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Universidade Federal do Rio de Janeiro

CONSTRUÇÕES MODAIS COM TER:

GRAMATICALIZAÇÃO E VARIAÇÃO

Elzimar de Castro Monteiro de Barros

2012

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CONSTRUÇÕES MODAIS COM TER:

GRAMATICALIZAÇÃO E VARIAÇÃO

ELZIMAR DE CASTRO MONTEIRO DE BARROS

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Linguística, Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Linguística.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria da Conceição Auxiliadora de Paiva.

Rio de Janeiro Agosto de 2012 Universidade Federal do Rio de Janeiro Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

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BARROS, Elzimar de Castro Monteiro de.

Construções modais com ter: gramaticalização e variação/Elzimar de Castro Monteiro de Barros. – Rio de Janeiro: UFRJ/Faculdade de Letras, 2012.

xiv, 246 f.; 31 cm.

Orientadora: Maria da Conceição Auxiliadora de Paiva

Tese (doutorado) – UFRJ/Faculdade de Letras/Programa de Pós-graduação em Linguística, 2012.

Referências bibliográficas: f. 226 – 246.

1. Variação, mudança e gramaticalização. 2. Modalidade e gramaticalização das construções modais com ter. 3. As construções modais com ter na modalidade falada.

4. Variação entre ter de que + infinitivo e ter que + infinitivo na modalidade escrita. I.

Paiva, Maria da Conceição Auxiliadora de. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-graduação em Linguística. III.

Construções modais com ter: gramaticalização e variação.

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DEDICAÇÃO

Ao meu marido, Julio Cesar, pelo amor que nos une.

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AGRADECIMENTOS

Especialmente, à professora Drª. Maria da Conceição Auxiliarora de Paiva, pelo envolvimento e incentivo constantes no meu processo de aprendizagem e pela realização desta tese.

À professora Drª. Maria Luiza Braga, por suas aulas cativantes, pela sugestão do fenômeno linguístico e por ter me apresentado a minha orientadora.

Às professoras Drª. Maria Maura Cezario e Drª. Marcia dos Santos Machado Vieira, pela participação no meu exame de qualificação e por seus valiosos comentários e sugestões.

A todos os professores do programa de Pós-graduação em Linguística da UFRJ, pela seriedade, competência, comprometimento com suas aulas e pelo carisma com seus alunos.

A Marcia da Silva Mariano Lessa de Castro, pela versão do resumo deste trabalho para o Inglês.

Aos componentes do motoclube Smurfs, pela convivência e amizade.

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Lo que ofrezco... es una panorámica de esta parcela de investigación realizada por alguien que quizá ha pasado más tiempo entre los árboles, pero intentando no perder de vista el bosque.

(Romaine, 1996).

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RESUMO

CONSTRUÇÕES MODAIS COM TER: GRAMATICALIZAÇÃO E VARIAÇÃO Elzimar de Castro Monteiro de Barros

Orientadora: Doutora Maria da Conceição Auxiliadora de Paiva

Resumo da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Linguística, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Linguística.

Nesta tese, investigamos o uso das construções modais ter de + infinitivo e ter que + infinitivo, no PB contemporâneo, em duas perspectivas. Na primeira, focalizamos ter que + infinitivo, soberana na modalidade falada, através de um estudo em tempo real de curta duração do tipo tendência, procurando verificar a emergência de novos valores modais para essa perífrase. Partimos da hipótese de que, inicialmente gramaticalizada no domínio deôntico, essa perífrase prossegue uma trajetória unidirecional de mudança no sentido de [- subjetivo] > [+subjetivo]. Para verificar essa hipótese, foram utilizados dados de entrevistas sociolinguísticas que compõem as Amostras Censo 1980 e Censo 2000, representativas de duas sincronias da variedade carioca. Com o objetivo de identificar as propriedades mais relevantes dessas perífrases, foram analisados os valores modais dessas construções, as propriedades modo-temporais e número-pessoais do verbo ter, as propriedades semânticas, o tipo sintático e de processo de V2, as propriedades semântico-discursivas do contexto e as variáveis faixa etária, gênero/sexo. Os resultados obtidos mostram que ter que + infinitivo caracteriza-se por apresentar o verbo ter no presente do indicativo e na terceira pessoa do singular; V2 associa-se a sujeitos com o traço semântico [+humano] e [+arbitrário]. Mais frequentemente, as orações com a construção ter que + infinitivo situam-se em contextos discursivos nos quais emergem relações no domínio da causalidade. O processo de mudança verificado entre as duas sincronias foi identificado através do continuum entre obrigação/necessidade [+forte] > [-forte]. A variável social faixa etária demonstrou o uso mais expressivo da construção ter que + infinitivo nas faixas intermediárias, com queda significativa nas faixas extremas. A variável gênero revelou que as mulheres tendem a usar mais essa variante com seu valor deôntico e extrínseco e os homens, com o valor epistêmico.

Na segunda dimensão da pesquisa, focalizamos a variação entre as duas construções na modalidade escrita, com o objetivo principal de identificar os contextos de resistência de ter de + infinitivo. Para essa análise utilizamos uma amostra do discurso jornalístico constituída de textos representativos de diversos gêneros, publicados durante o período de 2000 a 2004.

Os resultados obtidos mostram que essa construção tende a ocorrer no domínio epistêmico, em contextos de primeira pessoa, de sujeito [+humano], de verbos de processo mental, percorrendo um cline de significados [-subjetivo] > [+subjetivo]. Verificamos, também, a correlação entre os valores modais das construções com ter e os diversos gêneros da mídia jornalística. Os resultados demonstraram que a construção ter de + infinitivo tende a ser mais utilizada em gêneros mais formais, como os editoriais.

Palavras-chave: Construções modais com ter. Gramaticalização. Variação.

Rio de Janeiro Agosto de 2012

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ABSTRACT

MODAL CONSTRUCTIONS WITH TER: GRAMMATICALIZATION AND VARIATION Elzimar de Castro Monteiro de Barros

Supervisor: Doutora Maria da Conceição Auxiliadora de Paiva

Abstract da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Linguística, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Linguística.

In this thesis we investigate the use of modal constructions ter que + infinitivo and ter de + infinitivo, in the contemporary Brazilian Portuguese, in two perspectives. Firstly, we focus on ter que + infinitivo, which prevails on spoken language, through a study in a short- term real time in which we want to verify the emergency of new modal values for that periphrasis and the variety of properties related to it. Our hypothesis is that, for being initially grammaticalized in the deontic domain, the periphrasis ter que + infinitivo goes on a unidirectional change path from [-subjective] to [+subjective]. In order to verify this hypothesis, we used data from sociolinguistics interviews that compose the samples Amostras Censo 1980 and Censo 2000, which represent two synchronies of carioca variety.

To identify the most relevant properties of ter que + infinitivo and ter de + infinitivo, we analyzed their modal values, the properties of desinences that indicate tense, singular/plural and persons of speech of the verb ter, semantic properties, the syntactic types and the process types of V2, the context of semantic-discoursive properties and the social varieties, age and genre. Our results show that ter que + infinitivo presents the verb ter in the present and third person of singular; V2 is associated to subjects with the semantic feature [+human] and [+arbitrary]. Frequently, the sentences that have the construction ter que + infinitivo appear in discoursive contexts in which relations in the causality domain emerge. The change process between both synchronies was identified through the continuum between obligation/necessity [+strong] > [-strong]. The social variety age showed a more expressive use of ter que + infinitivo in the intermediate ages and a significative fall in the extreme ones.

The variety genre showed that women tend to use the variant ter que + infinitivo with its deontic and extrinsic value while men use its epistemic value. On the second perspective, we focus the variation between both constructions in written language in which we aim to identify the resistance context of ter de + infinitivo. For this analysis we used a sample of journalistic speech composed by different genres texts published from 2000 to 2004. The results show that the construction ter de + infinitivo tends to occur in the epistemic domain, in first person of speech context, with [+human] subject, with verbs that describe mental process, and that goes from [-subjective] to [+subjective] meanings. We can also verify a correlation among the modal values of constructions with ter and genres of journalistic media. The results showed that ter de + infinitivo tends to be more used in formal genres, like editorials.

Keywords: Modal constructions with ter. Grammaticalization. Variation.

Rio de Janeiro Agosto de 2012

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 15

2 VARIAÇÃO, MUDANÇA E GRAMATICALIZAÇÃO... 20

2.1 A perspectiva funcional da linguagem... 20

2.2 A mudança linguística na perspectiva variacionista... 23

2.3 Mudança por gramaticalização... 29

2.3.1 Mudança semântica e subjetivização... 37

2.3.2 Gramaticalização e reanálise... 46

3 MODALIDADE E GRAMATICALIZAÇÃO DAS CONSTRUÇÕES COM TER... 49

3.1 Algumas questões sobre modalidade... 49

3.1.2 Domínios modais... 52

3.2 Verbo ter: de pleno a auxiliar... 64

3.2.1 O verbo ter nas perífrases verbais... 64

3.2.2 O verbo ter nas perífrases modais... 67

3.2.3 Gramaticalização das construções ter de + infinitivo e ter que +infinitivo... 73

3.2.4 Grau de auxiliarização de ter nas perífrases modais... 77

4 AMOSTRAS E METODOLOGIA... 88

4.1 Amostras da modalidade falada... 88

4.2 Amostra da modalidade escrita... 91

4.3 Procedimentos metodológicos... 93

5 PROPRIEDADES E TRAJETÓRIA DAS CONSTRUÇÕES MODAIS COM TER NA MODALIDADE FALADA... 98

5.1 Distribuição das construções modais com ter na modalidade falada... 98

5.2 Valores modais das construções com ter... 101

5.3 Propriedades morfossintáticas do verbo ter... 113

5.3.1 Propriedades modo-temporais... 114

5.3.2 Propriedades número-pessoais... 120

(11)

5.4 Propriedades de V2... 124

5.4.1 Traços semânticos do sujeito... 125

5.4.2 Tipo sintático de V2... 131

5.4.3 Tipo de processo de V2... 135

5.5 Propriedades semântico-discursivas do contexto... 142

5.6 Presença de elementos intervenientes... 152

5.7 Variáveis extralinguísticas... 163

5.7.1 Faixa etária... 163

5.7.2 Gênero/sexo... 169

6 VARIAÇÃO ENTRE TER DE + INFINITIVO E TER QUE + INFINITIVO NA MODALIDADE ESCRITA... 178

6.1 Valores modais das construções com ter... 180

6.2 Traços semânticos do sujeito... 186

6.3 Desinências número-pessoais do verbo ter... 189

6.4 Tipo sintático de V2... 192

6.5 Tipo de processo de V2... 194

6.6 Propriedades semântico-discursivas das construções com ter... 198

6.7 A variável gênero do discurso... 203

7 CONCLUSÕES... 220

8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 226

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Lista dos quadros, gráficos e tabelas

Quadro 1: Critérios de mensuração do grau de auxiliaridade de V1.

Quadro 2: Comportamento de ter nas construções ter de + infinitivo e ter que + infinitivo de acordo com os parâmetros de auxiliaridade.

Quadro 3: Composição da amostra de fala.

Quadro 4: Amostra de textos escritos.

Quadro 5: Distribuição dos gêneros jornalísticos de acordo com as ocorrências das construções modais com ter.

Quadro 6: Distribuição dos informantes em relação à alternância entre ter que + infinitivo e ter de + infinitivo na amostra Censo 2000.

Quadro 7: Continuum de força modal.

Quadro 8: Uso das construções modais com ter de acordo com a interação gênero jornalístico e domínio modal.

Quadro 9: Propriedades das construções modais com ter na modalidade falada e escrita.

Gráfico 1: Frequência de material interveniente em ter que + infinitivo.

Gráfico 2: Distribuição de elementos intervenientes por fronteira.

Gráfico 3: Distribuição de ter que + infinitivo por faixa etária.

Gráfico 4: Distribuição de ter que + infinitivo por gênero.

Gráfico 5: Distribuição das construções modais com ter na modalidade escrita.

Gráfico 6: Distribuição das construções modais com ter por gênero textual.

Tabela 1 – Distribuição de ter de/que + infinitivo nas amostras Censo 1980 e Censo 2000.

Tabela 2 – Distribuição de ter de/que + infinitivo na amostra NURC-RJ/70.

Tabela 3 – Distribuição de ter de/que + infinitivo quanto à polaridade.

Tabela 4 – Distribuição de ter que + infinitivo em função do domínio/alvo e uso interacional.

Tabela 5 – Distribuição de ter que + infinitivo de acordo com o alvo da avaliação.

Tabela 6 – Distribuição de ter que + infinitivo de acordo com o domínio da avaliação.

Tabela 7 – Distribuição de ter que + infinitivo de acordo com o tempo/modo do verbo ter.

Tabela 8 – Interação entre domínio modal e desinências modo-temporais do verbo ter – Amostra Censo 1980.

Tabela 9 – Interação entre domínio modal e desinências modo-temporais do verbo ter – Amostra Censo 2000.

Tabela 10 – Distribuição de ter que + infinitivo de acordo com a pessoa gramatical.

Tabela 11 – Interação entre domínio modal e pessoa gramatical do verbo ter – Amostra Censo 1980.

(13)

Tabela 12 – Interação entre domínio modal e pessoa gramatical do verbo ter – Amostra Censo 2000.

Tabela 13 – Distribuição de ter que + infinitivo de acordo com os traços semânticos do sujeito.

Tabela 14 – Interação entre domínio modal e traços semânticos do sujeito – Amostra Censo 1980.

Tabela 15 – Interação entre domínio modal e traços semânticos do sujeito – Amostra Censo 2000.

Tabela 16 – Distribuição de ter que + infinitivo em relação ao tipo sintático de V2.

Tabela 17 – Distribuição de ter que + infinitivo em relação ao tipo de complemento do verbo predicador.

Tabela 18 – Distribuição de ter que + infinitivo de acordo com o tipo de processo de V2 e V2 como verbo-suporte/expressão cristalizada.

Tabela 19 – Interação entre domínio modal e tipo de processo de V2 – Amostra Censo 1980.

Tabela 20 – Interação entre domínio modal e tipo de processo de V2 – Amostra Censo 2000.

Tabela 21 – Distribuição de ter que + infinitivo de acordo com a relação semântica entre as orações.

Tabela 22 – Interação entre domínio modal e relação semântica entre as orações – Amostra Censo 1980.

Tabela 23 – Interação entre domínio modal e relação semântica entre as orações – Amostra Censo 2000.

Tabela 24 – Natureza dos elementos intervenientes na construção ter que + infinitivo.

Tabela 25 – Distribuição de ter que + infinitivo de acordo com a faixa etária.

Tabela 26 – Interação entre domínio modal/uso interacional e faixa etária – Amostra Censo 1980.

Tabela 27 – Interação entre domínio modal/uso interacional e faixa etária – Amostra Censo 2000.

Tabela 28 – Interação entre domínio modal/uso interacional e gênero – Amostra Censo 1980.

Tabela 29 – Interação entre domínio modal/uso interacional e gênero – Amostra Censo 2000.

Tabela 30 – Interação entre domínio modal/uso interacional e as variáveis gênero/idade – Amostra Censo 1980.

Tabela 31 – Interação entre domínio modal/uso interacional e as variáveis gênero/idade - Amostra Censo 2000.

Tabela 32 – Uso de ter que + infinitivo de acordo com o domínio modal e alvo.

Tabela 33 – Uso de ter que + infinitivo de acordo com o domínio modal.

Tabela 34 – Uso de ter que + infinitivo de acordo com os traços semânticos do sujeito.

Tabela 35 – Interação entre domínio modal e traços semânticos do sujeito.

Tabela 36 – Uso de ter que + infinitivo de acordo com a pessoa gramatical do verbo ter.

(14)

Tabela 37 – Interação entre domínio modal e pessoa gramatical do verbo ter.

Tabela 38 – Uso de ter que de acordo com o tipo sintático de V2.

Tabela 39 – Uso de ter que de acordo com o tipo de processo de V2.

Tabela 40 – Interação entre domínio modal e tipo de processo de V2.

Tabela 41 – Uso de ter que + infinitivo de acordo com a relação semântica entre as orações.

Tabela 42 – Interação entre domínio modal e relação semântica entre as orações.

Tabela 43 – Uso de ter que + infinitivo de acordo com a variável gênero textual.

Tabela 44 – Interação entre domínio modal e a variável gênero textual.

(15)

1 INTRODUÇÃO

A multiplicidade de usos do verbo ter já é atestada em vários estudos. Este verbo pode integrar construções possessivas, existenciais, expressões cristalizadas, funcionar como verbo suporte, e, ainda, como auxiliar de tempo composto, em construções participiais, e como auxiliar de modalidade. Nesta tese, focalizamos o uso do verbo ter nas construções perifrásticas modais ter de + infinitivo e ter que + infinitivo, na modalidade falada e escrita do português brasileiro contemporâneo.

A utilização do verbo ter na formação de perífrases modais, salientada por diversos autores (como RIGONI COSTA, 1995; ILARI, 1997; NEVES, 2000, 2002, 2006; COELHO, 2006; ALMEIDA, 2006; PEIXOTO, 2006, dentre outros), insere-se em uma tendência mais geral de se utilizar uma forma fonte com valor de posse para a expressão de significados mais abstratos. Nessas construções, o verbo ter (V1), ligado pela preposição de ou pelo elemento que a uma forma verbal no infinitivo (V2), atua apenas como um mero instrumento gramatical, assumindo o papel de auxiliar modal. Em princípio, as duas construções modais com ter podem alternar entre si e coexistem no Português brasileiro como possibilidades para expressar, essencialmente, obrigatoriedade e/ou necessidade/dever, como nos exemplos (1) e (2):

(1) O Rio de Janeiro, informa a reportagem, é, em tese, o mais avançado nessa área. Comprou um sistema sofisticado, mas ainda não testado. E mesmo que funcione, a polícia de São Paulo, por exemplo, se precisar consultar dados do arquivo, terá de usar a ponte aérea em vez de um terminal de computador. (Editorial – O Globo - 22-10-02)

(2) E o posto policial da cidade de Maricá tem que usar um orelhão para seus telefonemas. (Carta do leitor – O Globo – 25-02-04)

Embora constituam, em princípio, alternantes com o mesmo valor modal, ao que tudo indica, a construção ter que + infinitivo generaliza-se, pouco a pouco, em detrimento de sua concorrente ter de + infinitivo, tornando-se soberana na modalidade falada do Português brasileiro, pelo menos em seu registro menos formal. Na modalidade escrita, ao contrário, ainda se registra a alternância entre ter que + infinitivo e ter de + infintitivo.

Considerando o espraiamento da construção ter que + infinitivo na modalidade falada e a variabilidade entre as duas construções modais com ter na modalidade escrita,

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algumas questões iniciais motivaram este estudo: (a) em que estágio do processo de gramaticalização se encontram essas construções? (b) as duas construções apresentam sinonímia em relação ao significado? (c) as duas variantes competem nos mesmos contextos linguísticos e extralinguísticos? (d) o uso da construção ter que + infinitivo restringe-se apenas aos verbos transitivos, conforme prescrições de alguns gramáticos, como Almeida (1979), Rocha Lima (2008)? (f) se, segundo a intuição de Luft (2003), o uso de ter de + infinitivo restringe-se à modalidade escrita, principalmente nos seus registros mais formais, enquanto ter que + infinitivo é mais próprio ao registro coloquial, como explicar a recorrência desta última na modalidade escrita do Português contemporâneo?

As questões apresentadas acima nos conduziram à análise das construções modais com ter em duas dimensões: na primeira, focalizamos o uso da construção ter que + infinitivo na modalidade falada; na segunda, analisamos a variação entre ter de + infinitivo e ter que + infinitivo na modalidade escrita.

Com a análise do uso de ter que + infinitivo na modalidade falada, buscamos (i) identificar as propriedades morfossintáticas mais recorrentes dessa construção e (ii) depreender os contextos semânticos e pragmáticos que propulsionam sua expansão com o desenvolvimento de novas polissemias. Uma hipótese central norteia esta primeira dimensão da análise: no Português brasileiro contemporâneo, as construções modais com ter empreendem uma trajetória do domínio deôntico para o domínio epistêmico, isto é, elas passam a ser utilizadas para a expressão de opinião, crença, conhecimento. Em outros termos, as construções modais com ter prosseguem um processo de gramaticalização unidirecional, percorrendo um cline de significados [-subjetivos] para [+subjetivos] (cf. TRAUGOTT &

DASHER, 2005).

A hipótese proposta acima baseia-se em um estudo de tempo real de curta duração, do „tipo tendência‟, em que buscamos verificar a forma de introdução de novos valores para a expressão da categoria modalidade. Para a realização desta análise, utilizamos os dados das amostras Censo 1980 e Censo 2000, que integram o acervo do Projeto PEUL (Programa de Estudos sobre o Uso da Língua), representativas de duas sincronias da variedade carioca.

Na segunda dimensão da análise, focalizamos a variação entre as construções modais com ter na modalidade escrita, procurando, sobretudo, identificar os contextos de resistência de ter de + infinitivo. Partimos da hipótese de que a construção ter que + infinitivo se expande na escrita, de acordo com as mesmas variáveis que lhe são mais fortemente correlacionadas na

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modalidade falada. Acreditamos, ainda, que a construção ter de + infinitivo pode estar submetida a um controle mais estrito e cumpre funções discursivo-funcionais específicas nessa modalidade. Para a verificação dessas hipóteses, analisamos uma amostra do discurso jornalístico, constituída de textos representativos de diversos gêneros – carta do leitor, crônica, editorial, horóscopo, coluna social, notícia/reportagem e artigo de opinião, publicados em quatro jornais de grande circulação na cidade do Rio de Janeiro, O Globo, Jornal do Brasil, Extra e Povo, durante o período de 2000 a 2004. Esta amostra foi organizada pelo Programa de Estudos do Uso da Língua (PEUL), sediado na UFRJ.

Um aspecto merece destaque em relação às construções modais com ter. O verbo ter, nessas construções, ocorre num entorno específico que envolve a presença de uma forma no infinitivo precedida por de ou que. Deste modo, o fenômeno em análise pode ser entendido como a gramaticalização de uma construção, ou seja, uma estrutura acima do nível da palavra, caracterizada pelas abordagens construcionais (cf. CROFT, 2001, por exemplo), como uma correspondência entre forma (envolvendo propriedades sintáticas, morfológicas e fonológicas) e sentido (envolvendo propriedades semânticas, pragmáticas e discursivo-funcionais).

Este estudo se insere, portanto, em uma perspectiva segundo a qual um processo de gramaticalização não se restringe a um item específico, mas, ao contrário, abrange relações sintagmáticas entre um item e outros elementos que o acompanham, como propõem Lehmann (1992), Heine (1993), Bybee et al. (1994), Croft (op. cit.), Bybee (2003), Traugott (2009).

Desta forma, não é possível explicar o valor modal das construções modais com ter, assim como a emergência de novos significados e funções, focalizando os elementos que as integram de forma isolada, visto que é a partir do todo que desencadeia o processo de gramaticalização. Ao longo deste trabalho, alternamos os termos perífrase e construção, entendendo que, em ambos os casos, estão envolvidas unidades constituídas por mais de um elemento.

O desenvolvimento de novas funções das perífrases com ter, a nosso ver, compreende aspectos ligados à forma como se inter-relacionam gramática e discurso.

Entendemos, portanto, que a gramática de uma língua não constitui um objeto autônomo, mas sim um resultado da integração entre os níveis morfossintático, semântico e discursivo e que as estruturas linguísticas emergem da interação comunicativa. Como as formas em gramaticalização são sensíveis ao co-texto e ao con-texto, ou seja, expandem-se por contextos linguísticos, extralinguísticos, comunicativos e pragmáticos, a análise do fenômeno em estudo

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requer um controle das propriedades morfossintáticas e semânticas dos elementos constitutivos das construções ter que + infinitivo e ter de + infinitivo, dos contextos discursivo-pragmáticos associados ao uso dessas construções em situações reais de comunicação, assim como a convergência entre forças internas e externas próprias de qualquer sistema linguístico.

Deste modo, neste estudo, tanto os dados da língua falada como os da língua escrita são analisados segundo os seguintes grupos de fatores: (i) valores modais das construções com ter; (ii) propriedades morfossintáticas do verbo ter, de acordo com as categorias modo- tempo e número-pessoa; (iii) propriedades morfossintáticas e semânticas do verbo no infinitivo que envolvem os traços semânticos do sujeito, tipo sintático e de processo de V2;

(iv) propriedades semântico-discursivas do contexto em que depreendemos a forma como as orações com a construções modais com ter se relacionam às orações adjacentes e (v) presença de elementos intervenientes entre os componentes das perífrases, considerando que elas podem estar se tornando, sintaticamente, mais integradas, mais cristalizadas, mais fixas.

Nos dados da modalidade falada, analisamos, ainda, nas duas sincronias, a distribuição de usos da construção ter que + infinitivo de acordo com as variáveis gênero/sexo e idade, com o objetivo de verificarmos que tipo de valor modal estaria mais associado a um dos gêneros e de traçar o movimento dessa construção através de tendências de estabilidade ou de mudança em tempo real da evolução sociolinguística da comunidade.

A diversificação de gêneros jornalísticos da amostra escrita nos permitiu cumprir outro objetivo deste estudo: correlacionar esses gêneros ao uso das construções modais com ter, partindo da hipótese de que a incorporação da construção ter que + infinitivo se inicia por gêneros mais próximos de um polo de menor formalidade, como crônica e coluna social.

Considerando a própria natureza do fenômeno focalizado nesta pesquisa, pressupostos funcionalistas, principalmente do funcionalismo linguístico de orientação norte-americana, tal como proposto por Traugott & Heine (1991), Givón (1995), Bybee & Hopper (2001), Hopper

& Traugott (2003), Bybee (2003), Heine (2003), são conjugados a pressupostos teórico- metodológicos da Sociolinguística Variacionista (cf. LABOV, 1972, 1994; WENREICH, LABOV & HERZOG, 2006 [1968]). A importância dada, tanto pela teoria variacionista, quanto pelos estudiosos da gramaticalização, ao tratamento empírico e à quantificação estatística como evidência para atestar fenômenos de variação e mudança (cf. TAVARES,

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2003; GÖRSKI et al., 2003, FREITAG & GONÇALVES, 2011; GÖRSKI & TAVARES, 2012, dentre outros) respalda a interface adotada nesta pesquisa.

Os dados coletados foram submetidos a uma análise quantitativa, porém de forma diferenciada para as modalidades falada e escrita. Para a modalidade falada, como não há alternância entre as duas construções, restringimo-nos apenas à frequência de ocorrência da construção ter que + infinitivo de acordo com as diferentes propriedades consideradas. Na análise da escrita, utilizamos procedimentos estatísticos, propiciados pelos programas GoldVarb 2.0 (RAND & SANKOFF, 1990), com o objetivo de identificar as variáveis mais relevantes para a incorporação de ter que + infinitivo nesta modalidade e os contextos mais específicos de cada uma das construções em estudo.

Este trabalho está organizado da seguinte forma: no segundo capítulo, apresentamos os pressupostos teóricos funcionalistas e variacionistas que norteiam esta pesquisa, assim como a convergência/divergência entre essas duas abordagens. Focalizamos, também, a mudança sob a perspectiva da gramaticalização. No terceiro capítulo, discutimos algumas questões sobre a categoria modalidade, em especial, às que se relacionam aos domínios modais nos quais se inserem as construções modais com ter e, ainda, avançamos uma interpretação acerca da evolução das perífrases modais com ter. No quarto capítulo, especificamos as amostras e os procedimentos metodológicos utilizados. No quinto capítulo, analisamos a construção ter que + infinitivo, na modalidade falada, em relação às suas propriedades morfossintáticas, semânticas, discursivas e quanto aos fatores sociais (faixa etária e gênero/sexo). No sexto capítulo, considerando os mesmos fatores internos examinados na modalidade falada, apresentamos e discutimos os resultados obtidos para as duas construções em uma análise multivariacional, procurando, assim, depreender a trajetória de incorporação de ter que + infinitivo na modalidade escrita. Neste capítulo são consideradas, ainda, as correlações entre os gêneros textuais que compõem a amostra escrita e o uso das construções modais com ter. No capítulo sete, retomamos e discutimos os aspectos que mais se destacaram ao longo da análise. Seguem as referências bibliográficas.

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2 VARIAÇÃO, MUDANÇA E GRAMATICALIZAÇÃO

Os pressupostos teóricos que norteiam este trabalho se inscrevem em uma concepção da língua como um sistema emergente, variável, em contínua evolução, motivada por uma complexa interação entre gramática e situação comunicativa. Em outros termos, adotamos uma orientação funcionalista, mais especificamente, de mudança por gramaticalização à qual associamos pressupostos e métodos da Sociolinguística Variacionista. Essa conjugação entre diferentes correntes da linguística impõe-se por si mesma, devido aos diversos objetivos deste estudo.

2.1 A perspectiva funcional da linguagem

De forma geral, podemos dizer que as abordagens funcionalistas da linguagem observam o funcionamento da língua no ato de comunicação e procuram identificar as correlações entre as formas gramaticais e os contextos discursivos em que elas ocorrem (cf.

HOPPER, 1987, 1991; HEINE, CLAUDI & HÜNNEMYER, 1991; TRAUGOTT & HEINE, 1991; BYBEE, PERKINS & PAGLIUCA, 1994; HALLIDAY, 1994; GIVÓN, 1995; BYBEE

& HOPPER, 2001; NEVES, 2001a; HEINE, 2003; HOPPER & TRAUGOTT, 2003, dentre outros). Caracterizando-se por recusar fronteiras rígidas entre sintaxe, semântica e pragmática, privilegiam a interdependência entre esses diferentes níveis. Aceitamos, em consonância com Givón (1984), que a descrição linguística tem por objetivo fornecer um quadro explícito, sistemático e abrangente da sintaxe, semântica e pragmática unificadas como um todo.

Sob a perspectiva delineada acima, essas abordagens negam a autonomia do sistema linguístico (cf. CROFT, 1995, 2000; GIVÓN, 1995, 2001; BUTLER, 2003, dentre outros).

Como propõe Givón (1995), a língua não pode ser considerada um sistema autônomo, visto que a gramática possui uma interface com aspectos ligados à cognição, à comunicação e à interação social. Partimos, portanto, do princípio de que a estrutura é não-arbitrária, isto é, icônica, no sentido de que serve a uma função cognitiva ou comunicativa. Como está sujeita a pressões de uso, a estrutura linguística é maleável, não rígida, e a variação e a mudança estão sempre surgindo. Os processos de gramaticalização constituem um exemplo prototípico da ação de mecanismos comunicativos e cognitivos que geram mudanças.

Numa perspectiva funcionalista da linguagem, dilui-se, também, a fronteira entre sincronia e diacronia, divergindo, assim, das correntes estruturalistas pós-saussureanas que circunscreviam os estudos linguísticos às relações estruturais diacrônicas. Givón (1995)

(21)

ressalta que, para apreender e explicar a mudança linguística, é necessário considerar a relação entre os eixos sincrônico e diacrônico, assim como a inter-relação entre variação e mudança. Nos termos de Noonan (2004, p 89):

Sabemos [...] que os sistemas linguísticos naturais nunca são estáticos, estão constantemente mudando e tanto a tendência para a mudança quanto as direções seguidas são construídas diretamente no sistema da língua.1

Heine (1993, p. 3) resume os pressupostos funcionalistas mais gerais da seguinte forma:

1. Ao invés de ver a língua como um estado, ela é concebida como uma entidade dinâmica, e o comportamento linguístico é descrito como um processo mais do que um estado ou um produto ou uma tradição histórica.

2. Ao invés de analisá-la como um sistema fechado, contido em si mesma, a língua é interpretada como uma entidade que é constantemente modelada por fatores externos, como forças cognitivas, manipulação pragmática, história, etc.

3. Isto significa que a língua não pode ser explicada satisfatoriamente com referência somente a variáveis linguísticas; o que se requer em adição são parâmetros extralinguísticos relacionados à forma como percebemos o mundo ao nosso redor, e como utilizamos os recursos linguísticos disponíveis, no sentido de conceptualizarmos as nossas experiências e nos comunicarmos com sucesso.2

Os pressupostos, acima sumarizados, alinham diversas correntes funcionalistas, apesar das especificidades de cada uma delas, no que se refere ao peso atribuído à arbitrariedade e à autonomia da sintaxe (cf. CROFT, 1995). Nichols (1984, p. 102-103) distingue três tipos de funcionalismo: conservador, moderado e extremado3.

1 “We know, however, that natural language systems are never static and are constantly changing and that both the propensity for change as well as the directions in which it will proceed are built directly into the system of language.” (NOONAN, 2004, p. 89).

2 “1. Rather than viewing language as a state, it is conceived of as a dynamic entity, and linguistic behavior is described as a process rather than a state or a product, or a historical tradition. 2. Instead of analyzing it as a closed, self-contained system, language is interpreted as an entity that is constantly shaped by external factors such as cognitive forces, pragmatic manipulation, history, etc. 3. This means that language cannot be explained satisfactorily with reference to linguistic variables only; rather what is required in addition are extra-linguistic parameters relating to how we perceive the world around us, and how we utilize the linguistic resources available to us to conceptualize our experiences, and to communicate successfully.” (HEINE, 1993, p. 3).

3O funcionalismo conservador reconhece a inadequação do formalismo ou do estruturalismo, sem propor uma nova análise da estrutura linguística. Um exemplo são os vários trabalhos de Kuno (1987) nos quais é demonstrado que certas regras sintáticas apresentam restrições do tipo função/contexto e função/propósito, mas nenhuma análise funcional é proposta. O extremado, não mais adotado ultimamente, nega a autonomia da estrutura. Nesse sentido, as regras são inteiramente baseadas em funções e, portanto, não existem restrições sintáticas puras e é a estrutura que codifica a função (cf. GIVÓN, 1979; THOMPSON, 1987; HOPPER, 1987).

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Os adeptos do funcionalismo moderado, ou funcionalismo integrativo, para Croft (1995), não negam a existência da sistematicidade na língua, mas rejeitam distinções rígidas entre língua e fala, diacronia e sincronia. Nos termos de Croft (op. cit, p. 516),

[ ] os fenômenos linguísticos podem ser sistematizados, e podem ser (em parte) arbitrários, porém eles envolvem uma integração tão íntima entre fatores cognitivos e fatores externos que não admite a sua descrição como um sistema cognitivo fechado, contido em si [ ]. Eu o chamarei de FUNCIONALISMO INTEGRATIVO. 4

É essa perspsectiva que norteia a análise do fenômeno em estudo, visto que consideramos as características estruturais dos elementos envolvidos nas construções ter de/que + infinitivo, assim como as funções que os enunciados por eles introduzidos desempenham na comunicação e na interação verbal.

Numa perspectiva funcionalista, o interesse pela mudança decorre do próprio pressuposto de que as línguas naturais são sistemas flexíveis, heterogêneos, constantemente moldados pelas exigências comunicativas dos usuários e pela forma de organização do discurso. Este novo olhar sobre a gramática propiciou uma série de desdobramentos, como o da gramática emergente, assim definida por Hopper (1998, p. 156):

A noção de Gramática Emergente significa que a estrutura, ou regularidade, vem do discurso e é moldada por ele em um processo contínuo. Nesse sentido, gramática é simplesmente o nome de certas repetições de categorias observadas no discurso. A gramática não é um pré-requisito para o discurso. Suas formas não são fixas e emergem da interação face-a-face, no sentido de que refletem a experiência individual passada que os falantes têm dessas formas, e sua avaliação no contexto atual, incluindo especialmente seus interlocutores, cujas experiências e avaliações podem ser bem diferentes.5

4 “[…] linguistic phenomena may be systematic, and may be (partly) arbitrary, but they would involve such a close interaction of cognitive and external social factors that one could not reasonably describe the internal cognitive system as self-contained [...]. I will call INTEGRATIVE FUNCTIONALISM.” (CROFT, 1995, p.

516).

5The notion of Emergent Grammar is meant to suggest that structure, or regularity, comes out of discourse and is shaped by discourse in an ongoing process. Grammar is, in this view, simply the name for certain categories of observed repetitions in discourse. It is hence not to be understood as a prerequisite for discourse, a prior possession attributable in identical form to both speaker and hearer. Its forms are not fixed templates but emerge out of face-to-face interaction in ways that reflect the individual speakers‟ past experience of these forms, and their assessment of the present context, including especially their interlocutors, whose experiences and assessments may be quite different.” (HOPPER, 1998, p. 156).

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A gramática emergente é entendida como um conjunto de parcelas cujo estatuto vai sendo constantemente negociado na fala, não podendo, em princípio, ser separada das estratégias de construção do discurso (cf. HOPPER, 1988). Ou seja, do ponto de vista da evolução da língua, novas expressões e arranjos na ordenação vocabular são criados incessantemente, portanto a gramática está num contínuo fazer-se, nunca está completa.

Como destaca Castilho (1997, p. 31), a língua é entendida como uma “atividade no tempo real, cujas regularidades são provisórias e continuamente sujeitas à negociação, à renovação e ao abandono.” Nessa perspectiva, as regularidades da língua são fixadas através do uso e da repetição.

2.2 A mudança linguística na perspectiva variacionista

A Teoria da Variação e Mudança ou Sociolinguística Variacionista assume como pressuposto básico a heterogeneidade ordenada do sistema linguístico. Admite-se, então, que formas linguísticas em variação podem ser descritas e explicadas em todos os níveis (fonológico, morfológico, sintático, semântico-pragmático) de forma regular e motivada pela inter-relação de fatores linguísticos e extralinguísticos. Como postula Labov (1972, p. 2):

A contribuição de forças internas, estruturais, para a efetiva difusão das mudanças linguísticas [ ] deve ser naturalmente o foco de atenção de qualquer linguista que esteja investigando esses processos de propagação e regularização.

No entanto, uma abordagem que considera apenas as pressões estruturais dificilmente pode contar a história toda. Nem todas as mudanças são altamente estruturadas, e nenhuma mudança acontece num vácuo social. Até mesmo a mudança em cadeia mais sistemática ocorre num tempo e num lugar específicos, o que exige uma explicação.6

Outro pressuposto central do modelo variacionista é a inter-relação entre mudança e variação: a mudança pressupõe a variabilidade, ou seja, a concorrência de duas ou mais formas durante um período, até que uma forma predomine sobre a outra. Nos termos de Weinreich, Labov & Herzog (1968, p. 188), “nem toda variabilidade e heterogeneidade na

6“The contribution of internal, structural forces to the effective spread of linguistic changes [...] must naturally be of primary concern to any linguistic who is investigating these processes of propagation and regularization.

However, an account of structural pressures can hardly tell the whole story. Not all changes are highly structured, and no change takes place in a social vacuum. Even the most systematic chain shift ocurrs with a specificity of time and place that demands an explanation.” (LABOV, 1972, p. 2)

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estrutura linguística implica mudança; mas toda mudança implica variabilidade e heterogeneidade.”7

Segundo a proposta de Weinreich, Labov & Herzog (1968, p. 183-187), cinco problemas inter-relacionados devem ser resolvidos pelo pesquisador:

(i) Fatores condicionantes (constraints problem): corresponde à necessidade de se identificar os fatores ou condições que favorecem ou restringem uma determinada mudança, com o objetivo de predizer seu direcionamento e sua implementação.

(ii) Transição (transition problem): consiste em depreender, no uso de formas alternantes em competição, o percurso da mudança na estrutura social, através de um continuum entre variação e mudança. Nesse sentido, podemos destacar as seguintes constatações dos autores:

(i) todas as mudanças submetidas ao exame empírico mostraram distribuição contínua através de sucessivas faixas etárias e (ii) entre dois estágios intermediários de uma mudança em progresso, a variante inovadora vai se instalando de forma contínua e gradativa no sistema.

(iii) Encaixamento (embedding problem): corresponde à forma como uma mudança linguística se encaixa no sistema linguístico e social. Neste caso, deve ser investigada a correlação entre a mudança verificada e outras mudanças, ou seja, uma mudança operada num determinado ponto do sistema pode repercutir em outras mudanças.

(iv) Avaliação (evaluation problem): corresponde à avaliação da variante inovadora por parte dos membros da comunidade de fala. Diz respeito à reação subjetiva dos falantes, no sentido de que eles podem prestigiar ou estigmatizar novas variantes linguísticas, o que pode alterar o curso da mudança ou, até mesmo, influenciar na rejeição do processo (cf. também LUCCHESI, 2004).

(v) Implementação (actuation problem): depende diretamente dos fatores estabelecidos como condicionantes, visto que se refere à forma como a mudança vai se expandindo pelos diferentes contextos linguísticos e extralinguísticos.

O problema dos fatores condicionantes será identificado no capítulo 6, quando verificamos, na modalidade escrita, a substituição da construção ter de + infinitivo no seu valor epistêmico por ter que + infinitivo com outros valores. Os outros problemas não se colocam, neste estudo, para as construções modais com ter: o problema da transição depende

7 “Not all variability and heterogeneity in language structure involves change; but all change involves variability and heterogeneity.” (WEINREICH, LABOV & HERZOG, 1968, p. 188).

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de formas alternantes em competição o que não ocorre na modalidade falada; o problema do encaixamento depende da comparação com outras formas, como seria o caso do modal dever;

o problema da avaliação, ao que tudo indica, não requer considerar a alternância entre ter que + infinitivo e ter de + infinitivo, visto que não está no nível de consciência dos membros da comunidade de fala analisada8 e o problema da implementação, por sua vez, pressupõe um estudo em tempo real de longa duração, que extrapola os objetivos deste estudo.

O método básico proposto por Labov (1994) para o estudo da mudança linguística compreende a combinação do tempo aparente9 com o tempo real. A mudança em tempo aparente refere-se à análise da distribuição das variantes por diferentes faixas etárias em um determinado estágio da língua, ou seja, numa sincronia. A estratificação por idade pode indicar variação estável ou mudança em progresso. Se o uso de formas variantes ocorre em cada geração de modo regular e previsível, caracteriza uma situação de variação estável. Se o uso de uma forma inovadora for mais frequente entre os falantes mais jovens, decrescendo nos grupos de falantes mais velhos, pode estar em progresso uma mudança na língua (cf.

LABOV, op. cit.).

O construto do tempo aparente baseia-se na hipótese “clássica” acerca da aquisição da linguagem, ou seja, sobre da fixação do sistema linguístico adquirido pelo indivíduo. De acordo com essa posição, os indivíduos estabilizam sua forma de falar na adolescência10 e, a partir daí, não há mudanças linguísticas significativas no decorrer de sua vida. Evidências contrárias a esta hipótese são demonstradas em vários estudos, como o de Hermann (1929, apud NARO, 2003), em que foram encontrados casos em que não ocorre o congelamento do sistema linguístico na puberdade, podendo haver, portanto, mudanças significativas no decorrer de uma faixa etária para outra. Posição semelhante é compartilhada por Bybee (2010), ao demonstrar que a mudança gradual de verbos plenos para auxiliares em Inglês decorreu do uso de adultos.

De acordo com Naro (op. cit.), para se obter dados sobre a situação de uma determinada língua, é preciso que se verifique não apenas o comportamento do indivíduo,

8 Conclusões mais seguras a respeito da avaliação em relação à variante inovadora (ter que + infinitivo) dependeria de um controle da atitude dos falantes em relação às duas contruções modais.

9 O estudo do tempo aparente associa-se ao princípio do uniformitarismo que permite inferir, pela observação de mudanças em curso, processos que operaram no passado (cf. LABOV, 1994).

10 Não há consenso quanto à idade em que termina a adolescência. Para Labov (2001), a adolescência vai dos 13 até os 19 anos; para Chambers (1995) vai dos 13 aos 21 anos.

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como também o da comunidade em que este se insere. Como os estudos em tempo aparente não fornecem evidências conclusivas acerca da direção da variável numa comunidade de fala, Labov (1994) propõe a conjugação da análise em tempo aparente com as do tempo real, seja de longa ou de curta duração. No primeiro caso, analisam-se textos do passado em que se registram formas alternantes, possibilitando a comparação do comportamento dessas formas com as registradas em períodos mais recentes. No segundo caso, analisa-se o comportamento da comunidade através do „estudo de tendência‟ (trend study) e do indivíduo através do

„estudo de painel‟ (panel study) em duas épocas distintas, separadas por um intervalo entre 12 a 50 anos (cf. LABOV, 1981). Com o objetivo de aferir o processo de gramaticalização por que passam as construções ter de/que + infinitivo, na variedade carioca falada, realizamos um estudo do „tipo tendência‟ que será detalhado no capítulo 4.

Convém ressaltar que os aspectos funcionais envolvidos no uso das construções modalizadoras com ter não chegam a constituir um empecilho, para que sejam conjugados com pressupostos sociolinguísticos. Vários trabalhos (como CASSEB-GALVÃO, 1999, 2001; NARO & BRAGA, 2001; TAVARES, 2003; PEREIRA, 2005; ALMEIDA, 2006;

OLIVEIRA, 2006; GOMES, 2006; FREITAG, 2007; FONSECA, 2010; GÖRSKI &

TAVARES, 2009, 2012, dentre outros) já demonstraram que pressupostos e procedimentos metodológicos no tratamento empírico dos dados, de acordo com a Sociolinguística Variacionista, podem fornecer uma explanação mais ampla e mais precisa sobre a instalação gradual de processos de mudança linguística, principalmente, via gramaticalização.

Tanto nos estudos sobre gramaticalização (cf. HOPPER, 1987; HEINE, 1991;

HOPPER & TRAUGOTT, 1993; GIVÓN, 1995, 2001, dentre outros), quanto no modelo variacionista (cf. LABOV, 1994; WEINREICH, LABOV & HERZOG, 2006 [1968];

LABOV, 2008 [1972]), o pressuposto da gradualidade da mudança ocupa um papel central.

Na perspectiva da gramaticalização, não é admitida uma situação de mudança em que A passe a B diretamente, sem um estágio intermediário de coexistência entre duas formas. Na perspectiva variacionista, de acordo com Labov (1972), a mudança linguística numa comunidade de fala implica três estágios: inicia-se de forma lenta, visto que a forma inovadora é usada somente por um grupo específico; nos estágios intermediários, a nova forma passa a ser usada mais intensamente, espalhando-se por outros grupos sociais; no estágio final, desaparece uma das variantes e a variante inovadora transforma-se em aplicação categórica (cf. S-shaped curve, Labov, 1994). Tal convergência possibilita o duplo enfoque

(27)

teórico em relação ao estudo das construções ter de + infinitivo e ter que + infinitivo. Outras confluências entre os dois modelos serão discutidas na seção seguinte, em que focalizamos a mudança por gramaticalização.

Entretanto, não podem ser ignorados alguns pontos que poderiam, em princípio, comprometer esta interface. O primeiro deles diz respeito à concepção de gramática. Como observam Gorski et alii (2003), as abordagens funcionalistas, pelo menos na sua versão representada pelas correntes americanas, e a variacionista distinguem-se no que tange à concepção de gramática. Para Weinreich, Labov & Herzog (2006 [1968]), embora não sejam excluídos aspectos funcionais, a noção de sistema e estrutura é central, sendo a língua regida por regras (in)variáveis vistas como elementos estruturais. Por outro lado, para os funcionalistas, como Givón (1995), por exemplo, a função é prioritária e determinante da estrutura e as gramáticas são maleáveis e emergentes por natureza. Assim, motivadas pela situação comunicativa e pela função cognitiva (cf. Givón, op. cit.), novas funções para formas já existentes estão sempre emergindo (cf. HOPPER, 1991).

O segundo ponto, decorrente do primeiro, envolve a relação entre forma, significado e função. Em princípio, a alternância entre as construções modais com ter não se enquadra no sentido estrito de variação linguística, ou seja, duas ou mais formas de se dizer a mesma coisa no mesmo contexto, de acordo com a definição de variantes proposta por Labov (2008 [1972]), que se aplica sem problemas a variáveis fonológicas. Labov (1978) confirma essa definição através do princípio de equivalência semântica, ou seja, se dois enunciados se referem ao mesmo estado de coisas, têm o mesmo valor de verdade. Por outro lado, Naro &

Scherre (2006, p. 242) enfatizam que, no estudo de variáveis linguísticas não-fonológicas,

[ ] há distinção semântica parcialmente significativa entre formas alternativas.

Assim, do ponto de vista variacionista, não estamos lidando com casos de variação clássica, nos quais se pressupõe equivalência semântica das formas variantes em todos os contextos.

Portanto, o princípio da equivalência semântica pode ser discutido no que se refere a fenômenos que envolvem variantes acima do nível fonológico, como as de natureza morfossintática, semântica e discursiva. Por isso, Lavandera (1978) sugere a ampliação do critério de „mesmo significado‟ para comparabilidade funcional, visto que variantes semântico-discursivas, por exemplo, apresentam a mesma função comunicativa, mas não necessariamente o mesmo significado. Nichols (1984), considerando o papel discursivo das

(28)

formas linguísticas, vai um pouco além e expande a noção de mesmo significado para mesma função. De acordo com esta formulação, os propósitos comunicativos dos falantes interferem na escolha das variantes e a função/significado das formas é depreendida do contexto discursivo. Se considerarmos que especificidades funcionais ou comunicativas de uma ou outra forma podem ser controladas numa análise variacionista, é possível alargar o conceito de variável linguística, como já mostraram diversos trabalhos (cf. WEINER & LABOV, 1983; LAVANDERA, 1984; NARO, 1998; BRAGA, 2003; PAREDES SILVA, 2003, PAIVA & DUARTE, 2006; GÖRSKI & TAVARES, 2012, dentre outros).

A aplicabilidade de métodos variacionistas é ainda mais delicada no que se refere a mudanças por gramaticalização, fenômeno que não envolve propriamente uma alternância entre duas formas, mas sim alterações categoriais e semânticas da mesma forma. No entanto, é preciso considerar que a forma inovadora que surge na língua, decorrente do processo de gramaticalização, não descarta, necessariamente, a já existente e pode passar a coexistir com aquela, de acordo com o princípio da estratificação proposto por Hopper (1991). Esse princípio pode ser aplicado à forma ter que + infinitivo que passa a coexistir com a forma ter de + infinitivo, pressupostamente mais antiga. Assim, as construções modais com ter, quando inseridas no mesmo domínio funcional modal, constituem, portanto, formas alternantes de uma mesma variável.

Numa versão funcionalista mais forte do princípio da iconicidade, formas diferentes possuem funções diferentes, ou seja, servem a objetivos comunicativos distintos. De acordo com esse princípio (cf. BOLINGER, 1977; GIVÓN, 1995), há uma relação natural entre uma forma e uma função (um-para-um), o que anularia, portanto, qualquer possibilidade de variação entre as construções com ter, visto que elas não poderiam desempenhar a mesma função semântico-discursiva. No entanto, assumindo uma versão mais branda desse princípio, admitimos que a relação entre forma-função pode se tornar opaca, em consequência do processo de gramaticalização, possibilitando a ocorrência de variação entre as duas construções no domínio deôntico, ou seja, a coexistência de duas formas que expressam a mesma função. Nos termos de Freitag e Gonçalves (2011):

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Em uma situação real de uso linguístico é preciso admitir a arbitrariedade na codificação linguística, uma vez que a iconicidade do código linguístico está sujeita às pressões que atuam tanto na forma, afetando o código/estrutura, quanto na função, afetando a mensagem: o código sofre constante erosão decorrente de atrito fonológico, e a mensagem sofre alterações em virtude da elaboração criativa do falante. Tais pressões geram ambiguidade de código (polissemia), com uma forma e várias funções, e de mensagem, várias formas e uma função (variação). (FREITAG & GONÇALVES, 2011, p. 92).

Os autores discutem duas possiblidades que podem direcionar mudanças por gramaticalização: da forma para a função e da função para a forma. Mostram que essas duas direções não se excluem, mas, ao contrário, podem ser conjugadas, de forma a obter análises mais confiáveis, principalmente quando se analisam amostras sincrônicas. Na análise das construções modais com ter, consideramos as duas dimensões, visto que são investigadas a possibilidade de alternância entre ter que + infinitivo e ter de + infinitivo e as diferentes funções que essas construções vão adquirindo na sua trajetória de gramaticalização.

2.3 Mudança por gramaticalização

A gramaticalização é reconhecida como o processo de mudança linguística em que itens ou construções menos gramaticais passam, em determinados contextos, a desempenhar funções mais gramaticais e, uma vez gramaticalizados, podem continuar a desenvolver novas funções gramaticais (cf. HEINE, CLAUDI & HÜNNEMEYER, 1991; BYBEE, PERKINS &

PAGLIUCA, 1994; RAMAT & HOPPER, 1998; HOPPER & TRAUGOTT, 2003, dentre outros).

O termo gramaticalização, usado para se referir à atribuição de um caráter gramatical a um termo outrora autônomo, remonta a Meillet (1912). Na perspectiva de Kurylowicz (1965, apud LEHMANN, 1982), esse processo de mudança pode ser entendido como uma ampliação dos limites de um morfema, cujo estatuto gramatical avança do léxico para a gramática. O desenvolvimento de auxiliares nas línguas humanas constitui um exemplo prototípico desse processo (cf. BYBEE, PERKINS & PAGLIUCA, 1994; RIGONI COSTA, 1995; RIBEIRO, 1996; ALMEIDA, 2006; PEIXOTO, 2006, dentre outros). Auxiliares de tempo, aspecto ou de modalidade derivam de verbos lexicais (verbos plenos) e, na medida em que se gramaticalizam, migram de uma classe aberta para uma classe fechada.

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Segundo Hopper & Traugott (2003), a gramaticalização pode ser concebida sob duas perspectivas: diacrônica e sincrônica. Na primeira, são investigadas as origens das formas gramaticais e a trajetória das mudanças que as afetam. Nessa dimensão, a gramaticalização corresponde a um processo de mudança linguística por meio do qual um item lexical, em determinados contextos, torna-se gramatical, ou seja, passa a exercer uma função gramatical, e, a partir daí, pode passar a adquirir novas funções gramaticais. Na segunda, a gramaticalização é considerada um fenômeno sintático, discursivo-pragmático, visto que envolve padrões fluidos de uso linguístico. As evidências acumuladas em diferentes estudos (como em KUTEVA, 2001) mostram que uma visão pancrônica, combinando as duas perspectivas, permite maior generalização acerca das mudanças por gramaticalização.

As mudanças por gramaticalização são motivadas por aspectos envolvidos na comunicação, portanto funcionais. Seguindo Heine (2003), podemos dizer que uma das estratégias de que o falante dispõe para a criação de novas formas gramaticais é a utilização de formas linguísticas de sentido concreto, facilmente acessíveis, e/ou claramente delimitáveis, para expressar significados menos concretos, menos acessíveis e menos delineáveis. Assim, a gramaticalização é um processo pelo qual expressões de significado concreto (formas-fontes) são usadas em contextos específicos para a expressão de significados gramaticais (formas-alvos). Daí decorre uma das principais premissas associadas aos processos de gramaticalização: a unidirecionalidade da trajetória: léxico > gramática, ou seja, [+concreto > +abstrato] (cf. HOPPER & TRAUGOTT, 2003), entendida como um processo irreversível, que só pode desenvolver-se da esquerda para a direita, ou seja, assume-se, basicamente, que um estágio A pode propiciar um estágio B, e não o contrário.

O estudo da gramaticalização de diferentes auxiliares atesta a validade dessa hipótese.11 Heine & Kuteva (2007), por exemplo, mostram que o uso do item used em Inglês, na indicação de ação física, isto é, como verbo lexical (como em He used all the money), é mais antigo do que o seu emprego como indicador de aspecto habitual (como em He used to come on tuesday). Mais especificamente, no domínio da modalidade, Casseb-Galvão (1999) detecta, no Português brasileiro atual, uma escala de mudança desenvolvida pelo verbo achar.

A partir de seu uso como verbo pleno (com o sentido de encontrar, procurar, descobrir), este verbo passa a se comportar, em determinados contextos, e em graus variados, como uma

11 Embora o princípio de unidirecionalidade seja colocado em causa por autores como Campbell (2001), Newmeyer (1998) e Janda (2001), não são atestados, por exemplo, casos de desenvolvimento de verbos plenos a partir de auxiliares.

(31)

espécie de advérbio modalizador epistêmico quase-asseverativo, posicionando-se fora da estrutura sentencial (com o sentido de talvez, provavelmente), como em são ... tribos assim que têm mais ou menos a mesma estrutura... todos no Alto Xingu eu acho (cf. CASSEB- GALVÃO, 1999, p. 94). Neste caso, o uso de achar é mais abstrato, portanto, mais gramaticalizado. Um percurso semelhante pôde ser observado por Gonçalves (2003) no uso do verbo parecer no PB contemporâneo. O autor identifica cinco usos possíveis desse verbo:

como predicado verbal (verbo pleno), como suporte de predicação/operador modal, como predicado de atitude proposicional, e, com valores semânticos epistêmico e evidencial, há, ainda, o quase-satélite atitudinal e o satélite atitudinal de natureza adverbial que corresponde ao estágio mais gramaticalizado. Nesse estágio, o verbo parecer é usado sem o complementizador que e situa-se fora da estrutura da predicação, podendo ocorrer em posições iniciais, mediais ou finais, como em a filha do Osvaldo ... nesse tempo meu genro era... vereador.... parece (GONÇALVES, op. cit. p. 125).

Seguindo a trajetória [+concreto > +abstrato], é particularmente produtivo, nas línguas humanas, o recrutamento de itens lexicais ligados ao domínio de posse para a expressão de significados [-concretos], dentre eles o de modalidade, como mostram os estudos de Heine (1993) e Krug (2000) para o Inglês, Izquierdo (2006) para o Espanhol e o processo de gramaticalização de ter no PB (PEIXOTO, 2006, por exemplo). Como detecta Heine (1993, p. 34), a forma have proporcionou um modelo conceptual tanto para a gramaticalização da categoria de aspecto (como em They have left) como para a categoria funcional de modalidade deôntica (como em They have to pay).

Numa perspectiva um pouco diferente, Givón (1971) propõe que a gramaticalização é um processo cíclico, para dar conta do fato de que a erosão fonética de uma forma pode levar ao surgimento de novas formas, que, por sua vez, podem seguir a trajetória: Discurso >

Sintaxe > Morfologia > Morfofonêmica > Zero. Heine (2003) discute a ciclicidade, afirmando que, embora ela possa ser, frequentemente, observada, não é uma propriedade nem necessária nem suficiente no processo de mudança por gramaticalização. O autor (op. cit.) ressalta que há muitos exemplos que sugerem que as formas gramaticais que perdem suas funções e/ou substância fonética não são necessariamente substituídas por novas formas.

Segundo posições mais recentes, processos de gramaticalização operam não propriamente sobre itens lexicais, mas sobre construções. Como enfatiza Lehmann (2002, p.

7) “não se pode propriamente dizer que um dado elemento é gramaticalizado ou lexicalizado.

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