5 PROPRIEDADES E TRAJETÓRIA DAS CONSTRUÇÕES MODAIS COM TER
5.6 Presença de elementos intervenientes
Como já abordado no capítulo 3, um dos aspectos mais frequentemente considerados na análise do processo de formação de perífrases temporais, aspectuais e modais é o grau de integração entre os elementos que as compõem, o que pode ser verificado através da possibilidade de inserção de outros elementos (cf. BYBEE et al. 1991; HOPPER, 1991; HEINE, 1993; HOPPER & TRAUGOTT, 1993, 2003; CASTILHO, 2002; LONGO & CAMPOS, 2002). A possibilidade de intervenção de algum elemento, principalmente entre o verbo auxiliar e o verbo principal, indica um fraco grau de gramaticalização, visto que, num estágio mais avançado de gramaticalização, a construção verbo auxiliar+principal forma uma unidade de maior coesão sintagmática.
Dentre os parâmetros de gramaticalização propostos por Lehmann (1985, 2002), a conexidade e a variabilidade sintagmática têm maior relevância para este estudo, pois permitem averiguar o grau de autonomia de um item/construção e, consequentemente, seu grau de gramaticalização98. Segundo o autor (2002, p. 131):
A coesão sintagmática ou vinculação de um signo é a intimidade com que um signo se liga aos outros signos com os quais tem uma relação sintagmática. O grau de vinculação de um signo vai da justaposição à fusão, em proporção ao seu grau de gramaticalização.99
97
Em que o alvo incide quer no evento quer na proposição: 58% (21/36) com orientação para a proposição e 43% (21/48) com orientação para o evento na amostra Censo 1980; 32% (14/ 43) com orientação para a proposição e 30% (21/70) com orientação para o evento na amostra Censo 2000.
98 Casseb-Galvão (1999, 2001) e Gonçalves (2003) verificaram que os parâmetros sintagmáticos propostos por Lehmann (2002) não são eficientes em análises que envolvem a gramaticalização de modalizadores no português brasileiro. São relacionados a processos específicos de gramaticalização, envolvendo morfologização de itens lexicais em estágios avançados (cf. Hopper, 1996, p. 230).
99 “The syntagmatic cohesion or bondedness of a sign is the intimacy with it is connected with another sign to which it bears a syntagmatic relation. The degree of bondedness of a sign varies from juxtaposition to merger, in proportion to its degree of grammaticality.” (LEHMANN, 2002, p. 131).
Deste modo, quanto mais dependente for um item de outro, mais avançado será seu grau de gramaticalização. O terceiro parâmetro refere-se à mobilidade de um item no interior da construção: quanto mais fixa a posição de um item dentro de um sintagma, menor será sua autonomia.
O parâmetro grau de coesão sintagmática, verificado a partir da possibilidade de inserção de elementos, principalmente entre V1 e V2, tem-se mostrado relevante para mensurar o grau de gramaticalização de diferentes perífrases no PB. Veem-se, como exemplos, Souza Campos (1998), para perífrases temporais e aspectuais; Casseb-Galvão (2001), para o desenvolvimento do valor evidencial de diz que; Oliveira (2006), na análise de ir + infinitivo para expressão de futuro; Almeida (2006), no desenvolvimento das perífrases participiais com ter e haver; Travaglia (2007), para a gramaticalização dos verbos passar e deixar como aspectuais e o de Souza (2011), voltado para o uso aspectual da construção [PEGAR (E) V2]. O estudo de Esteves (2010) mostra, igualmente, a importância da coesão sintagmática para maior ou menor gramaticalização de construções com os verbos ter/dar/fazer+SN. O trabalho de Almeida (2006) traz evidências mais seguras quanto à fixação sintagmática e maior coesão ou coalescência dos elementos formadores das perífrases participiais com ter e haver. Nos termos da autora, “À proporção em que o processo de mudança foi avançando, houve uma tendência a ocorrer uma maior integração nas construções participiais que passam a formar estruturas perifrásticas.” (ALMEIDA, op. cit., p. 44).
Como já discutimos no capítulo 3, alguns autores consideram o verbo ter nas perífrases modais como semimodal100 (cf. BRINTON, 1991; Von FINTEL, 2006) ou semi-auxiliar (cf. OLBERTZ, 1998; KRUG, 2000; TRAUGOTT & DASCHER, 2005). Neste estudo, consideramos ter de + infintivo e ter que + infinitivo como uma estrutura única ([V1fin..+V2infin.): na primeira, o verbo auxiliar ter (V1) liga-se ao infinitivo (V2) por meio da preposição de e na segunda através do elemento que. Verificamos que, nas amostras Censo 1980 e 2000, apenas na construção ter que + infinitivo101 pode ocorrer a inserção de elementos diversificados, como no exemplo (88):
100 Pires de Oliveira & Scarduelli (2008, p. 218-219) não consideram tem que como semimodal, mas auxiliar modal, formando uma única estrutura, embora reconheçam que “Costuma-se distinguir, na literatura, entre os auxiliares modais, como deve e os semimodais como tem que. Aqueles se caracterizam por se ligarem diretamente à proposição, ao passo que estes últimos necessitam da intermediação de um complementizador, como o que, ou de uma preposição”.
101 Nas 05 ocorrências registradas na amostra Censo 2000, não foram encontrados elementos intervenientes entre os constituintes da construção ter de + infinitivo.
(88) E: E você acha que a vida de jogador é fácil? Como é que você imagina que seja a vida de um jogador de futebol?
F: Eu não vou dizer que é fácil porque eu não sou jogador de futebol, mas, pelo que eu sei, jogador tá...tem sempre que comparecer aos treinos todos os dias, não pode atrasar senão paga multa. (CEN-00/09)
Como mostram os resultados do gráfico 1, o índice geral de inserção de material interveniente entre os elementos da construção modal ter que + infinitivo é bastante baixo, tanto em 1980 como em 2000:
Gráfico 1 – Frequência de material interveniente em ter que + infinitivo.
O gráfico 1 é favorável à interpretação de ter que + infinitivo como uma perífrase em grau avançado de gramaticalização. Nas duas sincronias, o índice de ausência de material interveniente entre os elementos dessa construção é superior a 90%, ocorrendo apenas 7% de rupturas em cada uma das amostras. Esses valores indicam acentuada coesão sintagmática entre os elementos constitutivos de ter que + infinitivo.
A restrição à inserção de elementos entre os componentes das construções modais com ter é confirmada nos dados da amostra NURC, tanto nas entrevistas do tipo DID, como nas EF. Nas primeiras, num total de 62 ocorrências de ter que + infinitivo, apenas em 03 foram registradas a inserção de elementos entre seus constituintes (03/62 = 9%), sendo que nesse registro houve apenas uma ocorrência de elemento interveniente entre os elementos da construção ter de + infinitivo (01/07 = 14%). Nas EF, num total de 43 ocorrências de ter que + infinitivo, apenas em 07 observa-se a inserção de elementos intervenientes (07/43 = 16%).
Um aspecto a destacar é o de que, nas amostras sob análise, a inserção de material interveniente entre os constituintes da perífrase ter que + infinitivo pode-se dar em espaços
estruturais diferentes: na fronteira entre ter e que ou entre o elemento que e a forma infinitiva, como ilustram, respectivamente (89) e (90):
(89) E: O seu irmão falou que sua mãe também foi assaltada? F: Meu pai.
E: Como é que foi?
F: Foi que ele sofria-sofria, olha só! pigarro e que ele passava mal, negócio [de asma, não é?] aí ele era pequeno, então, quando ele tinha esses negócio, ele- a gente tinha até que comprar um negócio assim para- de ar para ele, que ele começava a sentir falta de ar e ficava gelado. (CEN-80/61)
(90) F: Qué dizê, então existe eh... esse problema que eu acho que é muito sério aqui no- não só no Rio como em todos os lugares que você vê meninos de rua, São Paulo, é um grande exemplo. Então eu acho que tem que se pegá essas crianças e dá um pouco de amor pra eles, né? (CEN-00/24)
O gráfico 2 mostra a distribuição dessas interrupções, considerando cada uma das amostras em estudo:
Gráfico 2 – Distribuição de elementos intervenientes por fronteira.
O gráfico 2 permite concluir que, de forma geral, a inserção de material é mais frequente entre ter que e a forma verbal no infinitivo: 83% (36/43) na amostra Censo 1980 e 88% (46/52) na amostra Censo 2000, sugerindo que a sequência ter que está mais integrada sintaticamente.
Nos dados sob análise, nas duas amostras, há evidência de que é restrita a possibilidade de ruptura entre ter e que. Uma evidência favorável a essa restrição são os casos
de estruturas simétricas, coordenadas e justapostas, nas quais se pode ter uma elipse de ter que, sem comprometer o significado modal, como em (91) e (92):
(91) E: E você segue receita, para cozinhar, ou faz de cabeça?
F: Não. Às vezes a- a- não, atualmente eu já tenho muita coisa de cabeça, às vezes nem vou olhar a receita. Mas tem coisas que a gente tem que olhar, seguir pela receita, não é? (CEN-80/11)
(92) E: Cê já foi assaltada?
F: Eu já tive carros roubados. Agora, sê assaltada assim, eu não, até porque eu num ando com nada né? eu num ando com jóia, num ando com anel, num ando com relógio, nunca ando com nada.que possa... porque eles têm que sê rápidos, né? O assaltante ele tem que pegá e corrê. Né? então eu nunca ando com nada, tô sempre de short, tênis, de camiseta, nunca tem atrativos pra eles. Acredito que por causa disso. (CEN-00/24)
Uma outra possibilidade é a elipse de toda a perífrase, como em (93):
(93) F: No trânsito você tem que dirigi pra você e pros outros também, né? (CEN-00/10)
Em estudo sobre as perífrases temporais no Português, Souza Campos (1998) admite, como ponto de partida, que nem todos os elementos passíveis de intervir nas fronteiras entre elementos das perífrases possuem o mesmo efeito de ruptura. A autora mostra que, quando possível, a intervenção de elementos, principalmente entre V1 e V2 fica restrita a itens de pouca extensão fônica e, mais frequentemente, de natureza adverbial, portanto não-argumentais. Nos termos da autora, “trata-se, deste modo, de vocábulos de pouco peso semântico na oração como um conjunto, por não dependerem diretamente do verbo. Ligam-se diretamente ao verbo, sem terem com ele vínculo de dependência.” (op. cit. p. 80). É necessário, portanto, considerar a natureza morfossintática do material interveniente.
Relacionamos, a seguir, as possibilidades de elementos intervenientes nas estruturas ter [ ] que + infinitivo e ter que [ ] + infinitivo:102
102 Baseando-se na amostra NURC-RJ/70 (Norma Urbana Culta Oral), Vieira (2008) considera de e que em ter de/que + infinitivo como elementos intervenientes. Neste estudo, adotamos uma posição distinta, considerando que a preposição de e o elemento que são partes integrantes das construções modais, não representando, portanto, uma intercalação. Nesse sentido partilhamos a análise de Travaglia (2007), para quem, no caso de perífrases como passar+a+infinitivo e deixar+de+infinitivo, a preposição é inerente à perífrase, não podendo ser suprimida. Outro argumento que sustenta essa posição é a impossibilidade de variar a preposição. Diferentemente de outros elementos intervenientes, de e que não podem ser suprimidos das construções modais em análise e nem ser substituídos por outros elementos do mesmo paradigma.
1º) ter [ ] que + infinitivo Operador de foco
(94) F: [Não] ela er- era realmente difícil: de começo a gente n- não sabia nada, então a professora tinha que explicá “pa gente” como é que era; “tão” como a gente ia se... “sech-” eh... se esforçar... que a gente tinha é que prestá muita atenção no que ela tava falando, escrevia no quadro, tinha que té- prestá muita atenção. (CEN-00/05)
Marcador discursivo
(95) E: Mas por que especificamente língua portuguesa é importante?
F: Não sei, porque as pessoas tem, não é? que aprender [a]... [a]... a falar, porque- inclusive para sei lá, poder se colocar no mundo. (CEN-80/22)
Advérbio
(96) E: E... você acha que... a vida de jogador é fácil? Como é que você imagina que seja a vida de um jogador de futebol?
F- Eu não vou dizer que é fácil porque eu não sou jogador de futebol, mas, pelo que eu sei, jogador tá...tem sempre que comparecer aos treinos todos os dias, não pode atrasar senão paga multa. (CEN-00/09)
Elemento até
(97) F: E a mãe dizia: pode, filho. Pode, filho, você coma isso, cuidado, viu? Cuidado que você até pode ter uma dor de barriga, não é? Depois tem até que chamar o médico, não é? Até que o médico chegue, você "pode até morrer," não é? (CEN-80/46)
Elemento mesmo (98) E: César Maia.
F: É, o César Maia. É o Conde e o César Maia. Então eles dois já tava assim, eu acho que todos dois são os dois melhores...
E: É eu também acho.
F: Agora, acho que pra mim tanto faz um quanto outro, mas eu vou votar no Conde porque eu tenho mesmo que votar em quem tá arriscado ganhar porque depois num acontece... (CEN-00/25)
Hesitação103
(99) F: Não, eu- se eu tivesse [que]- que saltar, eu gostaria, mas eu não sei se é o que eu quero não. (CEN-80/22)
103 Embora não se trate de elementos intervenientes, a hesitação foi considerada nessa análise porque estabelece um corte entre os constituintes das perífrases em estudo.
2º) ter que [ ] infinitivo
Marcador discursivo (100) E: Colar como?
F: Ah? Aí a pessoa tem que, sabe, batê e a pessoa corrê, corrê e pegá a bandeirinha. (CEN-00/21)
Locução adverbial
(101) F: Então, a mesma coisa eu acho de uma esposa. Uma profissão. Eu escolhi como profissão. Então, se eu quero <só>- ter sucesso na minha profissão, eu vou ter que, cada dia mais, levar minha profissão a sério. Realmente levar a minha profissão a sério. E procurar, a cada dia, melhorar. Porque‚ uma profissão. Casamento‚ uma profissão. (CEN-80/43) Elemento só
(102) E: Leite em pó?
F: Não. Leite. Leite comum. É um pouquinho de leite só. Acho que é queijo- Ah! Não sei muito não. Bota um pouquinho de manteiga, um negócio assim. Tem que só ver na receita. Eu não sei não. (CEN-80/24)
Elemento também
(103) F: Faço a prova, oito horas já chego da escola, tiro o uniforme, às vez eu arrumo meu quarto, aí depois de uma hora, eu estudo, ajudo ela fazer o almoço, arrumo a cozinha, e aí vai. Ela não gosta de- que eu arrume a sala. Eu tiro o pó dos móveis. Agora ela que ajeita legal, porque acho que tem que também ter um pouco dela na casa, não é? Não só "minha" dos- das duas, não é? Já que eu sou garota, não é? "eu" tenho que- arrumo meu quarto, não é? (CEN-80/24)
Elemento sequenciador
(104) E: Me diz uma coisa: no ballett, você já tá fazendo ponta? F: Já.
E: Como é que faz? Eu nunca entendi.
F: Ah tipo assim tem uma... Cê bota no pé uma ponteira né? aí cê bota a sapatilha, né?, amarra, tudo bem, aí cê tem que cê tem que primeiro amolecê a sapatilha se você nunca usou sapatilha. (CEN-00/01)
Sujeito explícito do infinitivo
(105) F: Só são dois: um se torna-se a mulher e o outro, homem. Correto? Obrigações, então, para que que fica com aquela exigência de ter que eu chegar, digamos, oito horas e sair às quatro e meia à tarde. (CEN-80/26)
Clítico104
(106) E: E o problema da aids, hem, Simone? Como é que cê vê isso?
F: Eu acho que quem tem muito parceiro tem que usá camisinha, tem que se cuidá, porque o bicho tá solto, que isso mata, e pode passá [de] de um parceiro pro outro. Às vezes, um parceiro tá com aids, e não fala pro...prá parceira, aí a parceira pega aids, e aí que mora, aí que mora o perigo. (CEN-00/17)
Hesitação
(107) I- Vocês tiveram uma festa. Conta para gente que festa foi essa? F- Ah, nossa festa- nossa festa foi legal, sabe?
E- Como foi?
F- Foi legal, não é? Nós tivemos que- que- que falar, que coisa. Nós vamos ter outra festa no dia nove, não é? Essa é de encerramento. (CEN-80/05)
Mais de um elemento interveniente
(108) F:Se eu não casar, por exemplo, eu não vou estar nem aí. Eu acho que eu tenho que bastante é curtir a minha vida, não é? <pa...>- Quando chegar- quando eu tiver meus quarenta anos, dizer: "pô, eu já fiz isso, agora eu vejo minha neta fazendo." (CEN-80/24)
Na tabela 24, apresentamos os resultados em relação ao tipo de estrutura e a frequência de elementos intervenientes nas amostras Censo 1980 e Censo 2000. Por apresentarem identidade de comportamento, foram amalgamados os seguintes tipos de elementos intervenientes: hesitação com marcador discursivo, elementos de inclusão (até, mesmo e também), operador de foco com o elemento só e, ainda, advérbio, locução adverbial e elemento de enumeração.
104 Nas duas amostras, há predominância do clítico se. Não especificamos a natureza desse clítico (como recíproco, reflexivo, índice de indeterminação do sujeito, parte integrante do verbo), visto que o foco de atenção é verificar a interveniência dos clíticos entre os constituintes da construção ter que + infinitivo.
Tabela 24 – Natureza dos elementos intervenientes na construção ter que + infinitivo. Elementos
Intervenientes
Censo 1980 Censo 2000
ter [ ] que ter que [ ] ter [ ] que ter que [ ]
Operador de foco/só 1 = 14% 1 = 3% 2 = 33% 0 = 0%
Mar. discur./Hesitação 3 = 43% 4 = 12% 0 = 0% 8 = 20%
Adv./Loc.Adv./Enum. 0 = 0% 2 = 6% 3 = 50% 1 = 2%
Até, mesmo, também 3 = 43% 1 = 3% 1 = 16% 0 = 0%
Sujeito explícito do inf. 0 = 0% 1 = 3% 0 = 0% 0 = 0%
Clítico105 0 = 0% 19 = 59% 0 = 0% 24 = 61%
Mais de um elemento 0 = 0% 4 = 12% 0 = 0% 6 = 15%
Total 7 32 6 39
A tabela 24 indica, em primeiro lugar, que há maior diversidade no tipo de elemento interveniente que pode ocupar a fronteira entre ter que e o infinitivo e maiores restrições na fronteira entre ter e que + infinitivo, reiterando maior coesão sintagmática entre ter e que.
Embora o número de ocorrências para a maioria dos tipos de elementos intervenientes considerados seja bastante escasso para garantir uma conclusão mais definitiva, os dados da tabela 24 apontam diferenças e correlações interessantes. Considerando, inicialmente, a fronteira entre [ter] e [que + infinitivo], atesta-se diferença entre os dois períodos analisados. Em primeiro lugar, alguns elementos intervenientes tendem a ocorrer em uma amostra e não em outra, como é o caso dos marcadores discursivos/hesitação e advérbio/locução adverbial/elemento de enumeração. No primeiro caso, o percentual de 43%, na amostra Censo 1980, corresponde a dois casos de hesitação e a apenas um de marcador discursivo. No segundo caso, o percentual de 50%, na amostra Censo 2000, corresponde a três ocorrências do advérbio sempre. Outra diferença entre as duas amostras refere-se à predominância dos elementos operador de foco/só na amostra Censo 2000 (33%) em relação aos 14% da amostra Censo 1980, sendo que esse aumento de percentual corresponde a apenas uma ocorrência do operador de foco e uma quanto à inserção do elemento só. Destaca-se, ainda, a inserção do elemento até na amostra Censo 1980, com 43%, e do elemento mesmo na amostra Censo 2000, com 16%. Como os casos da inserção do advérbio sempre, do elemento só, do elemento até e do elemento mesmo correspondem a elementos intervenientes de pouca extensão (monossílabo e dissílabos), com pouco peso semântico na oração (cf. SOUZA
105 Na amostra Censo 1980, das 19 ocorrências com clítico, 14 correspondem ao clítico se e 05 ao clítico me. Na amostra Censo 2000, das 24 ocorrências com clítico, 18 correspondem ao clítico se, 05 ao clítico me e apenas uma ao clítico nos.
CAMPOS, 1998), e, aceitando a posição de Campos (1997), não chegam a comprometer a unidade interna entre ter e que + infinitivo da perífrase.
Na fronteira entre ter que e o verbo no infinitivo (estrutura ter que [ ] infinitivo), destacam-se os clíticos como o tipo de material interveniente mais recorrente, com índices quase idênticos para os dois períodos de tempo: 59% na amostra Censo 1980 e 61% na amostra Censo2000.106
Essa intromissão de clíticos entre os dois elementos verbais da construção, no entanto, pode ser um reflexo de uma tendência mais geral do PB, qual seja a de situar o pronome objeto em próclise ao segundo verbo, como mostra, por exemplo,Vieira (2008). A autora constata que, em complexos verbais, como é caso das estruturas em análise, predomina no PB a ordenação V1 cl V2. Aparentemente, portanto, observa-se uma tendência que vai de encontro à restrição proposta por Campos (op. cit.) quanto à natureza não argumental dos elementos intervenientes mais susceptíveis de ocorrerem no interior da perífrase. Entretanto, é necessário notar que os clíticos são elementos de baixíssimo peso fonológico, o que reitera a tendência observada para a configuração estrutural ter [ ] que + infinitivo. Tudo indica, inclusive, que, nas construções modais em estudo, a ordem dos clíticos é fixa, contemplando, assim, uma das características de gramaticalização, a fixação da ordem, proposta por Hopper (1991).
A tendência à inserção de itens de menor peso fonológico é reforçada pela incidência um pouco mais expressiva, na amostra Censo 2000 (20%), de marcador dicursivo e da hesitação (20%)107 entre ter que e a forma de infinitivo, porém com a presença de apenas dois marcadores discursivos, que pode ser indicativo de um aumento da coalescência entre os elementos da perífrase, dado que constituem elementos quase que inteiramente esvaziados de significado.
No entanto, a interpretação desse resultado exige certa cautela, visto que a hesitação, com maior presença nas duas amostras (04 na amostra Censo 1980 e 06 na amostra Censo
106 A presença de clítico nessa posição também ocorre em orações com polaridade negativa:
F- É. Teixeira, Nova Holanda, baixa e- contra o chiqueiro, um pessoal lá de trás que o pessoal chama de Chiqueiro. Então, quer dizer, há guerras entre quadrilhas. Mas sobre essa guerra, quem não tem que se preocupar, não é? (CEN-80/15)
107 A presença de marcador discursivo também é registrada em orações com polaridade negativa, como em: E- Por que que acontece isso daí? Você ... qual a sua opinião sobre isso?
F- Tinha que ficá lá mofano, né? na delegacia, na cadeia. Ficá mofano pro resto da vida dela. Ela num vai tê que, né, fazê de novo, né? (CEN-00/21).
2000) coloca alguns problemas particulares. De acordo com a posição de Heine (1993), a possibilidade de hesitação criadora de pausa entre os constituintes de uma perífrase pode ser tomada como um índice de menor integração, ou seja, de que ela não constitui ainda uma unidade semântica e sintática indissociável. Essa posição pode ser discutida, se considerarmos, de acordo com Travaglia (2007), que as pausas podem ser interpretadas como hesitações do falante, não representando uma quebra de vínculo entre os componentes da