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2 AS CRIANÇAS REFUGIADAS E A PROTEÇÃO ESTATAL E EXTRAESTATAL

2.2 CRIANÇAS E ADOLESCENTES REFUGIADOS ACOMPANHADOS, SEPARADOS E DESACOMPANHADOS

2.3.2 Direitos concedidos aos refugiados no Brasil

[...] regressar quando tal possa ser prejudicial para elas; A redução do tempo que estas crianças passam em centros de recepção de primeira linha; A promoção da guarda das crianças mediante recurso a voluntários com formação dada pela agência regional para as crianças e jovens, e a promoção do acolhimento familiar e famílias de acolhimento para as crianças; A harmonização e a melhoria de procedimentos para determinar a idade da criança de forma adequada à mesma; O estabelecimento de um sistema nacional de recepção estruturado e agilizado, com padrões mínimos em todas as unidades de recepção; O recurso em larga escala a mediadores culturais qualificados para comunicar e interpretar as necessidades dos adolescentes

vulneráveis.478

Deve-se, portanto, levar em consideração que como ser humano que o é “toda criança tem o direito de fazer uma solicitação independe para obter o reconhecimento da

condição de refugiado, sem importar se está acompanhada ou desacompanhada”479. Para tanto,

deve-se analisar não apenas a idade daqueles com menos de dezoito anos, mas também seu

desenvolvimento psicológico, maturidade na avaliação para a concessão do status de refugiado

e a situação de maior ou menor vulnerabilidade em que se encontram.

2.3.2 Direitos concedidos aos refugiados no Brasil

A Convenção de Genebra de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados traz no seu capítulo IV, que trata sobre o bem-estar, o tratamento igualitário entre refugiados e nacionais do Estado de acolhida no que se refere a direitos relacionados a alojamento (art. 21), à educação

once granted status is denied or reduced, and children's citizenship as a basis for family residency is denied. However, the instance of difference failure are more noteworthy. One particulary trouble some occurrence is the failure to understand that child persecution is not coextensive with adult persecution. Merely witnessing violence,

for example, may amount to a form of persecution for a child where it would not for an adult.” BHABHA,

Jacqueline, “Not a sack of Potatoes”: moving and removing children across borders. Boston: Boston University Public Interest Law Journal. 2006, p, 210.

478 UNICEF. UNICEF saúda nova lei italiana para proteger as crianças refugiadas e migrantes não

acompanhadas como um modelo para a Europa. Disponível

em:<http://www.unicef.pt/18/site_pr_unicef_sauda_nova_lei_em_italia_refugiados&migrantes_2017_03_29.pdf >. Acesso em: 01 de abril 2017.

479 ACNUR. Diretrizes sobre Proteção Internacional nº 8. Geral HCR/GIP/09/08, de 22 de dezembro de 2009.

Disponível em: <www.acnur.org/t3/fileadmin/Documentos/BDL/2014/9747.pdf?new=1>. Acesso em:04 de out. 2016.

pública (art. 22), assistência pública (art. 23), legislação do trabalho e previdência social (art. 24).

Esses mesmos direitos são conferidos aos estrangeiros no Brasil, em situação ou não de refúgio, conforme previsão na Constituição da República Federativa do Brasil (CF/88), direitos esses tidos como fundamentais na Lei Maior nacional, existindo para os refugiados adultos a emissão de Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), o reconhecimento de

diplomas e vagas para refugiados em cursos universitários480, participação no Programa Minha

Casa Minha Vida, dentre outros.

No que tange ao grupo infantojuvenil, o Estatuto da Criança e do Adolescente

(ECA) em seu artigo 3º, caput e parágrafo único, dispõe que:

Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

Parágrafo único. Os direitos enunciados nesta Lei aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, sem discriminação de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou outra condição que diferencie as pessoas,

as famílias ou a comunidade em que vivem.481

Quanto às crianças e adolescentes, migrantes e/ou em situação de refúgio, também cabe observar a Lei nº 13.445/2017, que traz, dentre outros direitos, a “proteção integral e

atenção ao superior interesse da criança e do adolescente migrante”482; admissão excepcional

de “[...]criança ou adolescente que esteja acompanhado de responsável legal residente no País, desde que manifeste a intenção de requerer autorização de residência com base em reunião

familiar”483, assim como de “criança ou adolescente desacompanhado de responsável legal e

sem autorização expressa para viajar desacompanhado, independentemente do documento de

viagem que portar [...]”484; não repatriação “[...] ao menor de 18 (dezoito) anos

desacompanhado ou separado de sua família, exceto nos casos em que se demonstrar favorável para a garantia de seus direitos ou para a reintegração a sua família de origem, ou a quem

480 São exemplos de Instituições que revalidam diploma de refugiados e/ou possuem vagas nos cursos oferecidos, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

481 BRASIL. Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990.Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em: 23 de mai. 2017.

482 Artigo 3º, XVII da Lei de Migração. BRASIL. Lei nº 13.445 de 24 de maio de 2017. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13445.htm>. Acesso em: 08 de jan. 2018.

483 Artigo 40, IV da Lei de Migração. Ibid.

necessite de acolhimento humanitário [...]”485; e “a naturalização provisória poderá ser concedida ao migrante criança ou adolescente que tenha fixado residência em território nacional antes de completar 10 (dez) anos de idade e deverá ser requerida por intermédio de seu

representante legal”486.

Para o acesso e fruição dos direitos humanos fundamentais elencados na legislação brasileira, os migrantes econômicos, apátridas, solicitantes de refúgio e refugiados, recorrem à Defensoria Pública da União (DPU), órgão público criado em virtude da Lei Complementar nº 80, de 1994, e implantado em todo o território nacional com a sanção da Lei nº 9.020, de 1995, tendo por escopo o previsto no artigo 5º, LXXIV, da Constituição da República Federativa do

Brasil de 1988.487

A Defensoria Pública da União (DPU), desde sua criação, atua na prestação do serviço de assistência judicial preventiva e consultiva, de modo integral e gratuito e, na

prestação extrajudicial dos grupos sociais hipossuficientes e mais vulneráveis.488 Mas foi em

2012 que a DPU passou a ter função consultiva no que tange aos assuntos envolvendo migrantes e refugiados, mediante convênio firmado com o CONARE e com o Departamento de

Migração.489

Desde então, a DPU atua em vários estados brasileiros, oferecendo assistência jurídica integral e gratuita a migrantes e refugiados para a promoção de seus direitos, bem como articulando com outros órgãos do governo, como o CONARE, e da sociedade civil, em prol

desses grupos vulneráveis, expedindo recomendações para a tutela de seus direitos490,

orientações quanto aos serviços públicos, traduções e atendimento judiciário491, além de

participar “[...] nas entrevistas que instruem o processo de solicitação de refúgio.”492

485 Artigo 49, §5º da Lei de Migração. Lei nº 13.445 de 24 de maio de 2017. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13445.htm>. Acesso em: 08 de jan. 2018.

486 Artigo 70 da Lei de Migração. Ibid.

487 A Constituição da República Federativa do Brasil em seu artigo 5º, LXXIV, prevê que: “o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988.

488 DPU. Defensoria Pública da União. Assistência Jurídica Integral e Gratuita no Brasil: um panorama da atuação da Defensoria Pública da União. Assessoria de Planejamento, Estratégia e Modernização da Gestão. – 2ª

edição Brasília: DPU, 2015. Disponível em:

<http://www.dpu.def.br/images/stories/arquivos/PDF/Mapa_dpu_2015_web.pdf.> Acesso em: 10 de jan. 2017.

489 O atual Departamento de Migração anteriormente era o Departamento de Estrangeiros.

Quanto à relação entre o CONARE e a DPU, esta tornou-se tão estreita que o escritório do CONARE em São Paulo se encontra na sede da Defensoria Pública da União, na capital paulista.

490 DPU. Defensoria Pública da União. Op. cit.

491CHAVES, João. Coordenador da área de migrações e refúgio da Defensoria Pública da União em São Paulo

em Palestra proferida no Seminário Internacional sobre Migrações Refúgios e Deslocamentos no dia 31 de março de 2017, na Secretaria do Estado de Educação, São Paulo/SP.

492 DPU. DPU e Conare firmam acordos para atuação junto a estrangeiros e refugiados. Disponível em:<http://www.dpu.def.br/legislacao/leis?id=9620:dpu-e-conare-firmam-acordos-para-atuacao-junto-a-estrange iros-refugiados&catid=79>. Acesso em: 09 de jan. 2017.

No que se refere às crianças e adolescentes solicitantes de refúgio ou refugiados que estejam acompanhados, a dificuldade de efetivação de direitos básicos, dá-se nos mesmos

moldes do que ocorre com os adultos493, porém, no caso daqueles separados ou

desacompanhados, há alguns agravantes. Os obstáculos para a concessão do refúgio para esses indivíduos se dão em função do receio de terem sido traficados. Nesse caso, há necessidade de que essas crianças e adolescentes tenham algum parente ou tutor legal que os represente ou assista para que, mediante decisão judicial, possam solicitar o refúgio.

Há, ainda, “o risco de destituição do poder familiar em razão da não compreensão

de funcionários brasileiros dos costumes e tradições de imigrantes e refugiados”494 ou ainda a

dificuldade quanto à “exigência de apresentação de certidão de nascimento para que os filhos

de refugiados possam se matricular em creches e escolas [...]”495, o que, nem sempre, é possível,

pois muitos chegam ao país sem documentos ou com eles incompleto, sem contar os documentos que não têm tradução juramentada e que, assim, não são aceitos pelos órgãos públicos brasileiros.

Além disso, também existe a atuação das ONGs e entidades religiosas/confessionais de acolhida, em parceria com a Defensoria Pública da União (DPU), para que haja a proteção, concessão e gozo de seus direitos em solo nacional. Um exemplo dessa parceria se dá no caso das crianças e adolescentes que se encontram em Brasília/DF e são atendidas, primeiramente, pelo Instituto de Migração e Direitos Humanos (IMDH). Nesse caso, há “uma etapa administrativa interna, no IMDH, e o acompanhamento externo, na Vara da Infância e da Juventude [havendo inclusive] contatos estabelecidos com os Conselhos Tutelares para

encaminhamento de casos que exijam envolvimento destes”496 propiciando, assim, que as

crianças e adolescentes, uma vez atuando a Vara da Infância e Juventude, no que tange às ações de guarda, possam fruir de direitos gozados pelos demais nacionais.

Apesar do que a legislação nacional registra sobre a atuação da DPU e da sociedade civil, ainda se percebe, na prática, “uma resistência da Justiça Federal aos pedidos dos defensores públicos com base na ideia de soberania e segurança nacional, vendo o migrante e

493 São exemplos de dificuldades vivenciadas por solicitantes de refúgio e refugiados adultos: a dificuldade de obtenção de documentos em razão da ausência de tradutores juramentados, e a não aceitação do documento provisórios de identificação.

494AZEVEDO, Davi Quintanilha Failde de. Defensor Público estadual e Coordenador do Núcleo Especialização

em Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria, em palestra realizada no Seminário Internacional sobre Migrações Refúgios e Deslocamentos no dia 30 de março de 2017, na Secretaria do Estado de Educação, São Paulo/SP.

495 Ibid.

496 MILESI, Irmã Rosita. Diretora do Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH), Brasília/DF, em entrevista semiestruturada realizada, via e-mail, em 21 de março de 2018.

o refugiado como problema de polícia, como ameaça e não como sujeito de direitos e

deveres”497, situação que não exclui sequer as crianças e adolescentes.

Diante dessa realidade, vem se buscando realizar um trabalho de orientação quanto às normas internas e internacionais relacionadas ao refúgio, bem como a sensibilização do Poder Judiciário, funcionários públicos de outros setores e agentes do setor privado, para que crianças e adolescentes, solicitantes de refúgio ou já refugiados possam fazer jus aos mesmos direitos concedidos aos brasileiros.