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CAPÍTULO 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.3 Percepções e relatos sobre o processo formativo na licenciatura de Letras/Espanhol

4.3.1 Dos critérios para a escolha do curso Letras/Espanhol

Várias circunstâncias influenciaram a escolha do curso de licenciatura Letras/Espanhol. Nem todas as escolhas estiveram vinculadas à intenção de assumir a profissão de professor. Alguns estudantes optaram pelo curso com base na proposta do SiSU e das vagas e cursos disponíveis de acordo com a nota obtida no ENEM. Especialmente na Turma 1, houve relatos de não haver outra opção acessível naquele momento:

T1/5: ...escolhi o curso pela, mais foi pela seleção do SISU, né? Então, no

caso, o curso que tinha disponível no SISU que eu poderia fazer. Foi assim. Letras não era assim um curso que eu teria intenção de fazer né?

T1/4: ...a escolha do curso foi aleatória porque assim, era o que tinha

vaga no SISU...o curso que tinha disponível pelo SISU aqui em Brasília.

T1/1:...só tinha essa opção mesmo ...como a nota do Enem saiu melhor

escolhendo né? Também não foi minha primeira opção, mas aí eu vim pra cá31.

A escolha com base na disponibilidade de vagas de acordo com a nota obtida no ENEM e com a opção de curso disponibilizada pelo SiSU se contrapõe ao que Cunha (2001) menciona sobre a influência que a representação sobre a profissão tem para a escolha de formação inicial e para a construção da identidade profissional. Para alguns estudantes da Turma 1, a escolha não se deu a partir da experiência com a profissão, mas sim com a oportunidade de formação acessível em determinado momento de suas trajetórias.

Outro critério foi representado pela afinidade com a língua espanhola ou com o aprendizado de idiomas:

T1/3: ...já gostava da língua espanhola, então foi uma eleição gratuita...assim, quando eu vi que tinha essa possibilidade eu agarrei com todas as forças...

T2/3:Eu nunca tinha pensado em fazer exatamente Letras/ Espanhol.... Caí aqui de paraquedas também, como todo mundo, porque eu não tinha nota pra UNB, pros cursos que eu queria... a nota de corte tava muito alta pra qualquer curso na UNB e não deu certo. A minha segunda opção era Letras Inglês. Eu tentava pelo Prouni ou pela UNB, mas também não deu certo. E tinha o curso de Letras Espanhol que aí eu pensei:‘ah, eu já estudo Inglês, eu já assim gosto de idiomas de ver outras culturas, então pode ser uma boa oportunidade. E também eu posso fazer algumas matérias aqui e depois tentar em outra faculdade. Aproveito matéria. E continua a vida’. Mas aí, tô aqui até hoje.

T3/1:...eu precisava fazer um curso de ensino superior e, como eu não tinha passado...eu queria biblioteconomia, na época, mas eu tinha passado no final do terceiro ano e não pude entrar. Como não consegui passar de novo, eu coloquei qualquer curso, e um dos ‘qualquer curso’ era licenciatura em Letras Espanhol por que eu já tinha formação em espanhol.

T4/5: Eu fiz a inscrição no SISU e eu optei por Espanhol. Eu sempre gostei de Espanhol. Nunca tinha feito nenhum curso, mas ‘ah, vou fazer Espanhol’. E foi assim que eu entrei....Sempre gostei. Minha vida inteira tudo que eu fiz foi Espanhol. Nunca optei por Inglês.

Nogueira (2004) discute sobre o processo de escolha de cursos superiores com base em teorias sociológicas. Ressalta que as escolhas ocorrem “a partir de um conjunto particular de influências sociais, em parte contraditórias, e mesmo antagônicas, recebidas ao longo do tempo ou mesmo simultaneamente” (p. 97-98). Nas falas é possível

reconhecer o quanto a influência do contato com outras línguas, em especial o Espanhol, contribuiu para a escolha do curso pelos participantes.

O fato de ter indicado Letras/Espanhol como segunda opção de curso superior no SiSU também funcionou como critério. Nas palavras de T1/2:

...foi a minha segunda opção. A minha primeira opção era o curso de Nutrição, embora também goste da língua espanhola e enfim. Eu fui pra cá por esse motivo, fui chamada, não fui chamada pro meu curso de primeira opção, fui chamada pra Espanhol, foi a marcação de segunda opção. Então, ...agarrei com unhas e dentes.

O contato prévio com o campus Taguatinga Centro e/ou com o IFB foi motivador para a decisão de alguns dos sujeitos de se inserir na instituição ainda que sem a clareza sobre o curso e a atuação profissional em si.

T2/5: Tinha o curso aqui de Letras Espanhol, falei: ‘ah, vou tentar entrar

aqui porque não? Não é mesmo?’ E eu comecei a estudar aqui, mas nunca pensei em ser professora. Nunca. Odiava Espanhol, no Ensino Médio todo eu odiava a professora de Espanhol, odiava Espanhol (risos). Sério, nunca pensei em ser professora de Espanhol, mas acho que foi mais pela, pelo pessoal daqui, enfim, como eu nunca tive uma perspectiva, ‘ah o que eu quero ser?’... Eu tô aí até hoje, vou me formar e vou trabalhar na área. Me vejo muito como professora de Espanhol.

T2/1:A instituição em si. Sempre gostei da política da instituição, dos

valores que ela prega e assim, eu gosto justamente por isso. Porque senão eu não estava aqui que é bastante longe da minha casa. Tô aqui até hoje, vamos ver.

T3/2:Corri lá no campus Planaltina mesmo, eu fui lá só e consegui.

Pesquisei e vi um campus mais perto que seria – eu fiz a prova para vários, concorri para vários campus...- eu falei: ‘vou escolher o mais perto’. Então, eu escolhi, na verdade, o mais próximo pra mim, seria o campus que fica em Taguatinga centro. Só que depois que eu entrei aí eu comecei a gostar do Letras Espanhol, eu gostei da língua. [o sujeito tinha sido, anteriormente, estudante no campus Planaltina, outra unidade do IFB].

T4/3:Também fiz o Enem, aquele processo todo Enem, SISU e tive opção

de cursos na UNB também e também cursos aqui no IFB. O Instituto Federal já conhecia há muito tempo....Então assim, a qualidade do instituto eu já conhecia né? Mas o curso de Espanhol em si, foi meio que um tiro no escuro...

Participantes das Turmas 2, 3 e 4 que adotaram o contato prévio com a instituição como critério de escolha para o curso de licenciatura disponibilizado também revelam quanto a influência das experiências, sem desconsiderar as características próprias dos

sujeitos e suas histórias, exerce sobre o processo de decisão quanto ao curso de nível superior selecionado (Nogueira, 2004).

Os critérios de escolha presentes nos relatos dos participantes revelam que o ingresso num curso de formação inicial de professores nem sempre acontece por identidade prévia com a profissão e que os participantes optaram por acolher a oportunidade da educação em nível superior acessível em determinado período. Isso ocasiona repercussões também para o processo de adaptação à realidade universitária como identificado no tópico seguinte.