CAPÍTULO 2 MEDIUNIDADE, INCLINAÇÕES CARNAIS E VIRTUDES NO ESPIRITISMO ADESO
2.4 E DUCANDO OS AFETOS ATRAVÉS DO P ASTORADO
Apresentado o centro e seu cotidiano, seus rituais e como concorrem para atualizar o princípio da reforma íntima, já tenho condições de enveredar por uma leitura mais analítica deste processo. O esquema da doutrinação já foi suficientemente analisado por Cavalcanti (1983 p.123/131). A estrutura narrativa da sessão de desobsessão também já foi examinada, por Lewgoy (2000); este autor demonstra que a desobsessão "atualiza a teodicéia espírita" (2003):
Sua concepção de Mal e consequente ajuste exegético e moral da Perfeição Divina à Imperfeição do Mundo – aonde sua visão de mundo e noção de pessoa são encenadas e reelaboradas (Lewgoy 2003).
Lewgoy deixa claro que a doutrinação não é um diálogo, e sim um monólogo. Em sua busca por ouvir e compreender o outro, os espíritas apresentam este outro – o espírito obsessor – como sempre enfermo, daí a necessidade de ser, nos termos nativos, corrigido, ajustado, enquadrado. A relação que se estabelece na cena desobsessiva não é uma relação igualitária, elemento necessário para um real diálogo.
Porém, em meu trabalho, quero lembrar a ênfase que os espíritas dos Irmãos Unidos dão à ideia de diálogo (ainda que, em senso estrito, não o realizem), em oposição a técnicas de cura mais diretivas e que têm lugar em centros espíritas não adesos, como o centro Bezerra de Menezes: é o caso da apometria102, que será objeto de análise no capítulo cinco desta tese. Como buscarei apontar, se comparada à apometria, de fato, a reunião de desobsessão do GEIU ganha o tom de diálogo.
Sem negar a interpretação de Lewgoy, eu a complementaria apontando que a reunião de desobsessão não só foge do diálogo humanista (que serve como base para sua legitimação), mas parece reeditar um antigo dispositivo cristão para forjar pessoas afeitas a crenças: o pastorado.
102 Apometria é uma prática terapêutica alternativa, de natureza espiritualista, consistente no desdobramento e na
dissociação dos múltiplos corpos de que seria constituído o ser humano, mediante uma sequência de pulsos ou comandos energéticos mentais. Segundo contam os adeptos, a apometria foi introduzida no Brasil pelo farmacêutico e bioquímico porto-riquenho, Luis Rodrigues, que a chamava de "Hipnometria". Na década de 1960, foi sistematizada pelo Dr. José Lacerda de Azevedo (1919-1997), no Hospital Espírita de Porto Alegre, que lhe trocou o nome para "Apometria". Contam também que o termo apometria significa "tratar à distancia". Tratarei da apometria no capítulo cinco deste trabalho.
Foucault (2006) aponta como o cristianismo, articulando metáforas gregas e hebraicas sobre o pastor que guia suas ovelhas, constitui um dispositivo capaz de instituir uma dependência afetiva, cognitiva e volitiva entre líder/pastor e liderados/ovelhas, e também entre as ovelhas entre si. O pastorado cria um paradoxo, fundado na responsabilidade do pastor sobre cada ovelha e sobre o rebanho, que implica na salvação destas, mas também do próprio pastor. Foucault explica:
O pecado da ovelha é também imputável ao pastor. (...) ajudando seu rebanho a encontrar a salvação, o pastor encontrará também a sua. Mas, salvando suas ovelhas, corre o risco de se perder; se quiser salvar a si mesmo, deve necessariamente correr o risco de estar perdido para os outros. Se ele se perder, é o rebanho que ficará exposto aos maiores perigos. (Foucault, 2006: 368)
Foucault (2006) sublinha ainda a força e a complexidade dos vínculos morais associando o pastor a cada membro de seu rebanho, que não dizem apenas respeito à vida pública dos indivíduos, mas também aos seus atos, nos ínfimos detalhes.
Fundando-se numa concepção do Mal inscrito no corpo, na carne, capaz de fazer a pessoa agir de modo contrário aos planos divinos, cabe ao pastor desvendar as inclinações carnais antes mesmo que ela, a carne, force o pecado, de modo a realizar a direção de consciência que garanta a salvação da ovelha, do rebanho e de si mesmo.
Assim, no pastorado cristão, o exame de consciência terá o intuito de permitir a pessoa abrir-se inteiramente ao seu diretor: revelar-lhe as profundezas da alma. A direção de consciência se constituirá em uma ligação permanente: a ovelha não se deixará conduzir apenas no caso de precisar enfrentar algum passo perigoso; ela se deixa conduzir a cada instante. Assim, para o cristianismo, diz Foucault (2006) há um vínculo entre a obediência total e o conhecimento de si, articulado e mediado pela confissão a alguém.
Na minha interpretação, esse mecanismo, que continua operante em outras denominações cristãs (Rios, Paiva et alii, 2008), se atualiza tanto no diálogo fraterno quanto na desobsessão, desvendando as inclinações animalizadas (más emoções) e direcionando vivos e mortos.
Rios, Paiva et ali, 2008, investigando o modo como católicos e evangélicos lidam com a socialização da sexualidade juvenil, identificaram a premissa de acolhimento incondicional
como condição para o aconselhamento pastoral entre os clérigos e lideranças leigas daquelas denominações, na lida com a sexualidade dos jovens. Não obstante, também observam que a categoria acolhimento serve muito mais como estratégia para fazer falar. Muito rapidamente, processos de controle diretivos, mais ou menos estigmatizantes, tomam a cena do aconselhamento, de modo a não só reconduzir a ovelha ao rebanho e à norma, mas sobretudo informar à coletividade sobre os perigos e sanções que cabem aos desviantes (Cf. também Rios, Oliveira et alii, 2008).
Não seria essa forma de lidar com as inclinações carnais – acolhimento/diagnóstico emocional/direção – o que é dramatizado nas seções de desobsessão (e de forma mais ampla, na literatura nativa espírita)? São apresentados obsessores, que relatam suas dores; estas são relacionadas a descaminhos dos planos evolutivos traçados por Deus; faladas a faltas, imediatamente os entes são convencidos a voltarem para a ordem, sendo reconduzidas à tão propalada reforma íntima, sob pena de mais sofrimento.
Nesse contexto, como no pastorado, mais importante que as palavras proferidas é “desemboscar tudo o que de fornicação secreta possa se ocultar nos mais profundos vincos da alma” (Foucault, 1987: 28). Mais uma vez, vemos o modo de operar do diálogo fraterno se distanciar do humanismo, que localiza na fala, e não numa força inconsciente, seja ela a carne ou o desejo, a “verdade” da pessoa (Rios e Nascimento, 2007).
Nessa linha, chama atenção o relato de Arabela sobre o poder da intuição (maior, inclusive, que a vidência ou a audiência) para a realização de diagnósticos, seja no diálogo fraterno ou na desobsessão, especialmente no desmascaramento de espíritos que tentam se passar como mais evoluídos do que realmente são.
Eu não lhe diria que a vidência é por onde eu me baseio, no diagnóstico da situação. De jeito nenhum, porque ela pode me enganar; existem entidades que se apresentam fisicamente pra você, de uma forma muito bondosa, e você, se estiver cansada, meio estressada, você pode cair. A audição também pode me tapear, porque às vezes a entidade até diz coisas boas, e até diz “não, você está enganada, equivocada, não é essa a minha intenção”, e eu, se não estiver muito bem, posso até me deixar levar. Pela intuição, não tem como.
A vibração emitida por um espírito, mesmo que ele coloque um jeito meio piedoso, uma voz bondosa, a vibração dele não vai mudar, ele não consegue tapear isso. Por isso é que eu digo que a minha intuição não se engana. Agora, eu digo isso hoje pra você. Talvez no início, há
alguns anos, não, a vidência era o ponto forte. Porque no início eu não sabia como é que a coisa se processava. Então, hoje, é assim: a intuição em primeiro lugar, e aí as outras coisas somam.
É claro que a vidência é importante, porque às vezes você está assim perdido e tem um detalhe da vidência, por exemplo, pessoas que estão acompanhadas por um espírito meio trôpego, com uma garrafa na mão, quer dizer, você já tem ideia de que provavelmente aquela pessoa que chegou tem algum problema com bebida. Nesse ponto a vidência é bem rápida, dá pra pegar rápido. Mas em outros casos, de problemas existenciais, de depressão, angústia, não, é através da intuição (Arabela).
A fala de Arabela parece apontar para uma interpretação das emoções do “paciente”. Mais que qualquer outro sinalizador de ordem sensível (físico ou perispirítico), é a leitura das emoções (emoções que no discurso nativo aparecem sob os termos energia, vibração etc.), feita por uma médium experiente como ela, que serve de instrumento para diagnosticar o lugar do espírito na escala evolutiva. Longo aprendizado que exige exímio controle das próprias emoções. Como assinala José Morais, o médium – ou o doutrinador – não pode se deixar contagiar pela torrente emocional da pessoa em sofrimento (encarnada ou desencarnada), caso contrário não conseguirá ofertar ajuda e também cairá – vide o relato transcrito páginas acima, quando a emoção trazida pelo espírito que relatava um incêndio contamina a mesa mediúnica.
Por fim, vale retomar mais uma vez Foucault (2006) e lembrar de dois recursos para que o Pastorado se cumpra: a confissão, fortemente presente no catolicismo contemporâneo e a exomologêsis, que como sugerem Rios, Paiva et alii (2008) se atualiza na atualidade como o testemunho público, comum nas tradições evangélicas. Pode-se dizer que no kardecismo os dois processos para desemboscar a carne se atualizam. O Diálogo Fraterno muito se assemelha à confissão católica – tanto o é que, dado ao segredo e confidencialidade que o norteia, não pude observar o ritual, obtendo informações pela boca dos que o executam. A desobsessão ganha o tom de testemunho, onde um a um, os espíritos tomam o púlpito, que são os corpos dos médiuns, e contam suas dores e arrependimentos. Dali, seguem, enquanto penitentes para os hospitais e escolas espirituais, em busca de alívio para os sofrimentos expressados em público.
Por fim, convém ainda destacar, que no ideário cristão, e mais fortemente no católico – e muitos autores já indicaram o sincretismo entre catolicismo e espiritismo francês, na configuração do "espiritismo à brasileira" 103, a bem-aventurança não está neste mundo. Como
nos lembram Rios, Parker e Terto Jr. (2009) as técnicas de si cristãs, aqui retomadas como viabilizadas pela reforma íntima, tem o telos postergado para o outro mundo. Dizem os autores:
Finalmente a última transformação – para Foucault (2006: 370) talvez a mais importante: “todas estas técnicas cristãs de exame, de confissão, de direção de consciência e de obediência têm uma finalidade: levar os indivíduos a trabalhar na sua própria "mortificação" neste mundo”. Neste contexto, a mortificação ou penitência, enquanto forma de relação para consigo mesmo, assume o sentido de “renúncia a este mundo e a si mesmo: uma espécie de morte cotidiana. Morte que é considerada por dar a vida no outro mundo” (Rios, Parker e Terto Jr., 2009).
De certa forma, é isso o solicitado, ainda que em outros termos, a espíritos, tanto encarnados como desencarnados: que assumam que estão mortos e continuem como penitentes a se mortificar, de modo a alcançar orbes superiores no plano espiritual. Talvez a mudança de inflexão resida não propriamente no Combate da Castidade (Foucault, 1987), na disciplina de emoções e desejos, mas no primado da caridade, mediunidade e estudo como meios da salvação, estratégias para o “vigiar e orar” (Mateus, 26, 41) que mantém a carne sobre controle.
Interessante que, nesse contexto de mortificação, a obsessão é, talvez, a mais importante moeda de troca dos centros espíritas. Os centros e médiuns existem para desfazê-las; estar obsediado aponta para uma baixa vibração (descontrole emocional) que, por conseguinte, sinaliza um baixo grau evolutivo. Assim, não é à toa que a qualquer sinal de desordem (descumprimento do padrão espírita de ser no mundo) de alguém (pessoa ou instituição) surge logo a “acusação” de se estar obsediado. Do mesmo modo, tratar de alguém é estar sempre se oferecendo ao perigo de contaminação, de retorno a um padrão vibratório inferior. Afinal, para um espírita, ninguém ajuda outro por mero acaso, está-se sempre resgatando dívidas passadas com um outro alguém, num enredamento kármico sem limites muito claros. Nessa linha, o vinculo paradoxal do pastorado é acrescido em força no kardecismo, quando pecado se transforma em karma que pode gerar processos obsessivos. O vigiar e orar bíblico, atualizado na noção de reforma íntima, enquanto técnica de si (Foucault, 1994) é mesmo a única salvação.
PARTE II DOS FIOS PARTIDOS:ESPIRITISMOS
HETERODOXOS
Ashtar Sheran, Comandante-Em-Chefe da Confederação Galáctica e das Armadas Celestiais. Imagem do site Nave Alfa
http://navealfaportugues.blogspot.com/2010/02/nave-alfa-portugues1- fevereiro-2010-nos.html . Acessado em fevereiro de 2010.
CAPÍTULO 3: DESATANDO UM NÓ: OS RAMATISIANOS
Neste capítulo, introduzo o leitor a uma outra face do campo espírita de Natal, o campo não adeso à Federação. Minha intenção é formar um primeiro quadro da Associação Centro Espírita Adolfo Bezerra de Menezes, de modo a ambientar o leitor sobre o segundo cenário de minha pesquisa de campo.
Na verdade, o Bezerra é um centro guarda-chuva que abriga outro centro, o Humberto de Campos, e dois grupos, o Ramatís e o Ana Madalena. A pluralidade de práticas e crenças não aceitas pela FERN, em especial as atualizadas no Ramatís e no Humberto de Campos, impede a adesão. Na época da pesquisa, o desejo dos dirigentes do Bezerra em tornar o centro adeso deu ensejo a uma série de conflitos entre seus diversos segmentos, otimizando eventos e falas que me possibilitaram melhor compreender o lugar das emoções na avaliação espírita sobre o legítimo – assim como o falso – combate ao Mal nesta religião.
Na descrição, meu foco é o Grupo Ramatís, mas em adição, apresento mais um grupo, o Atlan. Embora este não funcione nas dependências do Bezerra, é intimamente ligado ao Ramatís, pois os membros deste grupo também participam das reuniões do Atlan, e os temas discutidos neste último retornam para comentários nas reuniões do Ramatís. O Atlan é liderado pelo médium Rogério de Almeida Freitas, também conhecido como Jan Val Ellam. Canalizador de uma vasta literatura, sua obras de certa maneira desenvolvem os temas milenaristas tratados pelo espírito de Ramatís104. Dado a personalidade forte e beligerante de Rogério, que enfrenta a propalada "pureza doutrinária"105 do campo espírita mais ortodoxo sem meias palavras, o contato do Ramatís com o Atlan parece incrementar os embates dentro do Bezerra, como buscarei mostrar mais adiante.
104 Tratarei da presença do espírito de Ramatís no movimento espírita brasileiro mais adiante, neste mesmo capítulo. 105 O termo "pureza doutrinária" é recorrentemente usado, pelos espíritas mais ortodoxos, para definir a fidelidade a
Kardec e ao campo espírita sancionado pela FEB, e também é usado pelos heterodoxos, em tom jocoso, ao se referirem criticamente ao espiritismo "das federações" como dos "caras da pureza doutrinária". Há alguns sites na internet, assim como listas de discussão virtuais trazendo o termo "pureza doutrinária" como sinalizador da fidelidade a Kardec. Ver especialmente http://espiritismoxramatisismo.blogspot.com/ e www.novavoz.org.br/ .
Neste capítulo, inicio apresentando o Bezerra e seus grupos internos, focando na organização do Ramatís e do Atlan. Em seguida, apresento algumas cenas que retratam momentos de embate, atribuídos ao desejo (de parte dos membros do Bezerra) de adesão deste centro espírita à FERN, o que envolve uma necessidade de purificação doutrinária e das práticas.