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dos ecossistemas marinhos da Baía

No documento Baía de Todos os Santos (páginas 195-200)

de Todos os Santos

Vanessa Hatje

Gisele Olímpio da Rocha Juliana Leonel

Luisa Ferreira Ribeiro Gabriel Cotrim de Souza Cristiane Sampaio Fahning

Introdução

a comunidade científica concorda que nosso planeta deixou o holoceno para trás e está agora vivenciando o antropoceno. embora exista uma grande discussão na literatura sobre quando este período se iniciou, bons argumentos indicam que este período coincidiu com a revolução industrial, no final do século 18. (CrUtZen;

stoerMer, 2000) o crescimento da população mundial associado ao desenvolvi-mento industrial e tecnológico; o audesenvolvi-mento da exploração mineral, da agricultura intensiva, da produção de novos materiais (e.g., plásticos); a extinção de espécies e a introdução de organismos exóticos em alguns lugares acabaram por criar a era dos homens. (Waters et al., 2016, 2014)

neste período, as atividades antrópicas passaram a exercer o domínio sobre muitos processos geológicos superficiais (e.g., fluxo de nutrientes para os ecossis-temas costeiros), aumentando substancialmente a escala dos impactos negativos na superfície do planeta. (MeYBeCK, 2003) Consequentemente, a transferência de elementos traço, maiores e nutrientes através do contínuo continente – zona cos-teira – oceano foi substancialmente alterada, gerando importantes implicações para os ciclos biogeoquímicos.

hoje existem evidências suficientes como, por exemplo, o aumento no nível de Co2, para formalizar o antropoceno como uma nova unidade de tempo ou pe-ríodo dentro da escala geológica. (steFFen et al., 2007; Waters et al., 2016) além disso, uma série vasta de marcadores, incluindo contaminantes orgânicos e inor-gânicos, pode ser utilizada simultaneamente para identificar o antropoceno, tais como plásticos (ZalasieWiCZ et al., 2016), radionucleídeos (Waters et al., 2015;

ZalasieWiCZ et al., 2016), metais (e.g., andrade et al., 2017), hidrocarbonetos, e compostos organoclorados.

embora seja difícil determinar o número de substâncias químicas que são comercializadas mundialmente e são potencialmente contaminantes, sabe-se que atualmente mais de 140.000 produtos químicos são vendidos em grandes quantidades no mercado europeu. estima-se que mais de 30.000 compostos com produção anual superior a uma tonelada sejam registrados até 2018. (eUroPean CheMiCals aGenCY, 2015) a agência de Proteção ambiental americana inclui anualmente cerca de 700 novas espécies químicas no inventário de Controle de substâncias tóxicas (tsCa). (GovernMent aCCoUntaBilitY oFFiCe, 2009) a pro-dução de compostos químicos tem crescido principalmente em países em desen-volvimento ou com economia em transição. Para o Brasil, por exemplo, está previs-to um crescimenprevis-to de 35% na produção de produprevis-tos químicos entre 2012 e 2020.

(United nations environMental ProGraM , 2013)

o desenvolvimento efetivo de tecnologias que controlam a contaminação e suas fontes, incluindo o tratamento de resíduos líquidos e sólidos oriundos de

atividades domésticas, industriais e hospitalares não acompanhou o crescimento global da população e da produção de novas substâncias químicas. este fato resul-tou em sérias consequências ambientais devido a demanda de um número cada vez maior de insumos químicos para a produção de alimentos, confecção de pro-dutos de alta tecnologia e muitos processos tecnológicos. Muitas das substâncias utilizadas não são removidas por sistemas de tratamento de esgoto convencionais, e são liberadas em águas superficiais, sendo transportadas para rios, estuários e eventualmente para os oceanos.

a zona costeira é particularmente importante neste cenário, pois oferece es-paços, bens e serviços para os seres humanos e habitats extremamente ricos para os organismos. (hatJe et al., 2013) esta região se destaca entre os ambientes mais densamente povoados do planeta, o que a torna extremamente vulnerável às mu-danças ecológicas, da paisagem e também de mumu-danças globais (e.g., o aumen-to do nível do mar). os sistemas costeiros, especialmente os tropicais, recebem a maior parte do aporte fluvial de água, material dissolvido e particulado. (Martin;

MeYBeCK, 1979; MilliMan; FarnsWorth, 2011; viers et al., 2009) estes também hospedam alguns dos ecossistemas mais diversos e produtivos do planeta, como recifes de corais e manguezais. a taxa de crescimento populacional nesta região é mais alta do que a média global, sendo que para mais de 50% dos países costeiros entre 80-100% da população vive em uma faixa de até 100 km da linha de costa.

(MartÍneZ et al., 2007)

o impacto da intensa atividade humana nas zonas costeiras tem sido am-plamente relatado na literatura, incluindo o aporte de contaminantes de origem doméstica, industrial e hospitalar, os quais podem causar vários impactos, como mortalidade de organismos, disfunções metabólicas, genéticas e hormonais, den-tre outros. o baixo número de espécies sensíveis em ambientes contaminados está causando o decréscimo da biodiversidade e pode desencadear mudanças no funcio-namento dos ecossistemas devido às alterações no ambiente, nas cadeias tróficas e nos padrões de produtividade. (dahMs, 2014) o resultado deste processo é a perda de uma série de serviços ecológicos que estes ambientes potencialmente oferecem.

Para evitar o agravamento dessa situação e integrar conceitos de prote-ção ambiental e uso sustentável do ambiente, a União europeia promove entre seus estados membros o trabalho pela busca do Bom estado ambiental (Good environmental status – Ges). (eUroPean ParliaMent and CoUnCil, 2008) este é um conjunto de 11 descritores qualitativos que objetivam manter os ecossiste-mas diversos, saudáveis e sustentáveis, bem como garantir acesso a peixes e fru-tos do mar com qualidade adequada para o consumo humano. os 11 descritores que permitem avaliar se o Ges foi alcançado são: i. manutenção da biodiversidade;

ii. espécies exóticas não alteram adversamente os ecossistemas; iii. preservação das malhas tróficas; iv. as concentrações dos contaminantes não causam efeitos

ambientais; v. peixes e frutos do mar são alimentos seguros; vi. o lixo marinho não causa danos em ambientes costeiros e marinhos; vii. estoques de peixes e frutos do mar comercializados são preservados; viii. eutrofização induzida pela ação humana é minimizada; ix. a integridade dos substratos de fundo garantem a funcionalidade do ecossistema; x. alteração permanente da hidrologia não afeta adversamente o ecossistema marinho; xi. energia, incluindo barulho subaquático, não causa efeitos adversos no ambiente marinho. os descritores do Ges focam em preservar a fun-ção dos ecossistemas e seus serviços ao invés de apenas a estrutura dos ecossiste-mas. (ChaPMan, 2015) neste sentido, é de vital importância trabalhar com linhas de múltiplas evidências para a avaliação da qualidade dos ambientes e o funcio-namento dos ecossistemas. (hatJe; Barros, 2012; KrUll et al., 2014; riBeiro et al., 2016) Combinar química e biologia é particularmente importante, uma vez que muitos contaminantes químicos, não só os tradicionais metais traço e hidrocarbo-netos policíclicos aromáticos, mas também a enorme variedade de substâncias químicas emergentes – microplásticos, hormônios, alquilfenóis, fármacos, agentes de contraste etc. –, tem destino, comportamento e potencial para causar efeitos biológicos ainda desconhecidos. a combinação de contaminantes químicos e ou-tros estressores – e.g., mudanças climáticas e efeitos associados como a estratifi-cação das águas, desoxigenação e diminuição de ph, além da invasão de espécies exóticas, e eutrofização – também aumenta a complexidade da determinação dos impactos e o que eles significam em termos de funcionamento dos ecossistemas e provimento de serviços ecológicos.

a Baía de todos os santos (Bts) é um dos maiores e mais ricos sistemas cos-teiros do Brasil. suas águas são bordeadas por manguezais, planícies de marés e estuários, enquanto ilhas e recifes de corais podem ser encontrados no seu interior.

trata-se, portanto, de um conjunto de ambientes extremamente diverso do ponto de vista ecológico, que fornece muitos bens e serviços. desde 1501, quando foi ini-ciada sua ocupação, a Bts esteve sujeita a uma multiplicidade de impactos incluin-do a construção de portos, desmatamento de Mata atlântica, construção de barra-gens, dragabarra-gens, mudança de uso de solo para a prática de agricultura, e pecuária.

a região abriga ainda parques industriais importantes, com reconhecido potencial poluidor – e.g., refinaria landulfo alves; Centro industrial de aratu, Camaçari, subaé – e uma área metropolitana com cerca de 3 milhões de habitantes. Uma descrição do histórico de ocupação e das fontes poluidoras da região pode ser encontrada no primeiro livro da série Baía de todos os santos, organizado por hatje e andrade (2009) e também em andrade e colaboradores (2017). nestes estudos também fo-ram apresentadas uma descrição da contaminação da Bts em termos de metais (andrade et al., 2017; hatJe et al., 2009) e hidrocarbonetos. (hatJe et al., 2009)

Baseado nos resultados apresentados em Barros e colaboradores (2008), eça e colaboradores (2013), hatje e Barros (2012) e hatje e colaboradores (2009, 2006)

e também nos capítulos desta edição, podemos concluir que a Bts não atende a todos os descritores do Ges. na realidade, o número de descritores que não são vá-lidos para as condições atuais da Bts é grande. algumas regiões da Baía, especial-mente o estuário do rio subaé, têm sua diversidade comprometida pela enorme carga de Pb, Cd e Zn que recebeu por mais de 30 anos devido à presença de uma metalúrgica localizada em suas margens. (hatJe; andrade, 2009; hatJe; Barros, 2012; hatJe et al., 2006; KrUll et al., 2014) em algumas localidades deste estuário a fauna bentônica é ausente (hatJe et al., 2006), indicando que a cadeira trófica (um dos descritores do Ges) também foi adversamente impactada. dessa forma, é de se esperar que os serviços ecológicos deste estuário estejam comprometidos. Como será discutido em Barros e colaboradores (Cap. 4), neste volume, algumas espécies invasoras já ocorrem na Baía. Um exemplo é a presença do coral sol (Tubastrea sp), espécie nativa do oceano Índico e Pacífico, com ocorrências registradas na Bts.

Um outro exemplo são as elevadas concentrações de as, Co, Cu e Pb detectadas em bivalves de algumas regiões da Bts, as quais podem causar risco toxicológico a depender da quantidade e regularidade de ingestão de frutos do mar. (soUZa et al., 2011, 2014) temos ainda a presença de resíduos sólidos nas praias (leite et al., 2014) e águas da Bts. embora existam poucos estudos, é visualmente observado que os resíduos sólidos apresentam impactos negativos nos manguezais, praias e sedimento de fundo da Baía, podendo também causar danos à biota (Figura 1).

Figura 1. Tartaruga encontrada na BTS enrolada em rede de pesca Foto: Gabriel Barros.

No documento Baía de Todos os Santos (páginas 195-200)