A PSICOLOGIA PARA ALÉM DE UMA ORDEM DISCIPLINAR
11- A VERDADE COMO UMA MULHER: PUDOR E DISSIMULAÇÃO NO DISCURSO DO SEDUTOR EM IN VINO VERITAS
Eduardo da Silveira Campos (UFRJ40)
Para Adriana Campos
Johannes, o Sedutor, sabia bem cortejar a verdade. Se seguirmos no seu encalço, em In vino veritas, poderemos sentir que o seu objeto, a mulher, tem a pele da verdade. O "Banquete" de Kierkegaard – pois se trata de uma evidente alusão ao Banquete de Platão – aborda, assim como o filósofo grego, a questão do amor; no entanto, do amor encarnado pela mulher. Com efeito, já mostra a defesa fulcral de um pensamento que seja capaz de pensar a realidade desde sua experiência de concreção, haja vista que o amor na história da filosofia fora assimilado pelo viés de uma abstração metafísica. Mas se a carne do amor se contrai sob a pele do feminino, o pensamento pode ganhar a concreção necessária para se pensar o real a partir das contingências de uma vida nua. A propósito, se torna indispensável inebriar com vinho a "Consciência" para que a verdade possa ser largada, desprendida, e, depois, retomada em uma dimensão vital. Por esse motivo os participantes só poderiam iniciar o discurso no banquete sob o efeito da bebida. A salvo do olho vígil, que vela com luz o cárcere da "Consciência", o pensamento irrompe – graças a abertura do vinho –: da inconsciência do coração que é a consciência livre do amor.
Em seu discurso sobre a mulher é nítida a reverência do Sedutor pela realidade do feminino, pela verdade da mulher. Em contrapartida, os outros discursantes que participavam do banquete quando faziam uso da palavra elaboravam análises morais, funestas, ressentidas acerca da questão do feminino. Não falavam da coisa, mas, sim, de suas próprias projeções traumáticas lançadas sobre o espelho feminino. O feminino é o outro; porém o dogmático subsume o outro a um segundo eu masculino de natureza subjetivista, dizendo sobre este – como bom "dogmático" – aquilo que lhe parece bem (adequado) dizer.
Nietzsche, no Prólogo de Além do bem e do mal, se pergunta: "Supondo que a verdade seja uma mulher – não seria bem fundada a suspeita de que todos os filósofos, na medida em que foram dogmáticos, entenderam pouco de mulheres?" (NIETZSCHE, 2005, p. 7). Nas lábias do Sedutor a pergunta de Nietzsche ganha o status de uma assertiva: a verdade
40 Doutorando em Filosofia na UFRJ/IFCS
é uma mulher. Sobre os comensais, os quais em seus discursos se aproximam da mulher com segundas intenções "metafísicas", ele dizia: "Mas vós sois amantes infelizes, e por isso quereis reconfigurar a mulher. Que os deuses não permitam. A mulher agrada-me como é, exatamente assim." (KIERKEGAARD, 2005, p. 140). Sem os impulsos do desejo de correção do real, típico do pensamento metafísico, o Sedutor se vê a mercê, submisso, capitulando fascinado diante da verdade. A caminhada "metódica" do Sedutor é um galanteio à margem da coisa, ao seu derredor. Nos passos leves da elegância, à distância, acalenta a hora certa da coisa. Ele conhece a "linguagem da natureza, a linguagem do amor", diferentemente do "amante infeliz" que é tão pobre nesta arte que precisa "converter o seu défice em letra de câmbio para a eternidade" (id. ibid.). Algo – como a burocracia da "letra de câmbio" – precisa representar o seu "défice" às avessas para que assim tenha algum "valor de verdade" as suas impressões adulteradas acerca da mulher, tendo em vista o seu estrabismo hermenêutico. Todos que discursaram sobre a mulher no banquete, se estivessem ao lado de uma, "não produziriam mais do que vento", diz o Sedutor.
Após a realização de todos os discursos proferidos à mesa, o Sedutor, em tom de gratidão pelo banquete de Constantius, inicia a sua fala sobre a mulher tal como alguém que para falar da divindade tem a necessidade de estar inspirado e instruído pelo divino para dele falar condignamente: "somente dela mesma se pode aprender como falar sobre ela" (id. ibid. p. 142). O dizer que cumpriu a experiência fala dela através do testemunho de um discipulado. Aqueles que dizem algo sobre o real a partir do lugar onde ele não se encontra realizam a mesma distorção objetivante dos discursantes do banquete, quando fizeram do "beijo" uma mera "prova de paladar" e confundiram um "abraço" com um "aperto". Falta-lhes não o gestual da exterioridade do "beijo" e do "abraço", mas o gesto da interioridade, da experiência da verdade.
Sorrindo de través, o Sedutor esnoba a "maledicência" que os maridos lançam sobre ele, "porque afinal o que faço é dar à mulher um reconhecimento muito maior do que o do marido" (id. ibid. p. 144). O marido é o "filósofo dogmático", o baluarte do discurso objetivante, que cumpre os esponsais sem jamais desposar a mulher. O marido dogmático – erudito e analítico – é o tipo que conhece as "regras do escrever, sem suspeitar as do amar" tem "orgias de latim" e é "virgem de mulheres" (MACHADO, s/d, p. 27). Cerca, prepara, apronta, aponta, arruma, ajeita, arma, estuda – e: só.
No decorrer do discurso, o Sedutor se vale do "mito da criação do homem". Segundo a sua releitura do mito, após a feitura do homem, os deuses concluíram que pela força não poderiam submetê-lo, pois senão os deuses o teriam feito. Imaginaram, então, que o homem
deveria ser "capturado e submetido por um poder que fosse mais fraco do que o seu e que contudo fosse mais forte, suficientemente forte para o subjugar" (id. ibid. p. 145). Esse poder era a mulher, tal como o poderio de uma feiticeira que enfeitiça o homem "enredando-o nos caminhos sem fim da finitude" (id. ibid.). Contudo, houve homens que souberam atentar para a sua ilusão, que perceberam os seus encantos, e se deram conta da ambiguidade de sua coisa: verdade e não-verdade, realidade e ilusão. Na bruma desta ilusão, a verdade assume as duas faces: do" verdadeiro" e do "falso" – jogando com homem que se agrada de jogar às escondidas, à maneira da dissimulação da verdade. Como recorda, Harada, a "dimensão pré-predicativa, viva, concreta e prévia"41 da verdade não se mostra imediatamente no ser ou no vir a ser, mas dissimulada nebulosamente nos interstícios da real. Esta é o traço de ciganice que encontramos Capitu de Machado.
A verdade é uma Capitu; e quanto mais "forte", "bravateiro" e "desbravador" o homem for, mais engodado e enredado ele será pela sua brejeirice. Quando Bentinho diz que Capitu era mais mulher do que ele era homem42, não está em questão, de forma alguma, a insuficiência de sua fisiologia masculina ou algum tipo de castração incubada. Este fenômeno através do qual Bentinho se torna subitamente o polo feminino é o instante arrebatador no qual a fragilidade da verdade da mulher, com seus "olhos de ressaca", fazem as pernas de Bentinho desobedecê-lo. Ah! O projeto dos deuses logrou êxito. De homem conquistador passou a conquistado43.
A mulher e a verdade tem algo de sagrado: mysterium tremendum et fascinosum (OTTO, 1985); Capitu tinha uma lubricidade que despertava tremor e fascínio. Por um instante atraía e fascinava Bentinho, e, logo, fazia-o fremir por todo corpo quando ocorria a transformação repentina da mulher em pura fêmea, "quando vem à tona o animal astuto e lascivo, em plena posse da técnica de seduzir"44. Bentinho é súcubo. Submetido em baixo de Capitu, capitula diante da "frágil" menina, como que amando a submissão. Apesar de saber que possui musculatura mais forte que a da menina, se entrega à sedução sem razão alguma para resistir; e, então, perdido e entregue sem forças, pode enfim conhecê-la (abraçar com amor).
A tolice de um homem é proporcional à força de sua certeza objetiva, fruto do esquecimento crucial de que a verdade traz consigo sempre oculta a não-verdade do "olhar de cigana oblíqua e dissimulada" (MACHADO, s/d, p. 57). Este homem forte é como o marido
41 Cf. HARADA, 2006, p. 34.
42 ASSIS, s/d, p. 54.
43 Cf. MEYER, 2008, p. 116 – 117.
que lança um olhar seguro de si sobre a esposa. Não sente mais qualquer temor e tremor em relação a ela, pensa estar garantido, respaldado pela exterioridade dos conhecimentos da gramática do casamento e pelas instituições que zelam pela família. Com os papéis do enlace matrimonial encoleira a "verdade" sem amor e sem paradoxos: como um amante medíocre e sem paixão. "Não corro mais riscos!" – é o que pensa... Ele não sabe que não sabe que entre o enlace e o desenlace há apenas o nó corredio de um laço, continuamente se deslizando no tempo, atando-se e desatando-se diuturnamente sob a força de uma repetição conquistada a cada instante de casamento e separação: "É assim que o erotista a entende e, no instante da sedução, condu-la e é conduzido por ela para fora do tempo, já que enquanto ilusão é aí que ela pertence. Junto do marido ela torna-se temporal e ele também juntamente com ela." (id. ibid.).
O marido tem sua mulher como um universal, i.e, sua esposa é elevada à generalidade, porque dela extrai um conteúdo comum a todas as mulheres. O sedutor, pelo contrário, a partir da relação universal que estabelece com cada uma, insiste e descobre, entre as razões universais de cada mulher, aquela vivacidade singular que nela se guarda como segredo. Ele retira a mulher da exposição às luzes que universalizam, desnudam, devassam – devolvendo-a para a santidade do recato encoberto de sua erótica singularidade. O pensamento dogmático, que grassa tanto entre filósofos quanto entre teólogos, relaciona-se, ao modo universalista do "marido", com uma "verdade" representada conceitualmente pelos esquemas da razão.
A verdade é a verdade do mesmo modo que "Capitu era Capitu" (MACHADO, s/d, p. 54, grifo nosso). Esse verbo é não diz permanência de algo que era e continua a ser. Pelo contrário, diz que a coisa passa neste instante a ser, a acontecer, saltando para dentro do círculo da vida que impõe a cada momento a tensão de diferença entre continuidade e mudança. As sentenças: "A verdade é a verdade" ou "Capitu era Capitu" não mostra qualquer tautologia vazia. A repetição diz que a verdade a cada instante é, torna-se singular, como Capitu era para Bentinho "uma criatura mui particular": Capitu é Capitu, quer dizer, Capitu vem a ser a cada instante – singularmente – Capitu.
A Capitu de Bentinho não é nem mesmo o seu nome de batismo, Capitolina; nem alguma outra apelidada de Capitu. Ela é si-mesma e é sempre outra – mil véus, mil faces. Capitu é um universal aberto, ela sozinha são muitas "verdades", muitas mulheres, muitos modos de ser: "É por isso que a mulher não se deixa esgotar em nenhuma fórmula, antes é uma infinitude de finitudes..., porque a ideia de mulher é somente uma oficina da possibilidade, e, uma vez mais, para o erotista esta possibilidade é uma eterna fonte de
entusiasmo obsessivo." (KIERKEGAARD, 2005, p. 148). O filósofo, mais do que qualquer outro, é um erotista que ama o impulso para o movimento desta realidade lúbrica da verdade.
A mulher é dissimulação. Não é simulação nem simulacro: não faz parecer o que não é (simulação) e nem aparece como o que de fato é (simulacro). Sua dissimulação é disfarce, ironia e engano, não por hipocrisia ou impostura, mas por amor ao que guarda, resguarda, protege e oculta no mistério do seu ventre. A não-verdade de seu caráter, seu fingimento, engano, falsidade e dissimulação – ou mesmo o seu não-caráter, devido à assunção de vários estilos, ocorrem por amor a uma verdade de outra natureza, jamais absoluta. A verdade retida na contenção do mistério do seu amor faz refulgir o brilho daquilo que é doado ao homem como aparência. O brilho do escuro desse mistério atrai o homem para as venturanças do pensamento. Desperto, ele a segue atraído e igualmente contido no contentamento de uma natureza que se mostra tão delicada e lúbrica quanto potente. A mulher que exerce a força da fala dessa verdade possui uma relação direta com o que diz, contudo seu dizer é às avessas, é indireto: cada re-velação que revela com fidelidade é um novo véu lançado, que ao esconder – mostra (KIERKEGAARD, 2013, p. 254 et seq.).
Aqueles que participavam juntamente com o Sedutor do banquete de Constantius, discursavam queixumes, proferiam impropérios colhidos das próprias decepções com a realidade própria da natureza da mulher. Enojados e ressentidos com a dissimulação da mulher, discursavam decepcionados com a inexistência de uma verdade que deixasse a coisa "explicitamente" às claras. Traziam no discurso sub-repticiamente a revolta, a grima e o desejo pela morte da mulher, como Herodes a morte de Salomé após a "dança dos sete véus"45.
No ser de sua aparência a mulher sobeja coração, e este vem todo a pique na dissimulação. O coração vai à luz pela via da pulsação –, e no pulsar deste pulso está todo inteiro. A presença desta aparência atrai o homem pela pulsação de uma ausência; e o coração segue recolhido, protegido, e, no entanto, sua presença pulsa na pele. Que aparecer é esse da aparência da mulher? Certamente não é qualquer aparecer. A dissimulação da mulher não é impostura. Sua natureza não conhece a compostura e circunspecção da teoria machadiana do medalhão, que vive diuturnamente à busca e às expensas de uma conde-coração. Na impostura do medalhão, o coração está sempre com, à roda da multidão, acompanhado por "condecoradores"; pois, a cada conde-coração aparece nele, ao menos simbolicamente, um "coração". Sua "aparência" é publicitária. Mas a mulher, na ardência máxima do seu aparecer,
está só como segredo e mistério de ser e não ser. A compostura da impostura da "aparência" como publicidade, tem um ar grave de circunspeção, eivado de maneirismos e risos esporádicos de escarninho, mas sempre acautelados quanto aos riscos da ironia – aquele riso discreto de Capitu "ao canto da boca" que mostra, como ninguém, a verdade do ser de qualquer coisa.
Por sua vez, o feminismo, como a adoção de um caráter, é uma cortesia à masculinidade androcêntrica, e vem a ser a forma mais perigosa de misoginia, tendo em vista que não aparece imediatamente como um perigo. "Ele" é a perdição do coração feminino pela ânsia política das conde-corações masculinas, sem as quais não pode tornar-se o seu avesso. "Ele" é um machismo às avessas que nutre uma inveja pelo valor de retidão do cetro, acreditando que o vão do círculo do anel no qual a mulher se insere é de somenos importância. O erotista, ao derredor da mulher, nas cercanias do feminismo pueril, entra em luta jogando o jogo da sedução com a mulher dormente, para que da mulher, no ápice da agonia da luta, se desvele a fêmea toda inteira no ser de sua aparência.
O desvelo no aparecer da mulher é a piscadela da verdade, instante da relação, a insinuação de um convite, o soslaio de Capitu; que ao recuar, acua; ao velar, revela. Confirma o Sedutor: "Era convidativa, mas era-o por se furtar; era atractativa, mas era-o porque escapava; era irresistível, mas por via da sua permanente resistência" (id. ibid. p. 150).
A despeito da verve sedutora da filosofia de Kierkegaard (estádio estético) ser pacificamente assumida pelos estudiosos do filósofo dinamarquês como sendo aquele famigerado sentido de uma vida entregue à fruição, ela parece escamotear – talvez propositadamente – um lado profundamente religioso de quem sabe cortejar com reverência sagrada a verdade. Retomando esse sentido erótico que constitui a sagrada reverência do ofício do filósofo, Alvaro Valls afirma, "traduz" o filosofar: "Fazer filosofia, poderíamos traduzir, é como tratar bem, decentemente, respeitosamente uma mulher. Sem violentá-la, para que ela consiga mostrar-se assim como ela é" (VALLS, 2012, p. 96).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSIS, Machado. Dom Casmurro. São Paulo: Catania Editora, s/d.
HARADA, Hermógenes. Em comentando I Fioretti, ed. 2ª, Bragança Paulista: Editora Universitária, 2006.
KIERKEGAARD, Søren, In vino veritas, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D'água Editores, 2005.
____________________. Pós-escrito às Migalhas Filosóficas, v.I, trad. Alvaro Valls, Petrópolis: 2013, Vozes.
MEYER, Augusto. Machado de Assis, ed. 4ª, Rio de aneiro: José Ollympio/ABL, 2008. NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal, trad. Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia da Letras, 2005.
OTTO, Rudolf. O sagrado, trad. Prócoro Velasquez Filho, São Bernardo do Campo. Imprensa Metodista, 1985.
12-AS TANTAS VEZES EM QUE A GENTE COMPARECE NO PÓS-ESCRITO DE 1846. (LEITURA DE UMAS PÁGINAS DE
KIERKEGAARD, AINDA INÉDITAS NO BRASIL)