Apesar de o amor pertencer ao homem de forma essencial, ele pode – e é constantemente fraudado. Kierkegaard não se constrange em associar o amor à felicidade. Fraudando o amor, a pessoa nada mais faz do que estorvar a sua própria busca de felicidade. Ao inventar um engano para se furtar de aprender a amar, ao se furtar da necessidade amorosa do outro, ela nada mais faz do que enganar a si mesma. O subterfúgio resulta não só num autoengano, como na própria infelicidade.
Kierkegaard nota que podemos suspirar por alguém que não encontrou, ainda, a quem amar (2007, p. 185). Ou, acrescentamos, podemos suspirar por quem não conseguiu se acertar no amor, não conseguiu alguém que lhe trouxesse as benesses do amor. Lamentamos por sua suposta solidão, por sua pouca sorte, suas escolhas infelizes. Ora, avalia Kierkegaard, suspirar pelo destino do outro é bem mais ameno do que olhar para si mesmo e para como se encontra a sua própria vida. Lamentar pelo estado do amor no mundo, ponderar com tristeza sobre a falta de amor no mundo é um bom modo de esquecer a si próprio para deitar a consciência no colo acolhedor do sofrimento nessa entidade abstrata que se nomeia como “todo mundo”. Aliás, mundo, nesse estrito sentido é tomado como algo indiferenciado, todo mundo pode caber nele. Ele parece tão próximo de mim, avizinha-se por todos os lados, é composto pela multidão, mas, posso estar tentando passar a perna na angústia, esmerando-me para olhar a todos, olhar essa massa indiferente, sem olhar para minha própria situação. Afinal, “suspirar sobre o mundo e sobre o seu infortúnio é sempre mais fácil do que bater no seu próprio peito e suspirar por si mesmo” (KIERKEGAARD, 2007, p. 185).
Podemos murmurar, ao divagarmos sobre o amor, que os homens não merecem ser amados: são miseráveis vasos de barro, mesquinhos, apegados ao seu “ego”, não dignos de confiança, inconsequentes, aventureiros, ignorantes, inconstantes, hostis, ingratos. O queixume costuma ser mais alto quando nos sentimos feridos pelo amor, ou seja, quando nossas expectativas sobre ele são arrancadas de nossas pretensões à felicidade como telhas quebradas por um forte vento. Ao colocar o amor no banco dos réus, ou seja, ao nos fixar numa atitude acusativa contra o amor, nada mais fazemos do que revelar que “sempre é mais fácil ser o acusador do que ser o acusado” (KIERKEGAARD, 2007, p. 185). Culpabilizar o amor é desculpar-se pelos atropelos na vida amorosa. Mostra o quanto idealizamos o amor e nos recusamos a aprender a amar. Na frustração da quebra da bolha das ilusões, preferimos praguejar contra o amor, ou, até mesmo, rejeitá-lo. Segundo nossa compreensão de Kierkegaard, aqui se forma mais uma ilusão, de vez que o amor se enraíza em nossa natureza.
Entre as inúmeras possibilidades de se fraudar o amor consta a crença de não precisamos mais dele. Assim, podemos desqualifica-lo, colocarmo-nos num pedestal, com uma lista de exigências para o outro, que, dessa forma, dificilmente conseguirá chegar até o castelo de ilusões que insistimos em construir. Idealizando dessa maneira o amor, na verdade, estamos fraudando a nós próprios, estamos presas do auto-engano. Tal atitude não passa de empáfia: esvazia-se o olhar para si mesmo, na mesma medida em que se lança um olhar severo sobre o amor. “Às vezes, o autoengano é orgulhosa autossuficiência, que acha que procura em vão o que poderia ter valor para ele – pois é sempre mais fácil demonstrar sua
superioridade bancando o exigente com todos os outros do que demonstrá-la com rigor consigo mesmo” (KIERKEGAARD, 2007, p. 185).
Nessas formas, Kierkegaard percebe o seguinte. Primeiro, salta aos olhos um simpatia antipática, ou, se quiserem uma antipatia simpática ao amor. Trata-se de um paradoxo, uma ambivalência. O desejar e o rejeitar o amor. O desejar o amor, segundo condições prescritas de antemão, e a consequente e “justa” medida de desilusão, ou seja, o tamanho da queda equivale ao tamanho das nuvens do que se estimou na inocência do estado de sono. A cobrança de tal conta vem sob a forma de rejeição do amor.
Todas essas fraudes marcam um fundo de indisposição para o amor. Deixemos que Kierkegaard ilumine o que dissemos. “Tais pessoas não percebem que seu discurso soa como um escárnio sobre elas mesmas, porque isto de não poderem encontrar algum objeto para seu amor entre os homens, significa denunciar-se a si mesmas como completamente sem amor para dar” (2007, p. 185).
O amor não pode ser encontrado fora de si. Amor fechado em si para si não vai além do autoengano. “Pois será que é amor querer encontrá-lo fora de si? Eu acharia que amor é trazê-lo consigo” (KIERKEGAARD, 2007, p. 186).
O que é trazer o amor consigo? Amor é amor a. Amar é amar na transitividade solicitada pela alteridade. O amor não faz exigências, é simples, despido, entregue à necessidade humana de amar. Kierkegaard ressalta que o amor não transcorre no termo adversativo, ou seja, não comporta um restritivo (“te amo, mas, no entanto, apesar de”...), não comporta um termo condicional: amo, se minhas expectativas foram atendidas. O amor, como pertença essencial de nossa natureza, apenas solicita o amar. “Pois poder amar uma pessoa apesar de suas fraquezas e falhas e imperfeições não constitui ainda o que há de mais perfeito, mas certamente o é o poder achá-la digna de amor apesar de e com todas as suas fraquezas e falhas e imperfeições” (Kierkegaard, 2007, p. 186). Kierkegaard sugere que, em vez de nos preocuparmos em como obter um amor verdadeiro de alguém dirigido a nossa pessoa (nosso ideal de amor), deveríamos cuidar de “como o amor deve ser para poder ser o verdadeiro amor” (KIERKEGAARD, 2007, p. 187).
A nudez entregue do amor, sua inocência, e, ao mesmo tempo, sua sabedoria encontra-se cifrada por Kierkegaard ao se pronunciar pelo amor, no sentido de o amor é regado por uma possibilidade fundamental: ele nos encontra, isto é, encontra “algo de amável em todos nós” (KIERKEGAARD, 2007, p. 187). E tal tipo de descoberta abre a perspectiva de um “amor bastante para poder amar todos” (2007, p. 187), sem distinção de cor, credo, gênero, filiação, etnia.