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9. Impactos sobre a Sociedade

9.1 Saúde

9.1.1 Características das doenças

A água pode gerar impactos positivos ou negativos sobre a saúde humana, sendo que a natureza de tais impactos depende de aspectos relacionados à quantidade, qualida- de e da relação dos grupos populacionais com a água, que envolve, inclusive, os aspectos culturais (MMA,2003). Tanto ocorrem doenças relacionadas à escassez de água quanto ao excesso.

As doenças relacionadas à água podem ser organizadas em quatro grandes grupos, de acordo com o modo de transmissão (tabela 9.1), quais sejam:

• doenças de veiculação hídrica – são aquelas cujo agente patogênico está presente na água. As principais doenças contidas nesse grupo são: cólera, febre tifóide, diarréia aguda, hepatite infecciosa, amebíase, giárdias e doenças relacionadas aos contami- nantes químicos e radioativos;

• doenças cujos vetores se relacionam com a água – esse grupo é composto por doenças transmitidas por vetores e reservatórios, cujo ciclo de desenvolvimento tem pelos menos uma fase no meio aquático. Nesse grupo, destacam-se as seguintes doenças: malária, dengue, febre amarela e filariose;

• doenças cuja origem está na água – nesse grupo estão as doenças causadas por orga- nismos aquáticos que passam parte do ciclo vital na água e cuja transmissão pode ocorrer pelo contato direto com a água. A principal doença observada é a esquis- tossomose;

• doenças relacionadas à falta de água e o mau uso da água – nesse grupo encontram-se aquelas doenças relacionadas à pouca oferta de água, bem como à falta de hábitos higiênicos adequados por parte da população. As principais doenças observadas são: tracoma, escabiose, conjuntivite bacteriana aguda, salmonelose, tricuríase, en- terobíase, ancilostomíase e ascaridíase.

Existem vários riscos associados ao consumo e ao manuseio da água, que podem ser coletivos ou individuais, imediatos ou de longo prazo. Os riscos de curto prazo estão mais associados à presença de microorganismos patogênicos, como é o caso de doenças diarréi- cas e gastroentéricas. Os riscos de médio e longo prazo estão mais associados aos conta- minantes químicos e radioativos, podendo ser citadas as doenças que afetam os sistemas neurológicos, hepáticos, renais e circulatórios, efeitos de mutagenicidade e teratogenici- dade. Estão relacionados a esses riscos de contaminação os agrotóxicos, metais pesados e toxinas de algas.

Tabela 9.1 Características de algumas doenças Doença Característica

Diarréia Resultado da falta de saneamento básico pela contaminação da água com esgoto

Malária Transmitida por mosquito que utiliza a água sem drenagem. Geralmente em climas tropicais

Dengue Transmitida por mosquito que utiliza água armazenada com

pequeno volume de boa qualidade. Incidência com clima tropical ou sub-tropical.

Cólera Resultado da falta de água segura ou de boa qualidade e

transmitida pelos excrementos.

esquistossomose Transmitida através de água armazenada em reservatório urbano e característico de clima tropical ou subtropical Leptospirose Contamina pela urina de rato nas inundações urbanas Toxinas Produzida pelas algas do tipo cianonactérias em lagos eutro-

fizados. A toxina degrada o fígado cumulativamente não longo do tempo. A toxina não é retida pelos tratamentos de águas tradicionais.

9.1.2 Incidências

Existem vários fatores relacionados aos recursos hídricos que interferem no quadro de saúde da população. O quadro epidemiológico das doenças relacionadas à água está mais diretamente vinculado ao precário quadro de saneamento básico dos países da regi- ão. A baixa oferta dos serviços de abastecimento de água, de esgotamento sanitário, de drenagem urbana e a disposição inadequada de resíduos sólidos, bem como as condições inadequadas de moradia estão fortemente associadas aos elevados casos de morbidade e mortalidade de doenças como diarréias, verminoses, hepatites, infecções cutâneas e ou- tras. A diarréia, com mais de 4 bilhões de casos por ano em todo mundo, é a doença que mais aflige a humanidade (OPAS, 1998, citada pelo MMA, 2003).

Segundo a OPAS/OMS, com a melhoria no abastecimento de água e destino ade- quado de dejetos, podem-se obter os seguintes índices na redução da morbidade:

• prevenção de pelo menos 80% dos casos de febre tifóide e paratifóide; • redução de 60% a 70% dos casos de tracoma e esquistossomose;

• prevenção de 40% a 50% dos casos de disenteria bacilar, amebíase, gastroente- rites e infecções cutâneas, entre outras.

A articulação das Políticas Públicas do Sistema de Saúde com as do Meio Ambiente, Recursos Hídricos e de Uso e Ocupação do Solo é fundamental no processo de reversão do quadro de doenças.

No Brasil existem 11 capitais brasileiras que apresentam racionamento da oferta de água, dentre elas São Paulo(SP), Campo Grande(MS), Cuiabá(MT) e Brasília(DF), ficam na

bacia do rio da Prata. O racionamento de água e a intermitência no abastecimento são problemas que influenciam na saúde, por aumentar a vulnerabilidade de contaminação dos sistemas de distribuição de água. Isso se agrava ainda mais pelo fato da população recorrer a formas inadequadas de armazenamento da água (PNSB/IBGE-2000, citado pelo MMA,2003).Dentre as doenças diretamente veiculadas pela água, no Brasil são registrados cerca de 1,5 milhão de casos anuais.

Tabela 9.2 Incidência de doenças.

País Brasil Bolívia

Diarréia Média de 2000 a 2001 Total em 1997

Total 1,230 milhões 17.047 Leptospirose Média 1998-2001 Total 14524 Dengue Média 2000-2001 Total 330.000 Malária Média 2000-2001 Total 430.0001

Esquistossomose Número de municípios endêmicos

Total 964

Cólera Média de 93 a 95

Total 190283

As doenças de origem hídricas mais freqüentes na Argentina são as gastrintesti- nais agudas, a paratifóide, a febre tifóide, as parasitosis intestinais, o Arsenicismo, a Fluo- rosis a metamoglobineamia (CEPIS, 2000).

A diarréia é a doença de origem hídrica mais freqüente no país. As doenças intes- tinais constituem 60% da consultas hospitalares no grupo de 1 a 10 anos de idade (OPS,1998). A incidência de cólera na Bolívia em 1992 afetou principalmente as comuni- dades indígenas na província de Salta do lado Argentino, devido a inadequados sistemas de saneamento. As cidades mais afetadas foram do Pilcomayo e Bermejo e San Martin com 2080 casos com taxa de mortalidade de 1,6% em 1993. Reduziu-se depois disto che- gando a 12 casos em 1998.