CAPÍTULO 4 UMA TRAMA GALÁCTICA
4.2 E SPIRITISMO E EXTRATERRESTRES
4.3.1 Natal, a base e os estrangeiros
Rezam velhas crônicas que quando Jerônimo de Albuquerque, no intuito de fundar uma cidade cujo nome lembrasse o natalício de Jesus de Nazaré, aproou por estas bandas, apareceu-lhe no convés da caravela (...) uma criança divinamente bela que lhe apontou o rumo do porto seguro e do seguro abrigo. (...) Havia a tradição de ser ali o paraíso escolhido pelo Senhor para lhe prestarem culto na terra (...).
Para irmos ao perigo iminente, há somente a dificuldade da escolha dos meios de transporte: tubos pneumáticos, aeroplanos, tramways e ascensores elétricos (...). Na véspera estourou pela primeira vez na estação monumental da Praça Augusto Severo o trem da estrada de ferro transcontinental, que, partindo de Londres, passa o Canal da Mancha, percorre a Europa e o norte da Ásia, atravessa o estreito de Behring, corta a América do Norte, galga o cimo dos Andes, desce pelos campos gerais de Mato Grosso e Goiás, segue o Vale do Rio São Francisco, paira sobre a cachoeira de Paulo Afonso – uma fantasmagoria através das luzes de miríades de lâmpadas elétricas – e vem terminar em Natal.
(Manoel Dantas, 1909, "Natal daqui a cinquenta anos").
O mito da rebelião de Lúcifer fala na cidade de Natal, apontando mais claramente para o lugar desta cidade nos últimos anos da segunda guerra mundial, quando até então era uma cidadezinha de menos de 50 mil habitantes, com poucas ruas pavimentadas, onde muito raramente passavam automóveis e onde o interiorano hábito das cadeiras nas calçadas tinha lugar cativo. Um cotidiano subitamente transformado nos idos de 1941, quando é instalada em Natal a maior base militar norte-americana construída fora dos Estados Unidos169, aproveitando a privilegiada localização geográfica da capital do Rio Grande do Norte, chamada de "esquina do continente".
O imaginário natalense é permeado pela ideia de esquina do atlântico, que, cantada em verso e prosa, apresenta uma das faces importantes de Natal: uma cidade cravada em lugar reconhecido há muito como geograficamente excepcional; reconhecido pelos colonizadores portugueses, pelos holandeses e, finalmente, pelos militares brasileiros e norte-americanos, que nela instalaram a Parnamirim Field, ou simplesmente "a Base", como a chamaram os natalenses da época. Inaugurada em 1943, Parnamirim Field foi o coroamento de ações que visavam
169 Smith Jr. diz em seu "Trampolim para a Vitória": "Parnamirim era a maior base em operação no Brasil. Durante a
aproveitar a posição geográfica de Natal para acessar mais facilmente a costa da África e de lá a Itália, ações que se iniciaram no final de 1941 e que se aceleraram nos próximos anos:
Quatro dias após os Estados Unidos entrarem na II Guerra, em 11 de dezembro de 1941, o Esquadrão de Patrulhamento da Marinha dos EUA (The United States Navy Patrol Squadron VP-52) chega a Natal, trazendo nove aeronaves e um potente avião auxiliar. Usando uma base próxima ao Rio Potengi, essa esquadrilha começa a desenvolver tarefas antissubmarinas e a fazer o patrulhamento diário da costa brasileira na esquina do atlântico. (Lopes 1997, p.33)
Em 1942, antes mesmo do funcionamento de Parnamirim Field, já se encontravam sediados na cidade o Batalhão de Caçadores, o 16º. Regimento de Infantaria, o 3º Regimento de Artilharia Antiaérea, o 2º Batalhão de Carros de Combate Leve, a Companhia de Transmissão, a 7ª Companhia de Engenharia e o Batalhão de Engenharia de Combate. Embora algumas dessas tropas fossem provisórias e tenham deixado a cidade antes do final da guerra, pode-se imaginar o peso de sua presença no cotidiano local (Lopes 1997).
Em Natal, o contingente militar, antes mesmo da chegada dos militares norte-americanos, havia sido multiplicado por dez, e a chegada das tropas vindas dos EUA traz, já de início, uma profunda transformação espacial para uma cidade que só se comunicava com o resto do mundo pelo mar ou pela via férrea: foram os militares norte-americanos que, em seis meses, construíram a primeira via expressa da cidade, a Parnamirim Road, apelidada pelos natalenses de "a pista". Ela tinha seu início na Base de Parnamirim Field e seguia por vinte quilômetros até o porto, atravessando – e comunicando – toda a cidade. Nos anos subsequentes, foram criadas diversas ligações viárias entre Parnamirim Road e diferentes pontos da cidade, de sorte que, através dela, Natal foi desenhada em termos urbanísticos. Hoje, a Parnamirim Road corresponde a um trecho da BR-101, à Avenida Salgado Filho e ao seu prolongamento, a Rua Hermes da Fonseca (Lopes 1997, p. 36).
O local onde Parnamirim Field foi construída era um campo de pouso utilizado antes da guerra por companhias aéreas civis, e também sediava a base aérea da cidade. (Lopes 1997, p.33). Na sua manutenção, entrou mão de obra local: por 15 centavos de dólar ao dia, "todo mundo" queria "trabalhar para os americanos", em serviços de limpeza e de construção civil. (Lopes 1997, p.38/39). Também alguns dos produtos de primeira necessidade passaram a ser adquiridos localmente, movimentando – e inflacionando – o comércio. Alguns historiadores também contam dos inúmeros namoros entre os americanos e as nativas, já que também "todas
as moças" queriam "namorar os gringos". Bailes semanais foram organizados nos poucos clubes da cidade, diversos cursos de inglês surgiram ao mesmo tempo, e com a construção da Parnamirim Road, a burguesia vinda do Seridó se animara a comprar jeeps e caminhões, e com eles passeava pela "pista". Para uma cidade que até então detinha poucas ruas calçadas, este era um desfile inédito.
Ao lado da euforia pelo dólar que circulava rapidamente pelo comércio local e pelas boates recentemente abertas, exatamente para atender ao fluxo dos gringos, havia também o clima de guerra a assombrar a cidade que dez anos antes era uma província de apenas três bairros170. Os mais velhos falam em toque de recolher e blecautes, pois a "base dos americanos" era "lugar visado pelos nazistas". Há uma estória, muito contada, em Natal, de certa senhora que morava no bairro de santos reis na época da segunda guerra, e cuja filha pequena estava doente, e numa noite de blecaute, onde não se poderia acender nenhuma luz, esta senhora acende uma vela e a põe dentro de um baú, tampando-o parcialmente. Após alguns minutos, alguém bate à porta: era um militar, que lhe pede para apagar a luz, já que "algum avião nazista", dentre "os vários" que estariam sobrevoando a região, poderia ver o clarão da vela e bombardear Natal.
As estórias se multiplicam nos registros dos historiadores, assinalando que a presença dos americanos em Natal havia trazido agitação e excitação ao seu clima tranquilo. Contudo, também salientam que conforme a guerra se desenrolava, a noção de bom estrangeiro se modificava nas representações dos natalenses. Já em 1944, lembra Lenine Pinto, o "cansaço" da cidade com a permanência dos soldados americanos aparecia, como "aquela coisa do hóspede que passa dos limites do tempo e da confiança", o que era intensificado pelo "temperamento arrogante" e certa "conduta desordeira" dos gringos, o que levava a que o relacionamento entre americanos e brasileiros se tornasse "de certo modo, difícil" (Lenine Pinto 1995, p. 195 e Smith Jr. 1993, p. 103, 184, 149).
O término da guerra não ocasionou uma desocupação imediata da cidade de Natal pelos americanos, e a base de Parnamirim só foi entregue definitivamente ao Brasil em 1º de outubro de 1946, mais de um ano após o fim do conflito, mas então algo havia mudado. Como no conto de García Márquez, sobre o afogado mais bonito do mundo – o gringo morto jogado em uma praia miserável de uma aldeia miserável, mas que contrariando todas as expectativas é acolhido
pelas crianças, admirado pelas mulheres e então velado e pranteado por todos, recebendo os funerais mais bonitos, de tal sorte que após o cortejo final onde seu corpo é atirado às escarpas, a própria cidade é rebatizada em sua homenagem171, também a cidade de Natal, submersa durante três formidáveis anos na multidão de gringos fardados, não seria mais a mesma sem eles.
No mito galáctico que tentei narrar, Rogério recupera dois elementos que remetem ao período da segunda guerra em Natal: a base militar e a relação com os estrangeiros. Ao falar de Atlan, a base construída pelos extraterrestres para abrigar Lúcifer e suas hostes, remanescentes de uma guerra, Rogério toca em certa memória coletiva. Ele nos fala de uma província, tomada de assalto por circunstâncias extremas, e que diante delas, de alguma maneira se adapta. Há, assim, um cotidiano que é rapidamente transformado. Porém, isto se desdobra em um peculiar e efêmero registro, pois, ao contrário do que talvez se pense, os natalenses não trazem memórias vívidas deste período. Em um de seus livros, onde evoca a "Natal dos americanos", Lenine Pinto nos conta de seu assombro ao perceber que uma guia de uma das agências de turismo da cidade desconhecia o papel de Natal na segunda guerra mundial.
Ora, esta cidade não foi palco de batalhas, sua população não participou de nenhum "esforço de guerra", e desta maneira é que, para alguns, este capítulo da história de Natal talvez não mereça nada além de algumas poucas pinceladas. De alguma forma, contudo, no mito fundador que ora me debruço, Natal comparece como mais um desdobramento do lugar de origem, a terra da promissão, e então a partir dela é recontada a estória do minúsculo e isolado planeta azul, na esquina da galáxia, invadido por estrangeiros, seres de outros mundos, que trouxeram progresso material e desenvolvimento tecnológico, e também conflito e desagregação.
E ao final, o mito que nos apresenta diferentes "esquinas", forjadas sob a promessa comum de um futuro de felicidades, se conclui com o elogio de um grupo, também especial no lugar de "encruzilhada" que ocupa, e que traz em seus ombros a mesma tarefa, a de conduzir a ascensão de um planeta a um destino triunfante. Em sua estória, Ellam nos fala do lugar especial ocupado pelo Grupo Atlan, do qual fazem parte os membros do Grupo Ramatís.
4.3.2 "Nós somos os rebelados"
Eu sempre quis ver um marciano – disse Michael. – Onde estão eles, papai? Você prometeu.
– Estão aí – disse o pai.
Colocou Michael nos ombros e apontou para baixo. Os marcianos estavam ali. Timothy começou a tremer.
Os marcianos estavam ali – no canal – refletidos na água: Timothy, Michael, mamãe e papai.
Da água ondulante, os marcianos ficaram olhando um tempo enorme para eles...
(Ray Bradbury, As Crônicas Marcianas)
Jan Val Ellam nos conta que o Grupo Atlan, do qual ele é coordenador, é formado pelos dois zelotes que foram crucificados ao lado de Jesus (um deles é Val Ellieh e o outro é Val Elliah, do planeta Zian, já citados), assim como por um dos que o seguiam – (Yel Liam, Judas Escariotes), pelo centurião romano responsável pela crucificação – ele próprio, Jan Val Ellam, por vários legionários que executaram a crucificação, e, além disso, por diversos homens e mulheres que acompanharam Jesus na via crucis, por membros do Sinédrio e por personalidades romanas e judaicas daquele tempo172.
Há dez anos, os extraterrestres se comunicam sistematicamente com o Grupo Atlan. (Ellam, 1997, p. 27). Porém, Jan Val Ellam considera "quase inacreditável" que seja o Atlan aquele grupo com o qual Jesus escolheu trabalhar para promover a ascensão da Terra, levando-se em conta os grandes equívocos cometidos no passado, por cada um de seus membros. Justo eles, que "um dia estiveram tão próximos ao mestre", e que "por opções tresloucadas, comuns aos
172 Cabe também dizer que na época da Atlântida, Yel Liam e Val Ellieh faziam parte do grande conselho atlante; no
Egito antigo, Yel Liam e Val Ellieh estavam reencarnados como dois dos mais próximos companheiros de Moisés, quando da saída do Egito. Já Val Elliah era um soldado egípcio do exercito do faraó e Val Ellam, um dos sacerdotes egípcios que tentaram ajudar o faraó a enfrentar a "mágica" dos hebreus, sem muito sucesso; Val Ellieh, um dos crucificados ao lado de Jesus, alguns séculos depois foi Marco Polo; Val Elliah, o outro crucificado, foi também comerciante em Veneza na época de Marco Polo. Val Ellam era o piloto da nave espacial que trouxe a família Val para a Terra e foi o pai de Marco Polo, e Yel Liam foi Judas Escariotes e depois um alto magistrado no conselho de Veneza (1998, p. 204 e 227).
espíritos dominados pelo orgulho doentio, o traíram" (Ellam, 1998, P. 28). Além disso, o Atlan é também um grupo que não tem uma religião específica – ainda que sejam "estudiosos da doutrina espírita, assim como de outras filosofias religiosas"; então, diz Ellam, soa bem estranho Jesus decidir trabalhar junto a estes indivíduos pela causa comum terráquea. Porém,
E se afirmássemos que foi exatamente com os membros das famílias Val e Yel, dentre outras, que foram exilados nos tempos luciferianos, que o Mestre escolheu trabalhar, como aqueles que lhe estariam mais próximos quando viesse à Terra? (Ellam, 1998, 299).
São os membros do Grupo Atlan, aqueles que buscam dar "o aviso" sobre a volta de Jesus. Eles enfrentaram o medo do ridículo, de se exporem, de serem criticados como perturbados, obsedados, loucos, etc., se revestindo de coragem para divulgar as mensagens recebidas (Ellam, 1998, p. 34 e 38/39). Para empreender tal trabalho, seus participantes foram treinados antes de nascer. Foram reuniões incansáveis, preparatórias ao advento da equipe do Mestre, que no momento certo os habilitou "longa e vagarosamente" para que recebessem as mensagens, e, além disso, promoveu eventos para o próprio grupo se convencer da veracidade dos textos recebidos. (Ellam, 1998, p. 39-40 e 133-134).