6. Sócio-Econômico
7.2 Usos da água no Brasil
7.2.1 Disponibilidade e demanda
O Brasil está a montante nas três importantes bacias do rio da Prata. Na tabela 7.1 é apresentada a relação entre demanda e disponibilidade no rio Paraguai, sintetizando os usos: doméstico, animal, industrial e irrigação. A figura 7.1 apresenta a localização dos rios e do Pantanal. A demanda total de água de superfície na Região Hidrográfica do Pa- raguai é de 22,8 m³/s (39% para dessedentação de animais, 35% para irrigação, 16% para abastecimento urbano, 5% para abastecimento rural e 5% para uso industrial), que repre- senta 3,3% da disponibilidade hídrica considerada como Q95 (as vazões têm probabilida- de de 95% de serem maiores ou iguais a Q95 da curva de permanência). As maiores de- mandas concentram-se na unidade hidrográfica de Miranda, conforme pode ser constata- do pela análise da Tabela 7.3. Observa-se que em Miranda ocorrem as maiores demandas para irrigação e para uso pecuário e, no Alto Cuiabá, as maiores demandas urbana e rural.
A demanda de 3,64 m³/s (16% da demanda total) se concentra na unidade hidrográ- fica do Alto Cuiabá (47%), na qual se localiza a região metropolitana de Cuiabá/Várzea Grande, que enfrenta problemas de abastecimento devido à poluição dos rios causada pe- la ausência de tratamento de esgotos. Já a demanda rural é de 1,22 m³/s, correspondendo a 5% da demanda total e se concentra nas unidades hidrográficas do Alto Cuiabá e do Al- to Paraguai.
A demanda animal é de 8,77 m³/s e a demanda industrial é de 1,10 m³/s (5% da demanda total), sendo os maiores valores observados na unidade hidrográfica do Alto Cuiabá. Segundo o MMA(2003), as indústrias têm cerca de 75% de suas necessidades de
água supridas por fontes superficiais que abastecem os sistemas públicos. A indústria a- limentícia é a mais expressiva e gera efluentes com elevada carga orgânica.
A agricultura irrigada é pouco expressiva na região e apresenta uma demanda mé- dia de 8,10 m³/s, correspondente a 35% da demanda total. Destaca-se somente a unidade hidrográfica do rio Miranda, onde a irrigação ocorre com maior expressão. A demanda de irrigação varia entre 3,9 e 20,6 m³/s nos meses de menor e maior demanda, respectiva- mente, e a área irrigada é estimada em 25.709 ha.
Tabela 7.1. Disponibilidade e demanda de recursos hídricos na Região Hidrográfica do Paraguai (ANA apud Coelho et al, 2004)
Disponibilidade Demanda (m3/s) Unidade hidro- gráfica Área 1000 (km2) P (mm) E (mm ) (mQ 3/s) Q (L/s/km² ) Q95
(m³/s) Urba-na Rural Ani-mal Indus-trial Irrigaç-ão Total
Demanda/ Dispon.*** (%) Alto Paraguai 53.44 1.508 1.109 676 12,7 238 0,42 0,36 1,50 0,26 0,44 2,97 1,3 Alto Cuiabá 28.88 1.468 981 446 15,4 86 1,91 0,36 0,41 0,60 0,17 3,45 4,0 Baixo Cuiabá 58.56 1.306 1.337 -57 * - - 0,04 0,07 0,78 0,01 0,61 1,50 0,28** Alto São Lou-
renço 21.44 1.459 1.025 295 13,8 119 0,53 0,10 0,67 0,11 0,45 1,86 1,6 Itiqui- ra/Correntes 17.58 1.456 1.022 242 13,8 97 0,02 0,02 0,43 0,04 2,36 2,87 2,9 Taquari 68.80 1.347 1.378 -68* - - 0,39 0,10 1,61 0,05 0,58 2,73 0,51** Negro 34.63 1.351 1.381 -34* - - 0,01 0,02 0,76 0 0,14 0,92 0,17** Miranda 44.06 1.403 1.214 263 6,0 69 0,25 0,16 1,75 0,04 3,14 5,34 7,8 Nabileque 18.60 1.323 1.354 -18* - - 0,00 0,00 0,32 0 0,01 0,33 0,05** Apa 17.43 1.489 1.330 88 5,0 33 0,07 0,03 0,57 0 0,19 0,86 0,13** Total 363.44 1.396 1.239 1.833 5,0 687 3,64 1,22 8,77 1,10 8,10 22,83 3,32 % do País 4,26 - - 1,1 - 0,9 0,.8 1,0 7,6 0,42 0,66 1,04 - P: Precipitação média anual; E: Evapotranspiração real; Q: Vazão média de longo período; q: Vazão específica; Q95: Vazão
com permanência de 95%.
* Contribuição negativa devido à alta evapotranspiração potencial na região do Pantanal. ** Disponibilidade considerada como o somatório do Q95 das bacias de montante.
*** Disponibilidade considerada igual a Q95.
A contribuição de territórios estrangeiros para as vazões médias da Região Hidrográfica é de 595,23 m³/s Fonte: ANA (2002), citada pelo MMA (2003)
Rio Paraná
Na sub-bacia do Paraná (Tucci ,2001), o grande desenvolvimento econômico dos Es- tados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, que representam grande parte da bacia, indi- cam os principais usos consuntivos: uso doméstico (abastecimento e esgotamento) e in- dustrial e o uso para a atividade agropecuária.
A demanda total de água superficial na Região Hidrográfica do Paraná é cerca de 590 m³/s, representa 13,6% da disponibilidade hídrica considerada como Q95. A maior demanda concentra-se na unidade hidrográfica do Tietê, onde, pode-se constatar, pela análise da Tabela 7.2 que a demanda ultrapassa a disponibilidade hídrica (Q95). Quanto aos usos consuntivos, a sub-bacia do Tietê apresenta as maiores demandas para consumo urbano, rural e industrial, além do maior comprometimento em termos da relação de- manda/disponibilidade (119,63 %).
Analisando a Tabela 7.2 observa-se que a agricultura irrigada e o abastecimento ur- bano representam 33% e 32% da demanda total, respectivamente. O consumo industrial
apresenta uma demanda de 25% da demanda total, enquanto que o abastecimento rural e o uso pecuário representam, juntos, 10% da demanda total.
Figura 7.1 Alto Paraguai
Tabela 7.2. Disponibilidade e demanda de recursos hídricos na Região Hidrográfica do Paraná (ANA apud Coelho et al ,2004)
Disponibilidade Demanda (m3/s) Unidade hidrográfica (kmÁrea 2) P (mm) (mm)E Q (m³/s) Q (L/s/km² ) Q95
(m³/s) Urbana Ru-ral Animal Industrial Irrigação Total
Demanda/ Disponib.* (%) Paranaíba 223.524 1.552 1.098 3.216 14,4 687 16,14 3,99 8,20 5,07 49,74 83,15 12,1 Grande 143.656 1.508 973 2.435 17,0 1.197 25,10 4,42 4,59 17,36 61,19 112,66 9,4 Tietê 73.509 1.410 1.139 633 8,6 216 118,04 7,07 2,78 99,98 30,27 258,14 119,6 Paranapane- ma 106.544 1.416 1.083 1.126 10,6 395 9,43 2,26 4,03 7,60 22,57 45,89 11,6 Iguaçu 65.638 1.690 990 1.458 22,2 295 9,74 1,90 1,88 9,16 1,72 24,41 8,3 Paraná 266.989 1.500 1.028 1.503 5,6 627 12,30 3,16 13,09 6,83 30,01 65,39 1,9** Total 879.860 1.511 1.139 10.371 11,8 4.323 190,75 22,81 34,57 146,01 195,51 589,64 13,6 % do País 10,3 - - 6,5 - 5,5 41,6 18,6 30,0 56,9 16,0 27,1 -
P: Precipitação média anual; E: Evapotranspiração real; Q: Vazão média de longo período; q: Vazão específica; Q95: Vazão
com permanência de 95%. * Disponibilidade considerada igual a Q95.** Disponibilidade considerada como o somatório do
A demanda de água pela agricultura irrigada de 195,51 m³/s, está associada a uma área irrigada estimada de 722.599 ha e sua demanda variando entre 93,2 e 502,4 m³/s, nos meses de maior demanda. As maiores concentrações ocorrem nas sub-bacias do rio Gran- de e do rio Paranaíba, responsáveis, respectivamente, por 31,3 % e 25,4% da demanda.
Figura 7.2 Rio Paraná e afluentes no Brasil
O abastecimento urbano utiliza 190,75 m³/s (32 % da demanda total), sendo que 62% deste valor ocorre na unidade hidrográfica do Tietê. A demanda industrial de 146 m³/s, correspondente a 25% da total, possui as maiores concentrações no Tietê (68,5%), especi- almente na região metropolitana de São Paulo. O abastecimento rural e o uso pecuário, juntos, são responsáveis por 10% da demanda de água superficial, totalizando pouco mais de 57,0 m3/s, concentrados, principalmente, nas sub-bacias do Grande, do Paranaíba e do
Tietê, enquanto que a demanda animal se concentra na unidade hidrográfica do Paraná, notadamente nas atividades de avicultura.
Rio Uruguai
A demanda total de água superficial na Região Hidrográfica do Uruguai é de 245,0 m³/s, que representa 30,4% da disponibilidade hídrica considerada como Q95. As maiores demandas concentram-se nas unidades hidrográficas Piratinim/Icamaquã, Ibicuí, Quaraí, Negro e Santa Maria (figura 7.3), onde, pode-se constatar, pela análise da Tabela 7.2 que as referidas demandas ultrapassam a disponibilidade hídrica (Q95). Existem reservatório
de regularização para atender as demandas, principalmente de irrigação(MMA, 2003). A região tem um grande número de reservatório privados de propriedade de irrigantes, com potencial conflito de uso da água na estiagem entre irrigantes e o abastecimento de água das cidades. Além das limitações de volume existe também o risco de contaminação com pesticidas.
Figura 7.3 Bacia do rio Uruguai
Tabela 7.3 - Disponibilidade e demanda de recursos hídricos na Região Hidrográfica do Uruguai (ANA, apud Coelho et al , 2004)
Disponibilidade Demanda (m3/s) Unidade hidro- gráfica Área (km2) P (mm) (mm) E Q (m3/s) Q (L/s/km2 ) Q95 (m3/s)
Urbana Rural Animal Industrial Irrigação Total De- manda/ Dispon.* (%) Canoas 22.721 1.722 912 583 25,7 72 0,8 0,3 0,5 0,8 1,7 4,1 5,6 Inhandava 13.678 1.819 1.117 304 22,2 33 0,6 0,3 0,4 0,7 0,7 2,7 8,0 Peixe 7.857 1.807 1.099 177 22,5 14 0,5 0,3 0,6 1,2 0,5 3,1 21,7 Passo Fun- do/Várzea 14.787 1.853 969 415 28,0 49 0,4 0,6 0,5 0,4 0,6 2,4 4,8 Chapecó 11.095 1.859 1.046 286 25,8 36 0,6 0,4 0,7 1,0 0,3 2,9 8,2 Peperi- Guaçu/Antas 6.024 1.850 858 190 31,5 16 0,2 0,3 0,4 0,4 0,1 1,3 7,7 Turvo 11.155 1.892 1.095 282 25,3 28 0,7 0,5 0,4 0,5 0,8 2,9 10,3 Ijuí 10.861 1.872 1.006 298 27,5 34 0,9 0,3 0,3 0,4 0,9 2,9 8,4 Pirati- nim/Icamaquã 16.153 1.891 1.165 372 23,0 34 0,4 0,2 0,6 0,1 38,6 39,8 117,1 Ibicuí 34.786 1.760 1.119 707 20,3 47 1,2 0,4 1,5 0,3 110,3 113,6 183,4** Quaraí 6.652 1.682 1.041 135 20,3 9 0,1 0,0 0,3 0,0 20,5 20,9 234,4 Santa Maria 15.741 1.607 991 307 19,5 15 0,6 0,1 0,8 0,1 42,6 44,2 289,2 Negro 3.104 1.452 836 61 19,5 3 0,4 0,1 0,1 0,1 3,6 4,2 140,9 Total 174.612 1.784 1.041 4.117 23,6 806 7,1 3,6 7,2 5,9 221,1 245,0 30,4 % do País 2,0 - - 2,6 - 1,0 1,2 2,9 6,3 2,3 18,0 11,2 -
P: Precipitação média anual; E: Evapotranspiração real; Q: Vazão média de longo período; q: Vazão específica; Q95: Vazão
com permanência de 95%.
Disponibilidade considerada como incremento de Q95.
*Disponibilidade considerada igual a Q95.
** Disponibilidade considerada como o somatório do Q95 das bacias de montante.
A contribuição de territórios estrangeiros para as vazões médias da Região Hidrográfica é de 878,4 m³/s Fonte: ANA (2002), citada pelo MMA (2003).
Analisando a Tabela 7.2, combinada com a Figura 7.3, observa-se que a agricultura irrigada representa cerca de 91% da demanda total de água na região. Já os consumos pa- ra abastecimento urbano, rural, industrial e dessedentação de animais são pouco significa- tivos dentro da relação demanda/disponibilidade da região, representando, juntos, 9% da demanda total.
A distribuição das demandas por unidade hidrográfica está apresentada na tabela 7.3, confirmando a elevada utilização de água para irrigação, nas unidades hidrográficas Piratinim/Icamaquã, Ibicuí, Quaraí e Santa Maria. Nas unidades hidrográficas Pelotas, Canoas, Peixe, Chapecó e Várzea predominam os usos industrial, animal e urbano.
A demanda de água pela irrigação de 221,1 m3/s está associada a uma área irrigada
de 435.421 ha (14% da área irrigada do País) e demanda unitária variando de 0,51 l/s/ha até 1,5 l/s/ha, refletindo o consumo de água do cultivo do arroz (rizicultura) por inunda- ção, concentrado no oeste do Rio Grande do Sul, e que ocupa uma área de 411.999 ha (95% da área irrigada na região). Segundo o MMA(op.cit.) as vazões necessárias para o desen- volvimento da atividade variam entre 2,8 e 876,2 m3/s nos meses de menor e maior de-
manda, respectivamente. Vale destacar, para atendimento à demanda para irrigação, a barragem de São Marcos, na sub-bacia do rio Quaraí, a maior obra hidráulica existente para irrigação
O abastecimento urbano e rural, juntos, utilizam 10,7 m3/s, correspondendo a cerca
de 4% da demanda total, sendo que o uso para abastecimento urbano é maior na unidade hidrográfica do Ibicuí. A demanda de água para uso pecuário é de 7,2 m3/s, correspon-
dendo a 3% da demanda total, sendo também maior na unidade hidrográfica Ibicuí. A demanda industrial é de 5,9 m3/s (2% da demanda total) sendo representada principal-
mente pela agroindústria associada ao abate de animais, serrarias, madeireiras e indústria de celulose, que se concentram no Alto Uruguai.
Segundo Tucci (2001), na sub-bacia do Uruguai, a disponibilidade de água é sufici- ente para o atender o abastecimento de água, mas durante a estiagem e, nas pequenas ba- cias de cabeceira, nas quais a disponibilidade de água é pequena, pode ocorrer situação pontual de conflito, principalmente ao considerar que a disponibilidade de água subter- rânea na região é pequena, já que a bacia do rio Uruguai encontra-se quase toda sobre for- mação basáltica, unidade hidrogeológica do Planalto, onde os poços possuem baixa capacidade de produção (entre 3 e 5 m3/h). Entretanto, estudos comprovam que o aten- dimento da demanda para abastecimento humano é apenas uma questão de investimento em regularização.
Na sub-bacia do Ibicuí onde existe importante demanda de irrigação, observa-se um conflito potencial em algumas áreas e conflitos latentes em outras, especialmente advin- dos da demanda de irrigação de arroz, que é da ordem de 1,5 l/s/ha e do abastecimento das cidades. O consumo de água para essa cultura é muito superior ao das cidades (1 ha consome o correspondente em água utilizada por 600 habitantes). Ademais, o uso excessi- vo de pesticida tem contaminado os mananciais voltados para o abastecimento humano, criando limitações de uso.
Nas sub-bacias dos rios Quaraí e Ibicuí, também existe forte demanda de água para irrigação no lado brasileiro, o que resulta em potencial conflito com o Uruguai na medida que o rio principal tem sua vazão reduzida.
7.2.2 Aproveitamentos hidrelétricos
O potencial instalado brasileiro é de 83.697 MW, distribuídos segundo o que mostra a tabela 7.4. Pode-se observar que o setor hídrico representa 81,1 %. A distribuição de usi- nas na bacia do rio da Prata pode ser observada na tabela 7.5. Na bacia do rio Paraná con- centra-se cerca de 45% da energia produzida no Brasil.
Tabela 7.4 Distribuição da energia no Brasil (MMA, 2003)
Tipo Quantidade Potência (MW) % do Total
Eólicas 10 22 0,03 PCHs 395 1921 2,3 Hidrelétricas 107 64330 78,9 Termelétricas Con- vencionais 634 15417 18,4 Nucleares 2 2007 2,4 Total 1148 83697 100,0
Tabela. 7.5 Distribuição da energia hidrelétrica na bacia do rio da Prata brasileira (Coelho et al, 2004)
Bacia Potência
MW Usinas % da energia país
Paraguai 390 12 0,5
Paraná 38371 39 45,9
Uruguai 2878 176 3,4
7.2.3 Navegação
Na figura 7.4 podem-se observar as vias de navegação da bacia do rio da Prata. Os trechos brasileiros ocorrem no rio Paraguai entre Cáceres e a divisa no rio Apa com fluxo até a o Oceano Atlântico e o segundo na Paraná – Tietê que não possui conexão com o res- tante devido a falta de eclusa em Itaipu. A navegação do rio Uruguai no território brasilei- ro é desprezível. A seguir é apresentado um resumo das duas vias importantes:
Paraguai – Paraná: Esta é uma hidrovia de 3.600 km, de Nova Palmira, próximo da costa no rio da Prata até Cáceres no Brasil, no rio Paraguai. Para permitir maior tráfegos estão pre- vistos várias obras em toda a via. Atualmente existe um projeto de ampliação do calado que tem gerado muita controvérsia. O projeto estabelece: (a) de Santa Fé (Argentina) até Assunção (Paraguai) o canal terá largura de 100 m e 3m de calado; (b) de Assunção até Corumbá o canal terá 90m de largura e 2,6 m de calado; (c) de Corumbá a Cáceres estão sendo propostas várias obras que resultará em calado de 1,5 a 1,8 m.
A maior preocupação é o impacto ambiental das obras do canal do rio Paraguai so- bre o Pantanal. As obras aumentarão a capacidade de escoamento do rio, aumentando também a vazão e a redução da quantidade de volume de água para as áreas de inunda- ção. Esta redução de volume de água e sedimentos, que são os alimentos da fauna e flora dessas lagoas poderá, nos anos de estiagem, produzir alterações definitivas neste meio ambiente. As principais questões deste problema são: (a) as alterações do leito de navega-
ção modificarão as condições de tal forma que os volumes da várzea de inundação serão reduzidos? (b) como essas condições podem afetar a área de inundação numa seqüência de anos secos ? Para responder a estas questões são necessárias informações físicas ade- quadas dos rios e das áreas de inundação, condições de troca de fluxo e evapotranspira- ção, integradas em modelos matemáticos de fundo móvel.
Paraná-Tietê: o sistema atualmente permite transporte principalmente através do rio Tietê, mas tem a potencialidade de interligar a região mais desenvolvida do Brasil ao restante do Mercosul como mostra a figura 7.3. O Estado de São Paulo representa cerca de 33% do PIB Brasileiro e os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são os maiores produtores na agropecuária do país. O que dificulta a ligação entre as vias é a falta de eclusa em Itai- pu.
Figura 7.4 Hidrovias do Mercosul (Brighetti e Santos,1999)
7.2.4 Usos múltiplos
Na tabela 7.6 são identificados, nos trechos mais importantes da bacia, os múltiplos usos das águas e seus conflitos. Não foram destacados os outros aspectos de uso do solo, que faz parte dos capítulos seguintes.
7.2.5 Aspectos Transfronteiriços
A navegação (Tucci 2001) é um dos aspectos transfronteiriços mais importantes na região, pois há vários séculos vem sendo desenvolvida no rio Paraguai. Com o advento do Mercosul e maior proximidade política e econômica entre os países da região, os rios da Prata, Paraná e Paraguai passaram a possuir um atrativo especial como o sistema natural
de transporte entre os países da região. As atividades visualizadas são, por exemplo, o interesse dos países de jusante, como a Argentina, em processar parte da produção agríco- la gerada nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com transporte de grãos pelo rio Paraguai. Da mesma forma, a Bolívia pretende utilizar o rio Paraguai para aumentar a carga transportada. Nessa linha, recentemente, a Bolívia solicitou ao governo brasileiro a dragagem do canal do Tamengo, próximo a Corumbá para viabilizar sua saída fluvial. Tal exemplo denota a importância, como aspecto transfronteiriço, da capacidade de navega- ção do rio Paraguai.
Tabela 7.6 Síntese de usos múltiplos na bacia.
Bacia Características Usos Uruguai • Nas estiagens ocorrem cenários de conflito entre abasteci-
mento de água e irrigação nas sub-bacias do Quarai (trans- fronteiriça) e Ibicuí;
• No alto Uruguai nas sub-bacias Peperi-Guaçu, Chapecó, Ira- ni, Jacutinga, Peixe e Canoas, apresentam conflitos entre o lançamento de efluentes urbanos, rurais (avicultura e suino- cultura) e de indústria de celulose, com o abastecimento de água da população. Abastecimento humano e irriga- ção; Poluição na pro- dução de animais e efluentes indus- triais
Paraguai • Contaminação dos rios devido à falta de tratamento de esgo- to das cidades;
• Navegação e conservação ambiental: conflitos para alteração da capacidade de escoamento dos leitos e potencial redução do volumes para as áreas de inundações;
• Compatibilidade entre a conservação ambiental e turismo com a produção agropecuária
Efluentes e abas- tecimento Navegação e meio ambiente Meio ambiente e produção agro- pecuária
• Aproveitamentos hidrelétricos e navegação no rio Tietê e par- te do Paraná
• Aproveitamentos hidrelétricos e irrigação e abastecimento das cidades. Uso da água regularizada das hidrelétricas para abastecimento
Navegação e e- nergia
Energia, irrigação e abastecimento
A decisão dos governos dos cinco países ribeirinhos (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia) de coordenar ações com vistas a aprimorar a eficiência, a segurança e a confiabilidade da navegação nos rios Paraguai e Paraná data de 1987, quando o desenvol- vimento do sistema fluvial formado pelos rios Paraguai e Paraná foi declarado de interes- se prioritário pelos cinco países signatários do Tratado da Bacia do rio da Prata, em vigor desde agosto de 1970, que estabelece o enquadramento político-diplomático para a inte- gração física da Bacia do rio da Prata. Outra atividade contemplada no âmbito da infra- estrutura desse transporte é o melhoramento da infra-estrutura portuária. Os países membros do CIH e a União Européia assinaram, em dezembro de 1996, em Assunção, a- cordo para a realização do estudo "Estabelecimento do Programa de Necessidades de Tre- ze Portos da Hidrovia Paraguai-Paraná".
Ainda sobre os aspectos transfronteiriços destacam-se os usos dos recursos hídricos que podem ocasionar transporte de material contaminados a jusante e o impacto da alte- ração no regime hidrológico do rio Paraguai.
A título de exemplo, cita-se a questão do rio Apa, limite inferior do rio Paraguai no Brasil e faz a divisa entre o Brasil e o Paraguai. O desenvolvimento dessa região segura- mente passará por entendimentos relacionados à utilização dos recursos hídricos e dos impactos que cada parte da bacia pode produzir no rio, que é transfronteiriço. Diferente-
mente da maioria das bacias de rios transfronteiriços que o Brasil gerencia, essa é uma ba- cia pequena, onde o uso local produz impactos mais diretos e visíveis no rio principal. Portanto, o processo de gestão nessa bacia requer ações integradas e articuladas por parte dos dois países, a fim de instituir um processo de gestão compartilhada, evitando agir de forma corretiva com conflitos já instalados.
Na sub-bacia do rio Quarai, como já mencionado, existe forte demanda de água para irrigação no lado brasileiro, como no rio Ibicuí, o que resulta em potencial conflito com o Uruguai na medida que o rio principal tem sua vazão reduzida. Atualmente está sendo desenvolvido um projeto conjunto Brasil e Uruguai sobre a Gestão integrada as inunda- ções da bacia do rio Quarai com fundos da OMM e governo do Japão. Este tipo de projeto é um laboratório para desenvolvimento de cooperação transfronteiriça.
De acordo com Tucci, (2001) os aproveitamentos hidrelétricos transfronteiriços de alguma forma possuem interfaces a montante e a jusante no contexto transfronteiriço. No caso de Itaipu Binacional, aproveitamento hidrelétrico brasileiro-paraguaio, construído na década de 70, (representa cerca de 20% da potência instalada no País), a operação se dá com base em um acordo Brasil Argentina e Paraguai. Esse acordo prevê restrições de vari- ações artificiais de escoamento a jusante de Itaipu, no rio Paraná, logo a jusante da conflu- ência com o rio Iguaçu.
7.2.6 Ações
As ações consolidadas no workshop do Brasil sobre este tema são os seguin- tes:
Consolidação da aplicação da outorga de direito de uso dos recursos hídricos, bem como do cadastro de usos e usuários, como parte do Sistema de Informações da bacia, a partir do fortalecimento dos órgãos estaduais que compõem o sistema de gerenciamento.
Realização de um estudo sistêmico de usos e usuários que compreenda a relação água subterrânea e água superficial.
Identificação dos conflitos potenciais de uso múltiplo na bacia, implementando mecanismos institucionais, legais e administrativos, destinados ao gerenciamento e à resolução de conflitos.
Concepção de projeto específico de controle e apoio às atividades de mineração de forma sustentável.
Contribuição para uma nova política de saneamento que vise, no curto prazo, mo- dificar o cenário de conflito ocasionado pelo lançamento de esgotos sem tratamen- to em vários pontos da bacia.
Promoção de uma política institucional e de pesquisa ,com vistas a uma gestão sustentável dos reservatórios, com vistas aos múltiplos usos.
Estabelecimento de estratégias voltadas para promover uma discussão sobre a hidrovia Paraná-Paraguai no âmbito do SINGREH.
• Fomento a programas de produção mais limpa (incluindo tratamento e reapro- veitamento de resíduos), tendo em vista, inclusive, o mercado de crédito de carbo- no.
• Desenvolvimento, em conjunto com os órgãos setoriais, de programas de apoio e incentivo ao ecoturismo e ao turismo científico e tecnológico, especialmente na re- gião do Pantanal.
• Desenvolvimento, em conjunto com os órgãos setoriais, de programas de apoio e incentivo à pesca amadora e profissional, como forma alternativa de desenvolvi- mento e proteção ambiental.
• Estudo do Impacto Ambiental das culturas irrigadas sobre a disponibilidade e qualidade dos recursos hídrico, como as culturas de arroz, na bacia do Uruguai. • Estudo da contaminação dos rios com metais pesados pela mineração e pelos
empreendimentos industriais;
• Monitoramento das tecnologias de irrigação atualmente empregadas, visando conter o desperdício e introdução de novas tecnologias para diminuição do volu- me de água empregada, otimizando o uso da água na agricultura.
• Avaliação dos conflitos de uso da água ora estabelecidos e os potenciais previs- tos, visando a sua minimização.
• Estudo da contaminação de recursos hídricos superficiais e subterrâneos por car- reamento de adubos e defensivos ou por drenagem superficial e subsuperficial.