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CAPÍTULO 2 MEDIUNIDADE, INCLINAÇÕES CARNAIS E VIRTUDES NO ESPIRITISMO ADESO

2.2 O COTIDIANO DO CENTRO

2.2.4 Reunião de desobsessão

A reunião de desobsessão é um ritual de caráter privado, onde comparecem os médiuns e doutrinadores da casa. Neste momento, espíritos obsessores – também chamados de necessitados ou sofredores – incorporam nos médiuns e são doutrinados – ou evangelizados – pelos doutrinadores. No GEIU, ela acontece às terças e quintas feiras (após respectivamente a reunião pública e o estudo mediúnico), das 20h30min às 21hs, na mesma sala onde ocorre o diálogo fraterno. É uma sala de dois metros quadrados e meio, aproximadamente, e comporta uma mesa de madeira e oito cadeiras, onde se sentam os médiuns e doutrinadores. Encostadas às paredes, mais três ou quatro cadeiras, para aqueles que estejam há pouco tempo neste trabalho e ainda não receberam permissão para sentar na mesa, ou para quem desempenhará a tarefa de vibrar positivamente apenas, não incorporando nem doutrinando. Há também uma cadeira para a colocação das bolsas dos trabalhadores, um ventilador de chão e um relógio na parede. Sobre a mesa, papéis para psicografia e um copo metálico com canetas e lápis. Há duas lâmpadas no teto; uma, de luz branca, outra de luz azul. No momento da sessão, só a luz azul ficará acesa.

A abertura deste rito é feito com uma prece, em geral proferida por José Morais, o coordenador, ou por alguém que ele sugere. Nesta, agradece-se por aquela oportunidade de trabalho e pede-se aos irmãos espirituais, coordenadores do trabalho, equilíbrio, discernimento, humildade, para que o trabalho se desenvolva com muita paz e alegria. Após, o coordenador declara aberta esta parte dos trabalhos da noite. Nesse momento, os médiuns estão liberados para dar passividade aos espíritos – incorporá-los; assim é que, entre as 20h30 e as 21hs, são doutrinados aproximadamente quatro espíritos por médium. Isto acontece simultaneamente, isto é, todos os médiuns incorporam e são doutrinados ao mesmo tempo, o que pode significar, dependendo do número de pessoas envolvidas, numa babel de vozes.

É importante salientar que, neste grupo91, o diretor mediúnico92 não indica uma ordem para a incorporação; ele não estabelece quais médiuns darão passividade primeiro do que outros. Dessa forma, é mantida uma organização natural, sem a diretividade dos encarnados:

91 Não é difícil encontrar centros espíritas onde nas reuniões de desobsessão os médiuns incorporam de acordo com

Então, como é que as coisas aconteceram sempre, neste grupo que eu participo? Sempre foram muito espontâneas. Quer dizer, não havia uma diretividade. Começava a seção mediúnica e então sucediam as comunicações. Naturalmente. Inclusive, comunicações simultâneas; sempre foi assim. Alguns grupos trabalham com comunicações individualizadas: mesmo que haja dez médiuns, cada médium só comunica quando o outro termina. O nosso grupo sempre trabalhou com comunicações simultâneas. Essa é uma grande discussão, mas eu sou partidário dessa organização natural. (José Morais)

Há um par fixo, que é o de Arabela e José Morais. Os outros são relativamente aleatórios; porém, quando comparecem Pinheiro, doutrinador, e Inácia, médium, antigos na casa, eles costumam formar um par. Edmilson, marido de Tércia, se está presente, em geral doutrina os espíritos que ela incorpora. Todos os demais – Márcia, Eduardo, Claudiana, Núbia, Olavo, Doralice, se organizam entre si. José Morais considera que ter uma dupla de médium e doutrinador se mantendo no tempo,

Tem a vantagem de ser um casamento, da identidade, de energia, de facilitar todo o processo, de você já conhecer as sutilezas da comunicação, isso é bom. Cria uma afinidade fluídica que facilita muito o processo. A desvantagem é perder um pouco da criticidade, pois você se condiciona àquele tipo de médium, àquele tipo de comunicação, e tem dificuldade de fazer trabalho com outra pessoa. Pode até impossibilitar o trabalho (José Morais).

José Morais me diz que a desobsessão nos Irmãos Unidos tem ação terapêutica; isto significa que através desta prática se consegue levar alguém que está em desequilíbrio psíquico para um nível de equilíbrio, possibilitando a retomada da vida em outros parâmetros. A raiz desta atuação está na caridade, mas também encontra ecos fora da esfera religiosa:

Este estilo doutrinário corresponde ao que ensinam algumas correntes da psicologia humanista. Significa primeiramente atender às necessidades básicas do outro, e depois ouvir o outro de verdade, enxergando-o na realidade dele, e não na sua. Só desse jeito a gente cria empatia e pode entendê-lo, mesmo que não aceite os seus atos. (José Morais)

alguns grupos de desobsessão que seguem esta diretividade, assim como outros que seguem a dita "organização natural", que é a forma como se dá a sessão no GEIU.

92 O diretor mediúnico é o indivíduo responsável por aquele grupo de trabalho, tanto na hora do estudo quanto na

mesa de desobsessão. Neste último momento, a tarefa dele consiste em ouvir as metaconversas entre os mundos e intervir de modo a manter o texto nos parâmetros definidos como normais, aceitáveis. Para as estruturas narrativas da desobsessão espírita, cf. Lewgoy, 2000.

Seguindo esta "linha humanista", José Morais divide a doutrinação em três momentos: acolhimento, entendimento e prognóstico. Efetuando-se dessa forma, diz, os resultados são mais consistentes.

Acolhimento é fazer a pessoa se sentir ali, e se ele tá ferido, perceber que tá sendo acolhido. Depois o entendimento. Você vai identificar qual é a problemática. E fazer o outro entender também. E o prognóstico é o como as coisas vão acontecer daqui pra frente. Exemplo: ele percebeu que já morreu. E agora? (José Morais)

No acolhimento, supre-se a necessidade fisiológica do outro. Se o espírito sente sede ou fome, diz ele, deve-se oferecer água e comida fluídicas.

Nós dizemos: 'veja, há um copo d'água na sua frente'. E o espírito vê aquele copo d'água fluídico e bebe. Ou algum remédio para dores, e por aí vai. Esse é o momento de acolhimento. (José Morais)

Depois, deve-se "ouvir o que o outro tem a dizer, sem julgar". É o segundo momento, o entendimento. Nesse momento, a empatia é fundamental, e ele exemplifica:

Se você é preconceituoso, você só vê o preconceito. Então, por exemplo, digamos que você não admita a homossexualidade. Quando você vê uma pessoa que tenha uns trejeitos, você já bloqueou tudinho, então você não admite uma aproximação, uma relação qualquer que seja, você nega aquilo. Então, observe: ali pode ter uma experiência humana fantástica, para você mesmo, mas você não percebe, porque não concebe. Deve-se estar aberto ao outro, não se deve julgar o outro, e sim entendê-lo (José Morais).

Nesse sentido é que ele rejeita o estilo de doutrinação onde só o doutrinador fala:

É aquela doutrinação onde o espírito não consegue se colocar, porque o doutrinador não deixa. Ele fala sem parar. Nesse caso, não se cria um vínculo afetivo, que é uma coisa fundamental e que é o ponto em comum entre espiritismo e o processo terapêutico, dentro da psicologia, qualquer que seja a corrente, mesmo dentro da visão psicanalítica. (José Morais)

No momento do entendimento, é importante que o doutrinador organize seu próprio mundo interno para não se contaminar com as emoções desequilibradas dos espíritos:

Eu devo separar as coisas, o que é meu e o que é do espírito atendido, para ajudá-lo com qualidade. Porque muitas vezes, na doutrinação, o espírito vai querer tirar você do sério; se frente a isso você tem um sentimento de raiva, deve pensar: porque eu estou com raiva? Esse problema é dele, não meu. Eu estou aqui para ajudá-lo

a resolver o problema dele. Eu não posso transformar o problema dele em meu. (José Morais)

Ele então me relata um episódio que muito o marcou, e que diz respeito a este problema, o de "contaminar-se com as emoções desequilibradas":

José Morais: Teve um episódio, foi uma coisa interessante. Foi logo quando eu comecei a doutrinar, o centro ainda era na Praça Augusto Leite. Nesse dia, João Ferreira não estava, ele já tava num processo de afastamento. Mas continuava da mesma forma de quando ele estava lá, o procedimento. E não foi nem com o médium que eu estava doutrinando. Bem, incorporou uma entidade que teria desencarnado num incêndio e que o filho ou a filha, não lembro bem, tem um filho no meio dessa estória, que estava do lado. A comunicação foi extremamente viva, sabe? Então foi como se todo mundo tivesse visualizando o incêndio. Foi uma confusão. Todo mundo da mesa mergulhou no incêndio, tava se queimando. Eu não fiz isso. Eu percebi, deixei a pessoa que eu estava doutrinando, sem ninguém nunca ter me dito como é que era, pois eu deixei a outra ali e fui lá interferir (risos). Eu interferi.

Antoinette: o que é que você fez?

José Morais: a outra pessoa que eu estava doutrinando, estava chorando, tava todo mundo chorando, em prantos! Os outros médiuns, os outros doutrinadores, todos. Aí eu fui lá conversar, conversar.

Antoinette: o próprio doutrinador que estava doutrinando estava chorando?

José Morais: Ele chorou. Ficou bem clara na minha cabeça essa imagem, não saiu mais, exatamente essa questão. Ele chorou. Porque você veja: a mobilização é no sentido de você ajudar o outro. Não é de chorar com o outro. Não é de sofrer junto. Sofrer junto não é solidariedade. Solidariedade, ela se expressa na superação. "ah, eu tou muito solidário, eu tou lá chorando". Não! Isso não constrói. O que constrói é: "eu tou aqui do seu lado. Eu vou ser apoio seu. Você vai encontrar em mim, força. Não vai encontrar fraqueza". Porque solidariedade não é viver o problema do outro, e sim potencializar o outro a sair do problema. Então, a pessoa se afogando, você não sabe nadar e mergulha lá. Isso não vai ajudar, vai atrapalhar. Houve solidariedade, mas a pessoa foi solidária na dor, não na superação.

Passado o momento de se ouvir o outro, mantendo o equilíbrio interno, deve-se dar a resposta, o prognóstico, que "muitas vezes" é dada pelos espíritos ao doutrinador, através da intuição. Neste movimento, deve-se operar a entrega e a confiança na equipe espiritual, sem deixar de lado, contudo, a responsabilidade do indivíduo. José Morais me diz que a intuição é importante não apenas para o doutrinador na casa espírita, mas também para psicólogos e médicos, que podem oferecer melhores serviços se estiverem abertos para receber as influências

dos bons espíritos, pois "um bom psicólogo é um cara inspirado. O bom psiquiatra é um cara inspirado". Um detalhe não deve ser esquecido, porém: a razão atrapalha.

A doutrinação tem que ser um processo que se desvincule o mais possível da racionalidade. Isso é complicado. Isso é extremamente vivencial. Não dá pra explicar. (José Morais)

Em geral, a resposta gira em torno do que José Morais define como ajuste, ou enquadramento, que é "o deixar de brigar com a vida, para aceitá-la". Nas sessões, percebo que a etapa do ouvir o outro, seus dilemas e problemas, seu "embate com a vida", é já articulada com a resposta, a busca pelo enquadramento, de modo que os movimentos de ouvir e enquadrar acontecem juntos. Só após o enquadramento ou ajuste é que se "encaminha o irmão para um hospital espiritual".

A título de ilustração do processo, descreverei o par José Morais/Arabela. Na meia-hora de sessão, em geral ela incorpora entre quatro e cinco vezes. O sinal de que Arabela vai incorporar é que ela estremece todo o corpo ou estala os dedos acima da cabeça. José Morais, então, põe a palma da sua mão aberta sobre a testa dela, sem tocá-la e diz: "seja bem-vindo, meu irmão". Então o espírito se manifesta. Ao final de cada incorporação, Arabela estala os dedos acima da cabeça uma vez, e depois mais duas vezes ao redor da cabeça. Após uma pausa de alguns segundos, ela estremece ou estala os dedos acima da cabeça novamente. José Morais percebe que é outro espírito que chegou e diz novamente: "seja bem-vindo, meu irmão". Ao final da sessão, Arabela estala os dedos mais uma vez. O estalar de dedos me foi explicado como um passe que os espíritos de luz dão em Arabela, e para isto se utilizam de seu corpo.

Acolhimento

José Morais: bem-vindo. / Espírito através de Arabela: eu não quero ficar aqui. / José Morais: não quer ficar aqui?/ Arabela: não. / José Morais: você foi maltratado aqui? / Arabela: bem, maltratado, maltratado não. Mas sei lá, eu sou alcoólatra, sabe? / José Morais: você não é. Você pode estar, mas você não é.

*****

Arabela: mas tem um problema, sabe, é que tem umas pessoas que estão aqui, e que eu acho que elas já morreram, e às vezes eu acho que eu também já morri, eu às vezes acho isso, eu até ouço isso às vezes na minha cabeça. / José Morais: e o que você acha disso? De morrer? O que é morrer pra você? / Arabela: rapaz, eu nem sei explicar bem. Porque eu acho que quando a pessoa fala de morte, quando eu falava de morte eu achava que eu atrairia essa coisa. / José Morais: a morte. / Arabela: eu estava passando por uma situação que um dia eu acordei e eu não sentia mais o meu corpo, sabe? Eu sentia uma formigação nos meus dedos, e eu passei uns tempos

assim, eu não conseguia mexer as minhas pernas, os meus braços, nada. / José Morais: você sabia que nós não somos o corpo? / Arabela: como? / José Morais: nós somos espírito. O corpo é como se fosse uma roupa que a gente veste. Porque o corpo se acaba. O corpo se acaba. / Arabela: será que é isso? Porque essa conversa, de alma e corpo, que o corpo se acaba, faz sentido, sabia? / José Morais: faz. / Arabela: mas a gente pensa o contrário. / José Morais: é. / Arabela: eu, eu... eu sou um cara que estuda, sabe? Eu não sou desprovido de inteligência. / José Morais: claro. Eu sei disso. / Arabela: há pouco tempo eu tava conversando com você, e tava falando meio enrolado, e tonto, e agora tou bem melhor, eu notei isso, foi tão rápido. / José Morais: você não tem mais sinais de alcoolismo.

Ouvir, esclarecer, ajustar

Arabela: sei não o que quero fazer aqui. Eu não sei nem o que é isso aqui. Eu estava bem no meu ambiente natural. / José Morais: o que lhe incomoda aqui? / Arabela: não sei, só sei que eu não queria vir pra cá. / José Morais: o interessante é que você não estava bem, onde estava. / Arabela: porque tem coisas que estão deixando todo mundo meio incomodado. / José Morais: incomodando? Eu acredito que têm incomodado mais você do que às outras pessoas.

*****

Arabela: eu estou me sentindo mal desde que cheguei. / José Morais: nós já vamos resolver isso. Você vai respirar. Inspire o ar bem profundamente, retenha por um tempo, depois expire. E vá se acalmando. Você tem medo? / Arabela: eu tenho medo, sim, tenho. / José Morais: do que você tem medo? / Arabela: agora não. Mas normalmente eu me sinto triste. / José Morais: e se eu lhe disser que você pode ficar num ambiente sereno, onde ninguém vai lhe prejudicar? Onde você vai poder dormir bastante, recompor suas energias, o que é que você acha? / Arabela: eu acho que ia ser bom. / José Morais: isso. Você tá vendo esse quarto? / Arabela: tou. / José Morais: pois é o quarto que você vai ficar.

*****

Arabela: sei não o que fazer da minha vida. / José Morais: você perdeu o controle da sua vida. / Arabela: mas não tem remédio que dê jeito. Eu tou muito infeliz. / José Morais: e se você tivesse a oportunidade de uma vida nova? / Arabela: trocar essa carcaça pelo que? / José Morais: sabia que é possível? Você gostou da ideia. / Arabela: se houvesse possibilidade, né, talvez.

*****

Arabela: eu não tenho ânimo para parar de beber. Porque eu sou um fraco. / José Morais: tem. Você tem ânimo, sim. / Arabela: eu não queria parar de beber. / José Morais: você tem, você não quer. / Arabela: beber faz parte da minha vida. Eu quando chego em casa à noite, eu bebo um pouquinho pra relaxar, e depois pra poder trabalhar à tarde, mas você sabe que às vezes eu sentia que a minha mente estava tão parada, e o meu corpo sem ânimo, então eu tomava um pouquinho, pra ver se, porque se eu tomasse algo eu ficava mais ativo. / José Morais: é o efeito inicial de toda droga. / Arabela: mas depois, começou aquele negócio que eu não conseguia mais me mexer, o meu corpo formigava. E eu fico vendo um caixão, sabe, de vez em quando eu vejo um corpo dentro de um caixão. Eu tava pensando no que você disse sobre a alma e o corpo. Porque que uma pessoa como eu, tendo, assim, inteligência, o que me levou a beber desse jeito? / José Morais: é como você disse, mesmo: fraqueza. Mas veja bem: há sempre possibilidade de retomar o caminho. Sempre. E a oportunidade agora chegou pra você. / Arabela: como assim? / José

Morais: eu lhe falei no início que você não é um alcoólatra. Que você está. A partir de agora, você vai começar uma nova vida. Porque durante muito tempo você deixou a droga dominar a sua vontade.

*****

José Morais: veja, aquela questão da dependência química, é coisa do corpo, ficou com o corpo. / Arabela: como assim com o corpo? / José Morais: com o corpo físico. / Arabela: quer dizer então que eu... / José Morais: exato. / Arabela: mas se eu não tenho mais o corpo, como é que eu sinto o meu corpo? / José Morais: você tem um corpo, que é o corpo espiritual, mas agora você está falando através de um outro corpo, de uma outra pessoa.

(Transcrição de uma prática de doutrinação no GEIU; ano de 2007).