Wesley Roberto de Paula
PROCESSO JUSTO ELETRÔNICO
Wesley Roberto de Paula
PROCESSO JUSTO ELETRÔNICO
Projeto de pesquisa apresentado ao Curso de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito para a obtenção do Grau de Mestre em Direito.
Orientador: Prof. Dr. Fernando Gonzaga Jayme.
Paula, Wesley Roberto de
P324p Processo justo eletrônico / Wesley Roberto de Paula. - 2014.
Orientador: Fernando Gonzaga Jayme
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Direito.
Inclui bibliografia.
1. Processo legal justo - Brasil – Teses 2. Direito constitucional - Brasil - Teses 3. Informática – Aspectos jurídicos
- Teses I. Título II. Jayme, Fernando Gonzaga
PROCESSO JUSTO ELETRÔNICO
Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Direito da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais visando a obtenção do título de Mestre em Direito.
Belo Horizonte, 6 de Fevereiro de 2014.
Componentes da Banca examinadora:
_________________________________________________ Professor Doutor Fernando Gonzaga Jayme (Orientador) Universidade Federal de Minas Gerais
_________________________________________________ Professor Doutor Gláucio Ferreira Maciel Gonçalves (Titular) Universidade Federal de Minas Gerais
_________________________________________________ Professora Doutora Maria Emília Naves Nunes (Titular) Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
_________________________________________________ Manoel Galdino da Paixão Júnior (Suplemente)
À uma força que faz com que eu tenha a cada dia mais vontade de fazer e ser o melhor; que me dá esperanças e crença de que a vida, embora em alguns momentos árdua, é um constante ensinamento. Chamo essa força de Deus.
À minha Mãe, por ter me ensinado com sua simplicidade e humildade, a lidar com todas as adversidades da vida, transformando-as em conhecimento e experiência.
À minha esposa, Danielle, pelo amor incondicional, paciência e tolerância, que juntamente com nosso filhinho, pequeno Yan, com alegria e ternura, aceitaram e compreenderam minha ausência para que pudesse dedicar-me a esse projeto; por ter vivido sonhos e vê-los em sua maioria tornarem-se realidade sempre ao meu lado.
Aos meus irmãos, irmã, amigos, que souberam ouvir um “hoje não posso”; por ajudar em todos os momentos em que a vida acadêmica, pareceu algo tão difícil e complexo;
Ao amigo José Hilton, com quem uma grande amizade foi construída e em nome dela, o auxilio prestado nas situações pessoais e profissionais sem dúvida, mostraram-se resultado de uma sólida parceria. Pela amizade que prontamente se dispôs a suplantar minha ausência profissional.
Ao ilustre orientador, Professor Doutor Fernando Gonzaga Jayme, que de maneira desprendida aceitou auxiliar-me nessa empreitada, conduzindo a orientação de forma profícua e lúcida, fazendo com que o alcance dessa proposta fosse possível.
Só lamento não estar presente na vitória final do progresso, quando um processo começará (eletronicamente) e acabará (eletronicamente) talvez em poucos minutos. Calmon de Passos. Considerações de um troglodita sobre o processo eletrônico.
RESUMO
Esta dissertação tem como objetivo central investigar e compreender o fenômeno da
informatização do processo judicial no Brasil. Seu objetivo foi analisar a possibilidade
de se promover esse intento, atentos aos desideratos de um justo processo, consoante
propõe a doutrina italiana, reconhecida por processualistas brasileiros. Partindo do
movimento reformista que visa impingir ao processo a duração razoável,
demonstrando-se a necessidade em demonstrando-se alcançar meios céleres de prestação jurisdicional. Inicialmente o
estudo expõe os primeiros empreendimentos sobre a informatização do processo no
Brasil e no mundo. Num segundo momento apresenta como decorrência dos estudos
preliminares a influência da Cibernética e posteriormente Jurimetria no Direito e no
Processo Judicial. Na sequência, para contribuir com o debate sobre a correta nomeação
do fenômeno, faz apontamentos sobre os nomes utilizados para o fenômeno bem como
sua adequação como processo ou procedimento eletrônico. Adiante, relaciona a
constitucionalização do processo, especialmente acerca do processo judicial concebido
como justo, a luz da observância das garantias constitucionais, cotejando-as em razão
dos modelos de informatização existentes, destacando vícios nas práticas hodiernas que
colidem com as garantias em estudo. Pretende-se com o desenvolvimento do estudo,
apresentar, com base na hipótese lançada, a possibilidade de se alcançar a
informatização do processo judicial em adequação as garantias do processo justo.
ABSTRACT
The present dissertation investigates if it is possible to reconcile the computerization of
the judicial process in Brazil phenomenon with the constitutional guarantees that
surrounds the institute. Considering the notion of a fair trial (as proposed by italian
doctrine adopted by brazilian scholars), the study analyses the shape of the phenomenon
and the viability of the mentioned hypothesis. Hence, it focuses on the right to a fair
trial within a reasonable time, as defended by the reformist movement. At first, the
study presents the evolvement of the computerization process in Brazil and worldwide.
As a result of the preliminary studies, the dissertation points the influence of cybernetics
and later jurimetrics on Law and on Judicial Process. Then, it compares the
nomenclature used to identify the phenomenon and their adequacy as “judicial process”
or “procedure”. Subsequently, the research compares the existing computerization
models among one another, in the light of “constitutionalization” of the fair process
movement and the need to implement fundamental rights. The main challenges were
highlighted. As a conclusion, the dissertation advocates the possibility of achieving
computerization of the judicial process, delineating some requirements to assure its
adequacy to the due process guarantees.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ADI - Ação Direta de Inconstitucionalidade
Art. - Artigo
CF - Constituição Federal
CLT - Consolidação das Leis do Trabalho
CNJ - Conselho Nacional de Justiça
CPC - Código de Processo Civil
CPP - Código de Processo Penal
CRFB - Constituição da República Federativa do Brasil
CSJT - Conselho Superior de Justiça do Trabalho
ICB-Brasil - Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira
ICM - Imposto sobre Circulação de Mercadoria
INSS - Instituto Nacional de Seguridade Social
LIP - Lei de Informatização do Processo
NCPC - Novo Código de Processo Civil
OAB - Ordem dos Advogados do Brasil
PCA - Procedimento de Controle Administrativo
PJE - Processo Judicial Eletrônico
PLNCPC - Projeto de Lei do Novo Código de Processo Civil
PRAT - Processos de Acidentes de Trabalho
PRODASB - Processamento de Dados de São Bernardo do Campo S.A
SIGI - Sistema Integrado de Gestão da Informação
STF - Supremo Tribunal Federal
STJ - Superior Tribunal de Justiça
TICs - Tecnologias de Informação e Comunicação
TRF - Tribunal Regional Federal
TRT - Tribunal Regional do Trabalho
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 12
2 ACESSO À JUSTIÇA: O PJE COMO PRESSUPOSTA PANACÉIA ... 16
3 PODER JUDICIÁRIO E TECNOLOGIAS ... 30
3.1 Informática jurídica ... 34
3.1.1 Cibernética ... 38
3.1.2 Direito e cibernética ... 41
3.1.3 Jurimetria ... 42
3.2 Direito e tecnologia: a experiência brasileira ... 52
3.2.1 Informatização do processo judicial trabalhista ... 59
3.3 Direito e tecnologia: experiência estrangeira ... 66
4 PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO: PRIMEIRAS CONCEPÇÕES ... 72
4.1 TIC’s e processo judicial: definições propedêuticas em prol da definição de sua natureza jurídica ... 75
4.2 Processo ou procedimento eletrônico? ... 80
4.3 PJE e competência legislativa ... 85
5 CONSTITUIÇÃO E PROCESSO ... 94
5.1 Acesso à jurisdição e PJE ... 98
5.1.1Uniformidade, obrigatoriedade e disponibilidade dos sistemas. ... 100
5.2 Devido processo legal, contraditório, defesa em simétrica paridade ... 109
5.3 Direito a prova, contraprova e sua produção ... 119
5.4 Publicidade do processo ... 126
5.4.1 TIC’s e relativização da publicidade processual ... 133
5.4.1.1 Tratativa do tema pelo CNJ ... 134
5.5 Fundamentação das decisões judiciais ... 142
6.1 Isonomia e igualdade ... 165
6.2 Conexão ... 167
6.3 Instrumentalidade. Dupla instrumentalidade. Equivalência instrumental... 174
6.4 Imaterialidade, imaginalização mínima, datificação pertinente e extraoperacionalidade... 177
6.5 Máxima automação e prioridade na função de julgar. Norma tecnológica. ... 180
6.6 Imediação, identidade física do juiz e oralidade ... 184
6.7 Economia processual ... 190
6.8 Desterritorialização e ubiquidade judiciária ... 194
6.9 Acessibilidade eletrônica ... 197
7 O PJE E TUTELA JURISDICIONAL EFETIVA... 200
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 205
1 INTRODUÇÃO
A tônica do processo civil moderno volta-se sem dúvida para o alcance de
mecanismos processuais capazes de garantir ao cidadão uma prestação jurisdicional
efetiva e com duração razoável, suficiente para justificar o exercício do poder estatal e
evitar com isso que ele lance mão de métodos próprios para resolver seus litígios.
Esse ideal, no entanto, não é alcançado, o que é facilmente percebido com o
avassalador crescimento da demanda pela prestação estatal jurisdicional. Em razão do
chamamento constitucional decorrente da promulgação da Constituição de 1988,
verteu-se ao cidadão uma miríade de direitos e garantias, em maioria efetiváveis somente por
meio do processo judicial. Com isso, diuturnamente cresce o número de litígios postos à
apreciação da jurisdição.
Com foco somente na adoção de mecanismos para administração desse
avultado número de processos, as reformas nas legislações processuais tenderam
unicamente a criar novos mecanismos de propositura de demandas judiciais, o que em
alguns casos, resultou em ritos diminutos e informais, como os vistos nos juizados
especiais que continuam recebendo um grande número de processos para apreciação.
Vê-se que o movimento reformista dissocia-se de questões afeitas a outros
cenários, sendo insofismável acreditar que somente as reformas processuais serão
suficientes para conter o crescimento da demanda. Com elas, busca-se administrar o
estoque da demanda, mas não evitar seu crescimento, que muitas vezes advém de
legislações incompletas, ausência de fiscalização do Poder Executivo em relação aos
serviços prestados por entes delegados, dentre outras.
Sem ainda preocupar-se com a causa do crescimento da tutela estatal, a
partir de 2001 observa-se no cenário judicial a intensa inserção dos recursos de
tecnologia e processamento de dados no processo, o que aporta no cenário judicial como
algo de vanguarda. Malgrado, impõe-se consignar que de fato, o tema encontra-se
incutido no cenário brasileiro desde a década de Setenta, não tendo evoluído em razão
da baixa adesão do país aos recursos tecnológicos, mas pensado desde aquela época
como dotado de potencialidades geradoras de uma melhor prestação desse serviço
estatal.
Desde então, até a época presente, superado um hiato de quase quarenta
anos sem discussões práticas ou acadêmicas sobre a temática, retoma-se com
visando com isso, alcançar uma prestação jurisdicional célere, consentânea às realidades
sociais e que guarde em seus meandros, a efetividade.
A preocupação, nesse estudo, é perquirir se a inclusão da tecnologia no
cenário jurisdicional é alcançável com base nos desideratos de um processo realizado
em contraditório, notadamente no atual cenário, em que a ele se aduzem as garantias
fundamentais do processo previstas na Constituição da República Federativa do Brasil
(CRFB) para que seja então reputado justo, devendo ser estrita a observância às
garantias de acesso à jurisdição, direito a defesa e participação efetiva no processo,
contraditório e igualdade de armas, direito a prova, contraporva e participação na sua
aquisição, publicidade e fundamentação das decisões judiciais, independência e
imparcialidade do juiz, bem como duração razoável do processo, análise hipotética a ser
alcançada nesse estudo.
Para investigação dessa proposição, é de suma importância percorrer a
doutrina clássica sobre o tema, que desde os primeiros estudos nacionais e estrangeiros
lançou luzes com propostas de uma informatização judicial ideal, trazendo suas
contribuições, chegando até enlaces acadêmicos atuais, que hoje se debruçam sobre o
Processo Judicial Eletrônico (PJE) e merecem ser apreciadas a guisa de destacar seus
êxitos e deméritos.
Conciliando as proposições desses estudos com as mais balizadas
compreensões sobre o processo justo, respaldado por garantias constitucionais,
buscar-se-á ao final compreender a possibilidade de se informatizar o processo judicial,
mantendo-se incólumes as garantias que o perfazem justo como pretende a doutrina
italiana.
Destarte, para essa tarefa o trabalho será desenvolvido em cinco momentos
concatenados e complementares, que ao termo, alcançaram o resultado desse estudo,
analisando as propostas de informatização do processo judicial no Brasil ao denominado
processo justo.
Assim o próximo capítulo, complementar-se-ão as noções preambulares
trazidas nesse introito, justificando-o as premissas de uma remodelagem no acesso à
jurisdição, baseada em asserções teóricas e dados estatísticos. No terceiro capítulo,
far-se-á uma compilação acerca das primeiras tratativas sobre o movimento de
informatização no Brasil e em outros países, bem como evidenciar-se-á que esse
movimento inicialmente foi ambicionado de forma distinta da que hoje se vivencia,
sequência, tem-se por necessário trazer à lume as concepções sobre a natureza jurídica
da disciplina, posto que com a aprovação da Lei de Informatização do Processo (LIP),
ressurge (menos tenaz), a dicotomia entre processo e procedimento, máxime para que se
possa identificar, agora, a existência de um processo ou procedimento eletrônico.
Pretende-se então, contribuir para a correta definição da natureza jurídica desse
instituto, bem como realçar o embate existente acerca da competência legislativa sobre a
novel temática.
No capítulo cinco, em enfrentamento do tema, pretende-se aferir se os
modelos de informatização postos bem como as experiências atuais em que se
promoveu a inserção da tecnologia, autorizam a existência de um modelo de processo
justo informatizado. Adiante, compraz trazer reflexões sobre os princípios vetustos do
processo que agora recebem nova roupagem com a informatização, bem como
apresentar novas ilações da doutrina especializada sobre novos princípios propostos
para o processo judicial. Na parte final, confluindo todas as indagações, pesquisas e
estudos vertidos no decorrer do estudo, apresentar-se-á a conclusão alcançada acerca da
adequação dos modelos existentes ao processo justo.
O presente estudo é elaborado de forma interdisciplinar, mediante estudos
de caráter pluri e transdisciplinar. O foco de conhecimento volta-se para o Direito
Processual Civil, Direito Processual Constitucionalizado e Informática Jurídica.
Metodologicamente adotam-se vertentes jurídico-teórica e jurídico-dogmática, sendo
opção pelos tipos metodológicos: a) jurídico exploratório; b) jurídico-compreensivo; c)
jurídico-prospectivo; e d) jurídico-propositivo. São empregadas as técnicas de
pesquisa-ação e de pesquisa teórica, qualitativa e descritiva. A pesquisa jurisprudencial e análise
de conteúdo (textos normativos e doutrinários) são eleitas como procedimentos
metodológicos.
A hipótese vertida no estudo é analisada partindo-se das premissas relativas
ao processo justo, erigidas pelo doutrinador italiano Luigi Paolo Comoglio, o qual o
elege como ideal a ser alcançado apropriadamente num Estado Democrático de Direito.
Para Comoglio, a atuação estatal mediante o processo judicial somente pode ser
considerada justa se legitimada por um conjunto de regras e princípios constitucionais,
tendentes a alcançar a legitimidade da jurisdição. Nesse passo, para ser assim
considerado, deve abranger minimamente as garantias fundamentais previstas na CRFB,
quais sejam, juiz natural, acesso à justiça, ampla defesa e contraditório, decisões
Face à interdisciplinaridade, traz-se para a compreensão da presente
proposta, os estudos de Augusto Marcacini que há muito se debruça sobre a
informatização do processo, sendo suas precisas lições contributivas para encetar e
ultimar a análise sob os auspícios de um justo processo, não olvidando de coletar os
mais variados entendimentos contidos na moderna doutrina sobre a informatização
judicial.
Por conclusão, sendo certo que o processo justo sobreleva-se o caráter
meramente formal de acesso à jurisdição, proporcionando a todos uma prestação
jurisdicional efetiva, adequada e tempestiva, inexorável a dialeticidade que deve existir
entre ele e a tecnologia na atualidade, especialmente para que a decisão judicial seja
proferida em tempo razoável, atenta aos reclamos da sociedade, amparada pelos
desideratos constitucionais do processo, objeto de estudo a ser desenvolvida nesse
2 ACESSO À JUSTIÇA: O PJE COMO PRESSUPOSTA PANACÉIA
O tema relativo ao acesso à justiça desperta especial atenção no cenário
jurisdicional, notadamente pela dificuldade do Estado promover essa atividade de forma
satisfatória, suficientemente hábil para atender aos reclamos da sociedade.
Com esse norte, diante da sempre premente necessidade de o cidadão
assumir o seu papel na construção e manutenção da democracia, quando se submete à
autoridade estatal para solução dos litígios, impõe-se a adoção de um sistema
jurisdicional célere e eficiente, capaz de contemplar os anseios da sociedade por uma
prestação jurisdicional efetiva.
Para isso, a adoção de reformas na legislação processual, dentre outras
medidas, motivou amplos estudos sobre o tema,1 mas que na verdade não olvidam
outras análises acerca das crises existentes para o amplo acesso à justiça, associando-a
também a uma deficitária gestão do serviço jurisdicional, que tem como nefasta
consequência torná-la letárgica:
Ademais, o incremento da litigiosidade – suportado pelo Poder Judiciário – refere-se a princípios de organização, funcionamento e políticas institucionais desatualizadas – se tem produzido no marco de uma sociedade que muda permanentemente com concentração de mais empregos nos setores de serviços, preponderando informações como um recurso, novas formas de exercício da influência e outros modelos de convivência política e social. (tradução nossa). 2
O grau e tipo de litigiosidade do país resultam da sua condição econômica,
sendo que Estados democráticos tende-se à diminuição dos conflitos com garantia da
legalidade, o que resulta em um decréscimo da demanda por justiça.3 Nas palavras de
Cappelletti e Garth:
1
CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Porto Alegre: S. A. Fabris, 1988.
2
“Por lo demas, este incremento en la litigiosidad – suportado por lo que al Poder Judicial respecta, sobre principios de organización y funcionamento y político-institucionales desactualizados – se ha producido em el marco de una sociedad que cambia permanentemente, con concentración de la mayoría del empleo en el sector de los servicios, preponderancia de la informacion como recurso, nuevas formas de ejercicio de la influencia, y outros modelos de convivencia política y social” (BIELSA, Rafael A.; BRENNA, Ramón G. Organización, tecnología, informática, e independencia de los jueces. In: ALTMARK, Daniel; BIELSA, Rafael A (Coord.). Informatica y derecho : aportes de doctrina internacional. Buenos Aires: Depalma, 1993, p. 127).
3
De fato, o direito ao acesso efetivo tem sido progressivamente reconhecido como sendo de importância capital entre os novos direitos individuais e sociais, uma vez que a titularidade de direitos é destituída de sentido, na ausência de mecanismos para sua efetiva reivindicação. O acesso à justiça pode, portanto, ser encarado como o requisito fundamental – o mais básico dos direitos humanos – de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda garantir, e não apenas proclamar os direitos de todos.4
No que se relaciona ao alcance do acesso à justiça como desiderato da
cidadania, Carlos Prudêncio e Lédio Rosa de Andrade assentam que:
O acesso à justiça também pode ser dicotomizado nas vertentes formal e material. Na primeira pode-se considerar apenas a possibilidade de as pessoas, os cidadãos, socorrem-se do sistema formal de justiça. Dito de outra forma, a possibilidade de as pessoas ingressarem com uma ação judicial no Poder Judiciário. Só isso não basta para garantir a plena cidadania. Para almejar sua concretização, há a necessidade de um conceito material de acesso à justiça, ou seja, além dos cidadãos terem condição de utilizar o sistema judicial é necessário que este tenha condições de garantir o respeito à cidadania e a sua concretização em seu conceito mais amplo.5
Concorde a isso, indispensável a lição de Kazuo Watanabe que assevera:
A problemática do acesso à justiça não pode ser estudada nos acanhados limites do acesso aos órgãos judiciais já existentes. Não se trata apenas de possibilitar o acesso à justiça enquanto instituição estatal, e sim de viabilizar o acesso à ordem jurídica justa.6
Estudos relativos à percepção da população frente aos serviços
jurisdicionais demonstram sua falibilidade. Conforme pesquisa coordenada e publicada
pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em novembro de 2010,7 numa escala de
zero a quatro, a percepção da população em relação aos quesitos celeridade, custo e
facilidade, alcançaram as notas 1,18 (um inteiro e dezoito centésimos), 1,45 (um inteiro
e quarenta e cinco centésimos) e 1,48 (um inteiro e quarenta e oito centésimos),
respectivamente. Numa visão geral o Poder Judiciário recebeu nota 4,55 (quatro inteiros
e cinqüenta e cinco centésimos), abaixo da média avaliativa de uma escala de 0 (zero) a
10 (dez).
4
CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Porto Alegre: S. A. Fabris, 1988, p.11-12
5
ANDRADE, Lédio Rosa; PRUDÊNCIO, Carlos. Modernização do Poder Judiciário. In: ANDRADE, Lédio Rosa; FARIA, José Eduardo; PRUDÊNCIO, Carlos (Coords.) Modernização do poder judiciário. A justiça do futuro. Tubarão. Editorial Sudium, 2003, p. 79.
6
WATANABE, Kazuo. Acesso à justiça e sociedade moderna in GRINOVER, Ada Pellegrini et.al. (Coord.) Participação e processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1988, p. 128.
7
Nesse passo, vale trazer a lume a lição de Humberto Theodoro Junior:
A lentidão da resposta da Justiça, que quase sempre a torna inadequada para realizar a composição justa da controvérsia. Mesmo saindo vitoriosa no pleito judicial, a parte se sente, em grande número de vezes, injustiçada, porque justiça tardia não é justiça e, sim, denegação de justiça.8
As modificações nas normas processuais nascem da necessidade de se
impingir maior celeridade ao processo judicial, objetivando o exercício da função
jurisdicional de forma célere e eficaz, escopo perseguido há muito, mas relegado aos
estudos acadêmicos, sem qualquer implicação e efeito prático.
As assertivas acima são confirmadas pelo estudo realizado pela consultoria
McKinsey9 que em 2006 retratava diversos pontos nevrálgicos da prestação
jurisdicional, dentre eles:
a) Racionalidade e padronização: 65% do tempo gasto pelo juízo é gasto com atividades administrativas e cartorárias, resolvendo questões como, por exemplo, escala de férias dos servidores. Os juízes responsáveis para gerir o tribunal ou a comarca é um juiz eleito para um mandato de dois anos, e geralmente não possui formação em gestão;
b) Formalismo: 23% dos processos que aguardavam julgamento no STF no ano de 2006 referiam-se às técnicas processuais;
c) Instabilidade Recursal: 85% dos processos levados ao STF referiam-se a causas cujo posicionamento do pretório fora consolidado.
Estas estatísticas, embora pretéritas não divergem do atual cenário.
Demonstram sua imprescindibilidade para que se possa concluir pela necessidade das
reformas do sistema processual, identificando as causas da letargia na prestação
jurisdicional que em verdade possuem pouca interferência da norma processual.
Barbosa Moreira ao criticar a ausência de acompanhamentos estatísticos pré
e procedentes às reformas processuais, as quais poderiam encontrar sua causa e
justificar sua consequência, explica:
Antes de reformar a lei processual (rectius: qualquer lei), mandam a lógica e o bom senso que se proceda ao diagnóstico, tão exato quanto o possível, dos males que se quer combater, as causas que os geram ou alimentam. Nenhum médico digno desse nome prescreve remédios e tratamentos sem inteirar-se
8
THEODORO JUNIOR, Humberto. Celeridade e efetividade da prestação jurisdicional. Insuficiência da reforma das leis processuais. Revista Síntese de Direito Civil e Processo Civil, nº 36. Jul-Ago/2005, p. 27
9
de que mal padece o doente, e por quê. Se o nosso intuito, v.g., é o de acelerar a máquina da Justiça, necessitamos saber quais as peças que estão rendendo menos, e como penetra no mecanismo a areia que as desgasta. Sem essa prévia verificação, nenhum critério sólido teremos para empreender o trabalho da reforma.10
Esclarece adiante que:
Depois de reformar a lei, impende acompanhar de perto, com lentes adequadas, a repercussão da reforma no dia-a-dia forense. Não há outra maneira de descobrir o que realmente mudou, em que sentido e com que alcance. Nem se concebe, sem esse elementar cuidado, uma avaliação minimamente objetiva, à luz da qual possamos decidir se vale a pena continuar no mesmo rumo ou se é mais aconselhável dar marcha à ré. Retomando o paralelo com a medicina: administrado o remédio, começando o tratamento, nem por isso está finda a missão do médico: incumbe-lhe observar como estará reagindo o organismo do doente e, conforme o caso, aumentar ou diminuir a dose, quando não substituir a terapia que se haja revelado anódina ou contraproducente.11
Humberto Theodoro Júnior coaduna com esse entendimento, acrescentando
que:
Sem apoio de dados cientificamente pesquisados e analisados, a reforma legislativa dos procedimentos é pura inutilidade, que só serve para frustrar ainda mais, os anseios da sociedade por uma profunda e inadiável modernização da Justiça. Sem estatística idônea, qualquer movimento reformista perde-se no empirismo e no desperdício de energias por resultados aleatórios e decepcionantes.12
A importância da estatística é indiscutível, sendo inclusive uma das funções
institucionais do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sua produção13 e tendo sido suas
diretrizes propostas em todas as versões dos Pactos Republicanos14 estabelecidos entre
os três Poderes, visando à coesão de esforços para entrega de uma tutela jurisdicional
mais célere.
Com base nessas estatísticas, é que se pode avaliar e até mesmo justificar as
mudanças propostas na lei processual objetivando o fim holístico do processo judicial,
10
MOREIRA, José Carlos Barbosa. Temas de direito processual: (Oitava Série). São Paulo: Saraiva, 2004, p. 11.
11
MOREIRA, op. cit., p. 11 12
THEODORO JUNIOR, Humberto. Celeridade e Efetividade da Prestação Jurisdicional. Insuficiência da Reforma das Leis Processuais. Revista Síntese de Direito Civil e Processo Civil, nº 36. Jul-Ago/2005, p. 70.
13
Conforme se depreende da CRFB em seu art. 103-B, § 4º, VI
14
agregando acesso à justiça, efetividade e celeridade em respeito ao devido processo
legal e justo.
Diversos estudos dessa natureza encontram-se disponíveis, como o realizado
pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) denominado “Justiça em Números”15 e
estudos regionais como os realizados pelo Conselho da Justiça Federal16 que divulga
estatísticas relativas ao número de processos por órgão jurisdicional, grau de
recorribilidade, despesas com gratuidade judiciária, honorários periciais, dentre outras.
Por uma análise estatística, por exemplo, verifica-se que nos Juizados
Especiais, os bancos e o setor de telefonia figuram na Justiça Estadual como titulares de
respectivamente 14,7% e 8,3% do total de processos que ingressaram nela no período de
janeiro a outubro de 2011.17 Os processos, em sua maioria, visam pedidos de exclusão
de apontamentos indevidos nos cadastrados de restrição ao crédito com respectivo
pagamento de indenizações por dano moral, revisão de contas e rescisão de contratos,
cuja resolução extrajudicialmente não foi possível.
O que se observa, é que a solução alcançada judicialmente é insuficiente
para coibir a reiteração das condutas dessas empresas, condenadas constantemente pela
mesma prática lesiva ao consumidor, demonstrando a ineficiência da atuação do órgão
para, preventivamente, demovê-las desse comportamento. Se conciliadas as partes, será
proposto um acordo financeiro com valores pífios ou do contrário, haverá uma sentença
condenatória em valores insignificantes frente ao potencial econômico das empresas, se
comparado ao prejuízo ao erário com a solução da lide. Tudo isso, sem pagamento de
custas e despesas judiciais (em primeira instância), transformando especialmente o
Juizado Especial, pelo baixo custo de manutenção do processo, num balcão de
negociações dessas companhias e os servidores seus “colaboradores” a um custo
irrisório, aumentando sua margem de lucro, contrariando o que vaticinou Cappelletti e
Garth ao propor a criação de um juizado para tratar demandas menos complexas.18
Mas, vale lembrar que além destas companhias, outros entes estatais como
Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), União, Estados e Municípios
consomem significativa parcela do orçamento e do tempo do Judiciário pelo não
15
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Justiça em números. Disponível em: < http://www.cnj. jus.br/>. Acesso em: 02 out. 2013.
16
BRASIL. Conselho da Justiça Federal. Estatística processual. Disponível em:<http://goo.gl/jBtxGP>. Acesso em: 02 out. 2013.
17
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. 100 maiores litigantes. Edição 2012. Disponível em: <http://goo.gl/ZPn O2x>. Acesso em: 02 out. 2013.
18
exercício de suas funções corretamente, criando um volumoso e repetitivo acervo
processual advindo da incorreta aplicação da legislação pátria.19
Com base nessas estatísticas, v.g. sobre o percentual de processos relativos
aos bancos e empresas de telefonia, pode-se concluir que o judiciário disponibiliza 23%
dos salários, tempo dos seus servidores e do orçamento destinado para solucionar
contendas que iniciaram em decorrência da má prestação de serviços das empresas de
telefonia, renitentes pela ausência de fiscalização das autarquias respectivas, vinculadas
ao Poder Executivo, demonstrando que os entraves na prestação jurisdicional não se
vinculam somente em razão da forma para prática dos atos processuais, recursos, dentre
outras formalidades exigíveis pela atividade estatal, máxime prazo para prática dos atos
judiciais do processo.
Nesse rumo é importante a análise de Fernando Gonzaga Jayme e Marina
França Santos ao analisarem os impactos da modificação na legislação sobre o recurso
de Agravo de Instrumento:
A análise das estatísticas do Tribunal de Justiça de Minas Gerais permite verificar um crescente aumento do número de agravos de instrumento interpostos: de 14.056 agravos de instrumento em 2001, saltamos para 44.569, distribuídos em 2009. Todavia, apesar do volume, o tempo de processamento desses recursos, em sua maioria (23.536), não ultrapassou três meses.20
Os Autores apontam que as reformas processuais tendentes a mitigar a
utilização do agravo tendem a ser infrutíferas notadamente se não adequarem outros
sistemas de impugnação da decisão judicial, efeito este muitas vezes despercebido pelo
legislador infraconstitucional:
O Projeto do novo CPC dá ensejo, portanto, à substituição do agravo de instrumento pelo mandado de segurança contra ato judicial. O fato de utilizar uma ação constitucional em substituição a um recurso, por si só, já atentaria contra a efetividade do processo porquanto seu procedimento é mais oneroso. Ademais, o que é mais grave e atentatório à efetividade processual, é o fato de que sendo de competência originária dos tribunais, o acórdão que julgar o mandado de segurança, se denegatória a ordem, pode ser impugnado mediante recurso ordinário, o que possibilitará o reexame da matéria fática
19
Conforme pode ser observado no estudo do CNJ observa-se que na Justiça Federal, INSS, que apresentou aproximadamente 34% do total de processos ingressados no 1º Grau e 79% nos Juizados Especiais; e a Caixa Econômica Federal, com cerca de 13% no 1º Grau e 7% nos Juizados Especiais. In Conselho Nacional de Justiça. 100 maiores litigantes. 2012, p. 12.
20
pelo Superior Tribunal de Justiça, situação inimaginável na sistemática recursal atualmente vigente.21
Com essas primeiras impressões é importante destacar que o PJE, embora
seja um potencial instrumento para contribuir com a redução do número de processos
judiciais, não pode ser visto com uma solução miraculosa como se ambiciona.
Acredita-se que ele dotará a jurisdição de mecanismos não só para produzir estatísticas úteis, mas
também para suplantar a morosidade, com a absorção de atividades burocráticas
executadas manual e morosamente pelos servidores, alcançando ou aproximando-se da
celeridade processual.
Subsidia essa asserção o estudo elaborado pela Fundação Getúlio Vargas
cujo objetivo é a análise da gestão e funcionamento dos cartórios judiciais. O estudo
aponta que o processo judicial permanece em escritório de 80% a 95%. Prossegue
justificando que o funcionamento dos cartórios não é planejado e suas rotinas internas
poderiam ser mais simples; a estrutura organizacional dos cartórios pesquisados não é
apta a suportar a demanda e por fim, a cultura organizacional dos cartórios é um grande
obstáculo à informatização da justiça. A reboque desses números observe a profícua
demonstração do estudo acerca da dificuldade de se aculturamento do papel para a
informatização:
Por outro lado, a chamada “cultura do papel” também contribui para dificultar a sedimentação da informatização dos serviços judiciais. Observou-se Observou-ser bastante enraizado o costume de registrar uma quantidade grande de informações em papel, organizar esses papéis em pastas e livros, guardar as pastas e livros em escaninhos, depois em caixas e, ao fim, em arquivos22.
É nesse sentido que se manifesta Humberto Theodoro Junior:
É lastimável, mas não se pode deixar de reconhecer o regime caótico em que os órgãos encarregados da prestação jurisdicional no Brasil trabalham tanto do ponto de vista organizacional, como principalmente em torno da busca de solução para sua crônica inaptidão para enfrentar o problema do acúmulo de processos e da intolerável demora na prestação jurisdicional. Não há o mínimo de racionalidade administrativa, já que inexistem órgãos de planejamento e desenvolvimento de serviços forenses, nem mesmo estatística
21
JAYME, Fernando Gonzaga. SANTOS, Marina França. A Irrecorribilidade das decisões interlocutórias no projeto do novo Código de Processo Civil. In: Revista da Faculdade de Direito UFMG. Belo Horizonte, n. 57, p. 153-154, jul./dez. 2010.
22
útil se organiza para verificar onde e porque se entrava a marcha dos processos.23
Sobre essa cultura burocrática instituída pelos cartórios, compreende Rafael
A. Bielsa e Ramón G. Brenna que é uma das questões que mais interessam às
organizações, pois:
O problema da burocracia é uma das questões que mais interessam as organizações e aos serviços em particular. É, em primeiro lugar, um dos maiores obstáculos para empreender uma mudança em matéria de Administração de Justiça, ter que dissuadir os operadores atuais a tentá-la; do mesmo modo que homem cria a cultura ela o faz; o homem constrói a cultura burocrática e esse por sua vez é construído por ela. (tradução nossa). 24
Esse estudo, em sua completude demonstra que a crise de acesso à justiça
não está intimamente ligada às questões processuais, possuindo fatores exógenos, os
quais começam a ser investigadas em outros países que de forma embrionárias sentem a
crise pelo acesso a justiça, conforme aponta Deborah L Rhode:
Neste contexto, a necessidade de maior investigação e educação sobre a lacuna de justiça assume importância crescente. Para alocar recursos escassos sabiamente, precisamos de melhores informações sobre problemas jurídicos não enfrentados, as lacunas existentes na prestação de serviços e a relação custo-benefício das várias estratégias para solucioná-los. E para construir uma aliança para o progresso, precisa-se de uma profissão mais informada e pública sobre o que passa como justiça entre os que não são. (tradução nossa).25
A proposta encontrada foi a criação de um escritório de intercâmbio entre a
American Bar Foundation e o programa de formação do profissional do Direito na
23
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Celeridade e efetividade da prestação jurisdicional. Insuficiência da reforma das leis processuais. Revista de Processo, São Paulo: Revista dos Tribunais, nº 125, p. 61-78, jul. 2005, p. 70.
24
“ El problema de la burocracia es uma de las cuestiones que más interesan a las organizaciones, y a los servicios em particular. Es, em primer lugar, uno de los mayores obstáculos para emprender um cambio en materia de Adminstración de Justicia, ya que disuade a los operadores activos de intentarlo; del mismo modo que el hombre hace la cultura y la cultura lo hace, el hombre construye la cultura burocrática y es su vez construido por ella”. (BIELSA, Rafael A.; BRENNA, Ramón G. Organización, Tecnología, Informática, e Independencia de los jueces. In: ALTMARK, Daniel; BIELSA, Rafael A (Coord.). Informatica y derecho : aportes de doctrina internacional. Buenos Aires: Depalma, 1993, p. 150).
25
Univesidade de Harvard no qual o objetivo é ensinar o profissional sobre o acesso a
justiça.26
Vê-se que não há uma completa conclusão sobre as reformas
procedimentais e processuais e sua eficácia frente a instalada crise no judiciário em
decorrência da morosidade na prestação jurisdicional:
A maioria das críticas que são dirigidas ao CPC (morosidade da Justiça, ineficácia das decisões judiciais etc.), na verdade, não são problemas seus. As deficiências estruturais e de gestão do serviço público de Justiça, a formação excessivamente formalista e contenciosa dos operadores do Direito, o mau funcionamento do contencioso administrativo, a inoperância de agências reguladoras com poderes efetivos de fiscalização e punição, entre outras, são causas que pouco tem a ver com o direito processual civil e, eventualmente, poderiam justificar mais algumas alterações na legislação já vigente. A distinção de tempo no julgamento entre as diversas unidades federativas do país demonstra como o mesmo Código pode ser mais ou menos efetivo.27
Dentre outras, observa-se também no ideário reformista a pretensão em
positivar entendimentos jurisprudenciais dos tribunais, sem, no entanto, valorizá-los
enquanto fonte mediata do Direito, inclusive processual.28 As propostas de reforma do
Código de Processo Civil (CPC) vigente tem a intenção de não mais emendar a “colcha
de retalhos”29 que se transformou o CPC com as sucessivas reformas. Porém, as
aspirações, evoluções e inovações sociais, tornam-se incompatíveis com normas
estáticas, especialmente em se tratando de normas ritualísticas como é a proposta em
estudo, que sofre direta interferência dos influxos sociais, o qual não se pode evitar,
notadamente para seu aperfeiçoamento. O avanço tecnológico, inexoravelmente imporá
uma constante releitura das técnicas processuais.
A falaciosa pretensão de que uma norma processual possa quedar-se estável
por meio século30 não se mostra plausível, justificando somente aceitar a ideia de que
nesse intervalo não haverá qualquer mudança no cenário social, e que ela seja suficiente
para atender todas as demandas sociais, o que seria alcançado somente com uma
26
RHODE'S, Deborah L. Access to justice: an agenda for legal education and research. Harvard Law School. Program on the Legal Profession, p. 1. Disponível em: <http://ir.lawnet.fordham.edu/flr/ vol73/iss3/1>. Acesso em: 02 out. 2013.
27
GARJADONI, Fernando da Fonseca et. al. A pressa e o projeto do novo CPC. Informativo Migalhas São Paulo, 09 jul. 2013. Disponível em: <http://goo.gl/mRfpxz>. Acesso em: 02 out. 2013.
28
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. 51ª. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2010. v. I, p. 18.
29
BRASL. Senado Federal. Portal de notícias. Votação do texto final do novo CPC está marcada para esta terça. Brasília, 31 mai. 2010. Disponível em: <http://goo.gl/Rr7GGt> Acesso em: 02 out. 2013.
30
estabilidade social, econômica e jurídica e do país, intento inalcançável máxime diante
das constantes inovações tecnológicas.
Entrementes, o PJE não pode ser pensado como panacéia para resolver os
problemas de acesso à jurisdição, especialmente se sua implementação não for bem
delineada em conformidade com garantias constitucionais do processo.
A esse respeito, vale trazer a baila o entendimento de Marcacini:
Noutras palavras, a informatização pode servir para facilitar o acesso à justiça, propiciar economia processual, oferecer à sociedade mais transparência acerca do exercício da jurisdição, ou trazer as sonhadas efetividade e celeridade, mediante um processo ágil, fluido, sem incidentes demasiados, em que os recursos materiais e humanos do Poder Judiciário sejam realocados para proferir e fazer cumprir a decisão acerca do direito material em disputa. Todavia, o uso inadequado da tecnologia pode, ao revés, simplesmente automatizar a burocracia, digitalizar as formalidades sem sentido, realimentar as infindáveis questões processuais, manter as pautas sobrecarregadas, e adicionar a tudo isso a insegurança trazida por novidades tecnológicas desconhecidas, mal implementadas ou mal normatizadas, a produzir outros novos incidentes. 31
A informatização do processo não pode ser vista sob a ótica programática,
sob pena de se incorrer nos mesmos equívocos após a redemocratização do país, em
que, por exemplo, erigiram-se direitos à condição de fundamentais, como ocorreu com a
duração razoável do processo, não tendo sido empreendidas condições para sua
efetivação.
Pensar na informatização do processo, sem adotar medidas concernentes à
contenção do crescimento pela busca da prestação jurisdicional, redundará num nefasto
circunlóquio:
Paradoxalmente, porém, a facilitação do ingresso em juízo, se não acompanhada da capacidade de absorção, pelo Judiciário, do acréscimo de processos daí instaurados, acaba atentando contra o próprio acesso à justiça; pouco adianta franquear a possibilidade de ir a juízo, se os feitos se prolongam demasiadamente no tempo. E, infelizmente, é este o cenário que se observa em nosso país. Desaparelhado, dotado de recursos insuficientes e administrativamente ineficiente, o Judiciário viu-se incapaz de dar vazão a uma demanda crescente, motivada pelo aumento dos direitos da população após a redemocratização, pela retomada do desenvolvimento econômico, ou mesmo pelo crescimento vegetativo da população.32
31
MARCACINI, Augusto Tavares Rosa. Processo e tecnologia. Garantias processuais, efetividade e a informatização processual. São Paulo, Edição Autor, 2013, p. 12, Posição 417.
32
Nesse caminho que se devem focar nas atuais discussões sobre as reformas
processuais, especialmente de grande monta, como a que pretende a adoção de um novo
CPC, mas que não foi crivado principalmente por um debate profícuo sobre a inserção
das tecnologias no processo, asserção compartilhada por processualistas que entendem
que sua ausência, pretere uma melhor e mais apropriada leitura do PJE:
(I) o texto – apesar de evoluir, nesse aspecto, em relação ao projeto original – ainda tem por paradigma os autos em papel, não obstante já ser uma realidade, em diversos juízos e tribunais, os autos eletrônicos. Como exemplos, (a) a previsão apenas de agravo "de instrumento", ou seja, com a necessidade de extração de cópias e formação do instrumento a ser distribuído no tribunal (art. 1.030), (b) competir ao escrivão a "guarda dos autos", que em regra devem "permanecer em cartório" (art. 152, IV e V) e ser dever dos patronos "restituir os autos" (art. 234), (c) ser possível às partes requerer "recibo de petições, arrazoados, papéis e documentos que entregarem em cartório" (art. 201), bem como ser vedado lançar "cotas marginais ou interlineares, as quais o juiz mandará riscar" (art. 202), (d) menção a "autos apartados" ou "em apenso" (arts. 69, II, 545, 638, 657, § 1º, 700, 717, 930, § 1º, entre outros) e (e) ausência de previsão de sustentação oral por videoconferência (art. 950), prática já adotada, por exemplo, no âmbito do TRF da 4ª região.33
Em sentido contrário, tem-se firmado por outro grupo de processualistas
favoráveis a aprovação do projeto:
Afirmam os críticos que o projeto não se preocupa com o processo eletrônico, contendo diversos dispositivos relacionados com o processo de autos em papel. Quanto ao processo eletrônico, muito ao contrário do que se tem afirmado, não tem, esse mecanismo, qualquer impacto relevante sobre os institutos processuais, mas, de forma diversa, consiste apenas em um conjunto de regras especiais de procedimento, que podem muito bem ser tratadas em lei especial ou parte separada do código. O fato de o processo ser eletrônico ou em papel não muda os requisitos da petição inicial, a ordem e forma de apresentação das defesas, a dinâmica das audiências, a coisa julgada e preclusões ou o cabimento dos recursos. A verdade é que não se está, ao se tratar do processo eletrônico, diante de outro processo, de outra espécie de relação jurídica processual, mas apenas diante de um novo ambiente em que se desenvolverão as atividades processuais. Independente disso, contrariamente ao que afirmam, há diversos dispositivos relacionados com o tema. Na verdade, há uma seção inteira destinada a disciplinar a prática eletrônica de atos processuais. Não se pode, entretanto, deixar de tratar dos atos processuais praticados em papel, pois o CPC é uma lei nacional, que regulará o processo em todo o país. A realidade nacional não é uniforme. Em muitos lugares, até mesmo em São Paulo, não será rápida a implantação do processo eletrônico. Neste momento, não é possível impor a prática de atos processuais apenas pelo meio eletrônico. Por isso, é preciso regular a tanto a prática de atos processuais em papel como sua prática eletrônica. E é isso que está previsto no projeto do novo CPC. Arremate-se que, em muitos lugares,
33
processo eletrônico está em fase embrionária e a legislação poderá, sempre, ser adaptada à sua evolução.34
Com a devida vênia, equivocam-se os adeptos da imediata aprovação do
novo CPC, sustentando existir uma seção inteira a disciplinar o tema. O texto pendente
de aprovação é insuficiente, e eminentemente prejudicial, por colidir com a Lei de
Informatização do Processo (LIP).
Todavia, cotejando a necessidade de constante regulamentação da
informatização do processo judicial e as disposições constantes do novo CPC, há que se
perquirir sobre dois caminhos paradoxais a seguir: não discipliná-lo na nova norma,
mantendo sua regulamentação na lei de regência (LIP) ou normatizá-lo em completude,
revogando a lei respectiva, para que não sejam conflitantes.
A advertência se mostra oportuna, pois o texto do Código projetado dispõe
sobre uma diversidade de apontamentos simplórios e diminutos sobre a informatização
do processo judicial, numa seção com seis artigos (art. 193 a 199) e alguns dispositivos
esparsos em todo o texto do código, que devem ser garimpados em busca da disciplina,
com posterior cotejo com o texto da LIP. Há com isso o premente risco de conflito das
normas especiais, contidas nessa lei, com a norma processual projetada, contudo
diminuto no aspecto informatização.
À exemplo, observe-se na proposta em tela no art. 224, disciplinando os
prazos processuais, inclusive no processo eletrônico, sem considerar ou até mesmo
rever a disposição da lei de LIP, que concede um prazo decenal que a parte tem para
visualizá-la. Ao passo que a intimação eletrônica na lei especial está regulamentada por
um artigo e quatro parágrafos (art. 5º), o Projeto de Lei do Novo Código de Processo
Civil (PLNCPC) restringe-se a um tópico, insuficiente e impreciso, desprezando a
disciplina da lei especial que inclusive cria uma forma ficta de intimação, o que merece
ser revisto em prol da simetria que deve haver entre as partes no processo judicial.
Em mesmo passo, observe-se a disciplina conferida no Código projetado no
art. 189, relativo ao sigilo processual, não se incumbiu de tratar da garantia da
publicidade no processo eletrônico, determinando-se neste modelo processual
aplicar-se-á as regras ordinárias de restrição à publicidade, o que não compraz. Somente a
inclusão da preservação da intimidade como justificativa para decretação do sigilo
34
processual, como pretende PLNCPC, não se mostra suficiente, pois ouvida a
supremacia do interesse público, conforme disposto no art. 93, IX da CRFB, é
insuficiente.
Com as primeiras implantações dos modelos processuais eletrônicos,
aflorou no cenário jurisdicional a importância de se preservar garantias constitucionais
influenciadas pelo processo judicial informatizado, qual seja, da intimidade e
privacidade das partes contrapondo-a à garantia da publicidade dos atos do processo. A
intrincada relação entre os institutos motivou o CNJ editar a Resolução nº 121/2010,
normatizando a disponibilização de informações nos sítios e sistemas eletrônicos dos
órgãos do Poder Judiciário. Em que pese o PLNCPC ser contemporâneo ao
regulamento, sua apreciação tem sido feita dissociada aos regramentos disponíveis por
ela, que ademais, refere-se a uma garantia processual e merece ser tratada por norma
processual e não por regramento.
Muito embora a LIP não esteja isenta de críticas, sua promulgação foi
precedida de um longo debate, de cinco anos, com participação constante da
comunidade acadêmica para que se atendessem aos anseios e intentos a que se propôs
da melhor forma e mesmo assim já carecedora de ajustes em razão da evolução
tecnológica ocorrida. A proposta do PLNCPC, pelo pouco tempo em que fora elaborada
não foi capaz de abranger todas as imbricações existentes no processo informatizado,
mormente pela interdisciplinaridade de matérias que o permeia, especialmente técnicas
deixando de ouvir e até mesmo orientarem-se pelos órgãos técnicos do Poder Judiciário,
setores estes capazes de contribuir para edição de um diploma a princípio, sonante às
necessidades técnicas e jurídicas do processo informatizado.
O PJE, como sustentado por parcela da doutrina, possui impactos relevantes
na administração da justiça. Sua implantação desempenha um papel estratégico na
modernização do Poder Judiciário,35 especialmente por promover uma melhor
equiparação da justiça ao ideal esperado pela sociedade, rompendo com o atual modelo
de prestação jurisdicional, calcado em arcaicos substratos que impedem a consecução de
seu mister de forma profícua, pois:
Para a comunidade, a Administração da Justiça se apresenta como uma grande caixa preta, que recebe entrada e produz saídas. A eficácia do serviço é percebida pela comunidade quando dessa caixa preta - como resultado dos
35
processos internos – o valor das saídas medidas em prestações efetivamente requeridas e prestadas aos cidadãos é maior que as entradas previamente ingressaram mediante procedimentos fiscais (taxa judicial) ou de qualquer outro tipo, o que as demandas geradas sejam qual for. (tradução nossa). 36
Com esse norte, doutrina37 indica que a adoção do PJE não é uma faculdade.
Tem-se por certa a potencial inspiração do PJE para contribuir não só com a efetivação
do alcance da duração razoável do processo, mas também tornar-se um evidente
mecanismo de fiscalização da atividade jurisdicional, o que impõe sua adoção de forma
consentânea às outras regras vigentes.
Com efeito, é imperioso o destaque sobre a vedação sempre constante de
que esses novos mecanismos se imiscuam em garantias processuais consagradas
previstas no texto constitucional, sob pena de malferir o devido processo legal,
consoante será demonstrado nos capítulos seguintes. O acesso à jurisdição, bem como a
garantia da duração razoável são desideratos esperados em um justo processo, que não
podem ser infirmadas, sob a inadvertida inserção das tecnologias no processo judicial.
36
“Para la comunidad, la Administración de Justicia se presenta como una gran caja negra que recibe entradas y produce salidas. La eficacia del serivicio es percibida por la comunidad cuando, de essa caja negra – como resultado de los procesos internos –el valor de las salidas, medidas en prestaciones efetivamente requeridas por e impartidas a los cidadanos, es mayor que el de las entradas que previamente se detrayeron de éstos mediante procedimentos fiscales (tasa judicial) o de cualquier otro tipo, o que las demandas generadas hacia aquél”. BIELSA, Rafael A.; BRENNA, Ramón G. Reforma de la justicia y nuevas tecnologías. Buenos Aires: Ad-Hoc,1996, p. 22.
37
3 PODER JUDICIÁRIO E TECNOLOGIAS
O Estado concernente à prestação jurisdicional tem-se mostrado ineficiente,
não conseguindo promover seu mister de acordo com os anseios da sociedade. Vários
estudos estatísticos realizados por órgãos integrantes do Poder Judiciário e também
externos confirmam a ineficiência dos serviços judiciários.
Evidente, contudo, que para isso não basta a ampliação do número de juízes.
Para cada nova vara judicial criada, há a necessidade de criação de uma nova secretaria,
com serventuários, equipamentos, todo um aparato de serviços administrativos auxiliares,
e em determinados casos uma promotoria do Ministério Público, acarretando, ao fim, um
aumento do custo operacional do Poder Judiciário, sem equacionar da morosidade da
prestação jurisdicional. Nessa linha, manifesta-se Humberto Theodoro Júnior:
É, portanto, preciso conscientizar-se de que o aprimoramento da prestação jurisdicional não acontecerá somente em virtude de modificações procedimentais, nem tampouco do simples crescimento numérico dos juízes disponíveis. A solução para o mal da demora dos processos, seja aqui, na Europa, terá de ser procurada por outras formas.38
O mesmo Autor, acerca do anacronismo vivenciado pelo Poder Judiciário,
expõe:
O Poder Judiciário, é lamentável reconhecê-lo, é o mais burocratizado dos Poderes estatais, é o mais ineficiente na produção de efeitos práticos, é o mais refratário à modernização, é o mais ritualista; daí sua impotência para superar a morosidade de seus serviços e o esclerosamento de suas rotinas operacionais.39
Noutra senda, numa análise adstrita à repercussão negativa da atuação deste
Poder perante a sociedade, vale trazer a lume trechos da justificação à propositura do
Projeto de Lei n. 5.828/01, do qual originou a LIP. As pesquisas apresentadas na
exposição de motivos do projeto demonstravam a insatisfação da população no que se
refere aos serviços judiciários:
A morosidade é, sem dúvida, o principal fato gerador de insatisfação com o serviço judiciário, como revelam todas as pesquisas realizadas sobre o assunto. Em 1993, em pesquisa de opinião coordenada pelo IBOPE, foi proposta a seguinte afirmação: “o problema do Brasil não está nas leis, mas
38
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Celeridade e efetividade da prestação jurisdicional. Insuficiência da reforma das leis processuais. Revista de Processo, São Paulo: Revista dos Tribunais, nº 125, p. 61-78, jul. 2005, p. 71.
39
na Justiça, que é muito lenta”. Dos entrevistados, 87% consignaram suas concordâncias, 8% discordaram e 5% não souberam responder. Já em 1999, o jornal “O Estado de São Paulo” chegou a índices ainda mais elevados: 92% consideraram a Justiça muito lenta. A morosidade transformou-se em consenso absoluto inclusive entre os juízes. Pesquisa feita em 1995 pelo Conselho da Justiça Federal concluiu que 99,12% dos magistrados federais viam o referido atributo como o principal problema desse ramo do Judiciário.
Como se constata, a soma dos juízes que consideram a falta de INFORMATIZAÇÃO um fator “muito importante” ou “importante” alcança 2%. Evidentemente, a informatização aqui não se refere somente à aquisição de computadores para utilização como substitutos mais eficientes das velhas máquinas de datilografia. Aliás, este processo de substituição já se encontra concluído na imensa maioria das unidades jurisdicionais existentes no País. É necessário agora — simultaneamente ao término desta fase de aquisição de equipamentos nas unidades restantes — avançar em direção à integração de todos os atores que intervêm em um processo judicial (Varas, Ministério Público, Advocacia Pública, escritórios de Advocacia), de modo a que crescentemente os procedimentos judiciais utilizem ao máximo os avanços tecnológicos disponíveis40.
Igual entendimento é apontado pelo Relator Especial da Comissão de Direitos
Humanos das Nações Unidas, Leandro Despouy, em seu estudo elaborado sobre a
independência dos juízes e advogados. Segundo ele, grande parte da população “por
razões de ordem social, econômica ou exclusão não tem acesso à prestação jurisdicional”.
Adiante enfatiza que muitos que acessam o judiciário brasileiro se deparam com uma
justiça morosa, que muitas vezes torna ineficaz a prestação jurisdicional.41
Não obstante a importância dessa conclusão, embora pareça recente, não é
nova. Cappelletti e Garth ao final da década de Oitenta, lecionavam sobre a morosidade
e seus efeitos na prestação da tutela jurisdicional, enfatizando:
Em muitos países, as partes que buscam uma solução judicial precisam esperar dois ou três anos, ou mais, por uma decisão exequível. Os efeitos dessa delonga, especialmente se considerando os índices de inflação, podem ser devastadores. Ela aumenta os custos para as partes e pressiona os economicamente fracos a abandonar suas causas, ou aceitar acordos por valores muito inferiores àqueles a que teriam direito42.
Concluem, além disso, que “a justiça que não cumpre suas funções dentro
40
Projeto de Lei n. 5.828/2001 — Dispõe sobre a informatização do processo judicial e dá outras providências. Congresso nacional brasileiro. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/sileg/ integras/8008.htm>. Acesso em: 22 nov. 2013.
41
DESPOUY, Leandro. Visita ao Brasil de Leandro Despoy, Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre a Independência dos Juízes e Advogados. In: ALMEIDA FILHO, José Carlos de Araújo. Processo eletrônico e teoria geral do processo: a informatização judicial no Brasil. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 380-386.
42
de ‘um prazo razoável’ é, para muitas pessoas, uma justiça inacessível”.43
Deste modo, sendo a morosidade da prestação jurisdicional, causa de
insatisfação daqueles que dela dependem, não bastando para isso o aumento do número
de juízes, mostra-se imperiosa a busca de uma via alternativa para julgamento de
conflitos que propicie ao jurisdicionado um provimento judicial de forma ágil, sendo
necessária para a superação deste mal, além da adoção de procedimentos simples e ágeis,
a indispensável organização dos serviços judiciários com base nas ciências da
administração e com o emprego de recursos tecnológicos.44
Com espeque nessas premissas, alternativas vêm sendo promovidas, sem,
contudo, lograrem êxito de forma satisfatória, gerando uma falaciosa esperança
naqueles que esperam o provimento jurisdicional, produzindo, sobretudo, efeitos
negativos.
A Emenda Constitucional nº 45 promulgada em dezembro de 2004, elevou o
princípio da celeridade processual ao rol de Direitos e Garantias Fundamentais, contudo
não alcança seu intento. A maioria dos seus dispositivos não passou do campo abstrato
das normas de competência,45 o que Hoffman concorda em seu conclusivo artigo
sustentando:
Entretanto, é lamentável constatar que, sem antes tomar medidas de ordem prática e sem alterar nada na ineficiente estrutura e condições do Poder Judiciário, seja simplesmente acrescido o parágrafo LXXVIII ao artigo 5º da Constituição Federal, para garantir o direito constitucional da razoável duração do processo no sistema brasileiro. Válido será, porém, se mais que um princípio constitucional, tornar-se um autêntico compromisso.46
Os Juizados Especiais Estaduais estatuídos pela Lei n. 9.099/95, cuja
finalidade é promover uma prestação jurisdicional célere e eficaz, não atinge este
objetivo uma vez que derrogam a validade de princípios processuais consagrados,
segundo sustenta com propriedade Luiz Flavio Gomes:
Se em teoria a Lei dos Juizados Especiais foi concebida para restringir os
43
CAPPELLETTI; GARTH, op. cit., p. 21.
44
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Celeridade e efetividade da prestação jurisdicional. Insuficiência da reforma das leis processuais. Revista de Processo, São Paulo: Revista dos Tribunais, nº 125, p. 61-78, jul. 2005, p. 73.
45
THEODORO JÚNIOR, Humberto. A onda reformista do Direito Positivo e suas Implicações com o Princípio da Segurança Jurídica. In: Revista Síntese de Direito Civil e Processo Civil, nº 40, mar-abr 2006, p. 25-53, p. 52
46