• Nenhum resultado encontrado

Do ponto de vista ontológico, voluntariado é uma manifestação de solidariedade. Ao falar de solidariedade tomaremos como ponto de partida a analise de Durkheim (apud SILVA et al., 2004) sobre solidariedade. Ele estudou as questões ligadas à natureza do laço social, isto é, as relações dos indivíduos entre si e as relações de cada indivíduo com a coletividade.

Para descrever esses dois tipos de relações, decidiu observar as formas de solidariedade: como acontecem nos agrupamentos (sua morfologia) e como funcionam (sua fisiologia). Dessas observações, deduziu dois tipos de solidariedade: a mecânica e a orgânica.

Xiberras (1993, apud SILVA et al., 2004, p.99), em sua releitura de Durkheim, explica que a solidariedade mecânica é o laço social que acontece nas sociedades tradicionais, onde os agrupamentos são estáveis e restritos, e as relações entre os indivíduos acontecem pela via da semelhança entre as funções no grupo e a identidade das representações. A semelhança é o que liga as pessoas umas às outras:

Experimentam os mesmos sentimentos, aderem aos mesmos valores e reconhecem o mesmo sagrado. A solidariedade exprime-se, por assim dizer, natural ou mecanicamente, isto é, no pensamento de um homem do século XIX. Simplesmente, por contato ou proximidade dos homens entre si.

A solidariedade orgânica é comum nas sociedades modernas, onde a divisão do trabalho possibilita diferenciações cada vez maiores nas funções de cada profissão. A solidariedade orgânica tem como princípio a diferenciação.

Os indivíduos não se assemelham, mas têm consciência de participar, enquanto partes, do bom funcionamento da totalidade (XIBERRAS, 1993, apud SILVA et al., 2004, p.99).

Durkheim (apud SILVA et al., 2004) percebeu em seus estudos que a solidariedade orgânica não funcionava tão naturalmente como ele imaginava. O termo orgânica ele colheu da biologia, ciência em pleno progresso em sua época, para entender esta rede complexa de relações semelhantes a um organismo vivo.

Ainda para Durkheim, um conceito que se faz necessário nesse contexto é o de densidade moral: “[...] coesão que existe à volta dos valores, interditos ou imperativos sagrados, que liga os indivíduos ao todo social” (XIBERRAS, 1993, apud SILVA et al, 2004, p.99-100).

Assim, a consciência coletiva interage com todos eles e forma a solidariedade. Nesse contexto, o autor ressalta que o egoísmo é a postura do eu individual que se afirma, com excesso, diante do eu coletivo. A individuação é uma postura que considera a própria personalidade como prioridade, em detrimento das personalidades coletivas. O egoísmo não gera solidariedade.

As práticas solidárias, portanto, por esse entendimento, deve propiciar ajuda como ação concreta em função da necessidade de outra pessoa, no respeito à diferença, proporcionando aprendizado com o outro.

Lipovetsky (1994, apud SILVA et al., 2004) reflete sobre o individualismo na sociedade contemporânea como um processo de uma ética indolor. Os estudos desse autor nos ajudam a entender os processos pelos quais as sociedades ficaram reféns da expressão “tu deves”. Esse dever exigia dominar-se a si próprio, sacralização das virtudes privadas e públicas, exaltação da abnegação e desinteresse.

Lipovetsky (1994, apud SILVA et al., 2004, p.104) assegura que essa fase chegou ao seu final. O termo dever passa a não ser mais utilizado desde os meados do século passado: Entramos em outro momento considerado por esse autor como pós-moralista das democracias. Ele afirma que:

A retórica sentenciosa do dever já não reside no coração da nossa cultura, substituímo-la pelas solicitações do desejo, pelos conselhos do foro psicológico, pelas promessas de felicidades e de liberdade aqui e agora.

Essa cultura é extremamente individualista, e cada um defende seus interesses e não há lugar para o outro, é a sociedade do culto ao “eu”, fruto de uma sociedade “narcisista”.

Assim sendo, Lipovetsky (1994, apud SILVA et al., 2004, p.104) afirma que os valores altruístas deixaram de ser evidências morais aos olhos dos indivíduos e das famílias “[...] e essa moralidade individualista não é novidade da sociedade moderna”. O que pode parecer novo é a sua forma de expressão:

Nas nossas sociedades, o altruísmo erigido em princípio permanente de vida é um valor desqualificado, associado a uma vã mutilação do eu: a nova era individualista conseguiu a proeza de atrofiar nas próprias consciências a autoridade do ideal altruísta, desculpabilizou o egocentrismo e legitimou o direito de cada um viver para si próprio.

Dessa maneira, defende o autor, não é que as pessoas tenham deixado de ajudar umas às outras, mas o que mudou foi o lugar que o outro ocupa nesta relação de ajuda e motivação.

Para Silva et al. (2004), a motivação para ajudar o outro passa por uma hierarquia pessoal: vontade de ajudar a outra pessoa, aliada ao desejo pessoal de ajudar a si mesmo e de ocupar o tempo livre. Para essa autora, isso se traduz em ação voluntária. Então, “[...] a ação voluntária nutre-se de um plus individual, de um excesso que só faz sentido ao ser reconhecido pelo outro, numa relação que pode ser intima ou publica” (SILVA, 2001, apud SILVA, 2004, p.105).

Nesse sentido, é paradoxal o estímulo à ação voluntária e à solidariedade através do discurso apresentado pela mídia, onde a benemerência e a caridade são regidas pelo dever indolor.

As relações sociais de interesse, presentes no trabalho social assistencial, imprimem uma dinâmica particular. Para entendê-las, valem as referências elaboradas por Bourdieu (1994, apud ARAÚJO, 2008).

Bourdieu (1994) aborda a concepção de interesse como um investimento no qual estão presentes aspectos libidinosos nas relações sociais. Para ele, no relacionamento interpessoal, instala-se um jogo, um posicionamento, que implica envolvimento e um despertar de interesses. Em outras palavras, é um processo de participação, visando a um alvo que deve ser atingido. Nesse jogo, existem correlações de forças, de onde emergem interesses diversos dentro de um mesmo espaço social.

Araújo (2008) afirma que é com esse entendimento que ocorrem as relações sociais do agente social voluntário doador, cujo interesse é apresentado de forma desinteressada, o que leva a inferir que, na ação assistencial, está presente um capital simbólico, que nada mais é do que valores altruístas existentes nas práticas sociais. Isso demonstra que existe, por trás do desinteresse, aparente um ganho simbólico.

Em 2001, Ano Internacional do Voluntário, foi vinculado um discurso na mídia que dizia que “voluntariado é uma via de mão dupla, ao mesmo tempo em que você ajuda, é também ajudado”, reforçando a ideia de que, por trás de cada ação, existe um ganho, um lucro, nessa relação. Isso mostra os interesses presentes nessa relação, permeados por altruísmo e egoísmo simultaneamente, inerentes ao voluntário.

Aqui, o capital que está em jogo, não é o monetário, estando baseado em trocas simbólicas, que correspondem à contrapartida que os voluntários recebem no exercício de sua atividade, como, por exemplo, reconhecimento pela sua atividade, formação de grupos identitários, melhoria da autoestima, novas habilidades e até possibilidade de melhorar seu currículo profissional.

Esses ganhos na atividade voluntária são expressos por Morales et al. (2009, p.148), quando afirmam que, através do voluntariado envolvido em atividades de ajuda, objetivam em troca obter algum beneficio. Esses autores chamam de “voluntário induzido” o indivíduo que obtém ganho explícito nesta relação como, por exemplo, um estudante que trabalha como voluntário e ganha um certificado pela sua experiência.