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Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos

2.1 OS AVANÇOS DAS CONSTITUIÇÕES FEDERAIS BRASILEIRAS

2.1.4 Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos

Os Direitos Humanos são decorrentes da luta pela universalização da dignidade humana, que histórica e socialmente foram construídos por um longo processo de elaboração e vivências, não finalizado até o presente momento. A educação é uma das possibilidades de acesso ao legado histórico dos Direitos Humanos, para o entendimento e apropriação de que a cultura dos Direitos Humanos é uma das bases para atingirmos a necessária mudança social. Ela representa um dos direitos humanos, enquanto a Educação em Direitos Humanos é parte fundamental desses direitos.

A Educação em Direitos Humanos surge como necessidade de reorganizar os compromissos nacionais, necessitando da colaboração e cooperação dos sujeitos e das instituições para a promoção de ações que a sustentem e garantam, para consolidação de uma educação não discriminatória e democrática.

Com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), os direitos humanos são incorporados nos mecanismos jurídicos em nível mundial, como ideário, em contraposição às guerras e ao autoritarismo. A CF de 1988 se caracteriza pelo principal marco jurídico brasileiro na defesa dos Direitos Humanos. Em sua decorrência, são criados Conselhos, Secretarias em nível federal, estadual e municipal e ONGs de defesa dos Direitos Humanos. Entretanto, essas normatizações não são suficientes para a efetivação dos Direitos Humanos numa sociedade com heranças autoritárias. Para avançarmos, a sociedade precisa se apropriar desse conceito por meio de novas vivências, que priorizem a democracia, a proteção de todas as pessoas e a promoção da igualdade.

A Educação em Direitos Humanos visa formar um cidadão que participe da construção de uma sociedade justa, pacífica e igualitária, sendo responsável pela sua história, desenvolvendo a consciência dos direitos e deveres, independentemente de cor, gênero, religião, cultura, classe social, regionalidade, idade e escolaridade, dentre outros. A LDB de 1996 expressa, em seu texto, o conceito de educação como direito humano e a Educação em Direitos Humanos como eixo fundamental do direito à educação, para a criação de propostas com a temática Direitos Humanos.

Atualmente, com o surgimento de novos desafios, o fenômeno da globalização incide sobre o tema Direitos Humanos, no que se refere à sua violação em países e grupos com maiores

desigualdades sociais e pobreza; por isso organismos internacionais estão buscando uma regulamentação da Educação em Direitos Humanos como um direito básico.

O mundo se apresenta com características conservadoras e uma modernidade individualista, como cita Gadotti (2017), com os interesses do privado acima dos interesses coletivos e sociais, que incidem de forma negativa e opositora na execução dos direitos.

O estado está perdendo a hegemonia sobre o projeto educacional entregando-o ao Mercado. O princípio constitucional da laicidade e da obrigatoriedade está em perigo, quando a educação deixa de ser um direito para tornar-se um serviço, uma mercadoria. (GADOTTI, 2017, p. 11).

Esse perfil de educação e de escola ameaça os Direitos Humanos e a democracia, por desconsiderar a importância da inclusão das pessoas em uma sociedade justa. O Brasil apresenta avanços no campo da educação nas últimas décadas, mas não é capaz de consolidar o compromisso e políticas públicas de Direitos Humanos que primem pela justiça social. A escola, por ser um espaço social e coletivo, precisa exercitar a democracia, por meio de ações que relacionem o passado, o futuro e o presente, dando solidez a uma história e a uma cultura de paz, por meio de discussões dos temas relacionados aos Direitos Humanos.

Uma educação para a cidadania, para o exercício da cultura dos direitos humanos exige de educadores e educandos reflexão, criticidade e posicionamento a favor dos discriminados e menos favorecidos, a favor da problematização e do diálogo, conforme aponta Freire (2015).

Paulo Freire opõe a educação problematizadora do oprimido, à educação bancária do opressor: a primeira leva a humanização e a segunda à manutenção objetiva da opressão: a primeira caracteriza-se pela colaboração, pela união, pela organização e pela síntese cultural; a segunda caracteriza-se pela conquista, pela divisão do povo, pela manipulação e pela invasão cultural. (GADOTTI, 2017, p. 12).

A educação em Direitos Humanos é um ato político, que possibilita escolhas conscientes e o desenvolvimento da autonomia, que exige dos protagonistas a problematização e o diálogo, porque não é possível exercitar a democracia sem eles. Por ser a Educação em Direitos Humanos opositora ao ideário capitalista, não é propiciada e expandida na sociedade, porque se coloca contra a opressão e a manipulação, características fundantes das classes dominantes, que promovem a desigualdade e a exclusão social, negando direitos.

O diálogo, por ser uma ação consensual, onde as partes expõem suas reflexões e ao mesmo tempo dão abertura para a audição, num exercício de reflexão e de análise, de problematizações e busca de soluções, não representa a conduta que os cidadãos devem apresentar no modelo capitalista, que imprime a necessidade de sermos passivos e alienados. Por isso, necessitamos de uma Educação em Direitos Humanos, para promover a nossa empatia,

a nossa conscientização, o nosso posicionamento e a nossa superação frente às injustiças sociais.

Para mim, um dos anúncios mais importantes, neste momento, é defender e fortalecer a presença da Educação em Direitos Humanos dentro e fora da escola. Formação em Direitos Humanos é formação para e pela cidadania, para e pela democracia: sem democracia não há Direitos Humanos pois direito humano é direito a uma moradia descente, direito à saúde, à segurança, à educação etc. Direitos Humanos são complementares, interdependentes. (GADOTTI, 2017, p. 15).

A democracia se aprende pelo seu exercício e os Direitos Humanos são construídos pelas suas vivências e pelo respeito ilimitado às diferenças.

Por meio de atos normativos, o CNE expressa seu posicionamento favorável à Educação em Direitos Humanos, conforme se constata no Parecer do Conselho Nacional de Educação nº 7, de 2010, que aborda o tema dos Direitos Humanos, citado nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica:

[...] ao longo do desenvolvimento de componentes curriculares com os quais guardam intensa ou relativa relação temática, em função de prescrição definida pelos órgãos do sistema educativo ou pela comunidade educacional, respeitadas as características próprias da etapa da Educação Básica que a justifica (BRASIL, DCNEB 2013, p. 520).

A efetivação dos Direitos Humanos nos contextos escolares implica na reformulação de conceitos e práticas de todos os protagonistas e de orientações que direcionem esse processo de reconstrução histórica, como conteúdo que propicie a formação ética, crítica e política. Ética, por formar atitudes, baseadas em valores humanizadores, seja em relação ao indivíduo, um grupo ou instituição. Crítica, por promover reflexão sobre o contexto social, cultural, político, coerente com os Direitos Humanos. Política, por propiciar a emancipação e transformação do sujeito de direito.

Embora avanços possam ser verificados em relação ao reconhecimento de direitos humanos nos marcos legais, ainda se está distante de assegurar na prática os fundamentos clássicos dos Direitos Humanos – a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Ainda hoje se pode constatar a dificuldade de consolidação de uma cultura social de Direitos Humanos, em parte devido aos preconceitos presentes numa sociedade marcada por privilégios e pouco afeita aos compromissos assumidos nacional e internacionalmente. Não se pode negar a persistência de uma cultura, construída historicamente no Brasil, marcada por privilégios, desigualdades, discriminações, preconceitos e desrespeitos. Sobretudo em uma sociedade multifacetada como a brasileira, esta herança cultural é obstáculo à efetivação do Estado Democrático de Direito. (BRASIL, 2013, p. 521).

Para a implantação efetiva da Educação de Direitos Humanos, muitos desafios precisam ser superados nas práticas educacionais e no contexto da EJA, para garantia de uma educação de qualidade social, que incida na inclusão, participação e permanência dos educandos. Porque a evasão escolar dos jovens e adultos é uma exclusão social e uma violação de direitos.

A proposta de Freire (2015) revela sua defesa incondicional aos direitos humanos, indo ao encontro dos princípios balizadores da Revolução Francesa, como a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A libertação é a razão maior da educação na obra do autor, que é entendida como compromisso de libertação do oprimido, por meio da sua emancipação social. Nesse compromisso de luta com as classes menos favorecidas, destaca sua visão humanista e o empenho em buscar a conscientização das massas9. A igualdade tem destaque ao ser compreendida como mecanismo de humanização do homem, na superação das injustiças e das desigualdades, num mundo onde uma pequena parcela detém poder, fortuna e conhecimento, em detrimento de grande número de pobres e analfabetos, sem as mínimas condições de vida e de sobrevivência.

Os projetos desenvolvidos por Freire revelam sua relação íntima com as classes oprimidas em sintonia com a história dos direitos humanos no Brasil, pois traz à tona a denúncia da exploração dos pobres e analfabetos, sem perspectivas de mudanças e entendimento da sua realidade, ao mesmo tempo que aponta a esperança como possibilidade de fraternidade, de comunhão com os necessitados, de pão, de conhecimento e de vida.

Lutar por uma Educação em Direitos Humanos é lutar pela democracia, por exercitar a participação, a igualdade de condições e a conscientização, numa sociedade onde os pobres e analfabetos não têm direito à participação, à voz, a ler, a escrever e a ser. Por isso, a educação é uma possibilidade concreta de efetivação dos Direitos Humanos, mediados pelo conhecimento e pela participação consciente.