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2 AS CRIANÇAS REFUGIADAS E A PROTEÇÃO ESTATAL E EXTRAESTATAL

2.2 CRIANÇAS E ADOLESCENTES REFUGIADOS ACOMPANHADOS, SEPARADOS E DESACOMPANHADOS

2.2.1 Panorama global e americano das crianças e adolescentes refugiados

A abordagem das crianças e adolescentes nos processos migratórios não acontece por acaso, uma vez que a proteção das crianças (ser humano com menos de 18 anos) foi

praticamente inexistente na Antiguidade até o século XVII, em que “uno de los mitos que más

ha perdurado a lo largo de la historia es la consideración de que el niño es un ser humano imperfecto, puesto que la perfección sólo se puede lograr en la edad adulta”310, ou seja, a criança era considerada um ser imperfeito e dependente da vontade de um adulto. Em virtude disso, era detentora de poucos direitos.

Os indivíduos com idade inferior a dezoito anos somente ganharam certa importância no século XVIII. Contudo, diante de conflitos entre interesses, fosse entre eles e os pais ou entre eles e o Estado, o interesse da criança e do adolescente ficava sempre em segundo plano.311

Na esfera internacional, as crianças e adolescentes passam a ter um primeiro documento de proteção, no início do século XX, pós Primeira Guerra Mundial, época em que se elaborou, no seio da Liga das Nações em 1924 a Declaração da Liga sobre os Direitos da

Criança312. Esse documento, no entanto, “coloca a criança numa situação claramente passiva,

em que a criança é mero objeto de proteção que deve receber algo ou ser agraciada com alguma outra coisa [...]”313.

Com a consolidação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948 (DUDH), e sua influência posterior na criação de novos documentos de proteção à pessoa humana, uma nova Declaração sobre as crianças é formulada. Nessa Declaração, as crianças e

adolescentes passam a ser tratados como sujeitos de direitos.314 Contudo, por ser a Declaração

sobre as crianças documento criado como regra de soft law, isto é, com valor jurídico de mera

310 CAMPOY CERVERA, Ignacio. La necesidad de superar los mitos sobre la infancia. In: BARRANCO AVILÉS

Maria del Carmen. GARCÍA FERRER, Juan José. (Coord.). Reconocimiento y protección de los Derechos de los Niños. Madrid: Save the Children/ Universidad de Alcalá, p. 35.

311 Ibid., p. 37-38.

312 De acordo com Juan Guilló, a proposta de criação do documento foi de Eglantyne Jebb, fundadora da Save the Children. GUILLÓ, Juan. La Convención sobre los Derechos del Niño. In: BARRANCO AVILÉS Maria del Carmen. GARCÍA FERRER, Juan José. (Coord.). Reconocimiento y protección de los Derechos de los Niños. Madrid: Save the Children/ Universidad de Alcalá, p. 73.

313 MONACO. Gustavo Ferraz de Campos. O Direito Internacional dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente e a Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. In: JUBILUT, Liliana Lyra. AMARAL JÚNIOR, Alberto do. (Org). O STF e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. São Paulo: Quartier Latin do Brasil, 2009, p. 445.

recomendação, e não tratado internacional, houve a necessidade de elaboração de um novo documento internacional com valor jurídico vinculante, o que só ocorrerá após quatro décadas. A necessidade de um tratado internacional específico foi de grande importância em

função da visão existente de que, “la infancia es un colectivo que dificilmente se pueden

organizar y no tiene acceso al voto, ni a los medios de comunicación, siempre se les postega en favor de cualquier otro colectivo que sí sea capaz de hacerse oír”315, que, no caso das crianças e adolescentes em situação de refúgio esse outro coletivo será sempre composto por adultos, seja na figura dos pais, tutores ou outro responsável legal.

Assim, na penúltima década do século passado, a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) elaborou a Convenção sobre os Direitos da Criança, de 20 de novembro de 1989, com o escopo de abarcar os direitos a serem fruídos pelas crianças, isto é, por aqueles com idade inferior a dezoito anos, em distintas situações, tanto em tempo de paz como de guerra, abrangendo, inclusive, mesmo que de forma tímida, o refúgio.

Essa Convenção, que entrou em vigor em setembro de 1990 e teve a ratificação de

196 (cento e noventa e seis) países,316 317 tem “medidas especiais de proteção para crianças

particularmente vulneráveis, como crianças vítimas de conflitos armados, crianças em situação

de detenção e crianças que procuram asilo e crianças refugiadas”318 e adotou um rol de direitos

civis, políticos, sociais, econômicos e culturais para a garantia da cidadania das crianças e adolescentes.319

Hodiernamente, as crianças e adolescentes, como já exposto, compõem mais da metade dos refugiados no mundo, sendo a maioria proveniente do Continente Africano e do Oriente Médio, localidades onde se verifica a maior quantidade de conflitos armados, perseguições por questões étnicas e raciais, assim como violações maciças aos direitos da

315 GUILLÓ, Juan. La Convención sobre los Derechos del Niño. In: BARRANCO AVILÉS Maria del Carmen.

GARCÍA FERRER, Juan José. (Coord.). Reconocimiento y protección de los Derechos de los Niños. Madrid: Save the Children/ Universidad de Alcalá, p. 71.

316 Somente os Estados Unidos da América não ratificaram a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. O

Brasil ratificou a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989 em 24 de setembro de 1990.

317Em 2000 foi elaborado pela Assembleia Geral das Nações Unidas um o Protocolo Facultativo para a Convenção

sobre os Direitos da Criança sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados (crianças soldados). Esse novo tratado entrou em vigor em 13 de fevereiro de 2002 e já foi ratificado por 130 (cento e trinta) países. UNICEF BRASIL. Disponível em:<https://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10124.htm> Acesso em: 07 de abr. 2017.

318 Texto original: “special protection measures for particular vulnerable children, such as child victims of armed conflict, children in detention and asylum-seeking and refugeee children”. SMYTH, Ciara. European Asylum law and the rights of the child. Oxon: Routledge, 2014, p. 38.

319 A Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989 traz em seu bojo direitos considerados como de primeira

dimensão (civis e políticos) e de segunda dimensão (sociais, econômicos e culturais), tais como: o direito a uma nacionalidade, liberdade de expressão, liberdade de opinião e religião, direito a intimidade e direito a não sofrer tortura e tratamento degradante, bem como princípios gerais como o da não discriminação, o de participação e o interesse superior da criança.

pessoa humana. Contudo, também há casos de solicitação de refúgio de crianças e adolescentes

no continente americano.320

Ainda segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas (ACNUR),

No período de dez anos entre 2005 e 2015, o número global de crianças refugiadas sob a proteção do ACNUR mais que dobrou de 4 milhões para mais de 8 milhões. Em apenas cinco anos entre 2010 e 2015, o número de crianças

refugiadas sob o mandato do ACNUR aumentou em 77 por cento.321

Já de acordo com o Relatório Uprooted do Fundo das Nações Unidas para a Infância

(UNICEF)

As crianças e os adolescentes representam uma porcentagem desproporcional e crescente de todas as pessoas que procuraram refúgio fora dos seus locais de nascimento: apesar de representarem cerca de um terço da população mundial, eles são aproximadamente metade de todos os refugiados. Em 2015, cerca de 45% de todas as crianças e adolescentes refugiados sob proteção do ACNUR

vieram da Síria e do Afeganistão.322

Somente na Síria, por exemplo, o UNICEF traz que

Cerca de 3,7 milhões de crianças sírias - uma em cada três crianças sírias - nasceram desde o início do conflito, há cinco anos, e suas vidas foram moldadas pela violência, pelo medo e pelo deslocamento [...] Esse número inclui mais de 151.000 crianças nascidas como refugiados desde 2011. No total, a UNICEF estima que cerca de 8,4 milhões de crianças - mais de 80 por cento da população infantil da Síria - são agora afetadas pelo conflito, seja no interior do país [como deslocadas internas] ou como refugiados nos países

vizinhos Países.323

320 Segundo a Anistia Internacional a violência não coibida em Honduras, El Salvador e Guatemala contra crianças e adolescentes vem fazendo crescer o número de solicitação de asilo a países da região, sobretudo o México e os Estados Unidos da América. ANISTIA INTERNACIONAL. Pessoas refugiadas: Como a omissão dos governos de Honduras, Guatemala e El Salvador coloca pessoas em riscos nas Américas. Disponível em: <https://anistia.org.br/noticias/pessoas-refugiadas-como-omissao-dos-governos-de-honduras-guatemala-e-el-salvador-coloca-pessoas-em-riscos-nas-americas/>. Acesso em: 25 de jan. 2017.

321 UNICEF. Uprooted: The Growing Crisis For Refugee And Migrant Children. Disponível em: <http://www.unicef.org/publications/files/Uprooted_growing_crisis_for_refugee_and_migrant_children.pdf>.

Acesso em: 08 de dez. 2016, p. 18.

322 Idem. UNICEF: Quase 28 milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo deixaram suas casas por conta

de conflitos. Disponível em:< https://www.unicef.org/brazil/pt/media_34148.html>. Acesso em: 30 de jan. 2017.

323 Texto original: “An estimated 3.7 million Syrian children – 1 in 3 of all Syrian children – has been born since the conflict began five years ago, their lives shaped by violence, fear and displacement [...] This figure includes more than 151,000 children born as refugees since 2011. In total, UNICEF estimates that some 8.4 million children – more than 80 per cent of Syria’s child population – are now affected by the conflict, either inside the country or

as refugees in neighbouring countries.” UNICEF. Crise na Síria. Uma geração em perigo.

Entretanto, se a origem das crianças e adolescentes se concentra, em grande parte, em duas regiões do planeta, os países que os recepcionam se ampliam, abarcando Estados do próprio Oriente Médio e África, além da Europa, da Oceania e das Américas, sendo, o Estado brasileiro, um dos receptores de solicitantes de refúgio e refugiados, tanto em idade adulta quanto infantojuvenis.

No caso das crianças e adolescentes solicitantes de refúgio, esses podem ser inseridos na categoria de acompanhados, o que ocorre quando estão assistidos por um dos pais ou por ambos; de separados, que são os que não estão acompanhados dos pais, mas de outra figura adulta, que pode ser um tio ou irmão mais velho, que se responsabiliza pelo seu cuidado e proteção; e os desacompanhados, que estão completamente sozinhos, sem que haja a figura de nenhum adulto responsável por eles, “guiados” por traficantes de pessoas ou contrabandistas

de migrantes324, seja durante o trajeto, seja quando chegam ao seu destino.

Dentre as crianças e adolescentes solicitantes do reconhecimento da condição de refugiados ou já refugiados no mundo, nos dias de hoje, é justamente entre as separadas e desacompanhadas que o número mais cresce, segundo dados de 2015, do Alto Comissariado das Nações Unidas (ACNUR), em que

Os dados provisórios indicam que o número de crianças não acompanhadas ou separadas que pedem asilo aumentou significativamente nos últimos anos, atingindo os níveis mais elevados desde que o ACNUR começou a recolher esses dados em 2006. Em 2015, cerca de 98.400 novos pedidos de asilo individuais foram submetidos por crianças não acompanhadas ou separadas, com 78 países informando pelo menos um desses pedidos individuais. Isto comparado com 34.300 em 2014 e 25.300 em 2013. Grande parte desse aumento está relacionada ao crescimento dos pedidos de asilo, mas a proporção de crianças não acompanhadas ou separadas entre todos os pedidos de asilo também aumentou de pouco mais de 2 por cento em 2013 para quase

5 por cento em 2015.325 (tradução livre)

Não obstante a crescente quantidade de crianças e adolescentes sozinhos ou sem os pais e em situação de refúgio, poucos são os países que informam o número de crianças e

324 Os termos traficantes de pessoas e contrabandistas de migrantes são nominados, respectivamente, no espanhol como trata de persona e tráfico de inmigrantes e, no inglês como traffiking e smuggling ou assisting ilegal immigration.

325 Texto original: “Provisional data indicate that the number of unaccompanied or separated children seeking

asylum on an individual basis has increased significantly over recent years, reaching the highest levels since UNHCR started systematically collecting such data in 2006. In 2015, about 98,400 new individual asylum applications were submitted by unaccompanied or separated children, with 78 countries reporting at least one such individual application. This compares with 34,300 in 2014 and 25,300 in 2013. Much of this increase is related to the overall increase in asylum applications, but the proportion of unaccompanied or separated children among all asylum applications has also increased from just over 2 per cent in 2013 to nearly 5 per cent in 2015”.

UNHCR. Global Trends Forced Displacement in 2015, 2016. p. 44. Disponível em:

adolescentes separados ou desacompanhados, como é o caso da África do Sul e dos Estados

Unidos da América.326 Percebe-se também que, mesmo com os documentos internacionais

existentes, internamente

Los derechos de los niños no sólo están en gran medida ausentes del lenguage de las normas jurídicas, además, su incorporación a la teoria de los derechos es relativamente reciente y ligada al proceso de especificación [...] Los derechos de los niños no existen, porque los derechos se atribuen al hombre y al ciudadano.327

Na Europa, a idade de solicitantes de refúgio e refugiados, como no caso dos sírios, atinge faixas etárias mais tenras, pois as famílias, ao migrarem pelas fronteiras secas, por vezes se perdem entre si, situação que vem propiciando casos reiterados de abusos e exploração face

aos que possuem menos de dezoito anos.328

De acordo com o UNICEF, “entre 2015 e 2016, cerca de 200 mil crianças não

acompanhadas realizaram pedido de asilo em 80 países ao redor do globo”329, dentre esses solicitantes

de refúgio, “cerca de 170 mil crianças desacompanhadas pediram asilo nos diversos países do continente

[europeu]”330. Dos países da Europa o que mais sentiu esse fluxo de crianças e adolescentes

desacompanhados foi a Itália, pois “92% das crianças que chegaram à Itália por mar em 2016 estavam

desacompanhadas ou separadas de suas famílias”.331 No caso da Espanha, a maioria das crianças e

adolescentes que chegam ao Centro de Acogida a Refugiados (CAR) estão acompanhados, sendo

até 2017 a maioria proveniente da Venezuela, Honduras e Ucrânia.332 Atualmente, a Espanha

326 Texto original: “It should be noted that not all countries report information on the numbers of unaccompanied or separated children seeking asylum, most notably South Africa and the United States of America; thus it is very likely that the reported figure is an under-estimate. Sweden and Germany not only registered the most asylum applications from unaccompanied or separated children across the European Union but also the highest number of asylum claims from unaccompanied or separated children among all countries reporting such statistics”.

UNHCR. Global Trends Forced Displacement in 2015, 2016. p. 44. Disponível em:

<http://www.unhcr.org/576408cd7.pdf>. Acesso em: 09 de dez. 2016.

327 BARRANCO AVILÉS, Maria del Carmen. Por qué hay que proteger los derechos de los niños? Los derechos

de los niños desde las teoria Morales basadas en derechos. In: BARRANCO AVILÉS Maria del Carmen. GARCÍA FERRER, Juan José. (Coord.). Reconocimiento y protección de los Derechos de los Niños. Madrid: Save the Children/ Universidad de Alcalá, p. 23.

328 Exemplo de exploração, no caso sexual, vem ocorrendo na Grécia, onde crianças e adolescentes em situação

de refúgio provenientes da Síria, Afeganistão e Paquistão, ao tentar atravessar a Europa são compelidos a se prostituírem para pagar contrabandistas. THE GUARDIAN. Child refugees in Europe 'forced to sell bodies' to pay smugglers Disponível em: <https://www.theguardian.com/society/2017/apr/18/child-refugees-in-europe-forced-to-sell-bodies-to-pay-smugglers>. Acesso em: 12 de jun. 2017.

329 GLOBO. Crianças desacompanhadas refugiadas e migrantes chegam a 300 mil, diz Unicef. Disponível em:<g1.globo.com/mundo/noticia/numero-de-crianças-rfugiadas-e-migrante-chega-a-300-diz-unicef.ghtml> Acesso em: 24 de mai. 2017.

330 Ibid.

331 Ibid.

332 Dados obtidos em conversa informal com o Diretor do Centro de Acogida a Refugiados (CAR), Sr. Santiago

vem recebendo adultos, crianças e adolescentes provenientes majoritariamente da África, e

recusados pelos governos da Itália e de Malta.333

O assunto tornou-se tão preocupante para o ACNUR, que esse organismo criou a

sigla CAIRD, que se refere às Crianças e Adolescentes Imigrantes ou Refugiadas

Desacompanhadas. Contudo, ainda que o ACNUR tenha se atentado para a criação de uma nova terminologia, as crianças e adolescentes refugiados, desacompanhados ou não, são seres sem voz e praticamente invisíveis pelas legislações de seus governos e Estados de acolhida.

Essa cegueira, no campo jurídico-político, ocorre por distintos fatores, dentre os quais a não observância dos Estados quanto ao artigo 12, da Convenção sobre os Direitos da Criança, de 1989, que dispõe que:

Art.12

1 – Os Estados Partes devem assegurar à criança que é capaz de formular seus próprios pontos de vista o direito de expressar suas opiniões livremente sobre todos os assuntos relacionados a ela, e tais opiniões devem ser consideradas,

em função da idade e da maturidade da criança.

2 – Com tal propósito, proporcionar-se-á à criança, em particular, a oportunidade de ser ouvida em todo processo judicial ou administrativo que afete a mesma, quer diretamente quer por intermédio de um representante ou órgão apropriado, em conformidade com as regras processuais de legislação

nacional.334

Desse modo, não só os adultos, mas também as crianças e adolescentes, costumam

ser criminalizados, sendo-lhes imputada a expulsão ou deportação335 para seus Estados de

origem sem qualquer observância ao artigo 3º da Convenção sobre os Direitos da Criança de

1989 (CDC) que trata sobre o princípio do interesse superior da criança336, colocando em risco

a vida de milhares de seres humanos que são perseguidos por questões étnicas, religiosas ou de

333 SPUTINIK NEWS. Espanha aceita novo navio de refugiados impedidos de entrar na Itália. Disponível em:<https://br.sputniknews.com/europa/2018063011603164-espanha-refugiados-imigrantes-italia-espanha-libia/>. Acesso em: 25 de jul. 2018.

334 ONU. Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. Disponível

em:<http://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10127.htm>. Acesso em: 05 de jun. 2016.

335 De acordo com o artigo 32, nº 1 da Convenção de Genebra de 1951, “Os Estados Contratantes não expulsarão

um refugiado que se encontre regularmente no seu território senão por motivos de segurança nacional ou de ordem

pública”. ONU. Convenção de Genebra de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados. Disponível em:

<http://www.acnur.org/t3/fileadmin/Documentos/portugues/BDL/Convencao_relativa_ao_Estatuto_dos_Refugia

dos.pdf?view=1>Acesso em: 22 de jul. 2016.

opinião337, recrutados por grupos rebeldes para se tornarem soldados338 ou aliciados por grupos

terroristas339, ou que fogem de conflitos armados e de graves violações aos seus direitos

humanos, como mutilação genital feminina (MGF) e o casamento infantil. Diante dessas realidades, o fim da detenção de crianças e adolescentes migrantes ou solicitantes de refúgio, se tornou uma das ações que compõe a agenda do Fundo das Nações Unidas para a Infância

(UNICEF).340

Ademais, a CDC de 1989 tem por base o princípio do pacta sunt servanda, que

obriga os Estados que são partes da Convenção, a cumpri-la, conforme prevê os seus artigos 2º (1) e 4º, não podendo, também, ser derrogada.

Mesmo assim, as crianças e adolescentes ainda continuam sub-representados em suas demandas, não havendo sequer estatísticas oficiais em muitos países de acolhida sobre a

existência da quantidade de entradas e solicitações de refúgio341, em que além das crianças

“adolescentes e jovens migrantes [18 a 24 anos] estão em risco de se tornarem demografia

337 São exemplos de perseguições religiosas, amplamente noticiadas na mídia, às perpetradas contra crianças e adolescentes yazidis no Iraque pelo Estado Islâmico ou Daesh. Como perseguição em razão da opinião tem-se o caso emblemático da paquistanesa Malala Yousafzai que ao lutar pelo direito das meninas terem acesso à educação em seu país, foi alvo de atentado que quase lhe tirou a vida, pelo grupo Talibã.

338 O uso de crianças e adolescentes como soldados é mais comum em países da Ásia e África, havendo casos de

utilização na guerra civil em Angola, nos conflitos da República Centro Africana, Sudão do Sul, Somália, Afeganistão, Índia e Filipinas, havendo relatos também nas Américas em Honduras e Colômbia, esse último durante os anos de atuação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - FARC. Esses crianças e