2 AS CRIANÇAS REFUGIADAS E A PROTEÇÃO ESTATAL E EXTRAESTATAL
2.4 ATUAÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS
2.4.7 SEFRAS – Serviço Franciscano de Solidariedade
A ONG Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS) desmembrou-se da ordem religiosa franciscana no ano de 2009, atuando num trabalho social com os mais vulneráveis,
isto é, os “empobrecidos e excluídos”,579 nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná,
contando “com 13 Serviços [...] com capacidade média de 1.600 atendimentos diários”.580
574 Os estados onde a Fundação Fé e Alegria possui atividades são: Amazonas, Bahia, Ceará, Espirito Santos,
Minas Gerais, Mato Grosso, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São
Paulo, Tocantins e Roraima. FUNDAÇÃO FÉ E ALEGRIA. Nossa Atuação no Brasil. Disponível
em:<https://fealegria.org.br/onde-estamos/>. Acesso em: 02 de abr. 2018.
575 BLANCO, José Romero. Membro Fundação Fé e Alegria, em Boa Vista (RR), em entrevista semiestruturada,
realizada via skype, em 02 de abril de 2018.
576 Ibid.
577 Ibid.
578 Ibid.
579 SEFRAS. Serviço Franciscano de Solidariedade. Disponível em: <http://www.sefras.org.br/novo/quem-somos/historico/>. Acesso em: 12 de abr. 2017.
Para o fornecimento dos serviços prestados, a SEFRAS mantém parcerias com as Secretarias Municipais de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC), sendo suas atividades divididas em: Sefras Peri, onde fornece proteção às crianças e adolescentes vulneráveis e em risco; Sefras Idoso; Sefras População de Rua de São Paulo; Sefras Reciclagem; Sefras Prevenção HIV/AIDS; Sefras Defesa e Justiça
Penal; Sefras Imigrantes; e Centro de Referência e Atenção ao Imigrante (CRAI).581
Desses serviços mantidos pelo SEFRAS o mais conhecido é o abrigo do Centro de Referência e Atenção ao Imigrante (CRAI), no município de São Paulo, criado em 2014, pela Prefeitura de São Paulo, encarregada pela implantação de políticas públicas sociais, no município. O CRAI concede serviço aberto e gratuito, contando atualmente com 120 (cento e
vinte) vagas para adultos e crianças, que são atendidas também por outros migrantes, o que, a
priori, facilita o primeiro acolhimento.
Segundo a coordenadora do CRAI, em São Paulo, Viviana Peña, os serviços e atendimentos oferecidos aos migrantes econômicos e solicitantes de refúgio são de:
[...] orientação para regularização migratória, orientação para preenchimento de formulário de solicitação de refúgio, encaminhamento para cursos de português e profissionalizantes, orientação para bancarização, atendimento em plantão social, acompanhamento de famílias em situação de vulnerabilidade, acompanhamento e socialização de informação sobre
políticas sociais e programas de transferência de renda.582
O CRAI também fornece “[...] orientações gerais e atendimento de portas abertas, bem como atendimento jurídico especializado a partir de uma parceria com a Defensoria
Pública da União”583, organizando também atividades que auxiliam na integração de imigrantes
e refugiados, em que a visão do serviço prestado não é de assistencialismo, mas de empoderamento aos milhares de migrantes econômicos e refugiados.
Além dessas atividades desenvolvidas com os migrantes forçados, o Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes, de São Paulo (CRAI), também trabalha com “a sensibilização de funcionários públicos, tendo formado 256 (duzentos e cinquenta e seis)
581 SEFRAS. Serviço Franciscano de Solidariedade. Disponível em: <http://www.sefras.org.br/novo/quem-somos/historico/>. Acesso em: 12 de abr. 2017.
582 PEÑA, Viviana. Coordenadora do Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes do município de São Paulo,
em Palestra proferida na I Conferência Latinoamericana e VII Seminário Nacional da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, na Universidade Federal do ABC - UFABC em 23 de novembro de 2016.
583 SEFRAS. Serviço Franciscano de Solidariedade. Centro de Referência e Acolhida do Imigrante (CRAI). Disponível em: <http://www.sefras.org.br/novo/servicos/sao-paulo/crai/>. Acesso em: 01 de mar. 2017.
servidores das áreas da saúde, assistência social, educação, cultura e trabalho”584, com o escopo de que haja um conhecimento maior e mais profundo da legislação nacional e internacional, além de um melhor atendimento aos migrantes.
Nos moldes similares ao do CRAI de São Paulo, também foi criado em 2018, o Centro de Referências ao Imigrante, na cidade de Florianópolis (CRAI-SC), após “a assinatura
de convênio entre o governo do estado de Santa Catarina e o Ministério da Justiça”585 e cujo
atendimento se dará com o auxílio da Ação Social Arquidiocesana (ASA), nas áreas de assistência jurídica, atendimento psicológico e outras orientações pertinentes aos migrantes e refugiados.
Além das Organizações Não Governamentais (ONGs) e entidades religiosas expostas, há outras sociedades civis organizadas que também exercem atividades com os solicitantes de refúgio e refugiados, algumas atuando de modo mais específico, como é o caso do Instituto de Reintegração do Refugiado (ADUS), na cidade de São Paulo, que atua majoritariamente no atendimento de adultos “com foco na integração social, econômica e profissional”586.
Outras ONGs exercem um trabalho crescente e cada vez mais amplo, como é o caso da ONG Compassiva, que lida com o processo de validação de diplomas estrangeiros e, também possui um projeto intitulado LAR – Levando Ajuda aos Refugiados. Nesse projeto, oferece oportunidades de estudo, com aulas de português, e de trabalho para quem chega a São
Paulo. Em breve, pretende propiciar acolhida com o abrigo Beit El Émel ou Casa da
Esperança587, além de atender uma vez por semana crianças em situação de vulnerabilidade
“em um contexto propício ao contato com drogas e aliciamento para tráfico, e com condições
desfavoráveis para lazer e educação de qualidade”588, mediante o projeto Crianças em Ação.
Todavia, para que os direitos dos solicitantes de refúgio e refugiados se efetivem e tenham êxito em solo nacional, é necessário que as Entidades religiosas e as ONGs trabalhem unidas entre si e com o Poder Público, em projetos para um plano macro, fazendo com que suas práticas não sejam desconexas e tenham um maior alcance social. Exemplos dessa falta de
584 PEÑA, Viviana. Coordenadora do Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes do município de São Paulo,
em Palestra proferida na I Conferência Latinoamericana e VII Seminário Nacional da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, na Universidade Federal do ABC - UFABC em 23 de novembro de 2016.
585 MIGRAMUNDO. Santa Catarina inaugura primeiro Centro de Referências e Atendimento ao Imigrante. Disponível em: <migramundo.com> Acesso em: 05 de fev. 2018.
586 ACNUR. Com apoio de ONGs e empresas, refugiados conseguem emprego. Disponível em:
<http://www.acnur.org/noticias/noticia/com-apoio-de-ongs-e-empresas-refugiados-conseguem-emprego/>. Aces- so em: 10 de out. 2017.
587 COMPASSIVA. LAR - levando ajuda ao refugiado.Disponível em:<http://compassiva.org.br/lar/>. Acesso em 28 de set. 2017.
articulação foi a ação do estado de Roraima para tratar do fluxo migratório venezuelano, com a total ausência dos municípios e do governo federal, até o ano de 2018, bem como o trabalho pulverizado de ONGs, nas cidades de Boa Vista e Pacaraima, que sem conversarem entre si,
levavam as mesmas ajudas aos migrantes.589
Somente a partir de uma articulação conjunta entre as ONGs e entidades religiosas, órgãos do Estado e o ACNUR, será possível a elaboração e colocação em prática de políticas públicas voltadas, de modo específico ou não, para esse coletivo, independentemente da faixa etária.
Muitas das políticas de proteção e integração local são realizadas mediante atuação da sociedade civil organizada, uma vez que as políticas públicas também podem ter sua gênese no setor privado, com posterior chancela pelo Poder Público, como é o caso das ONGs que atuam com os migrantes forçados.
Contudo, a atuação do Estado brasileiro faz-se imprescindível nessa seara, uma vez que muitas políticas públicas estão diretamente ligadas à fruição de direitos sociais, os quais demandam um agir Estatal para que possam ser gozados por todos, com o escopo de experimentar e exercer a cidadania numa acepção mais completa, conforme trataremos no capítulo a seguir.
589 SILVA, João Carlos Jarochisnki. Professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR) em palestra sobre a
Migração oriunda da Venezuela no contexto da fronteira norte do Brasil, em Roraima, proferida na Missão Paz, São Paulo, em 23 de fevereiro de 2018.
3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE ACOLHIMENTO E PROTEÇÃO ÀS CRIANÇAS E