CAPÍTULO II – E STUDO E MPÍRICO
2.4. Discussão dos resultados
As doenças oncológicas são consideradas um problema de saúde pública, e o cancro da mama continua a ser a segunda neoplasia mais incidente e prevalente em todo o mundo (RORENO, 2013), constituindo uma das doenças com maior impacto na nossa sociedade (LPCC, 2016). O impacto do diagnóstico, a experiência da doença, o número crescente de mulheres que vivem com cancro da mama como doença crónica, tornam urgente promover o seu empowerment psicológico no que concerne à gestão dos seus processos de saúde/doença aspetos fundamentais para minimizar a comorbilidade e contribuir para ganhos em saúde. Com o estudo desenvolvido pretendeu-se compreender o empowerment psicológico das mulheres com doença oncológica da mama recentemente diagnosticada, e sua relação com o bem-estar psicológico e coping.
Neste estudo, foi avaliada a consistência interna dos questionários que integram o instrumento: empowerment psicológico, bem-estar psicológico e estratégias de coping, cujos coeficientes de alfa foram: =0,95, =0,84 e =0,79 para a estratégia de coping centrado nas emoções; =0,72, centrado no problema e =0,53 coping disfuncional. No que se refere ao empowerment psicológico, resultados similares foram encontrados por van den Berg et al. (2013), e em relação ao bem-estar psicológico e estratégias de coping, Rainho et al. (2012) e Cooper, Katona, Orrell e Livingston (2006), respetivamente, encontraram valores similares ao do nosso estudo.
Neste estudo, participaram 100 mulheres com uma média de idades 52,2 e (dp=8,9) anos, resultados similares aos de outros estudos de mulheres com cancro da mama (He et al., 2012; Shi et al., 2011; S. Silva et al., 2011; van den Berg et al., 2013). No que diz respeito ao estado civil, a maioria (84%) das mulheres era casada ou vivia em união de facto, encontrava-se profissionalmente ativa (52%), quanto às habilitações académicas eram detentoras do ensino secundário (26%), do ensino superior (21%), resultados semelhantes aos encontrados nos estudos de Huijer e Abboud (2012), Schmid-Büchi, Halfens, Müller, Dassen e Borne (2013) e Phillips e McAuley (2014).
Quanto à pontuação total de empowerment psicológico das mulheres com doença oncológica da mama recentemente diagnosticada, que participaram neste estudo, verificou-se uma pontuação elevada, dado que a média encontrada foi de 166,7, e num outro estudo em que foi
Da relação entre empowerment psicológico e variáveis sociodemográficas das participantes no estudo, apenas a idade (r= -207; p<0,05) se relacionou significativamente, ou seja, à medida que a idade aumentava diminuía significativamente o empowerment psicológico. Atualmente, e de acordo com a pesquisa realizada, não foram encontrados estudos que analisem a relação entre a idade e empowermewnt psicológico em mulheres com doença oncológica da mama recentemente diagnosticada, no entanto, consideramos a idade um fator que deve ser estudado, pois mulheres mais novas, entre outras características, apresentam maior possibilidade de ter filhos mais jovens, logo a sua centralidade nos cuidados aos filhos é considerado um fator protetor para enfrentar o cancro da mama, o que tem sido evidenciado em outros estudos (Tavares & Matos, 2016). Resultados que vão ao encontro do descrito na literatura, que refere os filhos como fonte de preocupação e simultaneamente facilitadores do ajustamento das mulheres ao seu diagnóstico, tornando-as mais capacitadas (Arès, Lebel & Bielajew, 2014; Stinesen-Kollberg, Wilderäng, Möller & Steineck, 2014). É de salientar a escassez de estudos a nível nacional, no entanto, a literatura mostra que o empowerment das mulheres pode contribuir para a adesão ao diagnóstico precoce (Carvalho et al., 2008).
Quanto à relação entre empowerment psicológico e história familiar de cancro da mama, verificaram-se pontuações significativamente inferiores de empowerment psicológico nas mulheres que referiram casos de cancro da mama na família. É fundamental promover o aconselhamento genético, que permite esclarecer a origem e também a gestão de cada caso com base em resultados de testes genéticos, no sentido de aumentar o empowerment psicológico destas mulheres.
Quanto à relação entre empowerment psicológico e bem-estar psicológico, verificou-se uma correlação baixa positiva e significativa, o que nos indica que quando aumenta a pontuação de empowerment psicológico também se verifica aumento de bem-estar psicológico. Estudos têm mostrado um aumento de bem-estar psicológico e empowerment, após a participação das mulheres com doença oncológica da mama em programas de intervenção (van den Berg et al., 2012), outros também mencionam o aumento de empowerment, em doentes oncológicos e de bem-estar psicológico, após a participação em grupos de autoajuda (Mok, 1998; Stang & Mittelmark, 2010). Bulsara (2008), num estudo realizado em doentes com cancro independentemente da fase da doença e do prognóstico, concluiu que o apoio de familiares e amigos, aceitação da doença e manter a esperança, era crucial para o empowerment destes doentes. Num estudo realizado por Ferreira (2014), constatou-se que mulheres com doença
oncológica da mama que procuravam terapias alternativas (Reiki) apresentavam um aumento de empowerment psicológico, relativamente às que não procuraram. Um outro estudo realizado por Warner, Wall, Birk e Koopman (2012), em mulheres com cancro da mama que participaram num programa “Art of Living” onde eram ministradas aulas de Kria yoga, apresentavam maior empowerment psicológico e bem-estar.
Relativamente às estratégias de coping avaliadas pelos BriefCOPE, constatou-se que as mulheres apresentavam a seguinte média para as estratégias de coping centradas nas emoções (m=1,7) e centradas no problema (m=1,5), sendo os valores da média similares no que concerne a estes dois tipos de estratégias, a que apresentou pontuação mais baixa foi a estratégia coping disfuncional (m=0,67). Um estudo desenvolvido por Cooper et al. (2006) em doentes com Alzheimer mostrou resultados semelhantes.
Neste estudo, evidenciou-se uma relação negativa e significativa entre bem-estar psicológico e estratégias de coping disfuncional, significando que as mulheres com doença oncológica da mama recentemente diagnosticada, que adotaram estratégias de coping disfuncional, apresentaram pontuações de bem-estar psicológico significativamente inferiores. O que vai ao encontro do que foi mostrado num estudo desenvolvido por Kim, Han, Shaw, Mctavish e Gustafson (2010) em mulheres com cancro da mama, em que a escolha de estratégias de coping era relacionada com o apoio social percebido e o bem-estar psicológico, mulheres que referiam mais apoio social apresentavam pontuações mais elevadas de bem-estar psicológico, e tinham maior probabilidade de selecionar estratégias de coping que lhes permita enfrentar a situação e mostraram mais confiança e mais controlo sobre as situações vivenciadas.
Neste estudo, relativamente às estratégias de coping, ocorreram simultaneamente as centradas nas emoções e as centradas no problema. Também se constatou que as referenciadas como mais utilizadas foram as centradas nas emoções, seguindo-se as centradas no problema, o que está de acordo com o descrito por Hack e Degner (2004), em que as estratégias centradas nas emoções surgem imediatamente após um acontecimento (diagnóstico) e que geralmente vão sendo substituídas por estratégias centradas no problema. P. Costa e Leite (2009) referem que as estratégias de coping podem ser centradas no problema e centradas nas emoções, embora muitas vezes ocorram simultaneamente.
Os autores afirmam que a fase inicial do diagnóstico é acompanhada de níveis elevados de angústia, insegurança e medo face à possibilidade de morte (Lotti et al., 2008; Patrão et al.,
2012), sentimentos que podem ser minimizados com recurso a estratégias que facilitem a adaptação psicológica à doença. No nosso estudo, logo após o diagnóstico, as estratégias mais utilizadas foram as centradas nas emoções, que provavelmente visaram minimizar a angústia desencadeada pela situação stressante associada à confirmação do diagnóstico de doença oncológica da mama, promovendo a adaptação, o que com a adoção de estratégias de coping centradas no problema potencialmente permitiu uma gestão mais adequada da situação de diagnóstico recente de doença oncológica da mama, o que com mais frequência facilita a obtenção de aconselhamento ou ajuda instrumental(Antoniazzi et al., 1998).Existe, portanto, uma interrelação entre estas duas estratégias, tornando-as complementares, o que facilita a adaptação ao diagnóstico. É de salientar a escassez de estudos sobre as estratégias de coping em mulheres com doença oncológica da mama recentemente diagnosticada. No entanto, faz todo sentido que, logo após o diagnóstico, as mulheres adotem estratégias de coping centradas nas emoções, pois o impacto do diagnóstico leva a que as mulheres pensem que nada pode ser feito para as ajudar a adaptar-se à doença oncológica, situação que lhe causa stresse, ansiedade, medo, perturbação do sono devido aos mitosque a palavra cancro acarreta em si e à qual normalmente se associa a palavra “morte” (M. Coelho & Ribeiro, 2000; Trill, 2014). De acordo com os mesmos autores, o objetivo destas estratégias de coping é mesmo diminuir o sofrimento, contribuindo para que as mulheres se distanciem do problema, tornando-se mais resilientes quando vivenciam aspetos relacionados com o diagnóstico, que são percecionados como negativos. Outros autores (Ghiasvand, Naderi, Tafreshi, Ahmadi & Hosseini, 2017; Poon, Gueldner & Sprouse, 2003) evidenciaram que a estratégia de coping centrada nas emoções é a principal adotada pelas mulheres aquando do diagnóstico de cancro da mama. Os resultados do presente estudo divergem dos que foram obtidos por Varela e Leal (2007), em que as estratégias referenciadas como mais utilizadas foram as centradas no problema. Um estudo desenvolvido por Leite, Amorim, Castro e Primo (2011) indicou a estratégia centrada no problema a mais utilizada, no entanto, as mulheres que participaram no estudo desenvolvido por estes autores já se encontravam em fase de tratamento de cancro da mama. Outro estudo desenvolvido em mulheres uruguaias com cancro da mama, também revelou que as estratégias de coping centradas no problema foram as mais adotadas (Reich & Remor, 2014).
Da análise da relação entre o empowerment psicológico e estratégias de coping, quer centradas nas emoções quer centradas no problema, observaram-se correlações positivas e
significativas que nos permite afirmar que a adoção deste tipo de estratégias favorece o empowerment psicológicos destas mulheres. No entanto, na relação entre empowerment psicológico e estratégias de coping disfuncional foi observada uma correlação negativa, mas significativa, ou seja, as mulheres que apresentaram pontuações de empowerment psicológico mais baixas também assumiram adotar mais frequentemente estratégias de coping disfuncional.
Em virtude de a maioria dos estudos ter sido realizada com sobreviventes e da escassez de estudos sobre a análise da relação entre estratégias de coping e empowerment psicológico em mulheres com doença oncológica da mama recentemente diagnosticada, recorremos à revisão de literatura científica em doentes com doença crónica, nos quais foi observado que quando apresentavam pontuações mais elevadas de empowerment também referiram mais capacidades para adotar estratégias de coping, mesmo que de forma inconsciente e não planeada (Health Programme of the European Union; 2014; L. Santos, Pais-Ribeiro & Guimarães, 2003; Subramanian et al., 2017).
Face aos resultados obtidos podemos afirmar:
H1 – “Existe relação entre empowerment psicológico e as variáveis sociodemográficas e
socioprofissionais (idade, habilitação académica, estado civil, situação profissional) em mulheres com doença oncológica da mama recentemente diagnosticada” foi parcialmente confirmada, uma vez que apenas a idade se correlacionou de forma negativa, mas significativa, com o empowerment psicológico, o que também foi descrito na literatura (Arès et al., 2014; Stinesen-Kollberg et al., 2014).
H2 – “Existe relação entre empowerment psicológico e história familiar de cancro da mama
em mulheres com doença oncológica da mama recentemente diagnosticada“ foi confirmada, pois verificou-se que mulheres que não tinham antecedentes familiares de cancro da mama apresentavam uma média de empowerment psicológico significativamente superior.
H3 – “Existe relação entre empowerment psicológico e bem-estar psicológico em mulheres
com doença oncológica da mama recentemente diagnosticada“ foi confirmada, dado que se verificou uma correlação positiva baixa e significativa entre empowerment psicológico e bem- estar psicológico. Estes resultados são concordantes com os obtidos por Bulsara (2008), Stang e Mittelmark (2010) e R. Ferreira (2014).
H4 – “Existe relação empowerment psicológico e estratégias de coping em mulheres com
doença oncológica da mama recentemente diagnosticada“ foi confirmada, em virtude de se ter observado uma correlação estatisticamente significativa entre empowerment psicológico e as estratégias de coping analisadas. No entanto, é de salientar uma correlação positiva e significativa entre empowerment psicológico e as estratégias de coping centrado nas emoções e centrado no problema. Resultados semelhantes foram encontrados no estudo Ghiasvand et al. (2017); e uma correlação negativa e significativa entre empowerment psicológico e coping disfuncional, resultados que estão de acordo com os descritos na literatura (L. Santos et al., 2003). Um estudo realizado por Schreurs, Ridder e Bensing (2000) indicou que perante o diagnóstico de uma doença crónica, as pessoas podem, numa fase inicial, adotar estratégias de coping focadas nas emoções e coping disfuncional.
H5 – “Existe relação entre o bem-estar psicológico e estratégias de coping em mulheres com
doença oncológica da mama recentemente diagnosticada“ foi confirmada parcialmente, pois apenas se verificou uma correlação negativa e estatisticamente significativa entre bem-estar psicológico e estratégia de coping disfuncional, indo ao encontro dos resultados do estudo desenvolvido por Kim et al. (2010).