• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 2 MEDIUNIDADE, INCLINAÇÕES CARNAIS E VIRTUDES NO ESPIRITISMO ADESO

2.2 O COTIDIANO DO CENTRO

2.2.2 Reunião de estudo do "mediúnico"

Mediúnico é como é chamado o grupo responsável por trabalhar com a parte mais ostensiva da mediunidade nos Irmãos Unidos: a psicofonia, a psicografia, a vidência e a audiência, faculdades que são colocadas à serviço da caridade no diálogo fraterno e na reunião de desobsessão. Mas para um espírita, não basta ter a faculdade ou dom da mediunidade, é preciso desenvolve-la em consonância à caridade, e isso se faz através de estudos sistemáticos. Cabe aos médiuns orar e vigiar seus pensamentos e atitudes cotidianos,

Em primeiro lugar, porque, como vimos, cabe ao médium imprimir à sua mediunidade o conteúdo moral adequado. Em segundo lugar porque a mediunidade permanece sempre potencialmente perigosa (Cavalcanti, op.cit., p. 97).

Destaco que ser adeso à FERN também significa observar certas normas para o estudo86. Ainda que isto não esteja escrito claramente em lugar algum do estatuto, os espíritas dos Irmãos Unidos asseveram com ênfase a necessidade de se evitar o "estudo de conteúdo não doutrinário", ou, dito de outra forma, conteúdo que fuja, segundo dizem, à pureza doutrinária.

José Morais é o diretor mediúnico do GEIU; cabe a ele a organização de todas as atividades mediúnicas do centro, e aí se inclui também o estudo, apontado – assim como a palestra - como etapa preparatória para a reunião de desobsessão. A importância do estudo é que, em primeiro lugar, neste momento, os trabalhadores que participarão da sessão se preparam

86 Para uma análise do ritual de estudo da mediunidade no espiritismo, cf. Aubrée e Laplantine 1990, Cavalcanti

intimamente para esta, e nesse sentido devem tranquilizar os sentimentos, abrandar a agitação vivida durante todo o dia e organizar os pensamentos, direcionando-os para que ajudem na consecução do trabalho mediúnico.

Em geral, todos os membros do mediúnico participam do estudo, e, no caso dos Irmãos Unidos, pelo fato de ser um centro pequeno, só há uma turma de estudo mediúnico; sendo assim, nela podemos encontrar tanto os dirigentes mais antigos, quanto os diversos tipos de trabalhadores – oradores, passistas, evangelizadores, doutrinadores, médiuns – assim como parte da clientela atendida pelo centro, para a qual o estudo também serve como tratamento.

O estudo acontece nas noites de quinta-feira, que, como comporta evento semiprivado, é menos palpitante do que a da terça, noite da reunião pública. Comparecem os médiuns Olavo, Arabela, Núbia, Claudiana, Inácia, Tércia, Doralice; os doutrinadores Pinheiro, José Morais, Márcia, Edmilson, Eduardo; os médiuns em desenvolvimento Swami, Maristela, Madalena, Goreth. Também estão alguns "irmãos em tratamento", e outros que vieram "para conhecer o estudo", configurando uma assistência mais flutuante. Neste dia, há uma ligeira modificação espacial no auditório: parte das cadeiras é arrumada em círculo, e é neste círculo onde se sentam os participantes da atividade. Há, a cada semana, uma pessoa responsável por coordenar o estudo, lendo e comentando capítulos de uma apostila da FEB sobre mediunidade ou outro texto de referência neste âmbito.

Como nas reuniões publicas, o estudo se inicia às 19h30, com uma leitura preparatória, o exórdio. Feita esta primeira leitura, pede-se que os presentes comentem a passagem. Faz-se, então, a prece de abertura dos trabalhos da noite. Após a prece, é lido e comentado o texto da noite87. Esta atividade é concluída às 20h20min. Entre as 20h20 e as 20h30min, os trabalhadores

87 Em algumas quintas-feiras, o horário da desobsessão não é precedido pelo estudo, e sim pela meditação. Para

realizá-la, José Morais traz um disco com mentalizações, em geral da autoria de Divaldo Franco, o põe em um som portátil que ele também trouxe e reproduz algumas faixas deste disco, enquanto os trabalhadores presentes fecham seus olhos e relaxam, buscando tranquilizarem-se para a desobsessão que ocorrerá após este momento; além disso, a meditação serve, segundo os adeptos me contaram, para ajudar os irmãos encarnados e desencarnados que estão em hospitais, asilos, prisões, orfanatos, levando para eles os bons fluidos emanados pelos médiuns e demais trabalhadores presentes, o que ajuda a abrandar o seu sofrimento, inclusive transportando para o centro espírita os irmãos sofredores que lá estejam, para que sejam atendidos. Após a meditação, cada pessoa pode comentar o que

sentiu na tarefa, porém, são desaconselhados relatos pormenorizados do fenômeno em si, ou seja, os pormenores mediúnicos: citações de nomes de indivíduos e de lugares e detalhes físicos do plano espiritual porventura visitado, sobretudo se este for um plano dos menos evoluídos, como faixas do umbral. Porém, mesmo que o relato seja sobre um plano elevado – uma colônia, por exemplo - não são bem-vistas exposições minuciosas (particularidades dos prédios e de seus habitantes etc.), já que são dados acessórios, não essenciais na execução da tarefa. Bem mais

que ficarão para a reunião de desobsessão, também chamada de segunda parte da reunião, se encaminham para o pavimento superior. Antes disso, podem beber água fluidificada, ir ao banheiro, cumprimentar aqueles que haviam chegado atrasados ao estudo e que por isso ainda não cumprimentaram ninguém. Os que não farão parte da reunião de desobsessão podem ir embora ou aguardar o término dos trabalhos no pavimento térreo da casa espírita.

A reunião de estudo é um dos momentos rituais do GEIU onde mais explicitamente é experienciada a máxima “trabalho sério”, que, aliás, permeia todas as atividades neste centro. A seriedade, afirmada como essencial, deve alicerçar-se em uma atitude de sobriedade. Gestos comedidos, semblantes circunspectos, sorrisos moderados dão o tom dos momentos de trabalho. Da mesma forma, nem toda atitude de humor é permitida. Isto aparece em todos os momentos, porém, é nas atividades semiprivadas e privadas, onde há uma maior presença dos trabalhadores da casa, que este padrão de afetos é mais detidamente situado, apontado, experimentado. Este é o caso do estudo da mediunidade das quintas-feiras e do ritual privado de desobsessão das terças e quintas-feiras.

É necessário que nesse momento, o comportamento dos indivíduos se aproxime o mais possível da disciplina, seriedade e sobriedade espíritas: deve-se ser pontual e assíduo; ao chegar ao centro, dirigir-se sem demoras para o assento, cumprimentando amavelmente, porém sem grandes alongamentos os companheiros. Durante a reunião – mesmo antes e depois dela, desde que no interior do centro – as conversas devem se dar em um tom de voz ameno, sem grandes elevações; o vocabulário utilizado não deve aludir a conteúdos de sentido sexual, a não ser que este seja o assunto tratado no estudo da noite, e, mesmo assim, no tratamento deste tema devem ser usados termos respeitosos. Os palavrões são banidos e aqueles que os proferem são vistos como relativamente perturbados (talvez até obsediados, ou no caminho para uma obsessão) e de alguma forma avisados disso. As falas não devem resvalar para assuntos estranhos aos tratados. Há, por outro lado, um humor permitido, caracterizado pela amenidade. Também – e isto é fundamental – atitudes que aludam a conflitos (descontentamento ante a ordem dos trabalhos, confronto, oposição ou irritação aos modelos instituídos) são profundamente rejeitadas.

aceitos são os relatos que enfatizam as vibrações positivas dos locais visitados na meditação. Maria Laura Cavalcanti expõe este ritual com o nome de irradiação. (Cf. Cavalcanti 1993, p.99 e 125).

É emblemático desta atitude de neutralização dos conflitos um fato que ocorreu há alguns anos no GEIU. Alguns membros do centro se dispuseram a "modernizar" o diálogo fraterno, e, para tanto, trouxeram, de outra casa espírita, a proposta do que chamaram de T.E, "tratamento espiritual". Este consistia em um sistema de estudo e prática visando o treinamento de novos "dialogadores". Também propunham a ampliação do número de cabines de diálogo, e, obviamente, do número de trabalhadores a se envolverem nesta atividade. Ora, aqueles que propuseram esta mudança foram prontamente diagnosticados como obsidiados, e a proposta compreendida como "mais uma ofensiva das forças das trevas para destruir o GEIU". Porém, nada disto foi salientado nas inúmeras reuniões ocorridas para "debater o novo diálogo": esta avaliação era murmurada "pelos corredores" do centro. O fato é que em nenhum momento a proposta foi concreta e abertamente avaliada, pois os dirigentes da casa se punham em silêncio ou "em prece", durante boa parte das reuniões cuja pauta era o diálogo. E as reuniões foram minguando, e, sem discussão, a proposta foi se esvaindo, e mesmo os cochichos pelos corredores foram silenciando, até que em algumas semanas, não se falava mais no assunto. Os propositores do novo diálogo então se afastaram do centro, e de seus nomes, hoje em dia, nem se fala mais.

Tratando deste aspecto, é fundamental a análise de Maria Laura Cavalcanti, em uma passagem que vale a pena registrar. Relatando um conflito que ocorreu em um dos centros espíritas que pesquisava, ela avalia:

O próprio fato da manifestação de descontentamento, oposição, irritação por parte de quem abre a discussão tende a ser lido como indício de "inferioridade", de "imperfeição". A reação do superior, idealmente paciente e firme, reafirma sempre a sua superioridade moral e consequentemente as posições estabelecidas. Todo desvio ou diferença pode ser lido como sintoma de inveja, ciúmes, mesquinhez, egoísmo, em suma, sentimentos reprováveis traduzíveis como sinais de inferioridade moral/espiritual: todo conflito potencial é assim neutralizado, subjazendo a esse movimento o reconhecimento e reafirmação do lugar que cabe a cada um, segundo o mérito individual, na hierarquia do centro que reproduz em escala reduzida o universo (Cavalcanti 1983, p. 58/59, grifos da autora).

Em relação ao humor, há outro fato ocorrido em meu campo, que devo relatar, concluindo esta sessão: em março de 2007, houve uma reunião administrativa para se tratar das atividades mediúnicas do GEIU, e nesta reunião foram tomadas algumas deliberações. Em suma, as resoluções trataram de recrudescer o controle sobre o humor nas reuniões de estudo da

mediunidade. No documento escrito88, fruto da reunião, comportamentos baseados na informalidade foram fortemente combatidos. Manifestações de riso, conversas informais, assuntos triviais foram elementos denunciados como pertencendo a condutas pouco elevadas, devendo ser banidos, tanto do momento do estudo, quanto da prática mediúnica. Assim, nada mais de conversas paralelas, nada mais de risinhos, nem de cumprimentos muito efusivos dentro do centro. A observância do padrão para o humor, no GEIU, é tarefa do diretor mediúnico em especial. Para isto, José Morais está ordinariamente atento a cada risada não contida, a cada conversa paralela, a cada desvio do assunto tratado.

Neste mesmo sentido é que Cavalcanti (2003) dá o exemplo de Pedro, jovem trabalhador do centro espírita por ela estudado, e que era afeito a brincadeiras, e, além disso, conversava e ria junto aos assistidos pela casa, oriundos de segmentos populares. Tal atitude foi sutilmente repreendida pelo dirigente do centro, e Pedro, aconselhado a que se pusesse em seu lugar superior, pois este tipo de manifestação de humor não se adequava mais ao seu nível evolutivo (Cavalcanti 1983, p. 69).