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Do Modelo Criminal ao Modelo Psicossocial

No documento O IDT, IP no contexto do NPM e do PRACE (páginas 34-37)

CAPÍTULO 1: A POLÍTICA DA DROGA EM PORTUGAL

1.1. AS POLÍTICAS PÚBLICAS CONTRA AS DROGAS

1.1.1. O período antes da ENLCD: de 1970 a 1999

1.1.1.1. Do Modelo Criminal ao Modelo Psicossocial

A fase 1970/74 é marcada pela publicação do DL nº 420/70, de 03 de setembro, que determina, claramente, e pela primeira vez em Portugal, a natureza criminal do consumo e posse de drogas25 (Dias, 2007). A promulgação deste diploma legal estabelece, segundo o EMCDDA (2011: 10), aquela que “can be considered Portugal’s first modern drug policy”, cujo paradigma perdurou até à revolução democrática de 1974.

O período seguinte, 1975/82, é uma fase compreensivelmente marcada pela Revolução do 25 de Abril de 1974 e todos os acontecimentos que se sucederam. O desmantelamento do intitulado Estado-Novo e a instauração dum regime democrático, livre e pluralista trouxe para Portugal, como já foi referido, a questão da droga (Costa, 2007; Dias, 2007). Nesse sentido, logo em 1975 é aprovado e publicado o DL nº 745/75, de 31 de dezembro, sob a supervisão da Presidência do Conselho de Ministros (PCM). Este diploma marca o início da construção das estruturas de combate à droga em Portugal. São, assim, criados: o Centro de Estudos da Juventude (CEJ), a quem competia “o estudo dos problemas ligados ao uso

de droga, particularmente o do tratamento médico-social do toxicómano, da prevenção antidroga no campo da profilaxia da população em alto risco, bem como, em geral, dos problemas da juventude relacionados com o uso da droga”26 e o Centro de Investigação

25 Cfr. o disposto no Preâmbulo, assim como, o n.º 1 e n.º 2, ambos do art.º 2.º, conjugados com o n.º 2 do

art.º 4.º, todos do Decreto-Lei nº 420/70, de 03 de setembro.

26 Judiciária da Droga (CIJD), cujas competências passavam pelo “estudo dos problemas

ligados à actividade judiciária relacionada com a droga, bem como a prossecução das actividades de investigação, fiscalização e repressão criminal nesse domínio”27. De acordo com Dias (2007) este decreto consagrou a necessidade de olhar para a problemática das drogas tanto no domínio clínico, como psicossocial e também repressivo.

Ao longo de 1976 a perceção da problemática da droga começa a apoderar-se do discurso público, assim como a noção de que as estruturas criadas um ano antes eram ineficazes na resposta a esse flagelo, facto que conduziu a que, na sequência da tomada de posse do I Governo Constitucional28, tendo Mário Soares como Primeiro-Ministro e Almeida Santos como Ministro da Justiça, fossem promulgados um conjunto de diplomas legais29, que viabilizaram um novo enquadramento legal e organizacional ao nível das estruturas governamentais de combate ao consumo e ao tráfico de droga (Costa, 2007; Dias, 2007). O DL nº 791/76 e o DL nº 792/76, ambos de 05 de novembro, procedem à reestruturação, respetivamente, do CIJD, que passa a denominar-se Centro de Investigação e Controle da Droga (CICD) e tem competências ao nível da prevenção e repressão do tráfico ilícito30, e do CEJ, que passa a denominar-se Centro de Estudos da Profilaxia da Droga (CEPD), e que, de acordo com Costa (2007), desenvolve a sua ação ao nível do tratamento e da prevenção das toxicodependências, num contexto de separação face aos organismos policiais.

Já o DL nº 790/76, de 05 de novembro, procede à criação de uma nova estrutura, o Gabinete Coordenador de Combate à Droga (GCCD), na dependência direta do Primeiro- Ministro31, e cuja finalidade, segundo Dias (2007), passa por garantir não só a coordenação das atividades desenvolvidas pelo CEPD e pelo CICD como também garantir que Portugal cumpre as obrigações decorrentes dos tratados internacionais assinados no âmbito desta temática.

No seu conjunto os três diplomas legais citados configuram uma alteração das políticas públicas do país face às drogas que podemos sintetizar nos seguintes pontos: (i) abandono célere do modelo criminal; (ii) adoção progressiva de um modelo de ação de inspiração

27 Cfr. o disposto no n.º 2 do art.º 2.º do Decreto-Lei nº 745/75, de 31 de dezembro. 28 O I Governo Constitucional tomou posse a 23 de julho de 1976.

29 Decreto-Lei nº 790/76, Decreto-Lei nº 791/76 e Decreto-Lei nº 792/76, todos de 05 de novembro. 30

Cfr. o disposto no art.º 2.º do Decreto-Lei nº 791/76, de 05 de novembro.

27 clínico-psicossocial; (iii) gradual entendimento de que “o problema (da droga) não deve

(…) ser encarado isoladamente, mas em globo, na sua complexidade médico-psico- sociológica”32, o que, como refere Dias (2007: 44), “vem demonstrar uma evolução

qualitativa na abordagem indivíduo-consumidor, enquanto realidade bio-psicossocial”; e (iv) pela primeira vez é introduzido num diploma legal a noção de descriminalização de droga33 em Portugal (EMCDDA, 2011).

A fundamentação das opções políticas tomadas pelo I Governo Constitucional em relação às drogas decorre do próprio discurso do Ministro da Justiça à altura, Almeida Santos, realizado no VII Congresso Internacional para a Problemática da Droga, realizado em Lisboa, em outubro de 1977. Nesse discurso Almeida Santos reconhece que o tráfico e o consumo de drogas é um problema mundial e, por conseguinte, só pode ser resolvido através de uma ação internacional concertada assente em protocolos firmados (Dias, 2007). No mesmo discurso, e parafraseando novamente Dias (2007: 45), o governante assume que “o tráfico ilícito devia ser punido mais duramente e que quanto ao consumidor de drogas, deviam sobrepor-se medidas curativas às repressivas, e o tratamento voluntário ao

tratamento compulsivo”.

Apesar das várias iniciativas legislativas acima elencadas, o flagelo das drogas continuava a florescer exponencialmente em Portugal, assente num quadro de debilidade económica, demográfica e social, onde o desemprego atingia uma franja importante de portugueses, sobretudo jovens. Nas palavras de Costa (2007: 142-143) “as crianças da Revolução são agora jovens desiludidos que optam por alterar hábitos de consumo (…) em favor das chamadas drogas duras (…) e, com eles o crescimento de diversos problemas de saúde, dos quais se destacam a tuberculose (…) hepatite e a SIDA”.

É neste cenário que o VIII Governo Constitucional faz publicar o DL nº 365/82, de 08 de setembro, diploma legal que determina não só a reestruturação dos serviços criados na última década como também a alteração, por motivos orçamentais e operacionais, da respetiva tutela da PCM para o Ministério da Justiça (EMCDDA, 2011). Ou seja, com este normativo é transferida toda a intervenção na área das drogas, incluindo o tratamento e a prevenção, para junto do sistema judicial.

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Cfr. o disposto no Preâmbulo do Decreto-Lei nº 792/76, de 05 de novembro.

28 Este diploma extingue o CIJD integrando-o na Polícia Judiciária e reorganiza o GCCD, que passa a denominar-se Gabinete de Planeamento e de Coordenação de Combate à Droga (GPCCD). As competências do GPCCD encontram-se plasmadas no art.º 1.º da secção I do capítulo I do citado decreto nos seguintes termos: “o GPCCD (…) é um

organismo central que se destina a planear e a coordenar as actividades do (…) CEPD, bem como as de outros organismos que prossigam objectivos na luta contra a droga”.

Para Dias (2007) este normativo olhava para o fenómeno das drogas de duas formas distintas embora interligadas: (i) erradicar a produção e tráfico de drogas e, consequentemente encaminhar o toxicodependente para tratamento e reinserção social; e, (ii) apostar na prevenção e, assim, acabar com a procura de drogas.

No documento O IDT, IP no contexto do NPM e do PRACE (páginas 34-37)