5 DAS PROFUNDEZAS DO SUBSOLO, O IRÔNICO DIÁLOGO DO “HOMEM
5.3 INVESTIGANDO A IRONIA PELOS PLANOS DA SEMÂNTICA GLOBAL
5.3.4 Do estatuto do enunciador e do destinatário
Conforme mencionamos no capítulo 2 desta dissertação, os actantes possuem destacado papel no engendramento do posicionamento irônico. Uma vez que a ironia está sendo analisada sob a perspectiva do discurso, as fontes de referências pessoais são imprescindíveis, pois demarcam o responsável pelo discurso, possibilitam a definição do “estatuto que o enunciador deve se atribuir e o que deve atribuir a seu destinatário para legitimar seu dizer.” (MAINGUENEAU, 2008a, p. 87, grifo do autor). Além disso, é de interesse nesta pesquisa analisar o fenômeno irônico como categoria fundamental à estrutura de texto, que aponta para um ponto de vista cuja concreção reside na perspicácia do destinatário. Cabe ressaltar que, no romance polifônico de Dostoiévski, o herói assume “uma posição dialógica seriamente aplicada e concretizada até o fim, que afirma a autonomia, a liberdade interna, a falta de acabamento e de solução do herói.” (BAKHTIN, 2013, p. 71, grifo do autor).115 Desse modo, o herói dostoievskiano não corresponde nem a um “ele” nem a um “eu”; ele corresponde a um “tu” plenivalente, ou seja, “o plenivalente ‘eu’ de um outro (um ‘tu és’). O herói é o sujeito de um tratamento dialógico profundamente sério, presente, não retoricamente simulado ou literariamente convencional.” (BAKHTIN, 2013a, p. 71, grifo do autor).
Tendo em vista tudo o que já afirmamos sobre a intertextualidade, o vocabulário e o tema empregado em Memórias do subsolo, podemos afirmar que enunciador e coenunciador não pertencem à mesma ordem, isto é, não pertencem ao mesmo estatuto. A relação entre eles revela uma dissimetria. Eles estão familiarizados pelo diálogo, pela aproximação possibilitada pela palavra, mas estão afastados em relação à maneira como se movem pelo mundo, como o habitam. O uso do pronome de tratamento senhor, empregado em vários momentos da confissão – Tenho agora vontade de vos contar, senhores, queirais ouvi-lo ou não, por que não consegui tornar-me um inseto (MS, p. 18); Observai-vos melhor, senhores, e compreendeis que assim é (MS, p. 29) –, pode ser um importante indício dessa dissimetria entre o eu e o tu.
Algumas explicações de Maingueneau (1996a) sobre o uso do pronome vous, pertencente ao idioma francês, podem ser relevantes para a investigação do indício que
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Brait (2008, p. 138), nesse sentido, afirma: “O ironista, o produtor da ironia, encontra formas de chamar a atenção do enunciatário para o discurso e, por meio desse procedimento, contar com sua adesão. Sem isso a ironia não se realiza. O conteúdo, portanto, estará subjetivamente assinalado por valores atribuídos pelo enunciador, mas apresentados de forma a exigir a participação do enunciatário, sua perspicácia para o enunciado e suas sinalizações, por vezes extremamente sutis.”
mencionamos anteriormente. Embora esse pronome não encontre equivalente na língua portuguesa, cremos que podemos aproximá-lo do pronome de tratamento senhor, em português, que consiste em uma forma pronominal que poderia indicar, assim como vous, “polidez”. De acordo com Maingueneau (1996a), a atitude de classificar a forma vous como sinal de “respeito”, está equivocada. Em realidade, o princípio que define a utilização do tu e do vous “é o fato de se pertencer ou não à mesma esfera de reciprocidade.” (MAINGUENEAU, 1996a, p. 20, grifo do autor). Ou seja, o uso do pronome tu, em certas circunstâncias, indica que os envolvidos em uma situação de comunicação pertencem ao mesmo estatuto; o uso do pronome vous, pelo contrário, indica que falante e destinatário não pertencem a uma esfera comum, que chamaremos de estatuto, tendo em vista os planos constitutivos da semântica global. Não estamos tratando, pois, de “polidez” na escolha pronominal: “longe de ser uma forma de menor polidez, o tu pode muito bem ser a forma requisitada: pode-se usar o vous para marcar a exclusão, o distanciamento, o não respeito.” (MAINGUENEAU, 1996a, p. 20). Pensamos que a utilização do pronome de tratamento senhores no excerto analisado cria um enquadramento enunciativo, que indica o distanciamento do enunciador de sua audiência. Isso está de acordo com o que preceitua Maingueneau (1996a) ao afirmar que, no interior de suas próprias convenções, o texto possui a faculdade de utilizar tu e vous para criar efeitos de sentido.
A posição da forma de tratamento senhores em determinado enunciado pode ser um forte indício para a identificação do estatuto que o enunciador atribui ao coenunciador de sua confissão. Consideremos, como exemplo, o seguinte excerto: Tenho agora vontade de vos contar, senhores, queirais ouvi-lo ou não, por que não consegui tornar-me um inseto (MS, p. 18). O vocativo, deslocado, que abre o terceiro capítulo de O subsolo, cria um efeito de zombaria, de irrisão, o que não seria verificado, por exemplo, se o vocativo fosse apresentado no início do capítulo em questão – Senhores, tenho agora vontade de vos contar, queirais ouvi-lo ou não, por que não consegui tornar-me um inseto. Percebe-se uma mudança de tom: enquanto no primeiro o tom é irônico, zombeteiro, típico do pastiche; no segundo, o pronome senhores assume um tom mais cerimonial, próprio da eloquência filosófica, da palavra proferida em uma tribuna, em um púlpito. E aqui nos aproximamos, de antemão, do modo de enunciação, da maneira de dizer, que também contribui para a constituição da imagem do enunciador. Isso reforça nossa afirmação de que os planos que compõem o sistema de restrições globais de Maingueneau (2008a) são dotados de dinamicidade; o sentido é constituído por meio de um processo de enlaçamento entre as várias instâncias que integram o discurso.
Cabe ressaltar, ainda, que o tom zombeteiro da forma de tratamento senhores também é engendrado pela associação dessa palavra a outros itens lexicais presentes no excerto analisado. Em quereis ouvi-lo ou não, por exemplo, é possível perceber uma aparente indiferença ou impaciência do enunciador frente ao tu. Utilizamos a palavra “aparente” porque bem sabemos que o homem ideólogo de forma alguma despreza a palavra do outro; um de seus principais interesses é fazer com que essas palavras alheias integrem a arena dialógica instituída no e pelo discurso. As várias interrogações e frases reticentes presentes em sua confissão são prova disso. A forma de tratamento senhores também perde um pouco de seu tom cerimonial quando relacionada à explicação que será apresentada no capítulo II: Tenho agora vontade de vos contar [...] por que não consegui tornar-me um inseto. Ora, a associação do homem a um inseto pode parecer um tanto ridícula aos experimentados senhores, tão ocupados com a elaboração de seus tratados científicos e com o descortinamento das leis da natureza que garantirão a excelsa felicidade a todos os homens.
Possivelmente, o excerto em análise também seja uma crítica à forma cerimoniosa com que os homens de ação proferem seus discursos, o que lhes confere uma honra muito grande (MS, p. 24). O excerto analisado, portanto, está revestido de zombaria, envolto pelo riso corrosivo da ironia. Estamos muito próximos de uma postura de dissimulatio, porque descobrimos, no final da confissão, que esse tratamento aparentemente cerimonioso consistiu, em realidade, um fingimento: Mas é possível, é possível que sejais crédulos a ponto de imaginar que eu vá publicar e ainda vos dar a ler tudo isto? E eis mais um problema para mim: para que, realmente, vos chamo de “senhores”, para que me dirijo a vós como leitores? (MS, p. 52).
As referências intertextuais presentes na primeira parte de Memórias do subsolo – provenientes de distintos campos discursivos – também contribuem para a constituição do estatuto do enunciador e do destinatário. Temos um eu, o homem do subsolo, que redige a sua confissão dirigindo-se a um tu, o coenunciador virtual, interpelado a todo o momento pelo enunciador por meio de questionamentos, de enunciados reticentes ou que assumem um tom professoral, didático: Pensais acaso, senhores, que eu queira fazer-vos rir? (MS, p. 17); Dizei-me: de que pode falar um homem decente, com o máximo de prazer? (MS, p. 18); Mas, senhores, quem é que pode vangloriar-se das próprias doenças, e ainda procurar causar com elas um efeito? (MS, p. 18); Aliás, que digo? (MS, p. 19); Vou explicar-vos (p. 20); Mas vejamos agora esse camundongo em ação (MS, p. 22); O que não valerá, por exemplo, o Colosso de Rodes! [...] É pitoresco? Vá lá, é pitoresco de fato. (MS, p 43); etc. O ele, a não pessoa, de acordo com a teoria benvenistiana, é o homem normal, parvo e limitado,
historicamente ocupado com suas estúpidas e ilógicas vontades, com as guerras onde o sangue jorra em torrentes (MS, p. 36) e com as edificações das artes de engenharia – o homem é um animal criador por excelência (MS, p. 46). Além disso, o homem normal está preocupado com o desvendamento das leis da natureza, que, ao explicarem totalmente o homem, o conduzirão a um mundo livre de preocupações, onde a humanidade viverá pacificamente para todo o sempre: esse mundo, erigindo mentalmente pelo homem normal, é o magnífico Palácio de Cristal, o Reino da Abundância (MS, p. 38). Enfim, o ele, envolto por suas estúpidas vontades, é o alvo do dardo irônico. Acontece que esse ele confunde-se com o tu, isto é, ao dizer tu, o homem está querendo dizer um tu-ele. Assim, se o homem do subsolo dessacraliza os discursos daqueles homens, a sua postura, o seu movimento destrutivo e estúpido no mundo, ele está atacando o próprio coenunciador.
Em suma, há uma dissimetria entre o enunciador e o coenunciador virtual da confissão: o homem ideólogo, que possui a consciência hipertrofiada, afasta-se, quanto ao posicionamento, do homem normal, cuja imagem está muito associada ao ilogismo das ações que historicamente o definiu. Este é, pois, o alvo da ironia – um dos elementos estruturadores do posicionamento irônico, conforme definiu Kerbrat-Orecchioni (apud BRAIT, 2008).
Importante ressaltar que as marcas desse posicionamento transgressivo do homem do subsolo também podem ser engendradas pela topografia e cronografia do discurso: ao tomar a palavra, o enunciador é situado em um aqui (topografia) e em um agora (cronografia), que, em se tratando de posicionamento irônico, assumem papel central, uma vez que a ironia é postura do presente. Ela pode até voltar seu olhar para o passado, rindo da estupidez de alguns fatos, procurando elementos que impeçam ou transformem a realidade presente, dessacralizando falsas ideias ou a imagem de certas personalidades, ou, ainda, elevando indivíduos que a história oficial tratou de sepultar em uma cova profunda.
O homem ideólogo, ao mencionar alguns fatos históricos, faz justamente isto: mostrar os enganos, as incoerências humanas, a falsa concepção que os homens possuem sobre a guerra, etc. Seu riso é o riso renovador, abrangente, capaz de promover “a demolição das falsas idéias que fundamentam a falsa imagem que as pessoas têm delas próprias.” (SÓCRATES, 1987, p. XX). Em razão disso, o interesse da ironia reside no aqui e no agora, conforme afirmamos anteriormente. Aproximamo-nos, assim, de mais um plano constitutivo da semântica global de Maingueneau (2008a). Continuemos nosso percurso investigativo, tratando, então, da dêixis enunciativa.