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Do papel renegado a integrante da sociedade

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Capítulo I – O CEGO, CADEIRANTE, SURDO, MUDO E A SOCIEDADE

1.1 Do papel renegado a integrante da sociedade

A representação das diversidades nem sempre esteve entre os focos da comunicação mercadológica, muito menos trabalhar com a imagem das pessoas com deficiência como

cidadãos. Nos registros históricos que abordavam as limitações do corpo presentes em alguns seres humanos desde o seu nascimento, em sua maioria, as interligavam com um fator de anomalia, não apenas genética, porém algo considerado como monstruosidade ou um castigo divino.

O “estranho” que vivia em um mundo de exibições e curiosidades exemplificado por Jean-Jacques Courtine fortaleceu os discursos científicos por meio da teratologia, que significa o estudo das malformações. O termo também carrega a representação de monstros, assim sendo considerados aqueles que não estavam incluídos no modelo de ser humano dado como “normal”, mediante suas deformidades. A ciência influenciou a observação desses perfis, causando transformações entre os séculos XVI e XVIII.

“[...] Partindo da Antiguidade, mostramos as diversas fases desta superstição, e a levamos até o momento em que o edifício de erros acumulados por tantos séculos desmoronou ao sopro da ciência”. É o relato do triunfo da razão sobre as monstruosidades humanas que é celebrado pelo Doutor Martin em sua História

dos Monstros: a ordem do espírito prevalece sobre o caos da matéria, a regra se

dobra à exceção, a racionalidade da ciência vence um dos obstáculos mais resistentes de um dos mistérios mais opacos da criação. Vê-se aí uma ascese do olhar desvendar aos poucos as representações da monstruosidade de um fundo imemorial de credulidade e de terror religiosos, o rigor da ciência dissipar lentamente as seduções do insólito (COURTINE, 2010, p.488).

Antes da interferência do desenvolvimento científico, a deficiência era o sinônimo do fracasso da criação divina, cuja “deformidade corporal tornou-se um dos sinais mais evidentes do pecado e o monstro um temível cúmplice do diabo ou um enviado miraculoso de Deus, funesto presságio de sua cólera” (COURTINE, 2010, p.489). A imagem descrita nas narrativas daquele período ainda acompanhava toda esta perspectiva ao retratar um real espetáculo da vida destes seres humanos, aspectos que eram elevados por meio do imaginário proposto pelas literaturas.

Também envolvido com estudos sobre anomalias, Foucault empenhou-se em envolver o exame médico-legal a gradações das monstruosidades. “Ao criar uma classificação que comporta três níveis de anormalidade, o filósofo demonstra como a percepção sobre o indivíduo anormal se transforma com o tempo, e como cada época forja seu tipo característico de sujeito anormal” (CARRASCOZA; CASAQUI; HOFF, 2010, p.207).

Todavia Courtine (2010, p.502) relata que apesar da teratologia oferecer um “desencanto dos monstros e a racionalização de suas representações”, a mobilização social é enganosa. “O monstro continua sendo portador de um assombro universal, suscita uma curiosidade desabrida, escapa sem cessar às tentativas de limitá-lo ao discurso ou à imagem”.

Atitudes que reforçavam que mesmo com as diferentes abordagens embasadas pela ciência, estas pessoas ainda permaneciam excluídas da sociedade, parâmetro que somente foi alterado nas décadas seguintes.

Aos poucos, no decorrer do século XIX e início do XX, os sentidos vão sofrendo deslocamentos, e é possível observar um “sentimento de compaixão” sobre as deformidades do corpo. Conforme atesta Courtine, “o período de um século que, de 1840 a 1940 aproximadamente, assiste ao apogeu, ao declínio e finalmente ao eclipse total da exibição do anormal” (2008, p.290). Destaque que, nesse processo de transformação dos sentidos, o papel da ciência foi fundamental para se restabelecer ao monstro seus direitos à humanidade biológica: “O direito o teria acolhido no seio das pessoas jurídicas, e o aumento de um sentimento de compaixão, secundado pelo desenvolvimento de uma medicina restauradora e assistencial, teria levado a cabo a volta à comunidade dos humanos” (idem, pp. 306-307). O saber médico na busca de compreender as deformidades deixa entrever o monstro como algo do cotidiano social, reduzindo a estranheza na medida em que inicia uma explicação da diferença (CARRASCOZA; CASAQUI; HOFF, 2010, p. 209-210).

Tal “empatia”, ou um pouco de compreensão, em relação à deficiência recebeu impacto a partir dos acidentes de trabalho, que trouxeram um novo olhar para as deformidades no decorrer da revolução industrial. Um período de danos físicos e psicológicos que acometeram familiares e operários diante de condições precárias no desenvolver de seus ofícios. Assim, neste momento, corpos sem imperfeições passaram a conviver com mutilações, transformando-os em uma imagem de incapacidade.

A postura solidária frente a este ser ressaltava não somente a representação de um corpo limitado, mas o reflexo que carrega estigmas de diversos ataques e de sofrimentos. Henri-Jacques Stiker (2008, p.348) destaca que consiste no “momento em que a enfermidade, através das deficiências sensoriais, adquire uma primeira dignidade até o momento em que ela parece ser o estado de um corpo ferido a reparar”.

Mesmo com a mudança de percepção, as resistências aos deficientes ainda persistiram ao longo do século. A ausência de centros de sociabilização e educação voltados para estas pessoas, sendo que os poucos restritos a uma pequena parcela da população de países mais desenvolvidos, também esbarrava no avanço de novas técnicas para melhorar sua convivência em sociedade. Exemplo deste pensamento está a rejeição ao aprendizado da linguagem gestual, considerada não digna do homem civilizado.

Entretanto, na busca de tornar educáveis os corpos monstruosos, também surgiu o olhar de reabilitá-los e reintegrá-los. De tal modo, no final do século XIX, a França partiu

para uma caminhada que romperia de vez com a obscura e falsa representatividade dos deficientes, com a criação de uma legislação sobre os acidentes de trabalho.

A lei de 1898 marca o ponto de partida da segurança social na França: “A sociedade industrial, ao tomar consciência de seu poder [...] deu-se a possibilidade de fazer nascer obrigações a partir dela mesma e sem outra referência senão ela mesma. Dispunha-se, com a noção de risco profissional, do princípio que abriria todo o futuro das obrigações sociais que se agrupariam meio século mais tarde sob o título de seguridade social”. Avalia-se o avanço. O direito à vida se tornará um direito social (STIKER, 2008, p.371).

Este grau de entendimento foi elevado ao surgimento das guerras, o que tornou a imagem dos combatentes, que expuseram suas feridas adquiridas nos campos de batalha, não só como deficientes permanentes, mas marcas de um herói que lutou por sua nação. Stiker (2008, p.374) ressalta a transformação do olhar perante essa nova concepção de modelo de corpo, que abdica “as margens da miséria, do abandono ou da exploração para ser acolhido nas margens da dignidade, da readequação, da participação social”. Desse modo, já no século XX, novos espaços e instituições filantrópicas abrem suas portas ao atendimento e socialização desses cidadãos.

O preconceito ainda existia, rótulos que mobilizações visavam quebrar ao longo da convivência em sociedade. Em um catálogo montado para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) sobre inclusão digital e social dos deficientes, nota-se o pensamento nos períodos de exclusão, considerando a pessoa com deficiência um “doente e [que] precisa essencialmente de cuidados médicos ou de cura”.

Seguem-se os estigmas para cada deficiência: a do surdo, de que é mudo; a do cego, de que não ouve; a do paralisado cerebral, de que é deficiente mental; a da pessoa com sequelas de hanseníase, de que é um “leproso” contagioso. Não podemos deixar de ter em mente essas ideias, que guiam nossos pensamentos e nossas ações e podem contribuir, mesmo inconscientemente, para discriminar e excluir as pessoas com deficiências. É fundamental “desconstruir” esses preconceitos a respeito delas, utilizar as denominações apropriadas para entender realmente o que significa ser uma pessoa com deficiência. Antes de tudo, uma pessoa com deficiência é uma pessoa - igual a todas as outras e ao mesmo tempo diferente -, com características e limitações próprias, como todos nós temos, em graus e natureza variados (HAZARD; GALVÃO FILHO; REZENDE, 2007, p.15- 16).

Inclusive a Organização das Nações Unidas (ONU), criada em 1945, após o fim da terrível Segunda Guerra Mundial, motivou o nascimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos, três anos depois de sua fundação. O documento apenas faz uma menção à

deficiência, no artigo 25, com a garantia a qualquer cidadão “a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença e invalidez”.

Apesar do discurso de “igualdade entre os homens”, a real inclusão idealizada ao longo dos períodos difíceis de invisibilidade foi construída ao poucos com suporte da legislação. Se as atitudes não demonstravam uma mudança da sociedade em receber estas pessoas, algumas medidas se fizeram necessárias para inspirar outro modelo de participação. Até mesmo a ONU, configurando uma iniciativa solidária aos povos pós-guerra, demonstrou um diálogo mais focado no acolhimento destes cidadãos a partir de 1971, com a publicação da Declaração sobre os Direitos das Pessoas com Retardo Mental, documento que ganharia um viés ainda mais abrangente em 1975, diante da proclamação, pela Assembleia Geral da ONU, da Declaração sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

Com mobilizações sociais registradas ainda na época do Império, o Brasil vem buscando uma melhor representação dessa parcela da população. A imagem de incapacidade enraizada e promovida ao longo dos séculos também impactou os avanços no território nacional e foi se modificando a partir do posicionamento da ONU. Ao traçar os passos na história do engajamento dos deficientes, a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, com a publicação PARA TODOS - O movimento político das pessoas com deficiência no Brasil, evidenciou a participação das entidades e a visibilidade dos resultados das discussões sobre o tema:

- 1978 – A Constituição Brasileira recebe a primeira emenda, número 12, sobre os direitos das pessoas com deficiência, de autoria do deputado pernambucano Thales Ramalho.

- 1981 – Com o tema “Participação Plena e Igualdade”, sendo baseada no Programa Mundial de Ação Relativo às Pessoas com Deficiência, a ONU declara este o Ano Internacional das Pessoas Deficientes. A organização define a Década das Pessoas Portadoras de Deficiência de 1983 a 1992, período para discussão de deveres e direitos das pessoas com deficiência.

- Em Recife, ocorre o 2º Encontro Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes e o 1º Congresso Brasileiro de Pessoas Deficientes, com o tema “A Realidade das Pessoas com Deficiência no Brasil Hoje”.

- A ONU promulga a Carta dos Anos 80, onde registram-se as ações prioritárias e metas para possibilitar a estas pessoas participação na sociedade, com acesso à educação e ao mercado de trabalho.

- 1989 – Instituída a Lei nº 7.853, oferecendo responsabilidades ao Poder Público para garantir os direitos básicos das pessoas com deficiência, como educação, saúde, trabalho, lazer, Previdência Social, amparo à infância e à maternidade, além de definir como crime práticas discriminatórias.

- 1991 – Criação da Lei nº 8.213, que constitui cota dos funcionários com deficiência em empresas com mais de 100 trabalhadores, de 2% a 5% do quadro de colaboradores.

- 1993 – Por meio do Decreto nº 914, é sancionada a Política Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, onde Estado e a sociedade civil buscam iniciativas em prol da integração desses cidadãos em todos os aspectos da vida em sociedade. O documento foi substituído, em 1999, pelo Decreto nº 3.298.

- 1999 – Decreto-Lei nº 3.298, regulamenta a Lei nº 7.853, passa a jurisdição sobre a inserção das pessoas com deficiência no mercado de trabalho ao Ministério do Trabalho e Emprego. - 2004 – Abertura do Ano Iberoamericano no Brasil, em Brasília. O Decreto nº 5.296 regulamenta as leis federais sobre acessibilidade para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida no país.

- 2008 – O Brasil assina a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo.

- 2015 – É instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), sob o registro da Lei nº 13.146.

Desde o discurso de superação dos heróis de guerra que iniciou as transformações das imagens direcionadas aos deficientes ao diálogo mais complexo nos desafios de socialização dessas pessoas na atualidade, a comunicação sempre possuiu um papel fundamental para que o olhar deixasse de ser superficial e apenas ligada ao corpo julgado por suas limitações físicas. A legislação por si só não originou atitudes diferentes, apesar de determinar parâmetros dados como corretos na sociedade. A disseminação do discurso de inclusão, do engajamento dessas pessoas e a necessidade de maior representatividade trouxe uma maior naturalidade ao tema, além de mostrar às demais gerações o erro grandioso de nossos antepassados ao defender a exclusão das diversidades.

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