Esses tempos de pandemia nos direcionaram para atividades on-line. A situação é terrível e ainda não temos clareza sobre o que está havendo, porém há linhas muito bem estabelecidas do momento em que vivemos no Brasil. Vivenciamos ou experienciamos essa política que está colocada, essa coisa devoradora que está posta. Ardem as florestas do nosso país, ardem os nossos corações. É nesta marca que somos estimulados ao deslocamento, a sair em busca de novas pos-sibilidades. Volta à lembrança a frase-síntese: “Há grande desordem sob o céu, a situação é excelente”. À primeira vista essa afirmação não faz sentido, nem fez sentido para muitos quando foi proposta como lema do 15º Congresso Paulista de Saúde Pública (BOTAZZO et al., 2018). No entanto, por ser inusual, ela nos instiga e calmamente nos conduz a refletir e logo começam a se formar umas elaborações novas.
Há desordem, é verdade, e esta incompreensível liberdade linguística estimula nossa mente a pensar diferente, a pensar o novo, a interpretar as ocorrências com o olhar que pergunta como essas coisas foram ou são possíveis; não é perguntado “por quê”, uma pergunta algo ligada à moral, e sim quanto “ao modo” como puderam acontecer, seu vir a ser, a sua condição de possibilidade, que é o processo mesmo de tor-nar-se fato. Então, perceber excelência e expressividade onde apenas aparece desordem implica olhar e distanciamento, implica movimento e deslocamento. E se nos vamos a deslocar, que seja ao menos para ir em busca daquilo que não conhecemos. Penso que isso nos ajuda a
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outra vez procurar a utopia. Que as deusas dos mundos não existentes nos protejam e nos inspirem.
Tomarei um caminho um pouco diferente do adotado por Thais Rossi, minha colega de jornada, porque penso abordar o modo como dentistas são formados, ou seja, produzidos, e como em processo, ao serem produzidos, reproduzem a odontologia. Para esse propósito, gostaria inicialmente de articular duas categorias do pensamento de Bourdieu (1972), que são habitus e illusio. Fiz associações com ques-tões mais internas da prática odontológica, e, pensando história, pen-sando essa prática que nos constitui, puxei a ligação com essas duas ideias, que lidam direta ou indiretamente com outro conceito chave para entendimento dessa temática e que é o conceito de estrutura. É assim que o autor, de modo militante, nos convida a pensar habitus e illusio, e a perceber como a partir delas é possível pensar o conceito de estrutura, ou seja, as regras gerais objetivas que mais ou menos inconscientemente conduzem nossas ações. A despeito de bastan-te surrada, essa cabastan-tegoria ainda bastan-tem força bastan-teórica para explicar muita coisa, múltiplos eventos que se materializam no espaço do social. Em conjunto, essas três categorias nos fornecem a boa base para pensar uma teoria da prática odontológica. Por extensão, igualmente uma teo-ria da prática da saúde bucal coletiva.
Habitus seria, grosseiramente, aquilo que nos é familiar, que se torna familiar para nós. As coisas familiares surgem, se constituem, se desenvolvem e mesmo podem se transformar em outra coisa e, dado o fato de acompanharmos sua gênese, psiquicamente nos acomodamos ao seu curso e evolução tanto quanto acompanhamos coisas que se desenvolvem no espaço dos afetos e das emoções.
Quando pensamos ou falamos em habitus, o fundamental é perceber as regras às quais essas coisas familiares acham-se perfiladas. O que significa dizer que o habitus é o princípio organizador da ação.
Dito de outro modo, habitus são “sistemas de disposições duráveis,
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estruturas estruturadas predispostas a funcionarem como estruturas estruturantes, isto é, ‘como princípio que gera e estrutura as práticas e as representações’ que podem ser objetivamente ‘reguladas e regulares’ (...)” (BOURDIEU, 1972, p. 175). Por isso, para um dentista a odontologia e seus procedimentos lhe são tão familiares quanto continência e ordem unida são para militares.
Já illusio pode ser vista como um jogo, um jogo bem jogado com seus elementos (cartas?) formadores: as crenças e gostos comuns entre os que estão em relação no jogo, no mesmo campo. Illusio indica a crença fundamental dos participantes do jogo, ou seja, de uma ação social determinada. Habitus e illusio acham-se em diálogo permanente.
O jogo, como conteúdo expresso da illusio, vem a ser “jogo social”. Não ficamos o tempo todo lembrando as ‘regras’ do jogo em sociedade.
Todos os jogos em todos os campos – educação, economia, ciência, saúde etc. – são conduzidos por regras e elas são internalizadas nos corpos dos agentes (homens concretos) por efeito do habitus (ou seja, daquilo que nos é tornado familiar). Por isso, os jogos dos distintos campos – saúde, educação etc. – formam illusio particulares ou o lugar de jogos específicos. E fazemos tudo isso sem ter que pensar (ter consciência) porque internalizamos as regras de funcionamento do jogo, tal como “alguém que há muito tempo aprendeu a dirigir.
Seu corpo já internalizou a própria dinâmica prática da ação de dirigir (trocar marchas, fazer curvas etc.)” (MONTEIRO, 2018, p. 105).
Como lugar de “disposições internalizadas”, isto é, de lugar da vontade (ou do desejo) illusio expressa crenças, linguagens e outras formas culturais ou simbólicas; sujeitos podem partilhar e também pertencer a diferentes illusio. Neste sentido, illusio é homólogo ao conceito de coletivo de pensamento ou de comunidade epistêmica, proposta por Fleck (1986). Este autor definiu comunidade epistêmica (ou seja, comunidade de pensamento) como lugar de partilha de linguagem e de objetos, lugar de preocupações, modos de ver e fazer,
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de crenças e igualmente de pertença a diferentes coletivos a um só tempo – políticos, religiosos, científicos, interesse cultural, etc. (FLECK, 1986, p. 85). É muito parecido illusio e comunidade epistêmica. E fica ainda mais forte a proximidade se nos referimos à illusio particular da ciência (os que jogam o jogo da ciência).
É mesmo o caso de perguntar das condições práticas para a pesquisa em Saúde Bucal Coletiva e se nós, os bucaleiros, pertencemos a um coletivo de pensamento, se formamos uma comunidade epistêmica. Estamos provavelmente ainda muito seduzidos pelo conceito de paradigma, cujo engessamento nos impede de perceber a fluidez que as coisas têm (MOYSÉS; SHEIHAM, 2003, p. 387-442).
E também o fato de pertencermos a diferentes coletivos (políticos, religiosos, culturais) e nem sempre levamos em conta ou nem mesmo sabemos, queria mostrar pouco essa dimensão. Enfim, destacar a natureza “operativa” da produção intelectual de Pierre Bourdieu e também seu lado crítico, ele que, como sociólogo, dizia não ser um “comentador sedentário das ideias alheias”; ou a afirmar que “a sociologia é um esporte de combate” (CARLES, 2001).
As teorias de Bourdieu têm assim essa dimensão que solta, desamarra o modo de perceber. E esse diálogo que entra o tempo todos para nós, que nos faz perguntar: o que é essa prática, essa odontologia que nos constitui? Como somos? No entanto, mesmo sendo a odontologia essa instituição, tal como ela se apresenta e tal como historicamente se constituiu e nos constituiu, é preciso, à moda de Raymond Carver9, perguntar: do que estamos falando quando falamos de saúde bucal coletiva? E não é sem sentido essa questão.
Pois é possível distingui-las - Odontologia e Saúde Bucal Coletiva - pelos problemas teóricos e práticos de cada uma delas: a eleição de objetos, as linguagens de que se servem, os métodos empregados, as teorias que explicam e ajudam a compreender uma e outra e os problemas que
9 What we talk about when we talk about love. Livro de contos de Carver publicado em 1981.
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devem resolver. Estas são questões de relevo e todas vem a formar o mundo prático delas. É assim que o “problema” da odontologia não é o mesmo que o “problema” da Saúde Bucal Coletiva, e isto equivale dizer que as teorias de que se valem, uma e outra, para resolver os problemas postos são elas também distintas (BOTAZZO, 2006).
Aqui, é importante apontar o seguinte, apontar para os dentistas no Sistema Único de Saúde (SUS), as equipes de saúde bucal. Porque a prática cotidiana dos dentistas no SUS não é fácil, não é coisa simples, são muitos os desafios e nem sempre o gestor compreende a situação. O sistema cobra procedimento e produção, em números, e os profissionais que buscam um certo equilíbrio entre a realidade observada, essa vida social conflituada que teima em entrar pela porta da frente da Unidade Básica de Saúde (UBS), e a estreiteza das concepções sociais aprendidas durante a graduação, então eu vejo que os dentistas do SUS precisam de outro tipo de suporte, outro tipo de supervisão, e que as coordenações de saúde bucal e os gestores municipais nunca deram conta.
Isso é decorrência de algo previsível: é que quanto mais os dentistas no SUS praticam o caminho da promoção e se preocupam com a qualidade de vida dos seus pacientes, quanto mais buscam a integralidade do cuidado menos se sentem motivados a continuar fazendo uma odontologia “de gabinete”. Em 1988, a gente dizia: “à medida que a odontologia vai se tornando cada vez ‘mais integral’, vai também se tornando cada vez ‘menos odontologia” (BOTAZZO et al., 2013, p. 54). Dizer desse modo é bonito, mas a realidade dos serviços acaba cobrando um preço. A verdade é que a saúde [bucal] coletiva é parte inseparável, teoria e prática, da saúde coletiva. Ela se dá a um só tempo como generalidade e como particularidade regional, bebendo confortavelmente no manancial do conhecimento das ciências sociais e humanas. Ou seja, dentistas “bucaleiros” podem cada vez mais serem
“coletivistas” (generalidade corpórea, sociedade etc.) e a um só tempo
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praticar uma clínica de saúde bucal que contemple a especificidade da boca humana (particularidade regional).
Encerrando essa discussão, podemos dizer que sujeitos diferentes constroem diferentes problemas a partir da mesma realidade (porque distintos sujeitos constroem distintas realidades).
Problema como constructo é algo distinto de problema pré-existente ou a priori, posto que problema não é dado e sim produto produzido (TESTA, 1985). O problema colocado pela odontologia não é o mesmo problema da Saúde Bucal Coletiva e mesmo as teorias para a solução de problemas também serão diferentes. Se aceitamos o desafio de pensar odontologia e SBC como campos (por que não?), então a illusio, o jogo no campo, um e outro, são jogos diferentes, num e outro não são os mesmos jogos. E não seriam igualmente suas crenças nem os sistemas de significação de um e do outro. Enquanto a primeira é obrigatoriamente dentária, a segunda tem a sociedade e o homem nela como referente. E, na ligação dialética entre o geral e o particular, nós podemos confortavelmente nos perder no manancial do conhecimento das ciências sociais e humanas e a partir então deste outro referencial ver como podemos encaminhar algumas novas (velhas) questões. E, naturalmente, a ver a odontologia de um ponto de vista não-odontológico.