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Propriedades semântico-discursivas do contexto

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 142-152)

5 PROPRIEDADES E TRAJETÓRIA DAS CONSTRUÇÕES MODAIS COM TER

5.5 Propriedades semântico-discursivas do contexto

Nesta seção, estendemos a análise ao contexto mais amplo em que se inserem as construções ter que/de + infinitivo, considerando a relação semântico-discursiva entre as orações com as construções ter de + infinitivo e ter que + infinitivo e as orações adjacentes (precedentes ou subsequentes), com o objetivo de evidenciar a forma como essas relações podem ancorar a interpretação modal que emerge naquele contexto. Nesta análise, seguimos a perspectiva de Kratzer (cf. 1981, 1991 apud Von FINTEL, 2006, p. 5) para quem

] ao invés de tratar os numerosos significados modais como um caso (acidental) de polissemia, deve ser considerado como o resultado da dependência-contextual. Em outras palavras, as expressões modais têm em si mesmas um significado que lhe é próprio e é somente pela combinação com o background

contextual que elas assumem uma forma particular de significado (tal como epistêmico ou deôntico) (cf. KRATZER, 1981, 1991, apud Von FINTEL, 2006, p. 5).93

93 [ ] rather than treating the multitude of modal meanings as a case of (accidental) polysemy, it should be seen as the outcome of context-dependency. In other words, modal expressions have in of themselves a rather skeletal

Assim como Kratzer (1981, 1991), Von Fintel (2006) considera que a interpretação de um determinado elemento modal pode ficar explícita pelas pistas disponíveis no seu contorno.

Na grande maioria das suas ocorrências, as orações com ter que + infinitivo ou ter + de + infinitivo registradas nas amostras Censo estão ligadas a outras, dando origem a períodos complexos nos quais emergem diferentes relações lógico-semânticas. Partindo da hipótese de que essa propriedade pode explicar os diferentes valores modais instanciados pelas construções modais com ter, controlamos as relações semânticas que se estabelecem entre a oração com a construção modal e aquela que a antecede ou a segue, de acordo com a maior relevância no contexto discursivo e independentemente da presença ou ausência de conectores explícitos. Nesse sentido, acompanhamos a posição de Decat (2001), para quem:

Importa o tipo de proposição relacional que emerge da articulação de cláusulas, e não a marca lexical dessa relação. Tal marca restringe-se, em muitos casos, à função de estabelecer um elo [ ] entre duas porções textuais [ ]. A materialização linguística (codificação) desse tipo de relação hipotática poderá vir a ser feita por intermédio de outros tipos de elo como, por exemplo, a pausa e a entonação [ ] que poderão se mostrar relevantes para a determinação da inferência resultante da relação hipotática adverbial. (DECAT, 2001, p. 128-9).

Reconhecemos, nas amostras sob análise, as seguintes relações:94

Relação de condição

(77) F: Quer dizer que então não é interessante, para mim, sair daqui, não é? Ainda mais agora, com trinta e nove anos. Se eu sair daqui, tenho que sair daqui já formado, já com uma situação financeira bem estabelecida, não é? Aí dá para se sair do lugar. Que a gente não saindo, a gente não saindo daqui, para a gente é o melhor negócio. (CEN-80/09)

Em (77), o EsC codificado na oração núcleo que contém a construção modal com ter é apresentado como certo, desde que, eventualmente, seja satisfeita a condição enunciada na oração adverbial hipotética introduzida por se. Assim, a atitude do enunciador em relação à „realidade‟ da informação contida na oração adverbial é de suposição/hipótese (fato possível/provável) expressa através do conectivo se e pelo futuro do subjuntivo sair. Nesse meaning and it is only in combination with the background context that they take on a particular shade of meaning (such as epistemic or deontic) (cf. KRATZER, 1981, 1999 apud von FINTEL, 2006, p. 5).

94 Excluímos dessa análise as relações por projeção (cf. Halliday 1994, 2004)representadas quer pelo discurso direto quer pelo indireto que correspondem a 15 ocorrências na amostra Censo 1980 e 31 na amostra Censo 2000.

tipo de condicionais, esquema [se+subjuntivo/indicativo], o mundo é representado

epistemicamente possível (cf. GRYNER, 1990). Deste modo, a oração com a construção ter

que + infinitivo contém uma inferência do que se declara na oração anterior, ou seja, corresponde à construção condicional canônica, estrutura “se p,(então) que” (uso prototípico da condicional).

Relação de tempo

(78) F: Teve arrastão na praia, lá pro lado da Barra, não sei pra onde que foi, é que tava muito calor, né aí [encheu] a praia em pleno feriado, aí quando foi de tarde foi arrastão, o pessoal saiu correndo, daqui a pouco não pode ir mais na praia, ou tem que ir bem cedinho enquanto tá todo mundo dormindo e voltar quando eles acordarem. (CEN-00/18)

Em (78), a ocorrência do EsC expresso na oração-núcleo com a construção modal ter que + infinitivo é co-extensiva ao EsC introduzido pela oração enquanto tá todo mundo dormindo, superpondo-se temporalmente a ele.

Relação de causalidade

(79) E: O senhô acha que, a máquina vai ajudá o seu desempenho? F: E muito, e muito.

E: Vai fazê com que o senhô produza cada vez mais?

F: Ela foi feita pra isso. Eu tenho que dominá-la, não ela a mim, entendeu? se ela tá ali, se ela pensa... que a máquina num pensa, ela faz aquilo que eu penso, entendeu? Então, eu tenho que fazê ela trabalhá pra mim, se fosse assim, eu fazia um monte de cálculo pra chegá a um determinado número, eu boto a máquina pra fazê isso. (CEN-00/31)

Em (79), a oração que contém a construção modal com ter estabelece com aquelas que a precede uma relação de causalidade.

Relação de finalidade

(80) E: Eu quero que você descreva o seu dia, o seu dia. Se acorda,você faz o quê primeiramente até a noite?

F: Eu tenho que acordar seis e <mei-> seis horas pra ir pra escola, aí eu acordo, tomo banho, escovo os dentes, tomo café, me arrumo e vou pra escola. Quando eu volto, eu fico dormindo. E a noite eu vou pra rua. Até umas dez horas, dez e meia e vou dormi de novo pra ir pra escola no outro dia. (CEN-00/04)

Em (80), a necessidade expressa na oração núcleo se explica em função de um objetivo, um propósito a ser alcançado, expresso na oração hipotática final. Portanto, uma circunstância externa motiva a realização do EsC: acordar às seis horas.

Além das relações no domínio da condicionalidade, exemplificadas até aqui, foram encontradas ainda as seguintes relações:

Relação de contraste/oposição

(81) F: Sou a favor mesmo da mulher trabalhar. Agora, sinto que as crianças às vezes sofrem com isso. Por isso que eu estou sonhando em ser vovó "e" poder dar aquela ajuda para os meus filhos, que eu acho que realmente não dá para mulher ficar em casa sem trabalhar hoje em dia. Não dá mesmo! Todos têm que trabalhar, mas elas vão enfrentar, as mulheres, muita tentações na rua, não é? (CEN-80/48)

Em (81), o contraste efetuado pelo conector mas, pode ser explicado com base no

conhecimento comum, culturalmente partilhado, de que todos têm que trabalhar.

Contrariando esse pressuposto consensual, o informante, embora aceitando que tal regra se aplica às mulheres, coloca-se na posição de que elas enfrentarão mais problemas nas ruas em razão do assédio de que podem ser vítimas.

Na relação semântica por contraste/oposição, consideramos tanto as adversativas como as concessivas95, visto que ambas têm o significado básico de “contrariedade à expectativa”, derivado do conteúdo do que está sendo dito (cf. HALLIDAY & HASAN, 1976; MIRA MATEUS ET AL., 1983).

Outra relação possível entre as orações com as construções modais com ter e as adjacentes envolvem situações em que a oração na qual ocorre a construção ter que + infinitivo constitui uma oração conformativa, geralmente introduzida pelas conjunções prototípicas conforme, consoante, segundo e como (cf. NEVES, 2000), como no seguinte exemplo:

95 O conector contrastivo prototípico é mas. Além deste, o contraste interoracional pode ser marcado por diversas expressões contrastivas, como agora, e, já, porém, entretanto, no entanto, por outro lado, ao contrário. Na ausência de marcadores explícitos, o contraste pode ser recuperado pela entoação e/ou pelo contexto. (cf. GRYNER, 2008, p. 217).

Relação de conformidade

(82) F: Quer dizer, "quis ver não." o brasileiro [mesmo]- mesmo não sabendo muito, ele conseguiu inventar um- E aí esse <negócio> do bujão de gás no... automóvel, está num instante o brasileiro conseguiu, fazer errado, porque eles não fazem aquilo conforme tem que ser feito. Então, começa [a]- a explodir. Sabe que dá certo. "Porque" brasileiro descobriu que aquilo dá certo. (CEN-80/08)

Os diferentes tipos de relação entre orações acima apresentados estariam incluídos no que Halliday (1994, 2004) denomina hipotaxe de realce por não estarem sujeitas a uma integração sintática estrutural, ou seja, a oração satélite não funciona como um constituinte da oração núcleo. Estabelece-se entre elas uma relação de interdependência semântica.

Além desses tipos, foram consideradas as seguintes outras possibilidades de relação da oração com ter que e ter de + infinitivo com as orações adjacentes:

Relação de adição

(83) E: Como é que é feito isso?

F: Ah, é, muqueca, [claro].é claro que tem uma porção de rituais, né? Cê tem que comprá um peixe fresco, limpá-lo muito bem, deixá-lo de molho de um dia pro outro, à base de limão, salsa, cebolinha, alho, cebola e no dia seguinte você começa um ritual grande no fogo. (CEN-00/29)

Em (83), nas orações sublinhadas, temos uma relação de adição entre a oração com a construção ter que + infinitivo e as subsequentes numa sucessão temporal. Nesse caso, optamos por considerar a relação com as orações subsequentes por entendermos que, no contexto discursivo em que se insere a construção ter que + infinitivo, a relação de adição torna-se mais relevante do que a relação com a oração anterior.96

Relação de especificação/expansão de um SN (84) E: Por que você gosta de vôlei?

F: Eu não sei, acho que é por causa dos saque, da cortada que a gente tem que dar. É por isso que eu gosto de vôlei. (CEN-80/02)

Em (84), conforme já explicitamos, embora emerja outras relações semânticas, como a relação de conclusão entre a oração com a construção modal e a subsequente, optamos, por considerarmos mais relevante, pela relação de especificação/expansão de SN entre a oração

96 Tal procedimento foi adotado para todos os casos em que a relação semântica entre a oração com as construções modais com ter poderia ocorrer com a oração antecedente ou com a subsequente.

com a construção modal e a antecedente. Tratamos, separadamente, os casos em que a oração

com a construção modal com ter opera uma expansão do SN, introduzindo uma informação

adicional que explica ou restringe uma informação anterior. Em (84), a oração que a gente tem que dar se encaixa nos SNs que a antecede (saque/cortada), restringindo-os. O falante explicita que as normas do vôlei (saque/cortada) podem ser o motivo de ele gostar desse esporte.

Há, ainda, os casos em que a oração modalizada com ter se apresenta desvinculada, constituindo uma forma de acréscimo ou explicitação dentro de um discurso, como no exemplo (85):

Oração desvinculada

(85) F: Aí você joga em cima "no" bacalhau. Primeiro você passa um pouco assim [de]- de óleo em volta do tabuleiro para não segurar, não é? Aí você bota o bacalhau, forra direitinho, assim, tudo... para ficar bem certinha, você joga o creme ali em cima "de" tudo, aí joga o camarão assim em cima. O camarão tem que ser inteiro. Aí joga aquela azeitonas, tudo em cima, não é? Ah, fica uma delícia! Poxa, fica um prato! (CEN-80/12)

A tabela 21 mostra, em termos de frequência, a distribuição das orações modalizadas com ter que + infinitivo de acordo com a relação proposicional que estabelecem com as cláusulas adjacentes nas amostras Censo 1980 e Censo 2000:

Tabela 21 – Distribuição de ter que + infinitivo de acordo com a relação semântica entre as orações.

Relação semântica Censo 1980 Censo 2000

Condição 62 = 10% 51 = 7% Finalidade 94 = 16% 82 = 12% Contraste/oposição 79 = 13% 80 = 12% Causa/explicação/consequência/conclusão 199 = 34% 253 = 38% Conformidade 4 = 0% 6 = 1% Tempo 29 = 4% 27 = 4% Especificação/Expansão de um SN 11 = 1% 21 = 3% Adição 29 = 4% 93 = 14% Desvinculada 17 = 2% 40 = 6% Total 581 663

A tabela 21 sinaliza, nas duas sincronias, a correlação entre ter que + infinitivo e algumas relações semânticas, em especial às que se situam no domínio da causalidade (causa, explicação, consequência e conclusão). De forma regular nas duas amostras, predomina a relação de causalidade, com 34%, na amostra de 1980 e 38%, na amostra de 2000. Podem ser observadas, ainda, outras semelhanças entre as duas amostras, na recorrência das relações de finalidade e contraste. No entanto, verificam-se algumas diferenças importantes na hierarquia da relação de adição e das orações desvinculadas. A relação de adição, em 1980, apresenta frequência bastante baixa (4%); em 2000, apresenta índice de 14%, aproximando-se aos de finalidade e contraste, o que indica, portanto, que essa relação ganha maior relevância ao longo do período que separa as duas amostras.

Ao que tudo indica, a relação de causalidade entre a oração com ter que + infinitivo e as adjacentes é independente da polaridade da oração, visto que, nas orações com ter que + infinitivo com polaridade negativa, verifica-se igualmente essa contextualização, com 62% (5/8) na amostra Censo 1980 e 33% (3/9) na amostra Censo 2000. A predominância dessa relação é confirmada nos dados da amostra NURC, tanto em inquéritos do tipo DID como nas EF, com 34% (21/62) e 35%% (15/43), respectivamente.

Essa correlação parece ser inerente aos próprios valores modais expressos pelas construções com ter e independente da forma da construção. Mesmo que sejam poucas as ocorrências tanto nas amostras Censo como na amostra NURC, constatamos que ter de + infinitivo também está associada à relação causal. Nas entrevistas do tipo DID, por exemplo, observa-se que, em 57% dos casos (4/7), essa construção modal está conectada a outra oração pelo elo de causalidade/explicação.

Parece, portanto, que as orações com a construção ter que + infinitivo, ou mesmo as com ter de + infinitivo, tendem a predominar em contextos em que emergem relações semânticas de causalidade/explicação, seja em registros orais mais formais, como nas EF, ou em registros menos formais, semi-espontâneos, como nas amostras Censo 1980, Censo 2000 e DID.

É, ainda, plausível supor uma correlação entre o valor modal expresso pela perífrase ter que + infinitivo e a relação semântica entre as orações adjacentes. Deste modo, podemos pressupor que essa construção esteja mais associada aos domínios extrínseco e deôntico nos quais emerjam relações proposicionais de condição, causa/explicação, finalidade ou tempo em que uma circunstância e/ou „princípios‟ estejam ancorados em uma condição, para que um

EsC se torne necessário/obrigatório. Por outro lado, as relações de contraste/oposição e adição poderiam estar mais correlacionadas ao domínio epistêmico, considerando que tais contextos limitam-se a constatar mais uma necessidade do que impor uma injunção.

Essas hipóteses são verificadas através de um cruzamento entre a relação semântica estabelecida pela oração com ter que + infinitivo e o tipo de modalidade codificada, concentrando-nos naquelas que se mostraram mais recorrentes: causa/explicação, finalidade, contraste/oposição, condição, adição e tempo. Os resultados obtidos para a amostra Censo 1980 encontram-se na tabela 22:

Tabela 22 – Interação entre domínio modal e relação semântica entre as orações – Amostra Censo 1980.

Domínio modal/

Rel. Semântica Extrínseco Deôntico Epistêmico

Condição 23 = 10% 26 = 11% 13 = 16% Finalidade 57 = 25% 31 = 13% 6 = 3% Contraste/Oposição 18 = 8% 41 = 17% 20 = 24% Causa/Explicação 94 = 42% 110 = 46% 42 = 51% Tempo 17 = 8% 10 = 4% 2 = 2% Adição 12 = 5% 17 = 7% 0 = 0% Total 223 236 83

Os dados da tabela 22 reiteram a correlação entre relações semânticas no domínio da causalidade e o valor modal da perífrase ter que + infinitivo. De acordo com essa tabela, a relação semântica de causa/explicação predomina para todos os valores modais da perífrase ter que + infinitivo: 42% no domínio extrínseco, 46% no domínio deôntico e destaca-se, principalmente, no domínio epistêmico, com 51%. Convém ressaltar que, no domínio extrínseco, a grande maioria dos casos de relação causal ocorre com alvo no participante, 44% (73/169).

Podemos observar, ainda, na tabela 22, que os diferentes valores semânticos se distinguem em termos da segunda relação semântica mais frequente. No domínio extrínseco, ressalta a relação semântica de finalidade, com 25%. No domínio deôntico, não chega a haver diferença entre os índices para contraste (17%), finalidade (13%) e condição (11%). No domínio epistêmico, por sua vez, destacam-se as relações de constraste (24%) e condição (16%).

A maioria dessas correlações é confirmada na tabela 23, relativa à amostra Censo 2000:

Tabela 23 – Interação entre domínio modal e relação semântica entre as orações – Amostra Censo 2000.

Domínio modal/

Rel. Semântica Extrínseco Deôntico Epistêmico

Condicão 15 = 8% 26 = 8% 10 = 11% Finalidade 35 = 19% 42 = 13% 5 = 5% Contraste/Oposição 22 = 12% 41 = 13% 17 = 19% Causa/Explicação 96 = 51% 122 = 38% 45 = 50% Tempo 12 = 6% 12 = 4% 3 = 3% Adição 6 = 3% 77 = 24% 10 = 11% Total 186 320 90

Comparando as tabelas 22 e 23, podem ser atestadas maiores similaridades entre os dois períodos no que diz respeito aos domínios extrínseco e epistêmico. Assim como na amostra Censo 1980, na amostra Censo 2000, observa-se o predomínio de orações com ter que + infinitivo ligadas à outra oração que expressa a causa/explicação, com 51% e 50%, respectivamente. Uma outra similaridade é que, no domínio extrínseco, a relação de finalidade aparece como a segunda mais frequente, com 19%.

A diferença mais notável entre os dois períodos considerados diz respeito à relação de adição nos domínios deôntico e epistêmico, considerando que, na amostra Censo 1980, no domínio deôntico (7%) e epistêmico (0%) aumenta significativamente na amostra Censo 2000: 24% no domínio deôntico e 11% no epistêmico. Nesse sentido, a semelhança entre as duas amostras encontra-se na perda de expressividade da relação de adição no domínio extrínseco, 5% na amostra Censo 1980 e 3% na amostra Censo 2000.

Uma primeira regularidade, que se destaca na análise do contexto em que se insere a construção ter que + infinitivo, é a recorrência da relação semântica de causa/explicação. Convém destacar que , no domínio extrínseco e no deôntico, em contextos nos quais é explicitada uma causa/explicação para uma injunção, ter que + infinitivo incide sobre o participante, tanto na amostra Censo 1980, com 41% (62/152), quanto na amostra Censo 2000, com 44% (73/169), como podemos observar nos exemplos (86) e (87):

Relação de causa/explicação no domínio extrínseco

(86) E: Você não gosta de lugar calmo que nem aqui a sua casa? F: Eu não gosto não.

E: Por quê?

F: Ah, porque eu me sinto mal. [Olha] quando eu estou dormindo, está todo mundo dormindo, sabe? Lá no meu quarto quase ninguém ronca, mas daí fica aquele silêncio, aquilo vai me dando um nervoso. Daí eu tenho que falar alguma coisa. Falando sozinha, isso eu acho que é psicológico. Porque me dá um nervoso, eu falo, daí eu falo alto. (CEN-80/52)

Relação de causa/explicação no domínio deôntico (87) E: Agora me diz: Você acredita assim em espírito?

F: Ah, eu acredito. Eu não tenho, eu não tenho desconfiança de nada. Não tenho desconfiança de nada. Eu acredito em tudo. Tudo que a pessoa me falá, eu acredito, por exemplo assim: cada um tem a sua religião, certo? Então eu não posso, eu não posso... zombá de ninguém. Eu sempre tenho que tê respeito "com as" com as pessoas que... que tem cada um tem a sua religião. Então... eu sou assim. Cada um tem a sua, cada um toca teu barco. (CEN-00/05)

A correlação de causa/explicação no domínio extrínseco pode ser explicada como uma consequência da fonte de imposição nesse valor modal, ou seja, é uma circunstância/condição externa que acarreta a execução de uma ação. Em (86), por exemplo, o silêncio/nervosismo determina a necessidade de o participante falar alguma coisa. A correlação de causa/explicação no domínio deôntico, como em (87), por outro lado, parece envolver outros aspectos que dizem respeito à natureza imperativa desse valor modal. De acordo com a posição de Von Fintel (2006), a modalidade deôntica baseia-se numa circunstância que pode ser ou não explicitada. Nos dados sob análise, encontramos uma tendência de essa base circunstancial ser explicitada, mesmo sendo desnecessária, em razão do caráter de regra/convenções mais gerais da injunção colocada, como ocorre em (87). A recorrência de causais/explicativas ligadas às orações com ter que + infinitivo, nesse domínio, pode ser entendida, portanto, como uma forma de atenuação do valor imperativo da construção, visto que a imposição de uma obrigação pode constituir uma ameaça à face do interlocutor (cf. Brown & Levinson, 1978). Dada a natureza injuntiva do ato que se espera que seja realizado, o acréscimo de uma justificativa funciona como uma estratégia de atenuação. Assim, na medida em que explicita uma razão de apresentar um EsC como obrigatório, o falante reduz seu caráter imperativo.

A associação entre causa/explicação no domínio epistêmico97, por sua vez, deve ser explicada em termos de outros aspectos. Como a modalidade epistêmica está baseada em premissas que autorizam uma conclusão por parte do falante, isto é, levando-o a acreditar na inevitabilidade de um EsC (orientanda para o evento) ou na sua própria avaliação (orientada para a proposição), a correlação com a oração causal, nesses casos, mais que uma explicação, constitui ela mesma a premissa que garante o raciocínio inferencial.

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 142-152)