Nesta seção serão relacionados o Direito de Personalidade com a herança digital. No que se refere ao Direito à privacidade, não há o que se falar em herança digital se levada em conta a privacidade do de cujos, pois se alguém possuir o acesso a alguma de suas redes sociais, poderá implicar em muitas outras coisas, tais como a visualização de conversas, imagens e mesmo compras das quais o falecido poderia desejar que continue sem que aqueles as suas voltas saibam.
A lei 12.965/2014, que versa sobre o uso da internet no brasil, também conhecida como Marco Civil da Internet estabelece em seu artigo 3° que a disciplina do uso da internet no Brasil tem o seguinte princípio: “[...] II - proteção da privacidade” (BRASIL, 2014).
Por meio dessa legislação é possível entender, no princípio mencionado, que o uso da internet é respaldado pela proteção da privacidade, e mesmo que a pessoa já tenha falecido, ainda possui tal direito.
A mesma lei, em seu artigo 11, enfatiza novamente a proteção à privacidade:
Art. 11. Em qualquer operação de coleta, armazenamento, guarda e tratamento de registros, de dados pessoais ou de comunicações por provedores de conexão e de aplicações de internet em que pelo menos um desses atos ocorra em território nacional, deverão ser obrigatoriamente respeitados a legislação brasileira e os direitos à privacidade, à proteção dos dados pessoais e ao sigilo das comunicações privadas e dos registros (BRASIL, 2014, grifo nosso).
Ante o exposto, é perceptível que o direito à privacidade está bem protegido tanto na constituição quanto na legislação esparsa.
Em relação ao Direito ao segredo, fica clara a violação que irá ocorrer no caso de possuir acesso ou possibilidade de dar continuidade a uma conta de uma pessoa já falecida, pelos mesmos motivos já citados (conversas, fotos, compras, finanças ou mesmo contratos).
Outro ponto ao qual o segredo deverá importar e ser levado em conta, é nos casos em do qual a profissão do falecido possua a necessidade do segredo profissional, exemplos disso são médicos e advogados, pois estes lidam com informações confidenciais de seus clientes, as quais por força de lei não é permitido que seja divulgada, elencado no art. 5 da Constituição Federal em seu inciso XIV, onde esclarece que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”(BRASIL, 1988).
inviolável, e o juiz, a requerimento do interessado, adotará as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma” (BRASIL, 2002), protegendo assim mais uma vez a questão do segredo. E considerando que seja possibilitado que a conta seja acessada por outrem, não será apenas os segredos e a privacidade de uma pessoa que será ferida, mas de todos os clientes, amigos, sócios e muitos mais que esta pessoa possa se comunicar por meio desta rede social.
Quanto ao Direito ao nome, ao iniciar uma conta em quaisquer redes sociais online, é necessário que seja feito um cadastro, informando no mínimo, um nome de usuário para que os outros saibam como o identificar. Se fosse concedido a possibilidade de alguém possuir o acesso, ou assim como na legislação vigente em Idaho, onde se é possível mesmo que se dê continuidade a uma conta pertencente ao falecido, irá imediatamente de encontro com aquilo elencado no art. 17 do Código Civil, pois o mesmo discorre que: “O nome da pessoa não pode ser empregado por outrem em publicações ou representações que a exponham ao desprezo público, ainda quando não haja intenção difamatória” (BRASIL, 2002).
Como exemplo disto, há os cantores “Mr. Catra” e Gabriel Diniz, que já faleceram, mas que ainda possuem contas em redes sociais (Instagram, por exemplo) com atividades recentes em suas contas, as quais estão seus nomes para identificação.
Ante o exposto, é verificada também a necessidade da legislação pelo fato dessas situações estarem ocorrendo com bastante frequência.
Relacionando o Direito à imagem com herança digital, o Código Civil apresenta:
Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.
Como visto, a imagem é protegida em muitos casos na legislação, porém em uma rede social on line, onde não haverá fins lucrativos (grande maioria das vezes), a imagem de alguém que já faleceu acaba por se tornar uma exposição desnecessária, em que pode acabar por perturbando aqueles que ainda vivem, como sua família por exemplo.
E por mais que algumas pessoas tenham algum apego pelos ativos digitais que seu ente querido estimava, outros podem ver como uma lembrança dolorosa, não desejando ter recordações do ente falecido a todo momento. Lembrando que isso apenas acontecerá em caso
de conta pessoal, é claro, pois em contas corporativas mais de uma só pessoa possui acesso a ela, ou seja, caso haja demissão ou falecimento de funcionário em nada irá impactar.
Por mais que não se trate de direito de personalidade, deve ser levado em conta também aquilo que a Constituição Federal determina sobre a inviolabilidade das correspondências, pois a grande maioria das redes sociais online possuem ao menos a possibilidade de que seja mantido um diálogo entre usuários, mesmo que em algumas delas esse não seja o foco, a Constituição brasileira deixa bem claro em seu artigo 5° e inciso XII que: “é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal” (BRASIL, 1988).
Dessa forma, impondo mais um degrau ao qual uma possível legislação que verse sobre a herança digital deverá superar. O processo de número 002337592.2017.8.13.0520, por exemplo, se trata de um caso em que os pais desejavam acesso a conta do Icloud de sua filha falecida, porém, o tribunal entendeu o caso como hipótese onde o direito a inviolabilidade da correspondência seria ferido, e assim tendo ele como fundamento indeferiu o pedido, sob alegação que o acesso a uma conta como a da falecida poderia acabar por permitir o acesso aos dados de terceiros ao qual a garota tinha contato.
No Brasil, não há o costume de se refletir e considerar com antecedência, o falecimento, e, por consequência, também não se tem a prática de fazer testamento. No entanto, é o testamento que acaba garantindo aos herdeiros a possibilidade de acesso aos bancos de dados do falecido, por meio desse documento eles poderão usar como lhes aprouver o que o falecido houver deixado (CADAMURO, 2019).
5 CONCLUSÃO
A criação de plataformas que permitem a interação entre pessoas define uma nova maneira de comunicação e de relacionamento para a sociedade. As redes sociais vêm ganhando espaço na publicação e compartilhamento de informações de instâncias variáveis, propostas a diferentes públicos que utilizam esses canais e procuram elementos de interesse particular.
Então, essa investigação buscou levantar algumas reflexões quando ocorre o falecimento de uma pessoa que possui uma conta ativa nas redes sociais.
É sabido que a Herança Digital não tem sua situação regulamentada ou prevista pelo Código Civil brasileiro em vigência, contudo, a herança digital já é fato e nesse sentido, foi possível verificar a viabilidade da tutela do direito à herança digital no ordenamento jurídico pátrio à luz dos direitos da personalidade, em conformidade com os objetivos propostos.
A intenção não é indicar falhas nos Direitos de Personalidade, mas salientar apenas não se adequam como deveriam ao dia a dia da sociedade atual. Com o Código Civil já possuindo mais de quinze anos, é necessário que seus artigos acabem sendo adaptados para se adequar ao dia a dia, e os direitos de personalidade, podem proteger em situações mais relevantes para aquela década, mas com a tecnologia em constante evolução, acaba em alguns momentos se tornando ineficaz.
Referente ao acesso dos arquivos pessoais de uma pessoa que faleceu, identificou- se um conflito com a privacidade dessa pessoa, principalmente se seus bens digitais são protegidos por senha, pois, nem todas as vezes o intento do de alguém que faleceu é que seus herdeiros tenham acesso a seus ativos digitais. Desse modo, salienta-se a relevância de o autor da herança expressar sua pretensão em testamento quanto ao acesso e utilização de seus bens digitais.
Tal tema é de extrema importância para o judiciário, pois não há nada na legislação nacional que verse sobre quadro de insegurança jurídica que se formou devido ao embaraço de quem seria o titular da herança digital. É também responsabilidade do Judiciário definir lucidez sobre o tema, aplicando a legislação civil a estas novas relações entre indivíduos, empresas prestadoras de serviços, e a herança em meio digital.
A legislação deve estabelecer regras para as empresas que fornecem redes sociais, impondo obrigatoriedade suas convicções sobre a disponibilização dos ativos digitais para os usuários, já que a plataforma de uma rede social pertence a pessoa física ou jurídica e não a
empresa que apenas a fornece. Com isso a empresa não tem o direito de escolher entre manter ou deletar o perfil e as informações de um usuário falecido.
E por se tratar de um tema novo, pois a primeira geração “digitalizada” somente agora começa a morrer, há ainda muito pouca discussão doutrinária e a jurisprudência pouco tem decidido a respeito. Por isso, o material foi reduzido a legislação, doutrina e jurisprudências, com foco maior em artigos científicos, sendo considerada essa uma limitação da pesquisa.
Essas colocações realizadas no presente estudo levam a crer que será um grande desafio para o Direito acompanhar a atual celeridade dos episódios, a mutação que ocorre velozmente na atual sociedade da informação, já que se modifica em poucos meses, para tanto, os legisladores necessitam produzir um retorno imediato.
Contudo, o Direito precisa se adaptar a atualizações que ocorrem na sociedade e às inovações que surgem nos dias de hoje com significativa pressa, pois esta área existe para respaldar o meio social, portanto, deve acompanhar a largos passos todas os progressos, até porque se estiver obsoleto, vai cair em desuso e perder sua essencial significância.
Restando demonstrado neste sentido que não está cristalizado no direito um entendimento quanto à intimidade e privacidade do falecido, assim como, quais serão as proteções referentes aos direitos de sua personalidade que devem perdurar para além do fim de sua vida.
Nesse ínterim, considerando que a herança digital ainda precisa evoluir, e essa construção exige novas investigações e análises sobre o assunto, ficando desse modo, como sugestão para estudos futuros o acompanhamento mais aprofundado de projetos de lei que não vigoraram e os motivos de seus arquivamentos, bem como o desenvolvimento de estudos científicos que tragam à tona a importância dessa temática e os impactos que esse atraso da legislação traz para o Direito brasileiro.
Outro ponto que necessita de uma futura análise e investigação é quanto aos bens que possuem valores monetários, pois o presente trabalho monográfico focou apenas nos bens que vão de encontro com os direitos de personalidade.
Há várias possiblidades de que se possa conseguir dinheiro por meio de redes sociais quando se possui certa fama neste meio, este tipo de situação deve ser averiguada também com grande afinco, pois além de incluir tudo aqui já escrito, haverá ainda a questão monetária.
Por fim, resta concluir que o Direito da Personalidade, tratado no ordenamento pátrio se baseia na personalidade do indivíduo, do mesmo modo, nesta pesquisa foram
constatadas suas origens e características, bem como foi possível compreender o funcionamento do instituto de herança digital na atual sociedade. O estudo ainda permitiu refletir e certificar a importância da tutela da herança digital no direito brasileiro.
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