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Segundo Bastos (2006), no âmbito da sociologia e da pedagogia, há uma intensa problematização em torno dos conceitos de qualificação e competência. Mais especificamente, no campo da sociologia do trabalho e na sua interface com a educação, há uma larga tradição do uso do conceito da qualificação para investigar os impactos das transformações tecnológicas.

Esse autor afirma que há posicionamentos extremamente críticos que reduzem todo esse movimento a estratégias de ampliar o controle e a exploração dos trabalhadores.

É no cenário mundial e nacional, marcado por crises nos contextos de trabalho e educação, que se situa a discussão sobre qualificação e competências. Segundo Druck (2001), no caso brasileiro, o debate acerca da necessidade de qualificar a força de trabalho tomou conta de todos os setores da sociedade – instituições governamentais/oficiais, ONG’s – Organizações Não Governamentais, sindicatos, empresas, universidades – enfim, a qualificação tem sido colocada como a grande solução para os problemas de desemprego e subemprego no Brasil.

Ainda segundo essa autora (2001), no campo da produção teórica, há uma longa trajetória de diferentes concepções sobre qualificação nas diversas áreas das ciências humanas, constituindo uma ampla literatura estrangeira e nacional, que tem seu início nos anos 50/60. Estas noções diferentes em geral estão associadas às concepções de desenvolvimento socioeconômico ou de proposições de modelos de desenvolvimento que se tornam hegemônicos numa determinada época.

Segundo Manfredi (1999), o modelo de qualificação formal tornou-se hegemônico, vinculado à ideia de escolaridade, passando a ser um indicador de desenvolvimento econômico e até mesmo transformado em índice estatístico utilizado por agência de planejamento para avaliação e propostas de políticas educacionais.

Antoniazzi (2005) assim descreve as noções de qualificação:

(a) como sinônimo da preparação de “capital humano”, nascendo associada à concepção de desenvolvimento socioeconômico dos anos 50 e 60, da necessidade de planejar e racionalizar os investimentos do Estado no que diz respeito à educação escolar, visando, no nível macro, garantir uma maior adequação entre as demandas dos sistemas ocupacionais e do sistema educacional. Os principais teóricos da Teoria do Capital Humano, Schultz e Harbison, defendem a importância da instrução e do progresso do conhecimento como ingredientes fundamentais para a formação do chamado capital humano, de recursos humanos – solução para a escassez de pessoas possuidoras de habilidades-chave para atuarem nos setores em processo de modernização.

Ainda, a teoria do capital humano buscava apagar a diferença entre capital e trabalho, mascarando as contradições de classe, igualando “a categoria de capital à capacidade dos indivíduos ‘potencializada’ com educação ou treinamento” (ANTONIAZZI, 2005, p.06).

(b) “qualificação formal” – gestada e referenciada pela capacidade de cada Estado Nacional expandir quantitativamente e qualitativamente seus sistemas escolares, restringindo- se ao binômio emprego/educação escolar.

Embora a qualificação profissional estivesse presente nas pesquisas de Sociologia do Trabalho e na Economia da Educação, foi somente nos anos subsequentes ao movimento estudantil de 1968 que se multiplicaram estudos ligando educação e trabalho do ponto de vista das Ciências Sociais, estabelecendo-se um entrelaçamento mais claro entre Sociologia do Trabalho e Sociologia da Educação (PAIVA, 1999, apud ANTONIAZZI, 2005).

Foi Paiva (1999, apud ANTONIAZZI, 2005) que trouxe a discussão entre trabalho e educação, mas o impulso significativo foi dado ao tema da qualificação profissional da Sociologia do Trabalho, a partir do campo educacional, em meados dos anos 90 do século passado.

A noção de qualificação, como ressalta Antoniazzi (2005), é polissêmica, podendo ser assumida com várias acepções e tomada, para efeitos de pesquisa, sob ângulos e enfoques distintos. A qualificação para alguns é considerada na perspectiva da preparação para o mercado de trabalho, que envolve um processo de formação profissional adquirido por um percurso escolar e através da experiência profissional. Outros entendem a qualificação como um processo de qualificação/desqualificação, próprio da organização capitalista do trabalho.

Segundo essa autora, uma terceira visão aborda e define a qualificação a partir da investigação de situações concretas de trabalho, chamada de qualificação real e operacional. É uma visão que se origina na sociologia do trabalho francesa.

A década de 90, como afirma Druck (2001), primou pela epidemia da qualificação. Governo, ONGs, sindicatos, empresas estatais, Sistema “S”, universidades, fundações, todos se envolveram com a qualificação do trabalhador, que passou a ser a grande mágica para a solução do desemprego e do subemprego, agora com uma nova roupagem.

Segundo uma pesquisa realizada por Leite (1996, apud MANFREDI, 1999, 30), parece haver certo consenso quanto à noção de qualificação:

A capacidade de mobilizar saberes para dominar situações concretas de trabalho e transpor experiências adquiridas de uma situação concreta a outra. A qualificação de um indivíduo é sua capacidade de resolver rápido e bem os problemas concretos mais ou menos complexos que surgem no exercício de sua atividade profissional.

Ainda segundo essa autora, o exercício dessa capacidade mencionada acima implicaria a mobilização de competências adquiridas ou construídas mediante aprendizagem, no decurso da vida ativa, tanto em situações de trabalho como fora deste.

Assim, a discussão se concentra sobre a polêmica substituição da noção de qualificação pela de competência, que trata das habilidades que o trabalhador deve adquirir, como capacidade de agir, decidir em diferentes situações, intervir, saber fazer, tendo como referência sempre o indivíduo e não mais o posto de trabalho.

A qualificação é um conceito central na relação trabalho-educação, de natureza ampla, e incorpora desde a ideia de qualificação para o trabalho, até o de se estar socialmente qualificado para este. O conceito de qualificação possui, portanto, a dimensão: conceitual, social e instrumental.

A dimensão conceitual é expressa pela existência de uma certificação; a dimensão social é expressa pelo conjunto de direitos advindos do processo de certificação e, por fim, a dimensão instrumental se processa no ato do trabalho onde a subjetividade do trabalhador é referida.

Nesse entendimento, o termo competências inscreve-se como uma sobrevalorização da dimensão instrumental da qualificação, a partir da subjetividade do trabalhador no processo de trabalho, e enfraquece as duas dimensões centrais no conceito de qualificação (conceitual e social) ao reafirmar apenas uma.

Embora seja um conceito impreciso, a noção de “competência” ganhou, gradualmente, ascendência no mundo produtivo porque conta com a vantagem de ter nascido no âmbito da empresa e de estar centrada nos novos atributos pessoais e profissionais do trabalhador. Além

disso, recupera uma dimensão pouco estudada dos processos de qualificação – a dimensão subjetiva do trabalho, isto é, sem mediações a um sujeito e a uma subjetividade (HIRATA, 1998, apud ANTONIAZZI, 2005, p.12).

A competência, segundo Araújo (1999), não está necessariamente ligada à formação inicial. Ela pode ser adquirida em empregos anteriores, em estágios de formação, em atividades fora da profissão e familiares. É tratada como uma característica individual e pode ser apresentada como capacidade real de trabalho.

No rastro da competência, ganham evidências, segundo esse autor, termos que procuram qualificar os saberes, e destacam-se o saber-fazer e o saber-ser.

O saber fazer está ligado, portanto, ao saber instrumentalizado, operacionalizado, e o saber-ser associa-se à subjetividade humana, e que mobiliza conteúdos pessoais e internos na solução de problemas e diante de situações diversas de trabalho.

Segundo Araújo (1999), sob a lógica das competências, procura-se mobilizar, na produção, o trabalhador em todas as suas dimensões – intelecto, força física, emoções, atitudes, habilidades, etc.

O então chamado “modelo de competência” tem-se difundido pela Europa e também chegou ao nosso país. Conforme Manfredi (1999, p.29-30):

No Brasil, a noção de competência, apesar de já ser conhecida no âmbito das ciências humanas (notadamente no campo das ciências da cognição e da lingüística) desde os anos 70, passa a ser incorporada nos discursos dos empresários, dos técnicos dos órgãos públicos que lidam com o trabalho e por alguns cientistas sociais, como se fosse uma decorrência natural e imanente ao processo de transformação na base material do trabalho. [...] No discurso dos empresários há uma tendência a defini-la menos como “estoque de conhecimentos/habilidades”, mas, sobretudo como capacidade de agir, intervir, decidir em situações nem sempre previstas ou previsíveis.

No modelo de competências, a aprendizagem está voltada para a ação, e a sua avaliação seria pautada nos resultados observáveis. A competência é a capacidade de resolver um problema em uma situação dada.

A noção de competência na literatura em termos gerais, segundo Tanguy (apud MOTTA, BUSS; NUNES, 2001), é que:

[...] competências é a capacidade de articular e mobilizar conhecimentos, habilidades e atitudes, colocando-os em ação para resolver problemas e enfrentar situações de imprevisibilidade em uma dada situação concreta de trabalho e em um determinado contexto cultural.

Deluiz (apud MOTTA, BUSS; NUNES, 2001) amplia o leque de novas competências requeridas ao trabalhador para além da dimensão cognitiva, intelectual e técnica, incorporando aquelas de natureza organizacional ou metódica, comunicativas, comportamentais, sociais e políticas.

Segundo Bastos (2006), os conceitos de qualificação e de competência se ajustam, portanto, a dois contextos ou momentos distintos do mundo do trabalho. O primeiro reporta- se a um mundo com a atividade econômica mais estável, concorrência limitada, emprego formal, força das entidades sindicais e um modelo de organização do trabalho fundado em cargos definidos com tarefas prescritas e programadas.

Ainda para esse autor, são opostas as características que marcam o momento atual no qual emerge e ganha força a noção de competências. Sem dúvida, no entanto, os processos de regulação do trabalho, a partir do modelo de competências, natureza do contrato e políticas de remuneração e benefícios, enfrentam dificuldades técnicas e políticas que dificultam a sua efetiva implementação nas organizações imersas numa cultura – nacional e/ou organizacional – mais coletivista. No entanto, quando se trata dos processos de organização do trabalho (definição de postos) e de preparação dos indivíduos para desempenhá-lo (as ações de TD&E), o conceito de competência se mostra muito mais apropriado e não enfrenta as resistências que seu uso mais ampliado suscita.