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Na célebre apresentação que B. Bourgeois fez à sua tradução da Enciclopédia das Ciências Filosóficas, é claramente acentuado que a filosofia de Hegel é “verdadeiramente um sistema e o sistema”, cujo núcleo reside na afirmação da unidade de sujeito e objeto, pensar e ser. Tal afirmação verificar-se-ia na prática do filósofo, “que se esforçou sempre por esquecer sua própria subjetividade, que como tal é um obstáculo ao pensamento, imergindo no conteúdo da ‘Coisa Mesma’(...)” (1995, p.376).

Esquecer sua própria subjetividade seria, para usar uma expressão da Fenomenologia, a tarefa séria e definitiva, esforço necessário para que o rigor do conceito pudesse penetrar na profundeza da Coisa (Cf. HEGEL, 2014, p. 25). Com efeito, é o trabalho do conceito que pode construir a “verdadeira figura em que a verdade existe”, i. é, seu sistema científico – afinal “a verdade só no conceito tem o elemento de sua existência” (Id., Ibid., p. 25).

Ora, sabemos que Hegel está ciente de que a ideia segundo a qual o verdadeiro se dá no conceito contradiz aquela representação romântica de que o verdadeiro só existe no que se chama intuição ou, com outras palavras, que “o absoluto não deve ser conceitualizado, mas somente sentido e intuído” (Id., Ibid., p. 26). A exigência romântica, então, seria justamente a de “reprimir o conceito que diferencia” em favor do êxtase, do “entusiasmo abrasador”. Tratar-se-ia de garantir mais a edificação do que a perspicácia! (Cf. Id., Ibid., p. 26-27). Está claro: para Hegel este não pode ser o caminho trilhado pela filosofia. Precisamente por isso

54 Que nossa promessa não seja vã!!

ele pode afirmar sem rodeios que “a filosofia deve guardar-se de querer ser edificante” (Id., Ibid., p. 26).

Curiosamente, o primeiro texto do projeto autoral de Kierkegaard intitula-se Dois Discursos Edificantes (1843) 55. Trata-se da primeira série de escritos edificantes que publicará durante toda a sua atividade de escritor. Os Discursos sempre abrem com um prefácio dirigido ao indivíduo de boa vontade a quem Kierkegaard chama de meu leitor e de meu refúgio. Dirigir-se ao indivíduo está longe de ser para ele questão supérflua! Em seu póstumo Ponto de Vista de meu Trabalho como Autor, Kierkegaard enfatiza que “foi com a categoria de «o indivíduo» que os pseudônimos visaram, no seu tempo, o sistema, quando tudo na Dinamarca era sistema e mais sistema” (SKS 16, 98). E acrescenta em nota: “E quem tem ao menos um pouco de dialética verá que é impossível atacar o sistema a partir de um ponto interior ao sistema. Mas há apenas um ponto exterior, de fato espermático: o indivíduo, acentuado ética, religiosa e existencialmente” (SKS 16, 98).

O alvo a que visa a edificação é o indivíduo singular. Por isso Hegel é bastante consequente quando afirma que a filosofia deve resguardar-se da pretensão de ser edificante56. E por isso também Bourgeois parece estar correto quando diz que Hegel se esforçou sempre por esquecer sua própria subjetividade – porque afinal a dimensão subjetiva é justamente aquela que se presta à edificação e não à investigação científica. Esta, por sua vez, não quer saber nada do indivíduo, de sua condição particular, de suas dúvidas e angústias. O “Hegel” que escreve a Fenomenologia e a Enciclopédia está ciente disto, e sabe muito bem que não pode “fazer filosofia” da mesma forma que elaborou os seus sermões no início de sua formação. Kierkegaard também o sabe, e por isso parece fazer uma escolha pessoal exclusiva: escolhe o edificante57 ao invés da filosofia dominante no seu tempo.

Em afinação com os Discursos Edificantes e como que respondendo ao Prefácio da Fenomenologia do Espírito, Anti-Climacus, pseudônimo que assina A Doença para a Morte (1849), escreve nesta mesma obra: “Cristãmente tudo, absolutamente tudo deve servir para a

55 A rigor, o primeiro livro publicado por Kierkegaard foi Papéis de alguém que ainda vive (1838).

56 O professor e tradutor Álvaro Valls fez uma importante sugestão ao nosso texto que precisa ser levada em consideração. Aqui, trato os conceitos de “edificação” ou de “edificante” como se tivessem um significado muito similar para Kierkegaard e para Hegel. Ambos entenderiam a edificação num sentido mais ou menos unívoco. Foi-me então sugerido que investigasse se não há uma possível divergência de compreensão entre Hegel e Kierkegaard no que diz respeito ao significado e ao uso da palavra “edificante” nos respectivos contextos em que aparecem. Como ainda não pudemos proceder cuidadosamente a essa investigação, sugerimos que o leitor fique atento a este fato. É possível que exista uma distinção importante que ainda não fomos capazes de captar.

57 N’As Obras do Amor (1847) Kierkegaard nos apresenta alguns traços característicos daquilo que ele entende por edificação (Cf. KIERKEGAARD, 2005, pp. 240-255).

edificação. O tipo de cientificidade que não acabar por ser edificante será, precisamente por isso, acristã”. (SKS, 11, 117).

Notemos que Anti-Climacus não está afirmando que não se deve fazer ciência, mas sim que toda cientificidade que negligencia a dimensão da edificação está em desacordo com o cristianismo. É para o cristianismo que o edificante é essencial, não para a filosofia. É perfeitamente coerente elaborar um sistema filosófico que não acabe por ser edificante. Mas no momento em que o sistema quer conformar-se com cristianismo, precisa então tornar-se edificante – e consequentemente deixar de ser sistema e passar a falar ao indivíduo singular.

Depreende-se daí algumas conclusões relevantes. No que diz respeito ao lugar do elemento edificante, existe uma clara divergência entre Kierkegaard e a filosofia sistemática. Mas a primeira vista parece que essa divergência não é filosófica, mas programática, ou seja, que Kierkegaard não estaria discordando do programa sistemático per se, mas antes assumindo para si um programa distinto que a filosofia (ao menos a de Hegel) conscientemente não assume como seu. Visto sob este ponto de vista, não haveria conflito – um dos lados se propõe a fazer ciência, enquanto o outro a trabalhar no sentido da edificação.

Todavia, a relação não é tão simples quanto parece. Pode acontecer que o projeto sistemático acabe por exceder os seus limites ao interferir em âmbitos que não lhe dizem respeito. Por exemplo, quando o pastor dinamarquês Adolph Peter Adler, em suas Preleções Populares Sobre a Lógica Objetiva de Hegel, correlaciona a fé com o conceito de imediatidade e confunde a dogmática com a lógica, então Kierkegaard precisa interferir para denunciar os excessos. Sempre que a filosofia especulativa – em sua tendência de unificação e pretensão de totalidade – inclui em si elementos que, para Kierkegaard, excedem os seus limites, então a crítica se faz necessária.

Por outro lado – e este talvez seja o traço mais importante –, mesmo que a filosofia sistemática mantenha-se conscientemente dentro de seus limites, há algo na natureza de seu projeto que, ao que tudo indica, mostra-se para Kierkegaard como um ponto de crítica incontornável. Trata-se de sua completa indiferença em relação à condição existencial do indivíduo. Mais precisamente: o que Kierkegaard não pode deixar de criticar é o fato de a filosofia sistemática dedicar-se exclusivamente à busca da unidade abstrata de pensar e ser em detrimento da relação concreta entre pensar e existir. Neste sentido Kierkegaard é um crítico de Hegel tanto quanto de seus contemporâneos dinamarqueses. A verdade objetiva visada pela filosofia, embora tenha o seu lugar e a sua importância, é diferente da verdade que pode penetrar a vida, ou melhor, da verdade que é verdade porque é vida. Não é por acaso que a última frase de Ou isto-Ou aquilo (1843) é uma afirmação do pastor da Jutlândia que reza:

“somente a verdade que edifica é verdade para ti” (SKS 3, 332). Quando a filosofia descuida dessa verdade – ou ainda pior –, quando confunde o existente ao querer dar à verdade objetiva um valor subjetivo, então Kierkegaard vê-se obrigado a intervir.