3.1 Algumas questões sobre modalidade
3.1.2 Domínios modais
Tradicionalmente, há um certo acordo quanto a considerar que a modalidade relaciona-se a noções como capacidade, necessidade e possibilidade, embora Lyons (1977) considere dois domínios modais básicos: o deôntico e o epistêmico.
Para Lyons (op. cit.), as noções de possibilidade e necessidade, herdadas da Lógica Formal, estão envolvidas tanto no domínio epistêmico quanto no deôntico. No domínio epistêmico, possibilidade ou necessidade relaciona-se com a verdade da proposição, portanto envolve o conhecimento ou a crença do falante e pode ser subjetiva ou objetiva. É subjetiva, quando relacionada à opinião do falante, às inferências e aos boatos (hearsay), tendo por componente “eu-digo-assim”. É considerada objetiva, quando o falante compromete-se com a factualidade da proposição, contendo o componente “isto-é-assim”. Nesse caso, a proposição expressa um conhecimento geralmente aceito ou cientificamente comprovado, aproximando-se, portanto, da modalidade alética34. O autor assume que a diferença entre subjetivo e objetivo depende não apenas do modalizador, mas principalmente do papel que o falante assume no momento da interlocução (op. cit. p. 799)35.
34 Na concepção aristotélica, os enunciados de uma ciência podem ser necessariamente ou possivelmente verdadeiros. Assim, a modalidade alética ou aristotélica refere-se ao eixo da existência e diz respeito à determinação do valor de verdade dos enunciados.
35 Um exemplo dessa oposição corresponde à diferença entre It may be raining in London que permite uma interpretação subjetiva (alguém expressa a opinião quanto à possibilidade de estar chovendo em Londres,
No domínio deôntico, encontram-se as funções de obrigação, permissão e proibição relacionadas a um EsC. Nesse domínio, necessidade ou possibilidade envolvem imposições sobre agentes moralmente responsáveis e procedem ou derivam de uma fonte ou causa externa, como normas sociais ou morais, ou de compulsão interna. Para alguns autores, como
Traugott (1989), necessidade/obrigatoriedade é sempre externa e envolve pouca
subjetividade, já que se trata da convocação de razões universais, lei divina, regras ou princípios institucionais (morais, religiosos, culturais) independentes da vontade do falante.
Na concepção brevemente esquematizada acima, a modalidade deôntica não consiste propriamente na descrição de um ato, mas de um EsC que será obtido se um ato em questão for realizado, portanto, refere-se a eventos potenciais. Decorre daí a ligação intrínseca desse domínio com a noção de futuridade36, pois, ao se impor algo a alguém, a execução do ato será futura, seja um futuro próximo ou não. Portanto, nesse sentido, a modalidade deôntica está diretamente relacionada a atos de fala, como ordens, sugestões, exortações, convites.
Na formulação acima, o termo deôntico, de certa forma, abrange qualquer modalidade que não seja epistêmica. Como discutemBybee & Fleischman (1995), o conceito deôntico, na perspectiva de Lyons (1977), é excessivamente amplo, associando-se ao valor de permissão (como em you may go now) e de obrigações impostas (como em eat your vegetables!), assim como ao sentido de condição (como em graduate students can check out books for the whole semester).
Coates (1983), consciente da abrangência do termo deôntico, prefere falar em modalidade de raiz (root modality), para fazer distinção entre modalidade epistêmica e não-epistêmica. A modalidade de raiz abrange noções como permissão, obrigação, bem como as noções de necessidade e obrigatoriedade, enquanto a modalidade epistêmica refere-se às suposições ou avaliações de possibilidades, indicando o grau de confiança (ou falta de confiança) do falante em relação à verdade expressa pela proposição.
Bybee (1985), Bybee & Pagliuca (1985), Bybee et al. (1991, 1994), Bybee e Fleischman (1995), por sua vez, estabelecem distinções entre modalidade orientada para o agente, modalidade orientada para o falante e modalidade epistêmica. A primeira enunciada por um leigo) ou objetiva em He told me that he thought it might be raining in London, enunciada, por exemplo, por um meteorologista. (cf. LYONS, 1977, p. 799).
36 Referindo-se às construções modais com ter, Câmara Jr. (1976, p. 170) remete à associação da modalidade deôntica com a noção de futuridade classificada pelos gramáticos “como um futuro obrigatório” e restringindo a ocorrência do auxiliar ter ao presente do indicativo.
compreende os significados modais que são usados para predicar condições internas e externas sobre um agente em relação à execução de uma ação ou evento referida no predicado principal, envolvendo valores de obrigação, necessidade, habilidade, permissão, intenção e volição. A obrigação refere-se a condições externas que forçam um agente a executar uma ação e pode ser [+forte] ou [+fraca], como nos exemplos abaixo extraídos de Coates (1983):
All students must obtain the consent of the Dean of the facullty concerned before entering for examination (p. 35).
I just insisted very firmly on calling her Miss Tillman, but one should really call her Presiden (p. 59).
Como ressaltam Bybee, Perkins & Pagliuca (1994, p, 184), diferente dos modais acima exemplificados, have to tende a expressar obrigações mais gerais e o comprometimento do agente com a obrigação é frequentemente aparente (como em I have to go now).
O valor de necessidade refere-se a condições físicas que forçam um agente a realizar uma ação, como no exemplo abaixo, extraído de Bybee, Perkins & Pagliuca (1994):
I need to hear a good loud alarm in the mornings to wake up (p.177).
A modalidade orientada para o falante envolve tipos de atos de fala, como ordens, pedidos, proibições, exortações, permissões. A diferença entre modalidade orientada para o agente e a orientada para o falante, segundo Bybee, Perkins & Pagliuca (op. cit.), reside nas condições impostas ao agente que não fazem parte da segunda. A modalidade epistêmica, sob a perspectiva desses autores e de acordo com a definição tradicional, compreende os valores de possibilidade, probabilidade e certeza inferida, indicando o grau de comprometimento do falante com a verdade da proposição.
Palmer (2001) também discute a redução deôntico/epistêmico, destacando a necessidade de considerar, separadamente, a modalidade dinâmica, que se relaciona à capacidade, disposição, volição e à habilidade do sujeito, internas ao próprio indivíduo e, portanto, mais básica.37 O autor admite, ainda, a necessidade de distinguir diferentes formas
37 Palmer (2001, p. 10) demonstra a distinção entre modalidade deôntica e dinâmica através dos seguintes exemplos: John may/can come in now (permissão), no sentido de que é deonticamente possível que John venha agora. John must come in now (obrigação), no sentido de que é deonticamente necessário que John venha agora. Em John can speak French (habilidade) e John will do it for you (volição), a modalidade é dinâmica.
de uso deôntico de acordo com o ato de fala que realizam. Deste modo, estabelece dois tipos básicos de modalidade deôntica: a diretiva e a comissiva. Observa que, embora a modalidade deôntica se origine de um tipo de autoridade externa, como regras e leis, típica e frequentemente, a autoridade é um falante real que autoriza algo ou estabelece uma obrigação ao receptor, ou seja, é diretiva.38
Aparentemente, a modalidade epistêmica coloca menos problemas na sua amplitude e extensão; modais epistêmicos indicam o grau de comprometimento do falante em relação à proposição enunciada, com base nas possíveis relações entre os fatos. Portanto, a fonte da modalidade epistêmica, geralmente, é um falante, que conclui se a proposição é verdadeira ou não (cf. TRAUGOTT & DASHER, 2005). Uma questão a considerar, no entanto, é o tipo de julgamento envolvido no processo inferencial que caracteriza a modalidade epistêmica. Bybee & Fleischman (1995), por exemplo, argumentam que não há razão para restringir o domínio epistêmico apenas às noções de possibilidade e necessidade de acordo com a tradição da lógica modal. Entendendo os autores que a modalidade epistêmica expressa o grau de comprometimento do falante em relação à proposicão contida em um enunciado, propõem que esse domínio, além de indicar possibilidade (como em we may/might lose the election) ou necessidade (como em they have won the election), pode abranger a categoria evidencial (cf. também BYBEE et al., 1994; Von FINTEL, 2006), entendida como a possibilidade (não necessidade) de um EsC ser verdadeiro. Palmer (2001) detalha essa proposta, ao estabelecer três tipos de julgamento no uso de modais epistêmicos: especulativo (dubitativo para BYBEE, 1985), dedutivo, quando se faz uma inferência advinda de uma evidência observável, e o julgamento que pressupõe uma suposição, quando há uma inferência advinda do que é conhecido. O autor (op. cit. p. 6) apresenta os seguintes exemplos com os verbos modais may, must e will:
(a) Kate may be at home now (uma possível conclusão → especulação)
(b) Kate must be at home now (a única conclusão possível → dedutiva)39 (c) Kate will be at home now (uma conclusão racional → suposição)
38
Palmer (op. cit., p. 10) ainda estabelece outras subdivisões em relação à modalidade deôntica: a permissiva e a
comissiva. A primeira refere-se à permissão concedida pelo falante, como em He can go now; a segunda, ao comprometimento do enunciador, como em You shall have it tomorrow.
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Coates (1983) observa que o must epistêmico, no seu uso mais prototípico, indica a confiança do falante em relação à verdade do que ele diz baseado em uma dedução advinda de fatos conhecidos (que podem ou não ser especificados). Assim, em Kate must be at home (cf. p. 41) pode decorrer de um julgamento baseado na observação de que ela não está em seu escritório.
Em (a), o falante não tem certeza se Kate está em casa, correspondendo, portanto, ao domínio da possibilidade epistêmica. De forma diferente, em (b), o falante faz um julgamento, baseando-se em uma evidência, como a luz está acesa. Neste caso, há um raciocínio inferencial que advém da observação: se a luz está acesa, portanto ela deve estar em casa, ou seja, é epistemicamente necessário que Kate esteja em casa. Em (c), o julgamento baseia-se numa inferência do que se sabe sobre Kate: se ela sempre fica em casa à tarde, portanto ela agora está lá. Podemos perceber que nesses contextos o modal must indica uma conclusão mais incisiva que will.
Dois pontos, na verdade interrelacionados, merecem maior destaque: (i) a indeterminação ou ambiguidade dos elementos modais e (ii) a distribuição tanto dos valores deônticos como dos valores epistêmicos na forma de um continuum. No estudo de diversas línguas, já ficou evidenciado que a divisão tradicional entre modalidade deôntica e epistêmica nem sempre pode ser mantida, visto que uma mesma forma pode ser usada para os dois tipos de modalidade, investindo-se de uma certa polissemia (cf. COATES, 1983; BYBEE, 1985; PALMER, 1986, 2001; BYBEE, PERKINS & PAGLIUCA, 1994; BYBEE & FLEISCHMAN, 1995; OLIVEIRA, 2003; NEVES, 2000, 2003, 2006, dentre outros) que, em alguns casos, nem sempre pode ser resolvida no contexto mais amplo em que as formas ocorrem, instaurando o que Neves (2006, p. 180) denomina de uma “leitura preferida”. Entretanto, como mostra Coates (1983), em muitos casos, não é possível especificar, entre dois valores modais, qual é o pretendido pelo enunciador, como no seguinte exemplo retomado da autora:
He must understand that we mean business. (COATES, op. cit, p. 16)
No seu valor epistêmico, must indica que „certamente ele entende o que queremos dizer com business‟. No seu valor modal de raiz (root-modal), indica que „é essencial que ele entenda o que queremos dizer com business‟. Deste modo, não é possível descobrir, através do contexto, qual é o significado atribuído ao modal must. E, como os dois são bem distintos, um deve ser escolhido.
No que se refere à gradiência de valores modais, assumimos a posição defendida por Neves (2002), para quem essa questão tem que ser tratada de forma diferente para a modalidade deôntica e a epistêmica. No domínio deôntico, podem-se distinguir formas de
julgamento que vão do obrigatório ao permitido, e, mesmo no julgamento obrigatório, é possível falar em um cline que vai de obrigação mais forte, mais imperiosa a obrigação mais fraca (cf., por exemplo, COATES, 1983; SWEETSER, 1990). No domínio epistêmico podem ser identificados diferentes e imprecisos graus entre o certo e o possível. Na verdade, uma gradação, como certeza → probabilidade → possibilidade, é uma simplificação, na medida em que desconsidera as diferentes formas de envolvimento do enunciador no ato de
comunicação. Como destaca Palmer (2001), mesmo no domínio deôntico, podem-se
distinguir graus diferenciados de envolvimento do falante. Assim, em uma frase, como Você deve chegar em casa até meia noite, pode haver maior envolvimento (se o falante obriga alguém a fazer alguma coisa é porque ele quer que a ação seja executada) do que em Você deve correr se quiser pegar o ônibus, em que a realização ou não da ação não é de interesse do falante.
Os diferentes pontos de um continum deôntico podem, inclusive, estar associados a propriedades gramaticais diferenciadas. Prototipicamente, os modais deônticos se associam a propriedades como sujeito humano e verbo principal [+ dinâmico] (cf., por exemplo, BIBER, 1999). Coates (1983) defende, no entanto, que modais deônticos, como have to, se associam a traços gramaticais distintos, expressando obrigação [+forte] ou obrigação [-forte], da seguinte forma40
:
Obrigação [+forte] – valor mais imperativo
verbo principal de atividade/ sujeito de segunda pessoa. O falante tem mais autoridade sobre o sujeito.
Obrigação [+fraca] – menor valor imperativo verbo principal estativo/sujeito de terceira pessoa. O falante tem menos autoridade sobre o sujeito.
Von Fintel (2006) considera, porém, que o uso de have to + infinitivo com predicados estativos podem ser ambíguos, ou seja, compatíveis tanto com a interpretação deôntica quanto com a epistêmica, como mostra o seguinte exemplo reproduzido do autor:
He has to be in his office (p. 11).
40 Para Coates (1990, p. 56) have to corresponde a um recurso muito útil, quando os falantes querem expressar obrigação, mas ao mesmo tempo pretendem deixar claro que eles não são a fonte autoritária da imposição.
Não se pode excluir, porém, a possibilidade de que a fonte da imposição (externa ou interna) contribua igualmente para determinar a força de um modal deôntico (cf. SWEETSER, 1990). Em um exemplo como, Ele tem que correr se não perde o ônibus, o modal ter que + infinitivo tem maior força imperativa, na medida em que a fonte da obrigação é uma circunstância externa independente da vontade do enunciador. Coates (1990) considera que usos como esses constituem um recurso muito útil quando os falantes querem deixar claro que eles não são a fonte autoritária da obrigação.
Os aspectos discutidos até aqui deixam claro que, no estudo da modalidade, é necessário considerar toda a situação comunicativa – os participantes, o grau de envolvimento desses com o EsC, o evento, assim como o contexto discursivo. Procurando dar conta desses diferentes aspectos, Olbertz (1998) e Hengeveld (2004) propõem que, para uma compreensão mais aprofundada dos diferentes usos dos elementos modais, deve-se distinguir dois parâmetros: alvo e domínio semântico. O alvo refere-se à parte do enunciado que é modalizado, e domínio, à perspectiva sob a qual a avaliação é realizada. Nesse sentido, os autores revisam a distinção objetiva/subjetiva proposta por Lyons (1977), entendida no nível do domínio, e a situam no nível do alvo da avaliação.
Quanto ao alvo da avaliação modal, os autores distinguem três possibilidades: orientada para o participante, para o evento e para a proposição. A orientação para o participante41 refere-se à possibilidade ou à necessidade de um participante [+animado] comprometer-se com o EsC, como em
John wants to be young again (HENGEVELD, 2004, p. 1194)
Como o participante pode ser [+agentivo] ou [–agentivo], distingue-se da modalidade orientada para o agente (BYBEE, PERKINS & PAGLIUCA, 1994). O termo agente, na opinião de Hengeveld (2004, p. 1194), “não é muito feliz, na medida em que sugere que somente participantes controladores de eventos dinâmicos se submetem a este tipo de modalização."42
A modalidade orientada para o evento corresponde à (im)possibilidade, (in)certeza ou obrigatoriedade/necessidade de ocorrência de um evento, sem que haja intervenção do
41 O termo participante refere-se ao primeiro argumento do verbo (cf. OLBERTZ, 1998).
42“[ ] is not too felicitous in that it suggest that only controlling participants in dynamic events may be subject to this type of modalization”.
falante no julgamento. Hengeveld (2004) ressalta que este tipo de alvo é melhor ilustrado através de sentenças em que ocorrem duas expressões modais, uma orientada para o evento e outra para a proposição, como em
Certainly he may forgotten (p. 1194)
Neste exemplo, são conjugados dois julgamentos epistêmicos em diferentes níveis: o falante compromete-se com a verdade da proposição (he may forgotten) através do advérbio de enunciação certainly e do verbo modal may que indicam a possibilidade de ocorrer o evento (he has forgotten). Portanto, o falante expressa certeza sobre uma possibilidade, no caso objetiva, nos termos de Lyons (1977) (cf. também HALLIDAY, 1970; COATES, 1983). A modalidade epistêmica orientada para a proposição refere-se ao conteúdo proposicional de um enunciado, ou seja, corresponde à parte do enunciado que representa pontos de vista e crenças do falante, indicando o seu grau de comprometimento, portanto sua atitude subjetiva, em relação à proposição que ele apresenta (cf. HENGEVELD, 2004). O exemplo seguinte, extraído de Olbertz (1998), ilustra a incidência do alvo sobre a proposição:
CONTEXT: (in a conversation about his deceased wife, a man tells his friend
that he believes in God, to which the friend reacts:) - Entonces, tiene que ser muy fácil para ti (p. 404)
No exemplo acima, o uso de tener que + infinitivo expressa que o interlocutor está convencido sobre a verdade da proposição que enuncia (atitude subjetiva).
Quanto ao domínio, Hengeveld (op. cit., p. 1193) distingue cinco tipos de modalidade: facultativa, deôntica, volitiva, epistêmica e a evidencial. A modalidade facultativa relaciona-se com as capacidades intrínsecas (físicas) ou adquiridas (como em John is able to swim). A deôntica diz respeito às imposições legais, sociais, morais (como em John has to swim). A volitiva expressa desejo (como em John would rather not swim). A epistêmica envolve a avaliação da possibilidade de ocorrência de um EsC pelo falante,
baseando-se em seu conhecimento (como em John may be swimming). A modalidade
evidencial refere-se à fonte da informação de um enunciado, que pode ser inferencial (como em John will be swimming).
A proposta de Hengeveld (2004) assemelha-se, em alguns pontos, à apresentada por Olbertz (1998) que estabelece os seguintes domínios de avaliação modal: inerente, volitivo, deôntico, epistêmico e inferencial. Olbertz (1998) distingue modalidade inerente intrínseca (ou facultativa) de extrínseca do seguinte modo: enquanto a primeira corresponde à avaliação das habilidades de um participante animado e refere-se às capacidades físicas inatas ou adquiridas, a modalidade extrínseca corresponde à avaliação do que é circunstancialmente possível ou necessário. A modalidade deôntica, acompanhando a posição de outros autores já mencionados, corresponde à avaliação do que é obrigatório (legal, social ou moralmente) ou permissível. A autora (op. cit.) propõe, ainda, tratar a modalidade inferencial (evidencial para
HENGEVELD, 2004; Von FINTEL, 2006) separadamente da epistêmica, que corresponde à
avaliação do que é conhecido pelo falante sobre o mundo real.43
Segundo a proposta de Olbertz (1998) e Hengeveld (2004), as associações possíveis entre as dimensões domínio e alvo resultam em diferentes combinações que podem explicar, mais detalhadamente, os diferentes usos de um mesmo elemento modal. Vamos nos restringir apenas aos domínios que se aplicam mais diretamente ao estudo das construções modais com ter, retomando os exemplos analisados por Olbertz (op. cit.) para tener que + infinitivo em Espanhol.
A modalidade inerente extrínseca com alvo no participante ocorre quando a construção tener que + infinitivo expressa necessidade e indica que o participante [+animado] compromete-se com o EsC devido a circunstâncias externas, como em:
La tuve que vender porque me hacía falta el dinero (p. 380)
Como destaca a autora, embora não seja obrigatório, na grande maioria dos casos, nesta função, a construção tener que + infinitivo é acompanhada por uma motivação explícita que justifica a necessidade de o falante se engajar na realização do estado de coisas (cf. também HAVERKATE, 1979, p. 122).
A modalidade inerente extrínseca com alvo no evento corresponde à necessidade de ocorrência de um EsC devido a circunstâncias externas ao EsC, mas inerente ao EsC, no sentido de que elas condicionam a sua realização, como em
43 Olbertz (1998, p. 410) estabelece distinção entre modalidade epistêmica e inferencial,em relação à fonte do comprometimento do falante: na primeira, a fonte corresponde às crenças e convicções pessoais do falante; na segunda, a evidência é inferida da verdade da proposição.
Esas ruedas tendrían que ser de hierro para soportar el natural desgaste (p. 387)
No exemplo acima, pode ser reconstituído um raciocínio em que A implica B, ou seja, se há um desgaste natural das rodas, então elas têm que ser de ferro. O uso frequente dessa relação determina a necessidade do EsC „as rodas serem de ferro‟.
A modalidade deôntica com alvo no participante envolve um participante
[+animado] que é obrigado a se comprometer com o EsC. A fonte da obrigação é uma pessoa e a obrigação imposta pode estar (ou não) de acordo com normas morais, sociais ou legais. Constituem, na maioria das vezes, atos de fala diretivos ou necessidade deôntica imposta a si mesmo pelo próprio falante (alvo e fonte), como, respectivamente, em:
Ahora lo que tienes que hacer es volver a la cama (p. 384)
tenía que volver a verla cuanto antes y declararle mi pasíon (p. 384)
Olbertz (1998) observa que, menos frequentemente, tener que + infinitivo é usado para expressar necessidade/obrigação que derivam de convenções, como em:
CONTEXT: (about the access to the books in a library)
Teníamos que pedir permiso (p. 384)
Como discute a autora, neste domínio e alvo, parece haver uma superposiçao funcional entre o semi-auxiliar deber e tener que + infinitivo. Ressalta, no entanto, uma diferença semântica44 entre as duas formas de modalização: tener que + infinitivo apresenta obrigação de uma forma categórica, inexorável, ou seja, “o participante não tem outra escolha que não seja a de se engajar no estado de coisas em questão45”. (cf. DUMITRESCU, 1988, p. 141). Esse mesmo significado de inexorabilidade do EsC modalizado por tener que pode ser constatado no domínio inerente, modificando-se, no caso, apenas a fonte da obrigação.