo em rede. In: CHAVES JÚNIOR. José Eduardo Resende (Coord.). Comentários à lei do processo eletrônico. São Paulo. LTr Editora, 2010, p. 22.
devido processo legal e ampla defesa, as quais advém da competência legislativa e regulamentar do processo e do procedimento, as quais, diante da novel modalidade de prestação jurisdicional merecem ser revistas.