5 DAS PROFUNDEZAS DO SUBSOLO, O IRÔNICO DIÁLOGO DO “HOMEM
5.2 O HOMEM DO SUBSOLO DIANTE DO ESPELHO: UMA APROXIMAÇÃO
Este é o momento de reunirmos as vozes que contribuíram para fundamentar teoricamente esta pesquisa e analisar Memórias do subsolo89, escrita por Dostoiévski entre janeiro e maio de 1864 e que integra, conjuntamente com Notas de inverno sobre impressões do verão (1862-1863) e O crocodilo (1864), a tríade de novelas que antecedem os grandes romances do escritor russo. Dividida em duas partes – O subsolo e A propósito da neve molhada –, Memórias do subsolo foi escrita no momento em que Dostoiévski acompanhava os momentos derradeiros de sua primeira mulher, Maria Dmitrievna, que sofria de tuberculose (SCHNAIDERMAN, 2009). Seu protagonista, um assessor-colegial – “posto mediano da administração civil, no regime czarista” (SCHNAIDERMAN, 2009, p. 17) – revela de seu cantinho (MS, p. 17), isto é, de seu quarto ordinário nos arredores da cidade de São Petersburgo, na Rússia, suas mais pungentes memórias, “ruminando sobre as peculiaridades de seu caráter e de sua vida.” (FRANK, 2002, p. 436).
89 A partir de agora, sempre que fizermos citações de excertos da obra Memórias do subsolo usaremos as iniciais
Schnaiderman (2009), no Prefácio da edição brasileira, explica que o estudo realizado por Bakhtin (2013) sobre a poética dostoievskiana mostra que Memórias do subsolo fica estruturada sobre uma confissão construída na expectativa da palavra do outro. No entanto, assevera o tradutor que, “se a análise de Bakhtin é realmente magistral, ela deixa apenas subentendido o fato de que, ao mesmo tempo, o ‘paradoxalista’ fica polemizado com autores e opiniões correntes na época.” (SCHNAIDERMAN, 2009, p. 8). De fato, a crítica textual russa já demonstrou as afinidades entre a confissão do homem ideólogo com fatos tirados de jornais ou de livros em voga à época de Dostoiévski. No entanto, para Schnaiderman (2009, p. 9), a discussão assume “caráter mais geral e elevado”, pois “traz implícita a referência a uma problemática filosófica.” Em razão disso, Schnaiderman (2009) explica que a contestação da fórmula dois e dois são quatro pelo homem do subsolo baseia-se em artigos publicados em periódicos; contudo, a argumentação da personagem assume maior abrangência, porque implicitamente contesta todo o racionalismo ocidental.
É justamente essa postura contestadora do ideólogo dostoievskiano que será objeto de nossa investigação: seguindo as pistas engendradas no discurso, tentaremos identificar, por meio do percurso teórico-metodológico detalhado no capítulo 4, como o posicionamento transgressivo do homem ideólogo frente ao racionalismo ocidental é construído. Importante ressaltar que a investigação desses implícitos exige um olhar atento aos detalhes, às pistas presentes na materialidade discursiva. Em razão disso, adotaremos uma postura muito próxima daquela instituída pelo paradigma indiciário de Ginzburg (1989), que baseia seu percurso epistemológico na imagem metafórica dos homens caçadores. Conforme mencionamos no capítulo 2, é preciso afastar-se da ideia de que a ironia inscrita em determinado discurso estaria disposta em frases esparsas; é preciso evidenciar esse discurso “como um todo estruturado segundo um princípio formal.” (BRAIT, 2008, p. 37). Nesse sentido, o próprio título da obra é capaz de oferecer um indício que, associado aos planos integrantes do discurso, possibilita a identificação da ironia inscrita nas Memórias. À medida que nossa análise avançar, esses processos de enlaçamento tornam-se mais evidentes. Por ora, faremos uma aproximação inicial com a novela dostoievskiana. Comecemos, então, pelo elemento que primeiro nos chega: o título, Memórias do subsolo, o qual já antecipa aos leitores as coerções do gênero no qual a obra será inscrita.
Encontramos algumas referências sobre as memórias no Dicionário de termos literários de Massaud Moisés (1982). De acordo com o estudioso, esse gênero textual passa pelos conceitos de autobiografia, biografia e confissão. Ao definir o primeiro conceito, Moisés (1982) afirma que o termo biografia – história de uma vida – passou a ser utilizado no
século XIX, ainda que a atividade literária que a define já tenha aparecido nas origens de Cristianismo com as Confissões de Santo Agostinho (354 – 430), escritas no ano de 400. Conforme Moisés (1982, p. 50), é difícil traçar distinções entre a autobiografia, as memórias, o diário íntimo e as confissões, pois cada um deles, a seu modo, consiste no extravasamento do eu:
Enquanto a autobiografia permite supor o relato objetivo e completo de uma existência, tendo ela própria como centro, as memórias implicam um à-vontade na reestruturação dos acontecimentos e a inclusão de pessoas com as quais o biógrafo teria entrado em contato. Por outro lado, ao passo que o diário constitui o registro do dia-a-dia de uma vida, quer dos eventos, quer das suas marcas na sensibilidade, as confissões decorrem do esforço de sublimar, pela auto-retratação, as vivências dignas de transmitir ao leitor.
Considerando a explicação final de Moisés (1982), de que a confissão consiste no “esforço de sublimar” as vivências, constatamos que a primeira parte das Memórias apresenta traços daquele gênero textual: o homem ideólogo procura reduzir, movido por um sentimento de angústia, as manifestações externas que colocam em perigo a integridade do eu. Outro indício que permite identificar o gênero de O subsolo reside na referência, no capítulo II, ao homme de la nature et de la vérité – excerto das Confissões do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau90. Bakhtin (2013) também classifica a obra de Fiódor Dostoiévski como um Icherzählung de tipo confessional; a própria ideia inicial do escritor russo, explica Bakhtin (2013), era chamar a obra de Confissão. A segunda parte da novela, A propósito da neve molhada, no entanto, aproxima-se do gênero memórias, pois ocorre a pormenorização de alguns fatos vividos pela personagem e que serviram de alicerce para a elaboração da confissão apresentada no primeiro capítulo – os passeios na Avenida Niévski91, as relações com os colegas de escola, o envolvimento com a prostituta Lisa, etc.
Feitas essas considerações sobre o título da novela dostoievskiana, iniciemos a análise do primeiro capítulo de O subsolo. Logo no primeiro parágrafo, por meio de uma aparente confusão, o protagonista revela sofrer, porém não consegue identificar a causa de tal sofrimento:
90 Ao longo desta seção, faremos menção às obras de alguns filósofos, cientistas, historiadores e literatos cujos
dizeres integram a arena dialógica instituída pela confissão. Na seção seguinte, quando analisarmos o plano na intertextualidade, aprofundaremos o estudo dessas referências, considerando, naquele momento, a relevância destas para a constituição do posicionamento transgressivo do homem ideólogo.
91 A avenida principal de São Petersburgo (SCHNEIDERMAN, 2009) que fora o tema, inclusive, do livro de
Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo do que estou sofrendo, não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos sabereis explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a “pregar peças” nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, em tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais. (MS, p. 15).
Percebemos, nesse excerto, uma espécie de “autopunição” da personagem, que inicialmente afirma ser um homem doente. Por tratar-se de uma apresentação, podemos encontrar aqui alguns indícios para a constituição da imagem de si que o homem ideólogo constrói em seu discurso. Ele sai de seu isolamento e se apresenta na arena virtual onde a “batalha”, pela palavra, será travada. Afirma não entender a sua doença e não saber, ao certo, do que está sofrendo. Já afirmamos, no capítulo 2 desta dissertação, que o homem do subsolo utiliza uma espécie de mecanismo de interpelação do outro no início do seu monólogo. “Na primeira frase”, explica Bakhtin (2013, p. 263), “o herói já começa a crispar-se, a mudar de voz sob a influência da palavra antecipável do outro, com a qual ele entra em polêmica interior sumamente tensa desde o começo.” Ao afirmar Sou um homem doente..., ele desperta a atenção do interlocutor virtual, intencionando gerar uma espécie de compaixão diante do homem aparentemente doentio. A frase reticente, desse modo, assume dupla função: contribui para a identificação do tom evasivo, de autopiedade, e solicita que o interlocutor lhe dê complemento. Na sequência, quando o homem do subsolo afirma ser um homem mau e um homem desagradável, o acento muda. Esses enunciados, bastante enfáticos, destroem a compaixão do outro, caracterizando a “quebra de acento” que permeia todo o estilo de Memórias do subsolo, segundo Bakhtin (2013).
O verbo sou, em primeira pessoa, marca a presença do enunciador92. É a presença do eu que registra seu testemunho, sua voz, sua participação singular em um tempo e espaço únicos e irrepetíveis. O pronome eu, implícito na forma verbal sou, carrega a força expressiva de uma singularidade que insiste em não calar, que rompe com a coisificação do homem, a rotina, o apagamento, a indiferença, o esconderijo. Ao não aceitar nenhum dos papéis impostos na vida “além-subsolo”, essa individualidade também rompe com o medo, que muitas vezes cala os homens diante daqueles discursos indiferentes às vozes alheias. A
92 No original russo, o pronome eu (ᴙ - ya) é utilizado: “Я человѣкъ больной... Я злой человѣкъ”.
confissão do homem do subsolo, ao contrário desses discursos monológicos, não repudia as vozes alheias: o enunciado reticente e a “provocação”, presentes em Certamente não compreendeis isto, atuam como interpelação da voz do outro, que parece estar muito atarefado ou desatento às palavras que brotam do subsolo.
É preciso, desse modo, chamar-lhe a atenção, pois o diálogo somente será válido se as palavras do outro, mesmo que virtual, tiverem seu espaço assegurado. O primeiro sinal de aversão ao monologismo reside na referência à medicina, ciência que tudo tenta definir e universalizar. O homem ideólogo evidentemente supõe que a medicina seja uma ciência, porém rotula o excessivo respeito a ela dedicado de uma superstição irracional. De acordo com Frank (2002, p. 437), que comenta o determinismo do homem ideólogo, “existe um claro conflito entre um curso racional de comportamento e algum sentimento obscuro rotulado de ‘rancor’. A ‘razão’ do homem do subterrâneo, que o estimularia a procurar um médico por interesse pessoal, é evidentemente frustrada por algum outro motivo.” É justamente esse “motivo” que pretendemos investigar por meio dessa aproximação inicial com Memórias do subsolo.
Na sequência de sua confissão, o homem do subsolo revela ser um ex-funcionário do regime czarista – Fiz parte do funcionalismo a fim de ter algo para comer (unicamente para isso) [...]. (MS, p. 17) – e que abandonou o serviço público após herdar seis mil rublos deixados em testamento por um parente afastado. Afirma ter sido um funcionário maldoso e grosseiro e que sentia um prazer insaciável quando conseguia magoar alguém (MS, p. 16), como os solicitantes, na maior parte dos casos gente tímida, que se acercavam de sua mesa com pedidos de informações, ou aqueles que trajavam com presunção, principalmente um certo oficial que tilintava o sabre de modo abominável (MS, p. 16). A seguir, o homem ideólogo apresenta algumas afirmações acerca de sua verdadeira natureza. Acompanhemos:
Mas sabeis, senhores, em que consistia o ponto principal da minha raiva? O caso todo, a maior ignomínia, consistia justamente em que, a todo momento, mesmo no instante do meu mais intenso rancor, eu tinha consciência, e de modo vergonhoso, de que não era uma pessoa má, nem mesmo enraivecida; que apenas assustava passarinhos em vão e me divertia com isso. Minha boca espumava, mas, se alguém me trouxesse alguma bonequinha, me desse chazinho com açúcar, é possível que me acalmasse. Ficaria até comovido do fundo da alma, embora, certamente, depois rangesse os dentes para mim mesmo e, de vergonha, sofresse de insônia por alguns meses. É hábito meu ser assim.
Menti a respeito de mim mesmo quando disse, ainda há pouco, que era um funcionário maldoso. Menti de raiva. Eu apenas me divertia, quer com os solicitantes, quer com o oficial, mas, na realidade, nunca pude tornar-me mau. A todo momento constatava em mim a existência de muitos e muitos elementos contrários a isso. Sentia que esses elementos contraditórios realmente fervilhavam em mim. Sabia que eles haviam fervilhado a vida toda e que pediam para sair, mas
eu não deixava. Não deixava, de propósito não os deixava extravasar. Atormentavam-se até a vergonha, chegavam a provocar-me convulsões e, por fim, acabaram por enjoar realmente! Não vos parece que eu, agora, me arrependo de algo perante vós, que vos peço perdão?... Estou certo de que é esta a vossa impressão... Pois asseguro-vos que me é indiferente o fato de que assim vos pareça... (MS, p. 16- 17).
Como vemos, o enunciador revela, nesse excerto, o ponto principal de sua raiva: a consciência de que não era uma pessoa má ou mesmo enraivecida e que encontrava diversão em assustar passarinhos em vão. Tais afirmações contribuem para o engendramento da imagem de si que o enunciador constrói no e pelo discurso, pois revelam a bondade e a falta de malícia do homem ideólogo, que parece “dilacerado por uma dissonância interna que o impede de comportar-se de uma maneira que se poderia considerar ‘normal’”. (FRANK, 2002, p. 438). Revela o homem do subsolo que sua boca espumava, mas se alguém trouxesse a ele alguma bonequinha ou um chazinho com açúcar talvez ele se acalmasse, e que até mesmo ficaria comovido do fundo da alma com essa atitude. De acordo com Frank (2002, p. 437), “essa passagem teria sido suficiente para reprimir a idéia predominante de que o homem do subterrâneo era perverso e mau ‘por natureza’ e que seu comportamento é resultado de um caráter congenitamente deformado e distorcido.”
Em realidade, o ideólogo dostoievskiano é uma criatura desprovida de maldade, que assiste pelas frestas de seu reduto no subsolo a humanidade lutar em prol de mesquinhas e estúpidas vantagens, cumprindo suas eternas obrigações e trabalhando para o progresso “necessário” do mundo: o homem está “condenado a tender conscientemente para um objetivo e a ocupar-se da arte da engenharia, isto é, abrir para si mesmo um caminho, eterna e incessantemente, para onde quer que seja.” (MS, p. 46). Lembremo-nos dos solicitantes e do oficial que compareciam à repartição onde o homem ideólogo trabalhava: em busca de suas próprias vantagens; esses homens se esquecem do que lhes confere humanidade: a singularidade, a individualidade, o direito de executar as ações mais banais.
O homem do subsolo revela ter mentido a respeito de si mesmo, quando afirmou que era funcionário maldoso. Em realidade, ele apenas se divertia com o oficial e com os solicitantes que compareciam à obscura repartição, pois nunca foi capaz de tornar-se mau. Acreditamos que a palavra diversão, mencionada pelo enunciador, resulta de sua posição de expectador frente a um mundo caracterizado pelas representações dos homens de ação, como se estes estivessem em um palco: devido à sua consciência hipertrofiada – seu grande trunfo diante dos homens normais –, o homem ideólogo afasta-se desse mundo onde os homens normais estão constantemente ocupados com a busca frenética de estúpidas vontades; onde os homens estão massificados, desprovidos de personalidade, pois os ditames dos discursos
centrípetos e universalizantes já predisseram à humanidade o “como ser”. O enunciador também revela que a todo o momento constatava em si a existência de muitos e muitos elementos contrários à necessidade de tornar-se mau.
Esses elementos, contraditórios, estão relacionados à doença do homem do subsolo, à raiva diante da incapacidade de tornar-se mau ou de encontrar para si uma definição, um papel. Além disso, esses elementos, que se manifestaram a vida toda e constrangem o homem ideólogo, fervilhavam e pediam para sair; eis aí um prelúdio da ironia, do posicionamento contestador, fruto da consciência hipertrofiada, do não ajustamento, do não assujeitamento aos discursos monológicos e massificadores, do desejo latente pelas verdades que dessacralizem o estereótipo, o definitivo, o pronto, a palavra final, autoritária, rotuladora. A palavra contraditório está muito relacionada a esse posicionamento transgressivo e contestador do homem ideólogo, à incapacidade de encontrar um papel para si – Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso – que para nada serve – de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem. (MS, p. 17).
Na sequência de sua confissão – capítulo II –, o homem do subsolo manifesta o desejo de contar à sua audiência as razões pelas quais não conseguiu sequer tornar-se um inseto: Vou dizer-vos solenemente que, muitas vezes, quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui digno. A causa desse “fracasso” está na sua consciência, considerada uma doença autêntica e completa (MS, p. 18). O homem do subsolo, nesse viés, distingue a sua consciência daquela de uso cotidiano: para este último, seria mais do que suficiente a consciência humana comum, isto é, a metade, um quarto a menos da porção que cabe a um homem instruído do nosso infeliz século dezenove. O homem ideólogo ainda assevera que, para essa vida diária, cotidiana, seria de todo suficiente, por exemplo, a consciência com que vivem todos os chamados homens diretos e de ação. (MS, p. 18).
Tais afirmações são resultantes da consciência hipertrofiada do homem do subsolo, relacionada a uma observação atenta e reflexiva sobre o mundo. Ela constitui uma doença autêntica, relacionada a uma singularidade que não se cala diante do autoritarismo dos discursos monológicos. Ao dizer Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto, o enunciador descobre que as contradições que fervilham dentro de si também impedem a constituição de um caráter. Seu único consolo é que um homem inteligente do século dezenove precisa e está moralmente obrigado a ser uma criatura eminentemente sem caráter, e isso constitui um trunfo para o
homem do subsolo, pois, se não conseguiu chegar a nada, foi em razão de sua consciência superior. Frank (2002, p. 438), nessa perspectiva, afirma que “esse estranho estado de impotência moral, que o homem do subterrâneo ao mesmo tempo defende e menospreza, se complica com a admissão adicional de que aprecia positivamente a experiência de sua própria degradação.” É justamente em razão dessa consciência privilegiada que o homem ideólogo é capaz de compreender o que é “belo e sublime”93
para os homens de ação, parvos e limitados: Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo o que é “belo e sublime”, tanto mais me afundava em meu lodo, e tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo. (MS, p. 19).
Na sequência da confissão, o homem ideólogo surpreende o leitor, porque, ao invés de considerar a degradação anteriormente mencionada como sofrimento, ele encontra nela aspectos positivos, de prazer:
chegava a ponto de sentir certo prazerzinho secreto, anormal, ignobilzinho quando às vezes, em alguma horrível noite de São Petersburgo, regressava ao meu cantinho e me punha a lembrar com esforço que, naquele dia, tornara a cometer uma ignomínia e que era impossível voltar atrás. Remordia-me então em segredo, dilacerava-me, rasgava-me e sugava-me, até que o amargor se transformasse, finalmente, em certa doçura vil, maldita e, depois, num prazer sério, decisivo! Sim, num prazer, num prazer! Insisto nisso. (MS, p. 20).
Pensamos que o prazerzinho secreto, anormal, ignobilzinho mencionado pelo enunciador provenha de sua consciência hipertrofiada, a qual está relacionada a uma dimensão mais abrangente e reveladora do tempo e do espaço a partir dos quais redige sua confissão. Essa consciência, que resulta de um estado de angústia e de crise, também impede que o herói dostoievskiano torne-se alguma coisa ou adote outro posicionamento: E o principal, o fim derradeiro, está em tudo isso ocorre segundo leis normais e básicas da