2 DA ATUAÇÃO DO BRASIL
2.1 Do Brasil no sistema ONU de Direitos Humanos
Ironicamente, o Brasil foi parte da antiga Comissão de Direitos Humanos da ONU pela primeira vez em 1978, após ter sido eleito um ano antes, justamente em uma época na qual o país encontrava-se em pleno período de regime militar. Afinal, o Brasil faz parte da Organização das Nações Unidas desde sua formação em 1945, tendo ratificado a Declaração Universal na Assembleia Geral que a aprovou em dezembro de 1948, reconhecendo amplamente os direitos humanos perante a comunidade internacional. Mas as circunstâncias políticas internas de 1978 eram diferentes da época do nascimento da ONU.
Não seria a primeira vez que um país em estado de regime militar centralizador, fortemente marcado por medidas repressivas faria parte de um organismo dessa forma. Em 1974 e 1975, a situação do país sob o regime, inclusive, foi objeto de análise pela Comissão, em procedimento confidencial, mas o exame foi encerrado em 1976 por conta, segundo Lingren Alves (2003), de repercussões positivas de medidas e discursos do então presidente Ernesto Geisel.
A partir daí foi iniciado o período brasileiro mais ativo sobre direitos humanos dentro do sistema da ONU, tendo o país, inclusive, recebido da Comissão "contribuições importantes” 92 para seu processo de redemocratização que aconteceria alguns anos depois. Afirmou Lindgren Alves (2008):
Ainda que originalmente provocada por motivações defensivas, essa participação, além de propiciar à diplomacia brasileira papel de relevo em área até então inexplorada, estimulou e orientou mudanças de leis e atitudes internas que se faziam necessárias. Mais ainda, na medida em que o Brasil lutara contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, fora Estado fundador das Nações Unidas e partidário convicto dos direitos
92 ALVES, José Augusto Lindgren. Direitos Humanos e o Papel do Brasil. Em O Brasil e a ONU.
humanos, é possível dizer que a atividade brasileira como membro da Comissão acabou por representar, pouco a pouco, a retomada de uma linha progressista e liberal de nossa política, nacional e exterior, que
havia sido longamente interrompida.93
Assim, o Brasil continuou um amplo colaborador da Comissão, desde tempos de repressão a direitos até à época de redemocratização e estabilidade política, fazendo parte da entidade de forma quase ininterrupta desde que assumiu pela primeira fez até sua extinção (1978-1998 e 2000-2005) 94.
O Brasil também ratificou diversos tratados e declarações de proteção aos direitos humanos a partir de 1948. Além da Declaração Universal, dentro do sistema global da ONU também foram aprovadas pela nação a Declaração do Direito ao Desenvolvimento (1986), a Declaração e Programa de Ação de Viena (1993) e a Declaração de Pequim.
Já sobre os tratados internacionais, destacam-se o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (1966), o Pacto Internacional de Direitos Econômicos Sociais e Culturais (1966), junto a outras convenções de temas que variam de eliminação de discriminação racional a direitos das crianças.
O país também foi um grande promotor da reforma da ONU a partir de 2005, como o fortalecimento do ECOSOC e o estabelecimento de um órgão de direitos humanos com maior credibilidade, considerando essencial a atualização da organização para o mundo moderno, mesmo frente a certa resistência de
determinados países em conceder mais autonomia e poder às Nações Unidas95.
Mas não apenas no discurso externo que o Brasil tem apoiado sua estratégia internacional recente de direitos humanos. Um documento preparado pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos (ACDH) da ONU sobre o Brasil, apresentado em 31 de março de 2008, constata
93
ALVES, José Augusto Lindgren. Direitos Humanos e o Papel do Brasil. Na coleção o Brasil e a ONU. Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), 2008, p. 185.
94 ASANO, Camila Lissa. Comportamento dos Estados em instituições internacionais: padrões de
votação na Comissão de Direitos Humanos da ONU (1995-2005). São Paulo, USP, 2008.
95
que o país tem cooperado financeiramente com o ACDH, além de ser casa para conferências e eventos do tema.
Em dezembro de 2007, o Alto Comissariado para Direitos Humanos realizou uma visita oficial ao país. O Brasil tem contribuído
financeiramente para três trust funds humanitários96 e para a ACDH. Em
julho de 2006, o Brasil sediou a Conferência Regional das Américas sobre o progresso e os desafios da Declaração e Programa de Ação de Durban. O Brasil também apresentou sua candidatura para hospedar a conferência preparatória de 2008 para a Conferência de Revisão de
Durban em 2009.97
No relatório anual ACDH, relativo a 2010, por exemplo, o Brasil constava como o 21º país com maior contribuição voluntária à entidade, com doação de US$1.000.000 no período98, incluindo contribuições a fundos humanitários99.
Uma ajuda financeira reflete diretamente em maior colaboração multilateral com estes organismos, impulsionando ainda mais a imagem do Brasil dentro do Alto Comissariado.
Nesse contexto de reforma institucional e aumento à promoção de direitos humanos globalmente, o Brasil foi um dos principais apoiadores da formulação de uma nova instituição de análise de direitos em substituição à Comissão, fazendo valer a noção de que o país é um ator ativo na comunidade internacional. Como nas palavras do embaixador Ronaldo Mota Sardenberg (1995), "membro fundador, o Brasil nunca foi um espectador neutro, mas sim um participante ativo nos trabalhos das Nações Unidas"100.
96 Os fundos são: United Nations Voluntary Trust Fund on Contemporary Forms of Slavery, United
Nations Voluntary Fund for Victims of Torture, e United Nations Voluntary Fund for Indigenous Populations.
97 ONU Doc A/HRC/WG.6/1/BR2: Compilation Prepared by the Office of The Human Rights
Comissioner for Human Rights, p. 5.
98
Relatório Anual do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos
99
Entretanto, o valor ficou muito abaixo das contribuições de, por exemplo, dos três primeiros países: Estados Unidos (U$S 18,6 milhões), Noruega (US$11,3 milhões) e Holanda (US$10,2 milhões).
100 SARDENBERG, Ronaldo Mota. O Brasil e as Nações Unidas. Estud. av. [online]. 1995, vol.9, n.