Eduardo da Silveira Campos (UFRJ)49
Para Gilvan Fogel
Quando ouvimos a palavra ensaio pensamos em ações preliminares de caráter preparativo e repetitivo com vistas a um momento apoteótico. Ensaia-se para atingir um determinado fim, a apresentação – o corolário de todos os ensaios. Ensaio pode ser entendido como tentativa, experimento, teste científico para a comprovação ou não de uma hipótese. Ensaio também é um texto literário breve, expositivo e argumentativo que versa sobre um determinado tema, cuja conclusão permanecerá em aberto. Estas são definições que frequentemente encontramos sobre o termo ensaio. No entanto, aquilo que aqui queremos pensar como ensaio não é o preparatório para uma apoteose, a ação prévia "experimental" que antecede um grande momento. Aqui, ao pensarmos em ensaiar, queremos destacar não o gênero literário "ensaio", mas o verbo ensaiar que está no princípio e é princípio. Neste texto, ficaremos concentrados sobretudo no ensaiar de psicologia.
Quando no mercado editorial nos deparamos com os "Ensaios de Psicologia" encontramos igualmente tentativas de dizer algo sobre aquilo que é experienciado na clínica, no encontro com o outro. O dizer que fala sobre o vivido na clínica é um dizer sobre o acontecido no tratamento, fruto do encontro de outrora, i.e, do tratado. O "passado" do tratado na clínica caminha paru passo às claras ou às ocultas com os grandes "Tratados de Psicologia", sob a sua sombra. Todo "ensaio de psicologia" é o cotejamento, ainda que de forma velada, estabelecido com os "Tratados" no sentido de buscar aproximações que descerrem o que está sendo encerrado neles, abrindo, assim, o que está concluído/fechado no tratamento dado pelo Tratado.
Entretanto, todo ensaio pretende ser um "pequeno tratado" que tenta desfechar o "grande Tratado" com o fecho de um outro desfecho, ainda que despretensioso. Apesar de ser um fecho estranho que, paradoxalmente, ao fechar também abre (des-fecho), pende muito mais para um fechamento, pois todo "ensaio de psicologia" é o "tratado" do tratamento vivenciado na clínica passada. Há aqui uma "recordação", não exatamente ao modo grego, mas, segundo a sua direção "para trás"; contudo, como é da própria natureza do "ensaio", este
49 Doutorando em Filosofia na UFRJ/IFCS
encontra-se sempre "bem" assombrado por uma "recordação para diante" (KIERKEGAARD, 2009, p. 32), que vem a ser a cada momento repetere: um belo instante em que "tudo se faz novo" para clínico e clinicando, de modo que ambos saltam inesperadamente para um novo tratamento. Neste novo tratamento a clínica é pastoreio e o tratamento é cura, enquanto os "tratados" oferecem "curatela". O pastoreio da clínica é o livre ensaio da cura do ver. O cuidado que é poiesis, cuida do cuidado de si do outro, que n'As Obras do amor diz: aquele cuidado maior que alguém pode dispensar a outro, qual seja, o cuidado de cuidar de sua "liberdade", i.e, cuidado que acena para a necessidade de submissão a um deves absoluto que inaugura uma solidão absoluta. Nessa clínica pastoreira, há um momento em que os polos da relação clínico-clinicando são solapados pela tensão criadora da centralidade do encontro, quando acontece, subitamente, a ocorrência do ensaio de uma comunidade de solidões (NIETZSCHE, 2011, p. 50) – o duplo olhar aparentados pela consanguinidade de um mesmo ver.
Mas o que é ensaio? Em italiano a palavra que traduz "sábio" é a mesma que traduz "ensaio": saggio. Ensaio tem raiz comum com saber, e deve ser por isso que todo ensaio de sábio é a sabedoria de saber saborear com sabor. O sabor desse saber não é um conhecimento prévio sobre "ensaios". O sabor de sua sabedoria não foi adquirido em um "Tratado de culinária". Ele até conhece os "Tratados", mas quando começa a cozinhar ele se esquece do acordo dos tratados, não por querer, mas porque está imerso em total doação ao tratamento culinário, totalmente fissurado na prova. A sua prova é o verdadeiro ensaio. Ele é todo entrega ao cozinhar. O percurso do método, o caminho de sua prova, é rigoroso: começa na feira, "provando" a melhor escolha, e vai até a mesa provando da melhor conversa. Na etapa da cozinha – o momento crucial do método, que se situa entre feira e a mesa –, ele segue entregue ao saboreio durante toda a ação de cozinhar. Aqui saborear é o mesmo que cheirar, ouvir, palpar, degustar, ver. Aliás saborear é o ver essencial que dá vida a todo cheirar, ouvir, palpar, degustar e, inclusive, o ver. Pois o ver que se dá como saborear é muito mais ver que o sentido do ver proporcionado pela visão.
O tratamento do sábio segue um método rigorosíssimo: não há disjunção entre teoria e prática. Entre uma mexida e outra na panela, a mão caminha paru passo com a boca. Durante o cozinhar, a mão leva à boca a "prova" de um bocado daquilo que está sendo feito, e, assim, a mão pratica sob a teoria e a boca teoriza sob a prática. Quando atingiu o ponto certo, a medida, "o pronto", o cozinheiro diz: "está bom!"; mas se não chegou à medida certa ou se passou do ponto dessa medida, cozinheiro diz: "não está bom!" – será, então, o momento de esperar mais um pouco pelo ponto certo ou jogar fora e refazer a coisa. O
cozinheiro em saboreando, está experienciando, está ensaiando. Assim, o ensaio é – o instante da experiência da prova50. Dessa forma, mais que um relato ensaístico do acontecido, o ensaio é o acontecimento mesmo da prova: "aquilo que existiu passa agora a existir" (KIERKEGAARD, 2009, p. 51, grifo nosso). Quer dizer: o apoteótico devém irrompendo na abertura do próprio ensaiar. Aquilo que passa agora a existir não repete outra existência previamente ocorrida, contudo mostra o movimento extraordinário e paradoxal de um poente que ama ser nascente.
Ensaio é o acontecimento de experiência, de prova. Não é comprovação. O com da com-provação é a lembrança do símbolo do "tratado". Esse com diz que a prova corresponde ao tratado. "Tratado", por sua vez, é um acordo sobre algo enunciado, acordo não apenas no sentido da adequação à coisa em questão, mas também com o outro que com ele que prova está de acordo. A pergunta que devemos agora fazer é: devemos rasgar os "Tratados"? Resposta: não – mas, por outro lado, sempre que for possível, ou melhor, quando não houver possível; quando dominar o necessitarismo deverá ser rasgado por amor ao mistério de ser e não ser que envolve toda a existência.
O Tratado jamais dará o ponto de cozimento, jamais será a medida da coisa. A medida, no caso da clínica, é o simples encontro, a relação em si mesma. O ensaio é a experiência dessa medida, a recordação de um tratamento criador que se coloca desde a dinâmica de possibilidades que se articulam no interior do abismo imponderável que se revela em todo encontro. Não há "magister dixit", nem o "le chef dit". Em cena devem estar apenas o homem diante do outro. A própria relação é a medida. A relação é o divos da abertura, a divina "determinação intermediária." (KIERKEGAARD, 2005, p. 78).
Para participar do sabor desse ensaio, é preciso ser frágil, mas não débil; ter algum saber, mas não erudição; ter o máximo de sabor, mas não de "experimento". Sobre essa sabedoria, que não é conhecimento de alguma "coisa", nos diz, Roland Barthes: "Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível" (BARTHES, 1989, p. 47). Se seguirmos as recomendações de Barthes para se aprender a pensar como quem aprende a saborear, podemos cogitar no âmbito da Psicologia uma "ciência existencial", cuja episteme é de natureza feminina. Femina, quer dizer, sem um lugar, sem uma base, sem uma estrutura, sem uma retidão – frágil como tudo que é grande e implacavelmente forte. Além disso, é mister que se saiba pouco, i.e, que se tenha pouca memória, de tal forma que nada possa obstaculizar uma recordação – o irromper de vida
capaz de ensaiar aquela primeira vez imemorial. Em contrapartida, o conhecimento da ciência objetivante é um reconhecimento memorial de uma dada representação. Sobre esse conhecimento re-presentado, escreve Fernando Pessoa sob a verve de Alberto Caeiro:
Vale mais a pena ver uma coisa
sempre pela primeira vez que conhecê-la, Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
e nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
(PESSOA, 1986, p. 232)
A primeira vez é a experiência do ensaio. Quem não vê pela primeira vez, não tem a garantia do sabor, pois quando prova da coisa ela já vem embalada na sensaboria do invólucro da representação. Quem recebe apenas os invólucros da tradição corre o risco de conhecer só de "ter ouvido contar", como Jó, que conhecia a Deus "só de ouvir". – Essa segunda vez "a gente sempre esquece" – e, se se esquece, o esquecimento não é para lembrar-se da data da primeira vez registrada na memória, porém para poder sempre recordar uma primeira vez imemorial.
Uma primeira vez é ela mesma a tensão da dinâmica entre esquecimento-recordação. No "ouvido" da lembrança deságua o Lete do olvidar; mas das águas do rio a filosofia bebe apenas um pouco – ou, melhor, a medida certa – para que, franciscanamente, recorde apenas o essencial (KIERKEGAARD, 2005, p. 17), quer dizer, a recordação daquela "primeira vez". – O "máximo de sabor" revela-se em qualidade sobre a língua de uma certa disposição para esse essencial. Sobre a força do saber saboroso que se dá através de uma prova "leve e sutil", diz Mario Quintana:
Quanto mais leve mais sutil
o prazer que das coisas nos provém. Escusado é beber todo o barril para saber que gosto o vinho tem. (QUINTANA, 2009, p. 218)
Saber é sabor, ensaio; no entanto, o "máximo de sabor" não é, de forma alguma, o mesmo que o "máximo de saber". A palavra "leve" no poema de Quintana, fala da suficiência do pouco para a experiência; e "sutil" mostra o modo da prova humilde desse mesmo pouco sendo saboreado com toda grandeza. O "máximo de sabor" é a grandeza dedicada à prova sutil daquilo que é leve, simples. Todo sabor essencial é a grande prova da pobreza suficiente desse ínfimo.
Episteme, palavra grega que costumamos traduzir por conhecimento ou ciência, é formada pela preposição epi e pelo verbo ístamai. Epi indica a situação de estar sobre, em cima, por cima de; ístamai significa estar em pé, fincado e fundado solidamente num lugar. Poderíamos dizer que significa um ato de debruçar-se como quem se debruça sobre algo para estudá-lo ou analisá-lo com afinco. A ciência moderna é isso: a transformação do conhecimento, como sabor, em técnica. Contudo, para os gregos, espisteme não possui apenas o sentido de conhecimento como hoje, nós, filhos da modernidade, entendemos conhecimento, mas fala de todo o contexto de aparecimento disso que vem à luz e tomamos conhecimento. A ciência moderna enquanto técnica possui somente o impulso para debruçar-se sobre o objeto, com o ardor da positividade e de uma voragem infinita. Por outro lado, na totalidade do contexto a partir do qual episteme é engendrada não está em jogo somente o sentido do debruçar-se do conhecimento científico que ao inclinar-se debruça-se com acribia sobre algo; há também aquele momento de um "debruçar-se" que ganha o sentido terno de um curvar-se referente de prosternação. Aqui não cabe o gesto triunfalista nem o impulso desbravador do "científico" – aqui se dá afastamento, recolhimento, recato – pudor; e, ao mesmo tempo, amando a coisa, mantém sobre ela um olhar ladino, baixo e de esguelha.
Deixar livre, sair de cima – ou "largar", segundo Clímacus – é uma atitude que participa do contexto daquilo que, para os gregos, diz episteme. Porque deixar livre, largar é algo (KIERKEGAARD, 2008, p. 69) – é gesto criador de episteme, i.e, de ciência. Ciência assim é um ver contido, pois também é não-ver. Ela não ensaia com vistas a um momento apoteótico, pois todo ensaiar é apoteótico – é divino. Dessa forma, toda filosofia de Kierkegaard é ela mesma uma ciência existencial, i.e, um ensaio vital, um saboreio da existência. A psicologia como ensaio é uma postura de resistência que areja os "ensaios de psicologia".
Em Meditações do Quixote, Ortega y Gasset traz a seguinte definição de ensaio: "a ciência menos a prova explícita" (ORTEGA Y GASSET, 1967, p. 45). Isto quer dizer que o ensaio é uma ciência que não pode apresentar a "prova" na forma de um objeto que assegure para outro a experiência do provado. Pois não haverá um produto, um resultado objetivo do
ensaiado. O sabor da prova do ensaio não pode se tornar um objeto capaz de "comprovar" para um terceiro a experiência intrínseca ao saboreio do sabor. Se o "terceiro" quiser saber terá que saltar igualmente para dentro do ensaio do encontro a fim de perfazer a "saga" de uma solidão que não pode ser representada, "explicitada" objetivamente. Portanto, todo o encontro clínico é um "ensaio de psicologia" aberto sobre o saboreio apoteótico da psicologia como ensaio.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, Roland. Aula. trad. Leyla Perrone-Moisés, São Paulo: Cultrix, 1989.
KIERKEGAARD, Søren. A Repetição, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2009.
______________________. As Obras do amor, trad. Álvaro Valls, 1ª ed. Petrópolis: Vozes, 2005
______________________. In vino veritas, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D'água Editores, 2005.
_____________________. Migalhas filosóficas – ou um bocadinho de filosofia de João Clímacus, trad. Ernani Reichmann e Álvaro Valls, 2ª ed., Petrópolis: Vozes, 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra, trad. Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia da Letras, 2011.
ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote, trad. Gilberto de Mello Kujawski. São Paulo: Livro Ibero Americano, 1967.
15-FÉ E REPETIÇÃO: UM OLHAR TEOLÓGICO-FILOSÓFICO