• Nenhum resultado encontrado

Ead e tecnologia da informação

No documento Internet e educação a distância (páginas 76-79)

Os cursos on-line – aplicações de tecnologia da informação ao processo ensino-aprendizagem a distância – podem também ser vistos como um caso par- ticular dos sistemas de informação baseados em computadores (SIBC), estando, portanto, sujeitos às condições gerais que determinam a eficácia dos sistemas de informação em geral, assunto que vem sendo objeto de intensos debates conceituais e pesquisas empíricas nos últimos anos.

Um desses debates, que se desencadeou após a densa observação de Robert Solow, Nobel em Economia (apud TEIXEIRA, 2000), em 1987: “We see computers everywhere, except in the productivity statistics”1, tem como foco a busca de explicações para o fato de que o intenso uso de tecnologia da informação, ao longo das décadas de 70, 80 e 90, não foi capaz de gerar efeitos significativos sobre a produtividade da economia, pondo sob suspeita os efeitos positivos da revolução tecnológica informacional sobre o desempenho das organizações e dos processos automatizáveis em geral.

Conforme analisado em revisão bibliográfica realizada por Francisco Teixeira (2000), as limitações da teoria macroeconômica para interpretar esse assim cha- mado “paradoxo da produtividade”, acabaram por estimular o desenvolvimento de um amplo campo de investigação no plano microeconômico, ou das dinâmicas organizacionais.

Nesse campo de investigação, tem-se evidenciado o papel ativo de fatores institucionais, organizacionais e culturais no processo de difusão e incorporação efetiva da tecnologia da informação, explicando-se pela ação de fatores dessa ordem o retar- do existente entre os investimentos em tecnologia e os níveis de produtividade.

Entre os fatores investigados, têm merecido atenção especial os modelos gerenciais e de organização do trabalho e os processos de aprendizagem organizacional, ao lado de fatores institucionais mais amplos, em especial a regulação das relações do trabalho e do emprego entre governos, empresas e sindicatos.

Ou seja, um amplo conjunto de estudos e pesquisas sustenta a hipótese de que resultados efetivamente significativos da utilização da tecnologia da informa- ção - nos processos em geral - dependem de inovações simultâneas nos contextos e estruturas organizacionais, nos estilos gerenciais, na cultura de usuários, técni- cos e gestores e mesmo nas relações institucionais mais amplas. Mais do que isso, os estudos sustentam que essas inovações não são concebíveis diretamente a partir da disponibilidade da tecnologia da informação, mas surgem como resultado de relativamente longos processos singulares e interativos de aprendiza- gem organizacional.

O pano de fundo dessas conclusões é a caracterização da fase atual como uma fase de mudança de um inteiro paradigma sociotécnico, que afeta os proces- sos sociais em todos os níveis, o que determina um longo percurso para a difusão efetiva - incorporação eficaz - da tecnologia da informação.

Nesse sentido, a eficácia da utilização da tecnologia da informação - e por que isto não se aplicaria também ao projeto, à implementação e ao uso de cursos on-line? - não depende exclusivamente da disponibilidade de recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados, mas da maturação, muitas vezes por processos de tentativa e erro, de inovações organizacionais, gerenciais, culturais e institucionais. Um outro debate, também relacionado à eficácia da utilização da tecnologia da informação em geral, tem como foco as investigações relacionadas a uma série extensa de casos de falhas, não-uso e não-impacto de sistemas de informação baseados em computador - SIBC.

Esse esforço investigativo tem produzido um certo consenso, no sentido de que freqüentemente as falhas, na implementação dos SIBC, decorrem diretamente da desarticulação (“desencaixes”) entre, de um lado, as funcionalidades - estabelecidas e/ou implementadas - dos SIBC e, de outro lado, os contextos organizacionais (em suas dimensões de: ambiente externo, estratégia competitiva,

estrutura e cultura, infra-estrutura de tecnologia) para os quais são projetados. Dito em outras palavras, essa desarticulação aponta para projetos de SIBC freqüentemente desenvolvidos com escassa consideração das dimensões estraté- gicas dos contextos organizacionais que os demandam.

Sendo os SIBC os eventos por excelência de implementação da tecnologia da informação nas organizações, torna-se sobremodo instigante utilizar essa abor- dagem para identificar e considerar os elementos do contexto organizacional rele- vantes para o “encaixe” do SIBC nas efetivas necessidades organizacionais, o que equivale a agir sobre o processo de difusão (incorporação efetiva) da tecnologia da informação, focando por essa via o cenário organizacional emergente do debate sobre o “paradoxo da produtividade” de Solow (apud TEIXEIRA, 2000).

Uma ferramenta conceitual representativa dessa abordagem foi desenvolvi- da por Silver, Markus e Beath (1995), que propõem um modelo analítico centrado nas relações de interatividade entre os SIBC, o contexto organizacional e seu am- biente competitivo. Este modelo, conhecido como o modelo da interação da tecnologia da informação (MI), estabelece uma topologia do cenário organizacional e um conjunto de referências conceituais, para a análise das relações entre as funcionalidades dos SIBC, o ambiente externo e as dimensões organizacionais básicas: estratégia competitiva, estrutura e cultura, processos de negócio e infra- estrutura de tecnologia da informação.

Através do quadro conceitual fornecido por este modelo, é possível avaliar os níveis e as características dos potenciais “desencaixes” entre as funcionalida- des dos SIBC implementados e as dimensões organizacionais básicas, o que per- mite antecipar impactos e não-impactos entre a tecnologia da informação e o desempenho das organizações. Em última instância, modelos desse tipo possibi- litam fundamentar e aplicar estratégias de aceleração do processo de incorpora- ção tecnológica efetiva.

Nesse sentido, o Modelo da Interação é uma ferramenta metodológica de uso geral, orientada para o design em alto nível dos SIBC, que procura responder, no plano da ação pragmática das organizações, à necessidade de assegurar a simultaneidade de inovações e ajustes entre a tecnologia e as instituições, que constitui o cerne das reflexões desencadeadas pelo “paradoxo de Solow”.

Não menos importante, o Modelo da Interação, ao postular o requisito de “encaixe” entre especificação de SIBC, posição da organização no ambiente externo e estratégia competitiva (ou missão) organizacional, traz para o primeiro plano - como

variável fundamental da especificação de cursos on-line - a necessidade de alinha- mento estratégico entre os conteúdos de aprendizagem e, de outro lado, a agregação de valor aos processos fundamentais em jogo (sejam esses pensados no nível das organizações competitivas ou no nível das instituições sociais mais amplas).

No documento Internet e educação a distância (páginas 76-79)